LUGAR E OPORTUNIDADE DA OPÇÃO MARINA SILVA PARA PRESIDENTE

Carlos Novaes, setembro de 2009

I. APRESENTAÇÃO – (de 2013)

Entre julho e agosto de 2009, no lufa-lufa dos esforços para colocar de pé uma candidatura presidencial de Marina Silva em 2010, a então senadora solicitou ao autor um texto em que amarrasse as intervenções verbais que ele vinha apresentando sobre o processo transcorrido até então. Reuni, então, reflexões antigas sobre o esgotamento de certos projetos políticos para o Brasil com idéias sobre como iniciar uma nova era para o país. Há anos aquelas reflexões vinham me conduzindo a entender que a chamada questão ambiental passaria a ter lugar decisivo nas busca de novas alternativas de desenvolvimento. A partir de 2006 ficou claro o papel de protagonista eleitoral que Marina Silva poderia ocupar no cenário nacional e, por isso, passei a tratar do tema em meus círculos próximos e, mais adiante, foi natural que me engajasse na articulação de uma possível candidatura de Marina à presidência.

Embora hoje, em 2013, a situação política apresente mudanças significativas, parece oportuno manter sob juízo dos leitores aquela maneira de abordar as questões envolvidas. Cada um dirá quão atuais podem ser as linhas que se seguem, tal como foram apresentadas em 2009.

II. UM PROJETO ESGOTADO

Por mais ruidosa que se faça a refrega PT-PSDB, ela se dá fundamentalmente em razão da troca de turma na gestão do estado brasileiro. A chegada de Lula à presidência interrompeu uma prática acomodatícia na ocupação dos chamados cargos de confiança: pela primeira vez houve uma substituição em massa de seus ocupantes, o que rendeu o alarido em torno de um suposto aparelhamento do estado pelo PT, como se não fosse de esperar que os postos de mando fossem ocupados pelos representantes de uma vitoriosa burocracia organizada e treinada precisamente para exercer o mando. Essa troca de turma causou ruído menos pelo impacto que teve sobre o resultado da ação governativa e mais pelo fato de ter escangalhado um arranjo de compadrio que vinha desde o fim do regime militar – em alguns casos, até de antes.

Ainda que seja difícil a uns e outros admitirem, para além da troca da guarda, os períodos de governo de FHC e de Lula foram modos de realização de um mesmo projeto para o país, projeto este que vem desde Vargas e fôra interrompido com o golpe militar e a ditadura que a ele se seguiu. Quando deu ao seu principal programa de ação governamental o nome de Aceleração do Crescimento, a equipe de Lula deixou claro que se tratava não de inventar um novo modelo, mas de acelerar o veículo do crescimento que já estava em marcha, endossando o crescimentismo herdado do passado, embora melhorando o estado dos assentos destinados à acomodação dos segmentos populares nesse móbile movido a petróleo em via pavimentada pela desigualdade. O PAC desautorizou qualquer verossimilhança para o caráter tático que alguém ainda pudesse atribuir à promessa de continuísmo expressa na Carta aos Brasileiros. A Carta foi pra valer e vem sendo cumprida, para alegria dos donos do dinheiro.

Vivendo de forma insciente a conclusão popularíssima de um projeto que soube representar e para o qual ainda não há alternativa clara, o presidente Lula foi levado a acreditar que poderá ditar em termos precisos a própria sucessão (a tal ponto que se autoatribuiu a potência para redesenhar o perfil da próxima composição do Senado), encarada superficialmente por ele como uma escolha entre o que seu governo realizou e o que o anterior fez de errado ou deixou de fazer. Não ocorre ao presidente e aos seus que as balizas dessa disjuntiva possam ser vicárias (afinal, FHC e Lula se tornaram protagonistas do mesmo projeto) e, muito menos, que o país está desafiado a formular e estabelecer os termos para uma nova era de desenvolvimento. Para destravar o debate e poder iniciar esta nova era, o país precisa se livrar da improdutiva pseudo-oposição entre o PT e o PSDB, verdadeiro teatro do absurdo, que requer o cinismo por figurino e a corrupção por ambiente cenográfico.

