BOA NOTÍCIA!

Carlos Novaes, 17 de julho de 2015

 

A melhor notícia política do ano não foi o afloramento de uma propina de 5 milhões para o incontroverso Eduardo Cunha, definitiva e formalmente envolvido no escândalo da Petrobrás. O melhor foi a reação dele, tão amadora que chegou a provocar uma nota do Michel Temer, isolando-o do p-MDB. O deputado declarou rompimento com o governo, atacou a todas as instituições que o investigam e acusou o juiz Sergio Moro de querer fazer o “papel de todos”. Só uma de duas possibilidades pode explicar essa reação: ou Cunha se sabe totalmente culpado, ou sonha que a gente possa acreditar que ele é inocente…

A reação é compatível com a trajetória do personagem e desmente a ideia de que ele seria alguém muito diferente de Severinos e Inocêncios. Como já pude dizer aqui, o que houve foi que Cunha, um ser das sombras, encontrou – nessa desordem política em que o fim do PT e a desqualificação do PSDB desmoralizaram qualquer possibilidade de que possam oferecer à sociedade um rol crível de assuntos minimamente públicos e republicanos de que se ocupar – a oportunidade ímpar de trazer à luz os interesses que representa. Acostumado a uma vida de bastidores em que praticamente só convivia com seus assemelhados, e obtendo, de uma hora para outra, sucesso aparente ao mover-se no proscênio com a desenvoltura dos inescrupulosos boçais o bastante para supor que todo mundo é igual, o presidente da Câmara pura e simplesmente acaba de cair no palco. Como os aliados mais chegados que o vinham sustentando são iguaizinhos a ele, não será surpresa se começarem a deixa-lo.

Ontem mesmo ele e os seus fizeram uma exibição da sem-cerimônia que os caracteriza, típica de quem repentinamente “descobre” que pode dar o melhor de si em público: numa comemoração do fim do semestre legislativo, cuja relevância temática correspondeu inteiramente ao nível desse pessoal, Cunha e os seus confraternizavam  bebendo num boteco aos berros de “viva o impeachment!”, mostrando a absoluta falta de critério que orienta seu ajuizamento acerca das dificuldades que a vida institucional do país atravessa. Hoje, ainda de cabeça quente, o presidente da Câmara simplesmente passou à ameaça de aprovar pedidos de CPIs, em retaliação aberta  ao poder executivo. Nada contra CPIs que investiguem esse e qualquer outro governo, afinal, fiscalizar é uma das tarefas do poder Legislativo e este governo tem muuuiiitas explicações a nos dar. Agora, que o presidente de uma das casas legislativas federais use o poder do cargo com motivação pessoal tão franca é um escândalo! O que tornou possível um rebaixamento a esse ponto da nossa representação parlamentar profissional?

A resposta é simples: precisamente o fato de ela ser profissional.

A única coisa realmente positiva é que tudo isso poderá vir a abrir os olhos do eleitorado para a necessidade de gritar Chega dos mesmos! Chega dos profissionais da política!

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