NÃO ME PERGUNTARAM, MAS…7 — Entrevista de FHC na Folha de hoje

Carlos Novaes, 25 de setembro de 2016

Folha – O PSDB se tornou “censor” do governo?

Fernando Henrique Cardoso – O que o PSDB fez? Uma vez que não tinha alternativa senão apoiar o impeachment – era óbvio que era inevitável –, teve que assumir uma responsabilidade. Acho que fez bem ao condicionar isso a que o governo atue [segundo uma agenda].

Folha – O PSDB se tornou “censor” do governo?

NOVAES – Dizer que o PSDB “não tinha alternativa” já é parte da falsificação da história que está em andamento. O PSDB inventou o impeachment. Inconformado com a derrota, Aécio arrastou o PSDB ao golpe que tornaria menores as chances de Lula vencer em 2018. A incerteza em que vivem quanto a este resultado que almejaram é que alimenta o empenho, bem dosado, para que a Lava Jato se mantenha, desde que golpeando apenas o lulopetismo – e a facção paranaense os tem ajudado. Falar em “condições” impostas a Temer se destina apenas à manutenção de uma área de escape para si mesmo, pois qualquer um está ciente de que é bem provável que Temer dê eleitoralmente errado como gestão, ainda que provavelmente vá dar sobrevida ao sistema como um todo.

Mas isso não faz Temer refém?
FHC – Se o PSDB não tivesse essa posição, o presidente também não teria como resistir às demandas clientelistas. Temer tem noção de seu momento histórico. Tem que fazer coisas que não são populares, tomar decisões que podem não agradar, sobretudo às corporações.

O desafio é chegar ao outro lado, 2018. Mas só vai chegar se tivermos um horizonte de esperança.

Mas isso não faz Temer refém?
NOVAES – Temer é refém da maioria facciosa do Congresso que o entronizou, não do PSDB, um partido tão dividido que não poderia coordenar um sequestro desses. Quando falo de “maioria facciosa” quero dizer duas coisas: primeiro, que trata-se de uma maioria de ocasião, sem organicidade; segundo, que trata-se uma maioria legislativa constituída ela mesma de facções em constante rearranjo, mas com uma única direção: manter a ordem da desigualdade enquanto prosseguem nessa marcha incessante de alcançar poder para fazer dinheiro. O PSDB é parte deste facciosismo, basta olhar sua participação na manobra para anistiar o caixa2.

Vê espaço para um levante no qual os insatisfeitos com o impeachment se somem aos afetados pela crise, aos descontentes com as reformas…?
FHC – Os assolados pela crise ainda não se manifestaram. Quem esteve na rua antes foi outro tipo de gente e quem está agora é militância. Com essa grande massa não houve conexão. Pode haver? Pode. É perigoso? É.

Vê espaço para um levante no qual os insatisfeitos com o impeachment se somem aos afetados pela crise, aos descontentes com as reformas…?
NOVAES – Concordo, em parte, com o diagnóstico e discordo profundamente da conclusão. Não é que os assolados pela crise ainda não tenham se manifestado. Parte deles, embora ainda minoritária nas ruas, vem se manifestando há anos, especialmente depois de junho de 2013. Há, porém, uma grande maioria tomando raiva, que não se reconhece na polarização fajuta dos manifestantes até aqui mobilizados. Tudo que espero é que essa maioria venha para a rua, em desobediência civil, e leve nosso sistema politico a uma transformação.

Há como evitar isso?
FHC – Tem que conversar o tempo todo com a sociedade. Dizer que é em nome de um país mais equânime, com menos privilégios. Não pode descer goela abaixo as medidas de austeridade.

É preciso insistir em valores que não são do mercado, são das pessoas. Se não explicar que a tragédia deriva dos erros do governo anterior, vai cair na cabeça dele. Já, já o PT vai começar a gritar que é culpa do Temer.

Há como evitar isso?

NOVAES – Não se trata de evitar, mas de fomentar! Essa resposta de FHC reúne conservadorismo, má fé e pobreza analítica. Conservadorismo porque teme o povo na rua (não foi à toa que o Real parou bem antes do meio do caminho); má fé porque pretende imputar a Dilma o que não é de Dilma, pois o pacto do Real, fundado em que os ricos não podem perder (as incertezas do mercado eram só para os outros), sempre foi insustentável; pobreza analítica porque mistura análise estrutural com dilemas eleitorais: o problema não está no lugar a ser ocupado pelo PT, mas no desafio de construir uma saída nova para a maioria da sociedade, o que requer uma outra política, que nem PT, nem PSDB podem oferecer, pois já ficaram para trás.

E Temer nessa equação?
FHC – O presidente sabe que o poder caiu na mão dele num momento difícil. Ele nunca foi um líder popular. Não se pode pedir à pessoa que seja o que ela não é, nunca foi. Temos que pedir que pense na história. Se fizer isso, mesmo sem popularidade, está feito historicamente.

E Temer nessa equação?

NOVAES – O poder não “caiu nas mãos” de Temer, o vice se empenhou facciosamente para chegar lá. Parte das suas dificuldades decorre dessa ilegitimidade. FHC está a seduzir Temer para que aceite a aventura do ajuste anti-povo em curso em troca de uma suposta narrativa favorável no futuro… Falta combinar com o Congresso e com a maioria da sociedade, que, em razão da própria crise de representação, estão em lados opostos. A equação de Temer não fecha.

