O FIM DA MENTIRA MAIS RECENTE COMO ESTERCO PARA A MENTIRA MAIS VELHA

Carlos Novaes, 10 de março de 2016

Ninguém que pretenda se gabar de saber o que está em jogo na política brasileira pode deixar de considerar que só o que há de velho em nossa política, só aquilo mesmo que persiste quando deveria ser deixado para trás , é que impede que as criteriosas evidências que pesam contra Lula se tornem parâmetro para investigações análogas contra Fernando Henrique, Alckmin, Serra, Aécio e mais os Agripinos, Temers e Renans, que sempre satelisam o mandante de turno em nossa ordem de mando. E esse Brasil velho, que fez a transição lenta e segura manipulando carências, sonhos e esperanças daqueles cuja luta havia tornado inviável uma ditadura, é o Brasil da rotina institucional obediente à danosa inércia do poder e do dinheiro, que atendem pelos apelidos de Sistema Político e Mercado.

Lula e o PT avacalharam a si mesmos porque aderiram às práticas de ganhar poder para fazer dinheiro com base na manipulação cínica de carências, sonhos e esperanças — quem acreditou neles fez papel de bobo, pois faz tempo que os sinais dessa mentira estavam claros. Já aqueles que convocam a ida às ruas em atos que fazem de Lula e do PT bodes expiatórios para a ira suscitada pelo que vai vindo à tona manipulam cinicamente carências, sonhos e esperanças com o objetivo de salvar as mesmas práticas de ganhar poder para fazer dinheiro — quem os acompanha faz papel de bobo, pois a bandidagem nos metrôs, nas privatizações, nos aeroportos e nos pedágios rodoviários automatizados (para citar apenas o mais evidente) é anterior às falcatruas mais recentes na Petrobrás. Isso sem falar na corrupção generalizada na ordem sindical que serve aos dois lados, estrutura viciada em que o orçamento é manipulado livremente pelo poder executivo correspondente, sem sequer um legislativo (fajuto que viesse a se mostrar!), a quem os dirigentes sindicais tivessem que prestar contas.

O problema que unifica essa elite profissional fraturada é controlar a energia nova produzida pelo dínamo trifásico (duas correntes positivas e uma negativa) da Lava Jato. Enquanto buscam a saída para uma situação complexa demais para ser resolvida via conspiração (embora as conspirações não cessem), ganham tempo dando meios de propagação às duas correntes de energia positiva (para eles): na farsa catártica do curto-circuito das ruas se engalfinham — numa polarização fajuta de entes movidos pela mesma avidez dirigida aos mesmos poder e dinheiro — anti-petistas e pró-petistas, por mais que néscios de um lado e de outro se julguem portadores da crítica à ordem malsã que nos infelicita. Cada lado dessa positividade tem o mesmo ânimo, e mobiliza contra o outro uma censura igual, de mesmo sentido e direção contrária. Cada um acusa o outro dos crimes que esconde no próprio armário. Eles estão a reafirmar a inevitabilidade da ordem de que somos vítimas, como a dizer, “política é assim mesmo”. É por não se dar conta do engano e do embuste que o cavalga que a imensa maioria descontente se vê sem ação, à espera não sabe bem do que.

Enquanto essa maioria dissipa energia numa indignação frequentemente tão tagarela quanto impotente, a elite que sabe o que está em jogo sente todo o perigo da situação e luta para controlar o fio desencapado da Lava Jato, sua negatividade, uma negatividade portadora do que há de emancipatório na situação. É precisamente por isso, por essa virtualidade transformadora, que vozes conservadoras mais espertas, que temem o descontrole do jogo, se levantam contra supostos desmandos cometidos pela Lava Jato contra Lula, fazendo figura de justos, sábios ou sensatos. Não. Esses atores estão a defender os próprios interesses, até porque mais adiante poderá ser a vez deles. Na ótica deles, se o lulopetismo deve ser tratado severamente como adversário político (que também é), mais razões há para não perder de vista, nessa hora perigosa, sua condição de parceiro do bloco de poder fundado pelo Real, ao qual o lulopetismo aderiu em 2002 e que está a se esboroar, circunstância que exige um novo pacto pela desigualdade, para o qual é mais útil contar com um lulopetismo de volta ao papel de crítico subalterno obediente do que descarta-lo, como imprestável que é, abrindo espaço para a construção de uma alternativa transformadora hostil a essa velha ordem.

Ao tirar do armário velhas fantasias militantes, ao empunhar bandeiras cuidadosamente esquecidas no curso dos auto-celebrados governos de Lula e de seus governadores de estado, tempo em que dispunha de prestígio e poder para correr o risco de pô-las em prática, o PT não está se contrapondo às elites (afinal não o fez quando estava em melhor situação para enfrenta-las), mas antes está  a contemporizar com elas, está a anunciar que aceita a volta do velho jogo. Veja bem, leitor, não é que o PT esteja sobretudo fazendo uma volta fingida às suas origens, no fito de reunir força contra as elites. Não. Eles estão sobretudo avisando aos adversários que topam voltar ao jogo antigo, em que eles fingiam combater a ordem da desigualdade. Ou seja, não contente em repetir a história como farsa, ao simular uma arregimentação de tropas para um quimérico combate final (sempre prometido e nunca levado a cabo), o lulopetismo desesperado está a coreografar uma platéia que aceitou aplaudir a própria tragédia reencenada como uma farsa dele.

