DESIGUALDADE, MUDANCISMO E VOTO — 1 de 4

P-MDB e GLOBO, 50 anos de algum pão e muito circo

Carlos Novaes, 21 de novembro de 2014

 

A ditadura paisano-militar instalada em 1964 foi o desfecho desfavorável ao povo de uma polarização em que se disputava o modo de arranjar o capital local e o tamanho da desigualdade dele decorrente. Venceram os inimigos do povo e a ordem desigual cuja magnitude o golpe buscou preservar se mantém até hoje, ainda que o voto direto pleno e a liberdade de imprensa tenham sido recuperados, o que já quer dizer alguma coisa. A TV Globo e o p-MDB que hoje conhecemos foram criados logo no início da ditadura e estão para completar 50 anos. As duas instituições tem uma marca de nascença comum:  foram engendradas com um papel pré determinado, o de “legitimar” a ordem estabelecida.

Desde o início orientada pelo instinto animal capitalista de a tudo abarcar, a Globo se encarregou de ir armando a lona mais abrangente que pôde, atuando por cima no fito de conquistar a preferência do telespectador, no que se tornou uma especialista. Em contrapartida, tendo já de saída interditada a disputa dos principais cargos de mando do país, cujo provimento deixara de ser eletivo, o p-MDB foi orientado pelo instinto de sobrevivência a se acomodar à disputa por baixo pela preferência do eleitor, no que acabou por se tornar também um especialista. Aparentemente eram movimentos opostos, mas que guardavam grande convergência: a emissora partia dos grandes centros, onde havia grande concentração demográfica, para dali estender a potência de antena ao interior do país; o partido vinha da disputa local miúda por milhares de prefeituras e câmaras de vereadores, para dali dar potência à representação na câmara federal e no senado. O encontro dos dois esforços se dará na transição para a democracia, na qual ambos tiveram mais uma vez o mesmo papel: preservar o que desse da desigualdade garantida pela ordem em ruínas à qual deviam o próprio surgimento.

À medida que a lona se estendia em busca do telespectador, maior era o contingente de eleitores sob ela; à medida que o descontentamento da rua crescia, maior era o contingente de telespectadores inclinados a votar na alternativa possível, especialmente nos centros socioeconomicamente mais dinâmicos, menos amarrados ao governismo que caracterizava (como ainda caracteriza) as regiões em que a população sofre uma dependência maior e mais direta do poder. Assim, de um lado, o p-MDB fazia a disputa local miúda, que então abarcava o grosso do eleitorado do país, âmbito em que não chegou a haver alteração relevante e bastou dar continuidade às práticas do antigo PSD (ou da UDN), mobilizando dezenas de milhares de agentes políticos para a disputa do executivo e do legislativo em milhares de municípios. De outro lado, nos grandes centros, o mesmo p-MDB se conformou à disputa para o legislativo apartada da eleição para presidente da República, governador e prefeito, cuja escolha não mais se dava pelo voto popular.

Ao tornar supérfluo para a oposição desenvolver e defender para valer projetos de governança de alcance mais geral, a ditadura não só obrigou o partido de oposição a se especializar nos métodos da disputa miúda, como o privou (e ao país) dos influxos trazidos pelas disputas mais gerais à vida partidária — o p-MDB nasceu como um partido coadjuvante, cuja prática, enquanto inibia, descartava ou sequer atraia os mais combativos, foi diuturnamente selecionando (e premiando) profissionais da política especializados na busca do êxito via traficância miúda e sem projeto próprio de poder nacional: protagonismo municipal, acomodação estadual e caronismo federal (soa familiar?). Essa supremacia adestradora do jogo miúdo era de tal ordem que em 1974, quando o eleitorado conduziu um realinhamento eleitoral que deu ao p-MDB 16 das 22 cadeiras em disputa para o Senado, o senador eleito por S. Paulo foi um político então desconhecido, Orestes Quércia, que só alcançara a condição de candidato porque os maiorais do p-MDB achavam impossível derrotar Carvalho Pinto, o candidato da ARENA, e, claro, desprezavam a condição de candidato majoritário enquanto tal (diga-se de passagem que essa vitória de Quércia em 74 fortaleceu em torno dele a política miúda e foi com base nela que ele se impôs como vice da candidatura de Montoro a governador, em 1982, deslocando Covas).

