PANORAMA VISTO DO MEIO DA RUA

Carlos Novaes, 31 de março de 2016

Aquilo que estamos vivendo como uma crise sem precedentes não tem causas tão novas assim. A sensação de ineditismo, mais emocional do que real, é uma decorrência da articulação, aqui e agora, de três vetores: primeiro, a erosão estrutural do pacto do real, com tudo que a ela se associa de mais visível pelo lado econômico (erros na gestão governamental, cenário internacional desfavorável e incompetência da presidente); segundo, a crise de representação política, com tudo que a ela se associa de mais óbvio pelo lado político (dificuldades de “coalizão” no bloco de poder, inépcia da presidente e  fratura da solda entre a sociedade e as instituições propriamente políticas); terceiro, um desarranjo na engrenagem, velha de décadas, da articulação espúria entre os interesses dos políticos e os dos grandes atores do chamado Mercado, com tudo o que de mais notório o Judiciário tem feito no combate à corrupção (o Mensalão, a Lava Jato, a Zelotes e os casos do Metrô, do Rodoanel e da Merenda Escolar em São Paulo).

Não por acaso, a cada um dos três vetores dessa crise corresponde um dos três poderes da República (Executivo-gestão; Legislativo-representação e Judiciário-judicação): a crise só  ganhou a magnitude que está à vista de todos porque engolfou, sob desarmonia, os três poderes que a República pretende que sejam harmônicos. É uma crise estrutural. E é por ser estrutural que ela nem pode ser acomodada na forma dessa “crise” política fajuta que continua a ser encenada pelos políticos profissionais (cuja prática institucional está na raiz dela); nem encontrará solução com o mero jogo formal entre as instituições, uma vez que elas mesmas, as instituições, são formas cujas práticas nefastas estão em xeque. Ou seja, essa crise só poderá ser resolvida de modo duradouro se a sociedade se empenhar em remover das instituições políticas os profissionais corruptos responsáveis pelas práticas institucionais nefastas.

A pantomima política dos corruptos em busca de uma saída para si mesmos nos consumiu todo o ano de 2015 e este início de 2016, procrastinação que turbinou o vetor econômico da crise. Mesmo tendo sido bem sucedidos em desviar a energia da ira social para a porfia inglória em torno do impeachment de Dilma, os políticos que manejam nossas principais instituições (no executivo e no legislativo) não conseguiram re-estabilizar o bloco de poder em que encenaram o papel de adversários eleitorais até aqui: mesmo tendo entregue o governo ao p-MDB, o lulopetismo não conseguiu fôlego novo que lhe permitisse enfrentar o garrote da Lava Jato; mesmo tendo encurralado Dilma, a autointitulada oposição não logrou mais do que criar as condições para somar a si o mesmo p-MDB que não deu conta de salvar o oponente. Ou seja, tudo o que nos custaram em energia, atraso e sofrimento os últimos 15 meses de crise foi gasto para fazer o p-MDB mudar de lado! E pior: não de modo a permitir que nos livrássemos dele, atirando-o no monturo dos inservíveis, mas de modo a dar sobrevida a esse representante acabado do entulho autoritário que nos infelicita. Dilma, se cair, terá servido de Collor-expiatório para que as instituições permaneçam controladas com total continuidade – justamente a continuidade que nos cumpre desbaratar, e que Cunha, na presidência da Câmara, simboliza como ninguém. Ao mudar de lado o p-MDB tenta, mais uma vez, aparecer como alternativa para o impasse que ele mesmo ajudou a criar, como se um giro no duplo-6 alterasse o futuro desse dominó político construído para manter a desigualdade.

O fato de essa manobra ter hoje possibilidades menores de êxito não pode ser creditado nem a um suposto “amadurecimento” da sociedade brasileira (seja lá o que isso for), nem, muito menos, a uma não menos fantasiosa “consolidação” da nossa democracia — o que se consolidou no Brasil pós-ditadura paisano-militar foi a corrupção. Prova disso é a outra “alternativa” institucional que está no proscênio desse teatro do absurdo: o lulopetismo só salvará Dilma do impeachment se, somado a partidos satélites nutridos na mesma estufa de aberrações que nos trouxe até aqui, soldar na Câmara uma coalizão minoritária de pelo menos 172 deputados, pertencentes a partidos tão ou mais comprometidos na Lava Jato do que o PT ou o p-MDB. Ou seja, a polarização fajuta entre o PT e o PSDB levou a que a política institucional brasileira girasse em torno do parafuso sem rosca que é o p-MDB, cujas escolhas determinavam a cada um dos contendores a quem se alinhar e o que fazer, sempre segundo cálculos inconfessáveis em torno de poder e dinheiro — é esse arranjo que está ameaçado de naufrágio, pois as ambições de Temer podem ter levado o p-MDB a um erro que nos será benéfico, ainda que não seja uma solução.

