TELEGUIADOS, FOGOS DE ARTIFÍCIO SERÃO LETAIS

Carlos Novaes, 18 de março de 2016 — 16:55

 

Nos dois artigos mais recentes deste blog procurei discutir como chegamos à complexa situação em que nos encontramos, explicada, em última instância, pelas dificuldades de solda no sistema político podre que garante a desigualdade contra uma sociedade inerme não obstante sofra as consequências dela. A desigualdade é a mãe de todas as nossas mazelas e em nome da manutenção dela deram o golpe paisano-militar de 1964, fizeram a “transição lenta, gradual e segura” e, agora, tentam sufocar, ou fazer unilateral, a Lava Jato, para melá-la. Sufocar a Lava Jato é Lula ser bem sucedido no papel de primeiro-ministro, refazendo a solda entre Executivo e Legislativo, com o endosso do Judiciário superior; fazer unilateral a Lava Jato é tornar Lula o bode expiatório de uma investigação que, tendo elementos para colocar todo o sistema político corrupto a nu (e abaixo), se detenha no papel de braço auxiliar dos que buscam, em meio à desorientação popular, preservar o que há e mais antigo nele, sacrificando apenas a variante mais recente.

Vistas as coisas nesses termos, parece claro que a tarefa dos que temos compromisso efetivo com a luta contra a desigualdade não seria nem atacar a Lava Jato, atirando-a nos braços dos que só a apoiam para poderem pescar em águas turvas; nem escolher lado no Fla-Flu que ela provoca entre petistas e anti-petistas; nem discuti-la em termos jurídico-formais, como se ela não estivesse justamente a deixar claro que a forma institucional está comprometida pelo uso que fazem dela os agentes investigados. Ou seja, nossa tarefa é encarar a Lava Jato como um dispositivo jurídico-político com virtualidades emancipatórias e, por isso mesmo, pressionar para que se quebre sua unilateralidade, impedindo, assim, que a melem. Em outras palavras, e pedindo perdão por um eventual didatismo: não tem o menor sentido emancipatório entrar nesse debate jurídico-moral sobre a legalidade-legitimidade das iniciativas mais recentes de Moro e, ainda pior, defendendo uma suposta neutralidade das instituições (e é uma lástima ver gente de bem, com assento na mídia convencional, a gastar tinta com essa porfia infrutífera).

Como a justiça se produz no encontro entre a lei, a jurisprudência e o juiz, e como o juiz é ente sensível inscrito na realidade política, o que temos de discutir é o sentido jurídico-político que as iniciativas da Lava Jato apontam, deixando aos advogados das causas espúrias em disputa (não raro juristas renomados), ou aos filósofos ad hoc, o embate vão em torno do que, afinal, significa obedecer a lei em uma hora crucial como essa em que a sociedade brasileira assiste, inerme, a decisão do seu destino.

A pergunta é: ao divulgar gravações de conversas telefônicas de Lula no momento em que ele virava primeiro-ministro do deixa disso, o juiz Sergio Moro criou obstáculos ao processo de sufocar a Lava Jato, ganhando força para, apoiado no direito e na opinião pública, abrir fogo contra corruptos do PSDB e do p-MDB (as duas outras pernas do nosso tripé político malsão); ou, pelo contrário, aprofundou a unilateralidade que já caracterizava a sua prática? (Essa unilateralidade eu discuti em item específico aqui). Ou seja, Moro está lutando para impedir que melem a Lava Jato ou está a contribuir para uma forma específica de melá-la e, nesse último caso, como impedir esse desfecho nefasto?

Diante das primeiras conversas divulgadas, entendi que o titular da Lava Jato estava a pedir ajuda para dar fim a uma unilateralidade que, até aqui, se podia ver como tática (ou em disputa). Entretanto, essa unilateralidade vai se revelando estratégica, a serviço de um desenho final em que se afasta o lulopetismo do poder, sim, mas em favor de forças ainda piores, e piores porque além de repetirem tudo o que dizem condenar, o farão revestidas da chancela que o triunfo sempre confere em situações assim. Me explico: as declarações de Moro pedindo calma e serenidade, enquanto silencia, permite e/ou promove vazamentos novos na direção exclusiva do lulopetismo, deixam claro que ele não acendeu o pavio da ira popular como gatilho para a bomba maior, a do entendimento público, que liberaria todo o potencial da Lava Jato. Não, Moro disparou fogos de artifício que estão sendo teleguiados.

Afinal, numa situação em que os ânimos políticos estão exaltados e acirrados com base numa polarização falsa, a única maneira de fazer os agentes voltarem à razão é tirar fôlego das certezas íntimas que obnubilam seu entendimento da realidade em que sofrem, e não pedir calma em nome da confiança em instituições cujo rotineiro funcionamento malsão é precisamente o que pôs em xeque o chamado estado de direito tal como se apresenta.

As pessoas só irão parar de se engalfinharem em uma de duas situações: ou quando o “oponente” estiver liquidado, ou quando ficar evidente que não há lado defensável na porfia em que estão, que essa porfia não tem fundamento. Ora, na hora crucial a Lava Jato ajuda a construir a polarização falsa fornecendo munição a um dos lados, enquanto fragiliza o outro. Assim, ao invés de ajudar os combatentes a se descobrirem ridículos, o que os levaria a deixarem a ira contraproducente de lado e abriria uma janela para o juízo são, Moro investe na turvação das mentes insuflando a ira unilateral injusta, retendo informações que, ao comprometerem PSDB e p-MDB, mostrariam que estamos diante de uma ira injusta não por ser ira, mas por ser unilateral. Repito: quem está na rua neste momento contra o lulopetismo ou a favor dele é um tolo; quem está em casa é, no mínimo, sensato. Mas até quando será prova de sensatez ficar em casa?