Enquanto isso, a Globo foi desenvolvendo uma programação em três faixas básicas: a chamada linha de shows, as novelas e o telejornalismo. Como a extensão da potência de antena era onerosa e requeria tempo distribuir equipamentos para vencer as grandes distâncias que o tamanho do país impõe, a emissora desde logo teve como desafio conquistar o telespectador dos grandes centros, âmbito restrito no qual, pelas mesmas limitações financeiras e logísticas, se dava a medição da audiência à TV. Ou seja, enquanto o p-MDB tinha como tarefa primeira conquistar o eleitor do interior, menos afeito à mudança e de cujo apoio dependiam o grosso das representações legislativas proporcionais (mormente para a Câmara federal) e dos executivos municipais, a primeira tarefa da Globo foi satisfazer ao gosto dos moradores das grandes concentrações urbanas, mais propensos à mudança e de cuja audiência viriam os recursos para financiar a expansão da rede. Considerando que os esforços das duas instituições eram vigiados de perto pela ditadura paisano-militar, cujos dispositivos de repressão e censura não chega a ser necessário rememorar, tudo se passava dentro do mesmo marco geral comum: constatação limitada da realidade, fantasia truncada e, portanto, interdição à mudança.

Como não se tratava de uma ordem totalitária, mas autoritária, havia política e, portanto, graus de liberdade. Na exploração deles emergiam atores menos obedientes: o p-MDB teve seus “autênticos” e a Globo teve seus “comunistas”, vozes que, a um só tempo, embora denunciassem a ordem malsã, não podiam deixar de reforçá-la, pois o ato mesmo de denunciar, respeitando os limites do marco geral ditatorial, atualizava a obediência devida por todos ao regime autoritário vigente. Esses graus de liberdade eram exercidos (e tolerados) de modo diferente conforme a esfera de atuação: assim como nas disputas para as prefeituras, unidades orçamentárias ordenadoras de despesas, nunca houve muito espaço para os autênticos do p-MDB, também no telejornalismo da Globo não havia lugar para dissonâncias, pois a sua dramaturgia (a do jornalismo, pois ele tinha, como tem, a sua própria carpintaria dramática) sempre foi orientada para fantasiar a realidade da desigualdade em favor da conservação: as duas vozes que passaram a obedientemente se alternar na bancada coreografada do Jornal Nacional funcionavam como mimetização simbólica de uma alternância vicária entre a dupla p-MDB-ARENA na não menos coreografada liça política, que não raro assumia o jeitão de um telecatch. Sem o saber, Cid Moreira e Sérgio Chapelin iam treinando a opinião pública na aceitação do dualismo fajuto, e por isso estéril, que ainda hoje se faz notar na porfia vã entre PT e PSDB — mas não nos adiantemos tanto.

Eleitoral e diretamente dependentes de um jogo saído da política miúda dos municípios, e institucionalmente submetidas ao governador respectivo, as representações nas Assembleias estaduais eram, tal como hoje, pouco afeitas à contestação e pródigas em negociações de interesses apartados do que quer que a sociedade aspirasse — um autêntico circo, onde todos tinham voz e vez desde que respeitados a geleia geral e o “decoro”, recebendo-se, em contrapartida, os favores ou deferências que a caneta do governador determinasse sob a vigilância uniformizada que tinha atrás de si. Tudo mais ou menos no espírito da “linha de shows” da Globo, onde os campeões de audiência eram o Programa do Chacrinha e o Programa Silvio Santos, nos quais se acolhia igualmente aberrações e talentos, reunião cujo potencial explosivo era desengatilhado pela figura judicante do apresentador, que naturalizava simbolicamente a ordem unipessoal desigualitária anti-povo vigente fora do palco distribuindo arbitrariamente, no mesmo palco, microfone, bacalhau e dinheiro, contando com a retaguarda prestimosa das uniformizadas chacretes, silvetes e congêneres, cuja passividade feminina disciplinada era o rebate tergiversador da hierárquica ordem militar masculina. Como deveria ser óbvio, não estou postulando a existência de nenhum gênio do mal que a tudo tenha previa e intencionalmente concebido: representações são exercício de mimetização que invocam memórias já partilhadas e, por isso, em geral tendem inercialmente à convergência formal, independentemente das intenções de quem quer que seja — o que dá trabalho é romper a inércia e, por isso, televisão e políticos mudam tão devagar e, na mesma batida, telespectador e eleitor não são menos lentos para mudar de canal e de voto, mantidas as condições normais de temperatura e pressão.