Em qualquer ordem democrática, uma sociedade em crise tem o dever-direito de se manifestar, de votar e de recorrer ao Judiciário. Diante desse impasse nos dois poderes institucionais da República providos pelo voto (o Legislativo e o Executivo), e considerando que ainda não se abriu uma alternativa para que possamos votar segundo nossa repulsa ao que se passa, o que nos resta enquanto sociedade é exercer na rua o direito-dever de manifestação e pressionar o Judiciário para que atue orientado pela consolidação da democracia, vale dizer, para a superação do impasse atual na perspectiva de práticas institucionais realmente novas. Dessa perspectiva, ganha força a investigação sobre possível financiamento ilegítimo da chapa Dilma-Temer, cujo afastamento da presidência pelo TSE nos permitiria o uso da ferramenta do voto em circunstância em que a Lava Jato seria mais e mais empurrada a abandonar sua unilateralidade. Por menos opções que venhamos a ter na hora de exercer novamente o direito de voto para a presidência da República, esse conjunto catastrófico de circunstâncias poderá servir para que se abra uma nova fase de construção de alternativas políticas para a sociedade brasileira que, de qualquer modo, vai precisar de muitos anos para consolidar uma democracia que seja mais do que um ritual de liberdade eleitoral.

Fica o Registro:

Ofuscada pela crise nacional, a disputa interna do PSDB em torno da candidatura a prefeito de São Paulo não vem recebendo a atenção que merece. Os métodos empenhados por Geraldo Alckmin em favor da vitória de ninguém menos que João Dória, e o comportamento do ungido depois da vitória (que se anuncia de Pirro), deixam bem claro de que lado joga o governador de S. Paulo nessa hora crucial da vida política brasileira.

 

3 ideias sobre “PANORAMA VISTO DO MEIO DA RUA

  1. Felipe

    Talvez isso já tenha sido discutido por você, mas do meu ponto de vista, e não sou economista nem especialista, penso que a Dilma, além de não ter o traquejo político tradicional de coalizão, sofreu um desgaste inesperado com os protestos de 2013. Até junho daquele ano, tínhamos quase pleno emprego, inflação sob controle e dívida pública, apesar de não auditada, relativamente sob controle também, mesmo com toda crise econômica mundial. E o desgaste foi ganhando mais força com o julgamento do Mensalão, com a Copa, construções de estádios, as vaias e xingamentos em rede internacional (desrespeitosas diga-se de passagem, pois acima de tudo ela é mulher, mãe e avó!!!). Todas as mazelas que também são de responsabilidade de deputados, senadores, governadores e prefeitos, foram sendo direcionadas para a figura da presidente. Somado a tudo isso a partidarização da grande mídia, exclusivamente preocupada com seus interesses e não com os do país, a Operação Lava-Jato e a militância ultraconservadora no Facebook. Ou seja, mesmo com a vitória (apertada) nas eleições, ficou isolada, perdeu seu poder de acalmar os mercados, seja lá o que isso signifique. E os oportunistas interesseiros, envolvidos até o pescoço na Lava-Jato, querendo se beneficiar desse terrorismo político e arrebentando mais ainda com a economia do país. Tem um monte de pai de família perdendo emprego e sem perspectiva de se recolocar no mercado de trabalho. Lamentável, para não dizer trágico. Espero que esse momento negro de nossa política se dissipe logo, para o país voltar a funcionar.

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  2. Eder

    Bem Novaes.
    Nao apostaria minhas fichas numa transformaçao.Toda analise deve partir de um pressuposto:O analfabetismo politico do povo.Falo com conhecimento de campo.As pessoas acham que é tudo culpa do PT.Nao existe pmdb, pr, prb, psd e muito menos o partido com mais investigados na lava jato: o pp, disse pp.Sim porque nos noticiarios o som pp é entendido como p…T.Nao ha identificaçao ou engajamento espraiado de nenhum partido.Eles, os partidos e politicos sao como assombraçoes que aparecem nas eleiçoes e depois desaparecem.Se nos, sociedade, conseguissemos arrancar deles a certeza do finciamento publico e as altissimas quantias das doaçoes filantropicas das empresas, eles teriam que correr atras do nosso dinheiro e obviamente prestar contas a nós , isso aliado ao fim da reeleiçao pro legislativo.Olha muito bacana .Mas nem nos paises com grande tradiçao democratica isso se dá, muito dificilque se constitua aqui.Estamos vendo as primárias americanas.Há organicidade dos partidos lá, como aparenta.Vemos os candidatos fora da monarquia partidaria indo muito bem, puxados pela base.O partido trabalhista britânico elegeu Corbyn , preterido pelos deputados e preferido pela base do partido.Isso não quer dizer muita coisa, já que esse desejo dificilmente se expressaria no legislativo, capturado pelo dinheiro_campanha e pela rotina_profissao dos politicos.Mas penso: não é incompatível o capitalismo globalizado e turbulento com uma democracia de alta intensidade? Não estaremos nós tentando juntar agua e oleo?A continuidade do capitalismo,ou ao menos desse capitalismo tal e qual se apresenta, exige exatamente a supressao do pouquinho de democracia que nós conseguimos e nos foi permitido?Ou seja a crise do sistema só encontra soluçao num novo processo de acumulaçao primitiva?
    A crise de 29 e a segunda guerra nos oferece um sinal disso?Já que a guerra foi muito importante pra recuperação economica.

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  3. Rodrigo

    Muito bom. Devemos ver o conjunto de reformas econômicas recomendadas dia e noite por economistas como uma tentativa de salvar o que o Novaes chama de “pacto do Real”? Tais reformas são, ao ver de tais economistas, a solução para o problema da desigualdade. Como não pertenço à direita liberal, desconfio da eficácia dessas soluções.

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