Se queremos impedir que o pior aconteça, temos que nos desvencilharmos todos da polarização falsa em curso: nem PT, nem anti-PT. Nem Dilma, nem Temer. Punição a todos os corruptos e eleições para presidente. Que os mortos enterrem seus mortos!

Com base em minhas poucas forças, conclamo a todos os combatentes das causas do nosso povo nos últimos cinquenta anos, e que não se atolaram na corrupção que nos abisma, a se unirem na luta contra a desgraça que se anuncia. Que Tarso Genro, Luiza Erundina, Marina Silva, Paulo de Tarso Vencesllau, Vladimir Palmeira, Francisco de Oliveira, Roberto Schwarz, Fabio Konder Comparato, Antonio Candido, Maria Vitória Benevides, Ruy Fausto, Paulo Arantes, Daniel Aarão Reis, Eduardo Jorge Alves Sobrinho, Luciana Genro, Marilena Chauí, Heloísa Helena, e muit@s outr@s  que não me ocorrem agora, mas que ocorrerão a você, leitor, deixem para trás os cálculos eleitorais, as limitações físicas, a cegueira ideológica que eventualmente estejam a lhes incapacitar para a boa luta, e se atirem ao esclarecimento a à arregimentação do nosso povo nessa hora tão difícil.

Numa hora dessas, antes ridículo do que calado!

7 ideias sobre “TELEGUIADOS, FOGOS DE ARTIFÍCIO SERÃO LETAIS

  1. soraia

    diante de tantas opiniões, independentes e/ou ideologicamente mais apartadas, sob lente mais ou menos panorâmicas, busco a d meus analistas preferidos – Novaes, Villa, Boff, L. F. Gomes e o Macaco Simão, um verdadeiro balaio de intelectuais bem sei. e como ‘numa hora dessas, antes ridículo do que calado!’, não consigo enxergar essa parcialidade do juiz Moro q ao menos 2 destes mestres veem – no caso do Novaes, menos ideologicamente, mais razoavelmente do q Boff e Villa.
    ridiculamente, acho q o Moro deu um golpe na ‘cabeça da jararaca’, pra q ela não se tocaiasse no ministério da ‘casa caiu’. pois o réptil sorrateiramente antecipava o calor das ações. será q o golpe na cabeça só tonteou a jararaca q ainda serpenteará pra foros privilegiados: uma reserva de víboras q criam asas quando aclimatadas em Planaltos? espero q não. e q a jararaca, capturada então, apeçonhe outras víboras d mesma natureza, Jararacas de Nariz Empinado PSDBistas, e Jararacuçus do PMDB..
    ainda acho nosso domador de serpentes bastante destemido, pois sabendo q deveria mandar os rastros da cobra mais recôndita pro caçador mais aparelhado, advertida e temerariamente o domador se aventura sozinho, mas talvez com uma potência de fogo maior, brilhante sinalizador de massas..
    ridícula, eu penso q foi um golpe e tanto, de mestre!

    abraço Novaes!

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  2. graciela

    Concordo em parte com a analise, so o desfecho é que me parece unilateral. Por que eleições ja?
    Temos um governo elegido democraticamente, com uma Presidenta que vem atuando sem deixar o Pais totalmente desgovernado, sendo atacada por uma classe politica totalmente comprometido com seus interesses Pessoais e partidários, sendo grosseiros, machistas, e demostrando níveis de de arrogância inusitados. Queda a duvida para o cidadão de a pe que no caso esta acontecendo que “quem deve não teme”. Os exemplos mais claros desse tipo de postura Cunha e Aecio.
    Então se esta Presidente com todos estes contratempos e ataques, no meio de uma crísis mundial muito grave, esta conseguindo dirigir o Brasil, porque tem que sair?
    Desde o ano 1964 que o Brasil não enfrente uma ofensiva destas características. Esta na hora de defender a legalidade democrática, e o respeito ao voto popular.
    NAO VAI TER GOLPE. Não merecemos.

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    1. Carlos Novaes Autor do post

      Sempre defendi o mandato de Dilma, veja, especialmente, meu post LINCHAMENTO. Entretanto, AGORA há evidências de crime eleitoral, com uso de dinheiro da corrupção para a chapa Dilma-Temer. Nesse caso, não há mais como defender a legitimidade de Dilma-Temer na presidência da República.

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  3. eder

    Olha falando francamente
    Desse moro não espero nada
    Ou melhor ele espalha sementes de ervas daninhas
    E eu que achava se tratar de sementes de arvores frutiferas
    Porque nao grampear e divulgar os cunhas, aecios, temers, FHCs???
    Nós queremos lula preso mesmo????E collor, barbalho, cunha, renan, aecio, fhc, maluf, agripino, perilo, sarney, rixa, temer, cassio cunha lima…….soltos? Cuidado com seus desejos.
    Sera que moro grampearia e divulgaria os audios desses aí?
    Aí sim ele demonstraria coragem
    A imprensa iria denunciar como ato aloprado tal como fizeram em 2010 no caso dossie serra, lembra?

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  4. Flávio Pezzi

    A saída seria o MPL ( Movimento Passe Livre), devolver as ruas aqueles que a ocuparam em junho de 2013.

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  5. thiago

    Realmente está tudo muito confuso, principalmente por esse clima de fla flu que toma conta da imprensa, tanto de um lado como do outro, eles mais se ofendem uns aos outros do que esclarecem a situação, é o combo infeliz: paixão misturada com análise mal feita ( como você mesmo já citou em um dos seus artigos). Enquanto isso, a economia real “derrete”.

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