6,5% ou 3% ?

A INDECISOS E A ENRAIVECIDOS

Carlos Novaes, 22 de outubro de 2014

Há dois sentimentos fundamentais nesta eleição presidencial, a raiva e a indecisão. Ainda que por caminhos diferentes, eles tem a mesma origem: a notável semelhança entre as duas propostas finalistas. Por um lado, para a minoria dos mais judiciosos que ainda não se definiram por votar branco ou nulo, a semelhança entre Dilma e Aécio não poderia deixar de gerar indecisão. Por outro lado, essa mesma semelhança gera raiva numerosa por três razões: primeiro, as pessoas estão frustradas porque queriam mudança e sabem que não a terão; segundo, e por isso mesmo, porque elas se vêem demandadas a fundamentar (pelo menos para si mesmas) uma escolha entre opções tão semelhantes e, assim, terceiro, porque a fundamentação remeteria à descoberta de que não há muito onde se agarrar, o que exigiria o trabalhão de repensar tudo e acabar ficando… indeciso. Resultado: é mais fácil agarrar-se a interesses imediatos ou a antipatias e preconceitos epidérmicos, fazendo de tudo dínamo para a raiva, que vem disfarçada num engajamento aparentemente aguerrido — parece com 1989, mas não é. Naquela altura havia a disputa de dois projetos, pois a energia liberada na rebeldia eleitoral de 1974 havia se esgotado e o país estava em busca de uma alternativa para o problemão da época, a inflação, havendo em cena uma força política com ânimo transformador ainda não totalmente domesticado pela desigualdade, o PT.

Como já argumentei amplamente aqui, esse período de busca se encerrou em 1994, com o realinhamento político-eleitoral induzido pelo sucesso do Plano Real, cujas energias, passados outros vinte anos e depois de terem devorado o próprio lulopetismo, estão, por sua vez, esgotadas. Não por acaso, neste segundo turno de 2014 o mapa eleitoral das preferências em Dilma guarda mais semelhanças com o de Collor do que com o de Lula daquele segundo turno de 1989; enquanto Aécio tem suas preferências mais acentuadas ali onde Lula também tinha as suas. Em outras palavras, Dilma tem mais o voto de quem quer conservar, enquanto Aécio tem mais o voto de quem quer mudar, pois estamos de volta ao governismo versus mudancismo, já que dessa vez não se apresentou nenhuma alternativa transformadora. Em outras palavras, 1989 foi a abertura de uma disputa entre conservação e transformação, disputa essa que foi resolvida em 1994 com a derrota da transformação em nome não do continuísmo, mas da mudança (com FHC), mudança que por sua vez se traduziu num pacto conservador incrementalista ao qual os antigos transformadores aderiram com sucesso em 2002 (Lula e sua Carta aos brasileiros), e ao qual burocraticamente ainda se aferram não porque seja uma boa alternativa para o país, mas porque é uma tábua de salvação para eles mesmos, aderidos que estão a um sistema político falido.

Os desafios para o país já não estão simbolizados na inflação, mas no sistema de representação política e no modelo de desenvolvimento. Mas os candidatos não chegam sequer a enxergar os desafios, que dirá oferecer uma alternativa e, assim, é nesse estado de coisas que a história parece ter entrado em suspensão nesse empate entre Dilma e Aécio, cabendo ao eleitor judicioso a tarefa hercúlea de encontrar diferença entre eles que justifique o voto. O debate da Record oferece algum material para esse escrutínio precisamente porque os contendores se deram conta de que a imensa maioria dos enraivecidos já se definiu — e em partes praticamente iguais para um e outro. Tendo deixado de alimentar raivas, os candidatos falaram de seu “projetos” e, então, apareceu um contraste que só pode ser encarado como diferença se deixarmos de lado todo o anacronismo que representa: a inflação.

Tal como os cônjuges de uma separação traumática se agarram na disputa ferrenha por um livro, um DVD ou um quadro, aos quais ninguém mais daria importância, e nem eles mesmos se, livres do recalque que induz à discórdia, se permitissem vislumbrar as possibilidades que a vida sempre oferece; tal como um casal assim infeliz, Dilma e Aécio encontraram na inflação (!), em torno da qual se definiu uma divergência primordial sanada com o recalque de 2002, o motivo para simular uma grande discórdia: enquanto ela exibe a confiança de que a inflação está sob controle, dentro da meta (o que não é mentira, mas tampouco é seguro, ainda que não central), ele insiste na fantasia de que o controle foi perdido e de que a “inflação está de volta, com as pessoas enchendo carrinhos em supermercado” (o que é puro embuste). Dilma, então, propõe que se mantenha o regime de metas atual, com desemprego de 5% e juros de 12%, o que é factível (desde que sobreviessem mudanças que ela provavelmente não fará), e Aécio propõe a meta de uma inflação de 3%, o que traz embutido um desemprego de 12% e juros por volta de 25%. Assim, mesmo ante as semelhanças entre os dois que já demonstrei aqui, um eleitor indeciso, ou a quem a raiva não toldou de todo a razão, pode fazer sua escolha colocando-se o problema de ou preferir arriscar um governo voltado a alcançar 3% de inflação ao custo de mais que dobrar desemprego e juros, ou aceitar os riscos de uma inflação de 6,5%, com desemprego e juros nos níveis de hoje.

