É UMA LÁSTIMA, MAS… DOS MALES, O MENOR

Carlos Novaes, 22 de agosto de 2015

 

Sergio Moro e Eduardo Cunha são agentes opostos de oportunidades surgidas de uma mesma circunstância: o desmanche do pacto do Real (uma crise econômica, efetiva) e o desarranjo do modelo político que lhe correspondeu (uma “crise” política, fajuta). Para quem tem em mente o bem comum, Moro representa o que de virtuoso o desmonte de uma situação nefasta propicia, enquanto Cunha expressa a tenacidade com que o vício busca se relançar para além da ruína do que ele próprio ajudou a apodrecer. Não por acaso, o primeiro vem da primeira instância do Judiciário e o segundo preside a última instância do Legislativo do país, afinal, não é de hoje que as novas gerações do Judiciário (aí incluído o Ministério Público) vem representando a vontade de mudança da qual nosso carcomido Legislativo se fez dique. Houve uma inversão de funções, típica de situações deformadas: o Judiciário, instância de memória (a aplicação da lei e da jurisprudência), empurrado pelas contradições da deformação social brasileira, se fez processador do fluxo (o remanchar incessante da sociedade descontente) de que o Legislativo deveria ser o canal, função que foi desabilitada pelos profissionais da política, que há muito se comprazem em ruminar os próprios interesses numa bolha de memória reificada, sem liame vívido com a sociedade que supostamente representam. A deformação social brasileira de que decorre todo esse estado de coisas em que Moros e Cunhas se defrontam é, evidentemente, a desigualdade, que o pacto do Real pretendeu contornar com o escapismo da ampliação da capacidade de consumo dos mais pobres que, agora, minado por um Executivo inepto e engolfado pelo desconcerto internacional de que é parte, se desfaz.

Como sabemos, quando o velho não morre e o novo não tem forças para nascer surgem situações deformadas. Se entendermos que Cunha é a ponta mais saliente do velho que não morre; e que Moro é a melhor expressão do novo que não tem forças para nascer, só podemos encarar o acordão em curso como uma deformação política mediadora (mais uma), que se sobrepõe à nossa deformação original, acima mencionada, pois trata-se precisamente de garantir que essa deformação primordial permaneça. Mas, atenção: assim como nenhuma conspiração do bem fez surgir um Moro, pois ele resulta das próprias tendências virtuosas que toda sociedade, por mais corrompida que esteja, sempre carrega; assim como Cunha não decorre de nenhuma conspiração perversa, pois ele é a mera, e danosa, expressão do faro do mal para oportunidades de espraiamento; também o acordão em curso, voltado a arrefecer os ânimos e preservar o mandato de Dilma no fito de ganhar tempo para soldar o que foi perdido com o fim do Real, também esse acordão, eu dizia, não decorre de uma conspiração.

O acordo em curso é uma estratégia de sobrevivência sem estrategista, ainda que re-concatenando interesses poderosos. Essa nova concatenação veio sendo obtida no curso da crise econômica e da “crise” política, ao ritmo em que, passado o susto inicial, os agentes foram se reconhecendo. As expressões máximas desse susto de rearrumação foram, de um lado, a prisão, por Moro, de figurões como Marcelo Odebrecht (até então tidos como não encarceráveis) e, de outro, a determinação de Cunha em pôr na cadeia os menores de 18 anos (até então tidos como inimputáveis): na fenda aberta pela crise todo mundo divisou o abismo, pois desafortunadamente não há força transformadora organizada para nos levar adiante (como gostariam os Moros), nem, felizmente, força mórbida em condições de nos impor o retrocesso (como tramam os Cunhas).

Como quem nos conduziu a esse impasse foram PSDB e PT — as duas metades siamesas da nossa redemocratização truncada, que há anos brincam de Dr. Frankenstein, mantendo vivas aberrações do tempo da ditadura que a sociedade brasileira lhes dera a oportunidade de neutralizar (p-MDB, PFL, DEM, PP etc) só para, apoiados em seus respectivos monstrengos, brigarem (improdutivamente, para o país; e lucrativamente, para si próprios) pela “liderança” do mesmo projeto inatual que representam –, como quem falhou foram eles, eu dizia, não haveria como nenhum dos dois, engolidos pelas anomalias a quem deram sobrevida, pretender o protagonismo na hora de encontrar uma saída para a crise econômica e para a “crise” política dela decorrente. O PT, que há muito traiu suas bandeiras, foi varrido como entulho (nas figuras de Dirceu e, até aqui, parcialmente, Lula); e o PSDB, sempre disposto a sacrificar suas bandeiras por vantagens de momento, foi tragado pelo próprio oportunismo (nas figuras de Aécio e Serra e, por falta de fibra, FHC). Cabe às forças restantes buscar uma saída. Como justamente as esperanças outrora suscitadas pelos agora desmoralizados PT e PSDB iludiram a sociedade brasileira de que o país tinha rumo, ela, descuidada, se vê sem vetor transformador organizado para dar à “crise” política viés emancipatório e, assim, fica à espera de que “alguém” dê jeito na crise econômica, enquanto seus setores mais ativos insistem, trouxas e cegos que são, em se dividirem apaixonadamente no repúdio e no apoio aos execráveis PT e PSDB… Quanto desperdício de energia social!

Exemplos dessa falta de alternativa são o PSOL, cujo anacronismo se reconfigura em intermináveis lutas internas; e Marina Silva, que conseguiu a proeza de ajustar a bandeira da sustentabilidade à vanguarda do atraso e desmoralizar-se com uma nova política reacionária. Assim, um roteiro manjado vem se impondo sem que sejam necessárias reuniões conspiratórias ou acertos sombrios: confiando em sua capacidade de arregimentação simbólica e de concatenação miúda (afinal, a Globo e o p-MDB estão a fazer 50 anos!), os detentores da riqueza, apoiados na mídia e no que restou do sistema político que lhes é dócil, engendram uma saída organizada, na qual a folga que possa advir de um ajuste econômico conservador (sempre ele) proporcione os meios para que forças políticas não menos conservadoras se reorganizem em campo a tempo de disputarem as eleições fazendo mais uma vez parecer que o engalfinhar-se em torno da partição do botim traduz divergências reais acerca do rumo a dar ao país. Salvo melhor juízo, descrente de surpresas auspiciosas, e não vendo força de arrasto nas ruas do atraso, o jogo me parece jogado: Dilma fica, que os mortos enterrem seus mortos e cada um se reapresente como puder em 2018, pleito para o qual o de 2016 não servirá de prévia, pois o que vai mandar mesmo é o curso da economia em 2017. Uma alternativa imediata a esse acordo seria tão potencialmente danosa que sou levado a reconhecer que ele é, dos males, o menor, como já indiquei aqui, aquiaqui e aqui. A alternativa não imediata a este estado de coisas eu explorei aqui, aqui e aqui, entre outros posts deste blog.

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