Gêmeos bivitelinos herdeiros do projeto de soerguimento nacional do período Vargas-JK (PTB-PSD), PT e PSDB cresceram separados como os irmãos corsos: embora a inserção social e cultural de cada um tenha feito diferença, não degeneraram e, na maturidade, se reencontram com mais semelhanças do que estão dispostos a admitir. Em seus primórdios, o PSDB se apresentou como uma variante da social democracia européia, só que aclimatada nos trópicos: desprovida de braço sindical e centrada na opinião pública universitária. Quanto ao PT, iniciou sua trajetória sob diáfana inspiração socialista, já aguada pela inflexão nacional e vertida na forma de um trabalhadorismo sem fundamento que, por isso mesmo, virou lulismo. Assim, embora embalados em berços distantes e educados em escolas diferentes, a canção de ninar e o hinário edificante foram os mesmos: o cantochão do Brasil crescimentista. Os caprichos da prática política em um país muito desigual – onde as ambições, recobertas de divergências ideológicas na maior parte das vezes infundadas, cavam fossos onde seria mais rentável elevar pontes – levaram estes dois partidos a se posicionarem de um modo que o eleitor está impedido de reuni-los: em campanha, apresentam-se sempre como alternativas inconciliáveis; no exercício do mando, desorientam pela semelhança que não chega a ser de todo encoberta pela poeira da porfia que cava divergências vãs. Dá-se o paradoxo: metade do que de melhor o país logrou produzir para o exercício do poder político tem sempre de se juntar ao que há de pior para derrotar a sua metade mais semelhante. Não por acaso, as forças do atraso nas quais os gêmeos se apóiam são precisamente aquelas que deram materialidade parlamentar à vida política sob a ditadura. Cada um arregimenta e passa a cevar um pedaço do nefasto passado recente no fito de conduzir como protagonista imperfeito a tardia realização de um projeto inatual, que poderia ter sido levado a cabo com maior proveito se ambos tivessem reunido o que têm de melhor, ao invés de robustecer, com as más companhias, o que têm de pior em suas próprias fileiras .

Esta situação conforma provavelmente o exemplo mais cabal da autonomia da política entre nós. E ela se autonomizou a este grau porque nossa institucionalidade estatal e corporativa, nas três esferas (federal, estadual e municipal), desde sempre faculta a quem “chega lá” acesso a recursos que podem ser alocados sem uma vigilância efetiva por parte da sociedade. Com base neles, nossos quadros politicamente mais ativos são selecionados e cooptados por uma lógica espiralada que lhes permite contornar as dificuldades mais salientes antepostas pela desigualdade (sempre ela), levando-os ao sucesso pessoal que alimenta, com seu engajamento remunerado, uma máquina política oligarquizada já descolada do país real, cujos arranjos asseguram aos mandatários, a cada volta, que o velho não tenha termo e o novo não possa se desatar. A situação que os aninha é tão hostil à mudança que as novidades institucionais que lhes ocorrem como solução para os problemas têm sempre duas preliminares defeituosas: dependem do comportamento virtuoso dos protagonistas cuja condução se questiona e/ou reforçam o poder de quem já o tem (financiamento público de campanhas; voto em listas fechadas; cerceamento da liberdade de opinião, etc).

Além de exemplo de autonomia política indesejável, esse estado de coisas, ante os olhos mais e mais incrédulos e desesperançados da população, tornou-se produtor de pantomimas de legitimação, próprias de quando não se quer reconhecer filiação comum evidente: de um lado, impedido de se opor a si mesmo, o PSDB acusa o PT ora de plágio de suas bandeiras, ora de ser mero continuador de suas políticas; de outro, Lula não pode reconhecer os benefícios da herança recebida, nem a bonança internacional que favoreceu grande parte do seu período de protagonista do projeto comum, uma vez que presume indispensável apresentar como obra sua resultados saídos de uma concatenação de circunstâncias inabarcável aqui, da qual ele e seu PT tomaram parte, mas não são autores. Mesmo a assimilação acomodada dos grandes prejuízos locais procedentes da crise internacional em curso (a tal marolinha), mesmo ela deveria ser reconhecida como tributária do que ambos vêm fazendo há 15 anos: segurança patrimonial, estabilidade monetária, saúde financeira, assistência social, domesticação popular e retomada dos investimentos.