Naturalmente, para tomar a decisão o eleitor deverá tentar antecipar os efeitos de espraiamento de uma situação e outra e, então, avaliar o seu bem-estar e o dos seus. Note que esse “seus” deverá ser definido pelo próprio eleitor: se mais egoísta, poderá considerar “seus” apenas cônjuge e filhos, por exemplo; se um pouco menos egoísta, poderá incluir entre os “seus” outros parentes ou até colegas de trabalho; e se muito altruísta, poderá encarar como “seus” todos aqueles que tem motivo para temer pelo próprio bem-estar material básico no dia de amanhã, grupo que pode incluir o próprio eleitor. Talvez uma boa trilha a tomar seja a que leva à verdade incontornável de que não existe almoço de graça e já há muita gente sem meios de comprar o almoço.

 

NOTAS

Revendo os debates tão diferentes e movimentados do UOL-SBT e da Record fica claro que: primeiro, os jornalistas não só não fazem falta, como é melhor sem eles; segundo, Aécio errou no UOL-SBT não tanto porque agrediu uma mulher, mas mais porque se conduziu como quem já ganhou e, terceiro, que pesquisas internas devem ter mostrado o problema, pois o tucano não perdeu oportunidade de na Record fazer petição de humildade ante a necessidade de ainda conquistar a preferência do eleitor. Essas variáveis comportamentais ganham peso especialmente quando não há diferenças claras de conteúdo.

Atenção para o que se passa no Rio – à frustração de mudança em cima pode corresponder, nesse eleitorado irrequieto, uma resolução por alguma mudança embaixo. Crivella pode deslocar Pezão.

Não há conteúdo plebiscitário na disputa entre Aécio e Dilma porque falta à disputa a marca dos plebiscitos: uma disjuntiva clara. O que o eleitor decide é qual o caminho menos ruim para tocar o que resta do Plano Real, não a implementação de um NOVO projeto.

A Folha de S.Paulo traz uma entrevista com ACM Neto, na qual ele adere à reforma política reacionária apresentada por Marina, que prevê coincidência de mandatos com eleições a cada cinco longos anos. Embora ainda moça, a ex-senadora já vai reunindo netinhos em torno da sua “nova política”: primeiro foi o neto de Irineu Bornhausen, depois o neto de Tancredo Neves e agora o neto de ACM.

Reproduzo entre aspas os últimos três parágrafos da coluna de hoje de Marcelo Coelho, na Folha de S.Paulo: “Voto nos dois. Acho que uma vitória de Aécio pode ter efeitos “amargos”, mas necessários, na macroeconomia, e tende a cercear a autocomplacência de um PT acostumado demais às práticas do poder. Acho que uma vitória de Dilma garante mais a expansão de iniciativas sociais, que não se resumem ao Bolsa Família.

Não voto em nenhum, se for para esperar controle real da corrupção, melhoria sensível na segurança ou na saúde pública. Todos sabem que, por mais que se tenha feito, falta muita coisa a fazer, e nenhum governo deixa de ter realizações ou omissões quanto a isso em seu currículo.

No resto, espero que todos os governos, próximos ou passados, municipais, estaduais ou federais, terminem as obras na Jacu-Pêssego. Caso já tenham terminado, sugiro que dupliquem as faixas então. É que vou ficando um bocado fisiológico também.”

4 ideias sobre “6,5% ou 3% ?

  1. João

    Estou chorando não Iracema Borges, só não sou ingênuo. Participar ou compactuar? vc trabalha como efetivo nessa área? é professora? Médica? então sabes que não é uma questão de choro e sim de cansaço frente ao caos que existe hoje neste país.

    Fazer nossa parte? que parte vc fala? o voto? as ruas? se fosse dado o povo nas mãos do povo o que ele faria com a república? seria muito diferente do que é feito hoje? sem uma educação de qualidade (pra formar e não pra decorar) creio que teremos sim mais jovens reacionários, professores desanimados e profissionais cada vez mais frustados. Sem uma consciência política, seremos todos, gado!!!.