Tendo como certo, portanto, não ser por acaso que a palavra representação seja empregada tanto para descrever a ação política como a ação dramática, também não haverá de ser casual que os teatros das grandes encenações que treinaram eleitores e telespectadores no jogo proibido x permitido tenham sido (e, de certa maneira, ainda venham sendo) o Congresso Nacional e as telenovelas noturnas da Globo. Assim como a anti-candidatura de Ulisses Guimarães à presidência contra o general Ernesto Geisel — uma pedagógica encenação de “enfrentamento”, pois o recuo já estava embutido — acabou por preparar os ânimos para a lenta, gradual e segura transição até as eleições diretas (e para além delas…), também a teledramaturgia novelesca da Globo foi a encenação de exercícios prolongados de transição em que ganhadores e perdedores nunca chegavam realmente a se caracterizar — nossa Lei de Anistia, que encobriu torturadores e não se ocupou dos desaparecidos, foi fruto da mesma inclinação pelos panos quentes.

Ao assistir, torcendo por ela, Gerusa, a neta do coronel Ramiro Bastos, realizar sua fantasia romanesca proibida com o Dr. Mundinho (o “Dr.” é importante), um jovem que se opunha ao avô poderoso e que, sem poder chegar à condição de coronel, contentou-se em disputar o posto eletivo de “Intendente do porto” contra a vontade do velho autocrata, ao acompanhar o desenrolar dessa trama em que tudo mudou para que tudo ficasse como estava, aspecto que a desdita da rebelada Malvina (magistralmente vivida pela então estreante Elizabeth Savalla) não deixou de realçar, o telespectador-eleitor não estava sendo entretido para esquecer a realidade, antes estava sendo levado a considerá-la sob a ótica de um pacto em que a mistura do velho com o novo não resultava em um monstrengo, mas na felicidade de todos (ou quase). Além de Walter Durst, também Dias Gomes, Bráulio Pedroso e Jorge Andrade fizeram uso, nas suas novelas daquele período, desse arremedo da “linguagem esópica” que caracterizara a literatura russa sob censura tzarista no século XIX (um exemplo é o conto Relíquia viva, de Ivan Turguêniev, cuja análise fiz aqui).

A chegada à presidência da República do p-emedebista ultra-conservador Tancredo Neves pelo voto indireto, tendo como vice José Sarney, da ARENA, foi o coroamento desse jogo de esconde-esconde midiático-político, que reunia políticos experimentados na prática de arrancar na miúda o voto do eleitor para fazer às suas costas a traficância dos interesses graúdos. O ápice da mistificação se deu na tela da Globo, que depois de ter tentado em vão esconder a campanha das diretas, cobriu esse resultado do malogro da luta popular de modo a levar o eleitorado à fantasia de que era ele o responsável por aquela “conquista” no Colégio eleitoral da ditadura — nada poderia ser mais emblemático do impasse em que nos encontrávamos e, por isso mesmo, o circo tinha de ser total: apresentou como uma conquista da sociedade um arranjo palaciano destinado a burlar o que ela mais queria, por mais complicado que tenha sido para os políticos profissionais lograr tal resultado. Aliás, foi complicadíssimo precisamente porque destinado a contornar o incontornável, a desigualdade — frustração de que o PT foi o principal beneficiário.