Se alguém conhecer, que apresente ao país figuração mais acabada dessa confusão cínica do que o espetáculo em que a auto-intitulada oposição recebe como vantajosas as confissões de irresponsabilidade do ex-oposicionista Lula, sem se dar conta de que o presidente, ao vilipendiar a sua própria trajetória de opositor, está macunaimicamente a desqualificar a condição de oposicionista enquanto tal, numa pirueta obnubiladora que torna aceitável a transgressão da regra e inócua toda crítica que aceite como parâmetro a régua que os gêmeos compartilham: se o projeto é o mesmo, se se trata apenas de disputar o reles mando político de sua realização, não há mal em desqualificar o mandatário de turno para, na curva seguinte, à sorrelfa, espertamente dar ao eleitor o mesmo que o outro já vinha oferecendo (para bem e para mal), e ainda fazer piada de tudo, reforçando a idéia de que os políticos são todos iguais — nivelamento que não seria de todo impróprio se ficasse restrito aos políticos profissionais.

Chegamos a um limite perigoso, que arma situações perigosas, pois atingimos a última fronteira não ditatorial no prolongar artificialmente uma era que já terminou, um projeto que já se esgotou. Não é ditatorial, mas é sufocante. E a única forma de sair do sufocamento é fazer o que a vida reclama: construir uma alternativa fora da estufa que prepara o plebiscito fajuto entre dois prepostos do mesmo. Um país desigual que reúne portentosos recursos naturais num território continental, que deu à luz uma população miscigenada de 180 milhões de pessoas, e que está desafiado pela descoberta dolorosa de que o planeta é finito, já não pode se abandonar à crença em valores e cálculos remanescentes de um projeto de crescimento nacional orientado pelo mero desejo arrivista de substituir importações pela internalização da produção, mormente quando esta é vista como destinada a fomentar um mercado interno de massas orientadas para o consumo de bens a serem produzidos em abundância e indefinidamente, e com base na extração pura e simples de riquezas naturais tidas por inesgotáveis.

Essa época se foi. E o que ela deu de melhor foi a idéia generosa, mas equívoca, de inclusão (a tradução petista da belíndia formulada pelos tucanos), como se houvesse um país que funciona, ao qual se devesse incluir um contingente que está em outro lugar, como que fora, apartado do que funciona e não fosse, ele próprio, variável intrínseca e fiadora do funcionamento inaceitável vigente. Não poderia haver maior contraste entre o que é necessário e o que fazem e pregam nessa área o governo e sua auto-intitulada oposição: enquanto o PT não tira de seus programas sociais nenhuma resultante política inovadora, a oposição se alterna entre atribuir a si mesma o início dessas compensações à pobreza e a denúncia do uso eleitoreiro do seu sucesso.

É provável que a era Lula (nela incluída a oposição) não venha a oferecer emblema mais acabado de seu ocaso inventivo, do que o estardalhaço patrioteiro em torno do Pré-sal, verdadeira apoteose da campanha varguista de há 50 anos, O Petróleo é Nosso, num tempo em que os esforços da ciência internacional estão voltados não para a extração de combustível de origem fóssil (por mais complicada e rentável que se apresente a monótona tarefa), mas para a produção de energias de origem renovável que ajudem a conter a mudança climática oriunda fundamentalmente da emissão de carbono. Se O Petróleo é Nosso, Nosso CO2 é de Todos. Embora o petróleo venha a ter lugar central num projeto que busque um novo modelo de desenvolvimento — pois temos de tirar proveito do nosso atraso relativo –, não será o caso nem de celebrá-lo cegamente em suas aplicações como combustível, nem de deixar de incluir nos custos e benefícios da sua extração garantias e projetos de orientação socioambiental que permitam, no longo prazo, a transição eficaz do modelo do ouro negro para a economia verde.

Para completar o quadro acabrunhador, e como não poderia deixar de ser, a auto-intitulada oposição não se peja de gastar suas energias a bramir sua revolta contra o uso eleitoral do Pré-sal. Faz sentido: se o projeto é o mesmo, tudo que se pode fazer é espernear contra os benefícios eleitorais que advém para o realizador de turno de mais uma conquista do projeto comum, da qual, por um “azar do destino”, se está momentaneamente apartado e, portanto, impedido de comemorar.