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  2. Soraia Kuya

    Oi João, vejo sua boa intenção,
    mas jogando ainda + lenha no nosso problema original/infernal q descamba em todos os outros: a educação – não sabemos nem matemática, nem português ‘e nem’ ciências; assim vc acha q daria ainda pra aprender +? (“Quem sabe educando as crianças desdo 5º ano, sobre legislação, ética, constituição, cultura, arte, podemos formar pessoas de bem capazes de mudar este país por dentro.”)..
    coitadinhas das crianças.. com exceção de artes, e ainda assim correndo o risco de só se aprender mais consumismo, acho q disciplinas extras é oportunismo pra se desaprender o básico – sem o qual, se vai além?.. faço estágio em escolas públicas fundamental I, II e EM, e olhando da minha vila mas ousando ser nacional, te digo q as matérias publicadas pela FSP/BBC (acho q de 2013), q dizem sobre nosso analfabetismo funcional são assustadoramente verdadeiras (4 entre 10 universitários!!). O especialista entrevistado pela BBC disse q a maioria das nossas faculdades não passam de 2º grau, e q isso só aumenta a desigualdade social (a classe C tá financiando junto c/ o governo um estudo q mentem ser superior), q depois despeja nas escolas professores q mal sabem interpretar um texto simples; ou gente diplomada q não consegue trabalhar na área por má formação. se nas outras áreas é mais difícil se colocar c/ uma (de)formação assim, na edu não! todo mundo (sem a mínima vocação principalmente) acha um lugar ao sol!
    a edu como a causa principal da desigualdade: eis a questão?! desigualdade esta q por sua vez o Novaes fala aqui como sendo um câncer (sinto assim), princípio e fim de nossas mazelas.
    acho – muito pessoalmente mesmo, pois não conheço mais ninguém q pense assim – q professores, os de classe média (não aqueles do interior da Bahia q dão aula sem água, banheiro, etc., ganhando salário mínimo ou menos, pois estes são quase santos), então, professores d classe média são em geral a pior raça de ‘funcionário público’ no velho sentido, de gente q não trabalha! pois não dão aula! não usam livros didáticos e não os distribuem pros alunos! mas trazem porcarias retardadas da internet como se fosse material didático. não sabem nem pra eles e são arrogantes com alunos/crianças e adolescentes! se fazem de vítimas o tempo todo e emendam feriados q é uma vergonha! é escandaloso como professores põem a culpa nos alunos, na indisciplina, quando eles é q são os adultos da relação! no PR estão ensinando em cursos da secretaria d edu q professor agora sofre bullying! quando comparo o salário d meus companheiros ‘professores’ ao d uma empregada doméstica, a q cuida dos filhos deles, para q deem aula em 2 ou 3 escolas e pagarem colégio particular pro seus filhos, pois não querem pra estes uma edu daquela onde trabalham; e q professores usam o excesso de trabalho, q é opcional, pois poderiam ganhar como a doméstica, ou mais, e trabalhando só 20 hrs semanais! (enquanto a doméstica trabalha mais de 40hrs!); e ainda, q esse mesmo excesso d trabalho tbm é desculpa predileta de professores q não dão aula d verdade e q vivem faltando ao trabalho.. já sofri várias consequências por essas ideias, as mais inocentes ou falaciosas são dizerem de volta: ‘mas professor estuda mais, tem q se preparar mais!’ são formadores!. uma ova! onde? no brasil, contem outra! mas minhas retalhações não passam perto do q sofreu aquela garotinha com ameaças e um BO, registrado por sua própria professora! apenas porque a menina colocava na internet a incúria d sua escola – a avó dela levou uma pedrada na rua, é sério! deu nos jornais há 2 ou 3 anos.
    nem queria q ganhassem menos do q ganham, nem professores assim! Deus me livre! mas aquela cantilena de q ganham mal.. portanto.. q ganhem muito melhor! mas q se exija mesmo deles, desde a seleção! pois se gritar pega ladão! quantos ficam? ah, e pra ser professor de escola pública, ganhando o q se deve, teria q dar o exemplo: colocar o próprio filho nela.. rsrs
    só pra falar da urgência da reforma/revolução profunda d q precisamos na edu, mas acho q não com mais disciplinas.
    abraço, até!

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  3. Iracema Borges

    João, Vai chorar na cama que é lugar quente! Participe dos conselhos populares de saúde.pela defesa do SUS, participe dos conselhos de escola em defesa de um ensino público de qualidade. Vamos fazer nossa parte!

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  4. Joao

    Fico pensando as vezes Sr Novaes que tudo está perdido.

    Não consigo imaginar minha geração nem as próximas gerações rompendo com o que está aí, o modelo ultrapassado de gestão pública, as amarras do capital, a alienação da mídia corporativa, os liberais mais poderosos que o presidente da republica, até porque, são eles quem escolhe quem ingenuamente vamos “escolher”.

    O capitalismo chegou num ponto extremo, esquizofrênico, irracional em sua racionalidade de produzir seres consumistas quase inanimados. O comprar, o ter, o possuir parecem caminhos absurdamente tentadores para um país tão pobre quanto o nosso. Culturalmente tb.

    Se realmente temos que depender de pessoas, de torcer para fulano não agir com egoísmo, de acreditar que fará uma boa gestão, é acreditar na coisa mais falha que existe.

    Talvez cortando aos poucos toda essa geração de sedentos pelo poder, digo dinheiro, como a ideia de acabar com releições. Talvez tb diminuir os salários e os privilégios (não admito que eles como nossos representantes ganham mais que os representados).

    Claro, tudo passa por uma intensa fiscalização da sociedade. Porém essa é tão corrupta quanto seus indicados.

    Quem sabe educando as crianças desdo 5º ano, sobre legislação, ética, constituição, cultura, arte, podemos formar pessoas de bem capazes de mudar este país por dentro.

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