Não sou jurista e não vou discutir tecnicalidades jurídicas. A maioria de nós vive a Lava Jato como um labirinto, no qual a imprensa convencional abre janelas a cada dia, algumas delas falsas. Moro conduz a Lava Jato, conhece-a à medida que ele mesmo partilha sua construção, sopesa cada pedra antes de ela ser assentada, é conhecedor de trechos por nós ainda desconhecidos. Cada decisão que toma está embasada no que já foi revelado, mas também se orienta no que está por vir à luz, que ele conhece e que imporá medidas cujo impacto ele busca antecipar. A condução coercitiva de Lula e as reações suscitadas no establishiment mostram que a velha ordem está disposta a trocar de roupa, mas se recusa a tomar banho, pois teme ir pelo ralo junto com a água suja. Cabe aos interessados que se mantém apartados da polarização fajuta em curso, que não vão às ruas não por serem indiferentes, mas porque recusam as alternativas oferecidas até aqui, cabe a essa minoria lutar para que a maioria que se mantém num ceticismo prudente venha a se engajar em lutas que deem sentido às potencialidades transformadoras abertas pela Lava Jato, impedindo que o fim da mentira mais recente sirva de esterco para a mentira mais velha. Vai levar tempo, muito tempo.

Fica o Registro:

1- A essa altura, com as evidências de crime que hoje passaram a pesar contra as contas da campanha presidencial petista de 2014, parece claro que o governo Dilma-Temer acabou e será substituído através de uma eleição direta, provavelmente ainda este ano, junto com as eleições municipais, tudo com base em decisões do TSE. Esse desfecho só poderia ser evitado se, escorados na polarização fajuta discutida acima, os políticos profissionais e o chamado mercado selassem uma solução artificial, que já não parece possível.

2- Como no caso da cassação de Dilma-Temer assume o presidente da Câmara dos Deputados, e como se afigura de todo impossível que o país aceite Eduardo Cunha na presidência da República, especialmente para presidir um processo eleitoral destinado a dar resposta ao maior escândalo de corrupção do país, também parece certo que Eduardo Cunha seja afastado ainda antes da queda de Dilma-Temer.

3- A eventual ida de Lula para o governo Dilma só serviria para acentuar a dramaticidade da hora vivida pelo lulopetismo, pois então já não haveria sequer a possibilidade de tentar obter com o descarte de Dilma um alívio sobre o destino de Lula. O pedido de prisão contra Lula, feito pelo MP de São Paulo, é um atropelo, não um desdobramento da tática da Lava Jato, de avançar polegada a polegada, e deverá ser negado.

4 ideias sobre “O FIM DA MENTIRA MAIS RECENTE COMO ESTERCO PARA A MENTIRA MAIS VELHA

  1. Alessandro Meazza

    Infelizmente, a “alternativa transformadora” é um sonho ainda mais distante do q a volta do PT às origens. O PT tem raízes muito fundas no imaginário do povo mais pobre, e mesmo domesticado foi a única barreira para o caminhão de merda neoliberal (privatização da Petrobras, entrega do pré-sal, fim da clt etc) q vai agora ser despejado sobre nossas cabeças. A destruição do PT vai levar junto a esquerda toda pro buraco.

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  2. eder

    Novaes, podemos dar como certo, ou como muito provavel, anos de reacionarismo à constituição de 88. Vão varrer todos os entraves,do ponto de vista dos privilegiados, à seu apetite escravocrata e daí partir pra cima daqueles que certo deputado disse que é tudo que não presta?

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  3. Flávio Pezzi

    Bem! se estou certo você não acredita na imagem negativa vendida pelo PT e outros partidos de esquerda como o PSOL de que a queda de Dilma representaria um avano da extrema direita com riscos a liberdade de opinião, circulação de movimentos ou ações políticas contra os interesses do mercado ou contra grupos que militam por ampliação de direitos. O establishiment não teria o menor interesse em figuras como Bolssonaro ou em reprimir movimentos sociais da forma caricata que a esquerda vem anunciando.
    Em 2015 pautas conservadoras e verdadeiros retrocessos foram aprovadas no congresso, caso da redução da maioridade penal, numa demonstração de força da direita. Sendo assim, o novo já existe? De onde vem ou poderá vir? Com a queda de Dilma e enfraquecimento do PT os movimentos sociais vão retomar suas lutas? Figuras ligadas ao PT como como Raquel Rolnik e Ermínia Maricato e de outros partidos farão parte dessas forças transformadoras?

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