FALHAS, NÃO – CRIMES

Carlos Novaes, novembro de 2013

 A nota que acaba de ser publicada pelo comandante da Policia Militar de São Paulo é mais uma evidência do absoluto divórcio existente entre, de um lado, as instituições de poder e, de outro, a sociedade.

Não é de hoje que é voz corrente em São Paulo a expressão “coxinha” para designar pejorativamente policiais militares. A origem da expressão nasceu do reconhecido hábito de policiais comerem, sem pagar, em padarias de São Paulo, a famosa “coxinha”, uma massa frita à base de carne de frango. Embora hoje essa suposta iguaria seja relativamente barata, décadas atrás, no período da hiperinflação, quando o poder aquisitivo da massa popular (inclusive dos policiais) era bem menor, comer o salgado era para poucos, circunstância que deu sabor especial à precisão do apelido: de uma única laçada, “coxinha” denunciava que policiais extorquiriam para si, de graça, o que não poderiam pagar, obliterando, através de um crime, sua própria condição de pobres (alienação); apontava o consumo básico de que os pobres honestos estavam impossibilitados (desigualdade) e fazia deboche do que o povo vê de seletivo na truculência da PM, tão conhecida sua em facetas bem mais cruas do que a que vê exercida contra os padeiros (autoritarismo militar) – em suma, uma versão tão concisa quanto inteligente do ressentimento popular que se faz crítica social do poder.

Diante de quadro tão antigo e sedimentado, é quase incrível que o comandante da PM venha a público não só se mostrando ofendido e a reagir com ameaças de retaliação à menção de jornalistas ao “pão com manteiga”, versão televisiva soft da consagrada picardia popular, como pretender, a essa altura, que se receba como demonstração de capacidade autocrítica ele reconhecer que a instituição que comanda tem “falhas”, quando até as pedras sabem da conduta frequentemente cri-mi-no-sa de policiais militares, só investigadas em um ou outro inquérito depois de muita pressão da sociedade.

Tomada em seu conjunto, a bizarrice da situação está a indicar que o comando da policia militar resolveu reagir de maneira errada à crescente força da tese de extinção da PM na opinião pública – como não poderia deixar de ser.

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