Meirelles pode ser uma espécie de FHC para Temer?
FHC – Não creio. E não é que haja diferença entre mim e Meirelles. É a situação. Naquela época [governo Itamar], o problema mais aflitivo era a inflação. Acertamos em parte no equilíbrio fiscal, ela foi barrada e o bem-estar veio de imediato.

Hoje, a situação é de tal gravidade que será preciso ter continuidade durante anos para restabelecer a confiança não só nacional, mas internacional, no funcionamento da economia. E isso não vai dar bônus.

NOVAES – veja mais abaixo – respondo duas em uma.

Ele não repetirá o milagre?
FHC – Não fiz milagre. O objetivo estava mais próximo. Hoje, longínquo. Não o conheço o suficiente para saber se ele é capaz de se expor de uma maneira que motive as pessoas… Não basta ser racional. É preciso mais.

E, ainda que ele seja, vai expor o que? Sangue, suor e lágrimas. Melhor não pensar em beneficiário. Ou pensa em termos históricos, ou vai ter desilusão.

Meirelles pode ser uma espécie de FHC para Temer? [ou] Ele não repetirá o milagre?
NOVAES – De fato, o plano Real não foi um milagre, mas não porque “o objetivo estava próximo”, como diz FHC (resposta que deixa claro que ele jamais entendeu o alcance político do que pôs em movimento). Não. Como vimos em série recentemente publicada aqui, o Real foi uma tarefa governamental com muitas qualidades, proposta a uma sociedade em sofrimento, e numa circunstância histórica em que esta sociedade havia engendrado duas forças políticas como alternativa contra um passado-presente do qual ela queria se livrar: essas forças eram o PSDB e o PT, que estavam no auge de sua vitalidade. Naquela altura, o passado aparecia nas figuras decaídas do p-MDB e do PFL (ex-ARENA). A rotina sofrida da inflação inercial vinha desde a ditadura paisano-militar e sua intensificação na forma de hiperinflação era filha das rotinas políticas inerciais que nos haviam sido legadas pela mesma ditadura. O PT e o PSDB eram a alternativa que a sociedade, em uma luta brava, havia engendrado. As possibilidades eram formidáveis, mas ambos nos traíram: ao invés de ir adiante, acomodaram-se numa divisão fajuta para, apoiados nas forças do atraso que deveriam derrotar, imporem uns aos outros derrotas eleitorais sazonais, enquanto davam as costas ao futuro e à maioria da sociedade, abandonado-a à essa desmoralização do próprio sentido de lutar de forma democrática contra a desigualdade. Não é à toa que, agora, depois de terem trazido de volta ao protagonismo as forças da ditadura, estão com medo do que o povo possa vir a fazer.

Temos, sim, de explicar a situação de forma racional ao povo. Mas racional é a revolta contra todo o sistema político. Precisamos enfrentar nosso Estado de Direito Autoritário.

Vale para todos no governo?
FHC – Não vejo que o governo tenha como tirar proveito dessa situação em dois anos. O desastre foi muito grande. Foram desmontados os pilares da economia. O horizonte – se houver – virá depois de 2018, se tivermos sorte de encontrar líderes. Nem digo do meu, de qualquer partido…

Vale para todos no governo?

NOVAES – Vale para todos, seja no governo, seja na auto-intitulada oposição. Os tucanos sonham em tirar as castanhas do fogo com a mão do gato, e não será surpresa se racharem e nos apresentarem três candidatos à presidência: Aécio, pelo PSDB, Serra, por algum outro e Alckmin pelo PSB. O lulopetismo, em sua versão menos ruim (aquela dos que não deixaram o PT nem diante de tudo que ficou evidente), ao invés de se abrir para o novo, insiste na velha agenda da auto-intitulada esquerda e sonha com uma Frente (mais uma!), que haverá de herdar e reproduzir as mesmas práticas das burocracias de onde sairia.

Nem sequer faz questão que seja de seu partido?
FHC – Prefiro que seja, óbvio, mas o importante é ter alguém.

Vê esse alguém?
FHC – Aqui? [Silêncio] Se tivesse, estava resolvida a questão.

NOVAES – Antes de haver um personagem, há de haver uma narrativa. A maioria da sociedade terá de escrevê-la, assim como o fez quando confiou no PSDB e no PT, mas em condições muito mais difíceis. Não sendo desejável interromper o calendário eleitoral, ainda não é possível ver como chegaremos às eleições de 2018 em condições de fazer o necessário realinhamento eleitoral de que precisamos. Um “alguém” irá surgir, ou da luta, ou dos acertos entre muros. Vamos ver o que a maioria da sociedade brasileira vai preferir.

4 ideias sobre “NÃO ME PERGUNTARAM, MAS…7 — Entrevista de FHC na Folha de hoje

  1. Anderson Thadeu

    Novaes, apareça….Mais do que nunca, precisamos das suas análises e comentários!!

    Com admiração,

    Anderson Thadeu

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  2. thiago

    Novaes, você não fala de nenhum economista ou ideia econômica específica que mais lhe agrada, não tens?

    Responder

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