Veio a Constituinte e nela o pluripartidarismo nominal foi suplantado pelo “bipartidarismo” real, naquela altura ainda com a exceção do PT, que corria por fora, energizado por ligação direta própria com a sociedade. O Centrão, assim como a ARENA havia feito, organizou os mais conservadores e o p-MDB continuou a fazer o jogo pela outra ponta, mas agora em um cenário em que as posições de mando estavam quase invertidas — o símbolo desse rearranjo estava em que Ulisses Guimarães passara de anti-candidato à presidência da República à presidência dos trabalhos constituintes: quem tivesse acompanhado o período anterior não poderia ver nisso propriamente uma transformação. Com efeito, a despeito da formidável mobilização da sociedade, as aspirações das ruas foram vencidas pelos interesses de palácio, que nos legaram uma Constituição postergada: repleta de novidades alvissareiras, mas quase tudo que dizia, e diz, respeito a alterar a ordem que mantém a desigualdade foi procrastinado para regulamentação ulterior. Esse resultado reproduziu a lógica dramatúrgica das novelas dos anos 1970, nas quais, depois de muito lutarem comendo o pão que o diabo amassou, os mocinhos colhiam como vitória uma solução de compromisso com o estado de coisas que combatiam. Ou seja, a cadência da transição lenta, gradual e segura pautou e continua a pautar a vida política nacional, e é contra essa lógica de palácio que as ruas voltam a se agitar, empurradas pelos sofrimentos intoleráveis da desigualdade (voltaremos a isso).

Ao dar apoio para o quinto ano de mandato do arenoso Sarney, o p-MDB deixou claro que pau que nasce torto morre torto: nascidos e selecionados num longo processo em que não se disputava um projeto nacional, peneirados segundo fossem capazes de êxito em renhidas disputas miúdas (ainda que por presas graúdas), os profissionais do p-MDB não viram problema, sequer fizeram caso, de que a prorrogação do mandato do presidente indireto implicaria em que a eleição presidencial direta prevista seria realizada inteiramente desamarrada das eleições para os legislativos federais: eles não aspiravam a presidência, mas o mando da lógica de palácio, cujo pólo dinâmico, sabiam-no desde sempre, era o Congresso, onde JÁ estavam assentados (e de onde a reeleição infinita permite que não saiam). Foi esse cálculo antigo que selou a sorte de Ulisses Guimarães nas eleições presidenciais de 1989: disputando uma eleição solteira, apartado das ruas e sem projeto, ele viu seus partidários aderirem ao candidato da Globo (claro!), cuja capacidade de manipulação foi mais uma vez posta a serviço da manutenção da desigualdade e contra a lógica da rua, então simbolizada por Lula (julgo que o leitor tiraria mais proveito dessa narrativa se lesse também dois outros textos meus: Quando a memória mais entrava do que informa o fluxo e A Política entre a memória e o fluxo).

Enfim, quando, em nossos dias, saturados de tanta porfia eleitoral escamoteadora, novela e teledramaturgia jornalística, temos, de um lado, no folhetim Império, a Globo a arrastar o tal beijo gay a ponto de dar-lhe a forma de uma fotografia, num arranjo plástico em que os protagonistas mais parecem pai e filho, e nenhum dos dois é um gay tão convicto assim, e enxergamos a semelhança com a camuflada dupla gay da novela O Rebú, velha de 40 anos (1974), onde Buza Ferraz aparecia comportadamente “adotado” por Zimbinsky — e, de outro lado, temos Michel Temer, o comandante do p-MDB e vice-presidente da República, a observar, com a fleugma costumeira, que no caso Petrobrás há que eventualmente corrigir “exageros”… diante de tergiversações desse porte e a essa altura dos acontecimentos e dos costumes, onde o vanguardismo sem risco da Globo não passa de um arrombar portas abertas e o mudancismo sem risco do p-MDB é a face visível de uma inserção eleitoral de 50 anos, não sei exatamente onde se pode encontrar amparo para a tese de Marcos Nobre de que a prática p-medebista teve origem congressual na década de 1980 e, a partir de então, contaminou o resto do sistema político: o autor parece acreditar que o câncer de medula do nosso sistema político se deva a erro de postura e seja transmitido por contágio atmosférico!

Na verdade, não há propriamente singularidade, mas a razão é outra: centrismo, demismo, pemedebismo, tucanismo, lulismo e lulopetismo são projeções prismáticas na ordem política local de uma mesma interdição imposta aqui pela ordem do capital: o enfrentamento da desigualdade.

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