Essa escolha do PSDB é muito ilustrativa de suas limitações de formulação acerca do que realmente interessa, pois despreza o fato de que a Petrobrás é o exemplo mais acabado dessa longa jornada do crescimentismo, agora hegemonizado pelo trabalhadorismo: uma empresa petrolífera de economia mista sob controle estatal em que pela primeira vez na história desse país o poder empresarial e o poder sindical se sobrepõem, situação cujos resultados mais pestilentos ainda estão por vir à tona.

Em suma (1) – Se o projeto se concluiu, a alternativa é mostrar ao Brasil a necessidade de um novo projeto, que se apóie nos resultados do anterior para subverte-lo, impedindo que sua vigência anacrônica nos empurre para trás. A plausibilidade desse entendimento está dada, de um lado, pelo aspecto desinteressante que marcava a armação da disputa eleitoral vindoura na forma de um plebiscito; de outro lado, ela se apóia na falência de nossas instituições políticas, marcadas pelas conseqüências de uma autonomização oligárquica.

III. PRIMEIROS PASSOS DE UMA ALTERNATIVA

Ao observarem o caráter infecundo dessa pseudopolarização entre o PT e o PSDB e inconformados com o contraste entre a sua quase irrelevância na cena política brasileira [nota de 2012: irrelevância para onde voltaram depois que Marina deixou o PV] e o papel de destaque que as credenciais do Brasil podem levá-lo a desempenhar num mundo que veem, cada vez mais, compartilhar com eles a preocupação com a mudança climática e a esperança nas amplas possibilidades que ensejam o uso sustentável do esforço humano, da terra, do sol, da água e dos ventos, dirigentes do Partido Verde decidiram renovar seu projeto e reestruturar o partido no rumo da construção democrática de uma economia verde.

Ao darem notícia da primeira reunião que tiveram com Marina, esses mesmos dirigentes do PV abriram para a imprensa o fato político do ano até aqui e, talvez, de todo ele. Desde aquele 29 de julho de 2009 os desdobramentos políticos se sucederam com rapidez e intensidade nada surpreendentes, mas dignos de registro porque servem tanto de confirmação encorajadora para a percepção dos que entendem que a situação está madura, quanto de elemento de persuasão para os que ainda duvidam. Essa notável aceitação preliminar do nome de Marina no PV deve-se, de um lado, às inegáveis qualidades da senadora e, de outro, ao fato de que essas qualidades vão ao encontro de anseios que repelem as resultantes infecundas da situação dramática mais acima descrita. Uma das evidências mais salientes dessa naturalidade entre situação e personagem se apresenta no fato de que há por todo o país quem atribua a si mesmo a idéia de juntar Marina e PV numa campanha presidencial. Todos têm razão, pois tal como na boa carpintaria romanesca, em política os resultados sólidos estão presentes, in nuc, desde o início da caminhada – e por toda parte.

O processo se apresentou em etapas que se desdobraram com a sucessão própria do que é natural, sendo assim compreendidas pela mídia (e, portanto, pela opinião pública interessada), logrando-se êxitos, a saber:

1. deu-se um período de especulações iniciais via mídia, preparadoras do que viria;
2. a protagonista deixou claro seu “intervalo de reflexão” e, como seria de esperar, não foi desmentida nem pela ação de outros agentes políticos, nem por qualquer descrença da mídia;
3. ao abrir interlocução com o PT, iniciou-a pelo Acre, cepa original de tudo, cenário em que confluem a vida familiar-privada e a vida societal-pública, gesto que reuniu, muito a propósito, afeto e razão política, moral-ética e estratégia;

4. logo a seguir, as conversas da protagonista com as “autoridades petistas” se deram entre exclamações de pesar e perda, atmosfera em tudo favorável a um desfecho auspicioso, que culminou com as declarações de que o mandato da senadora era intocável;
5. a conclusão da primeira fase ocorreu com a desfiliação do PT, desfecho que se deu sem atritos com a base do partido e que não agradou as autoridades petistas por razões que não recomendariam a permanência da protagonista naquele partido;

6. iniciou-se uma segunda fase, em que a protagonista se viu à vontade para explicitar tanto as motivações para a mudança, quanto as condições necessárias para que a mudança se desse na direção do PV, sempre dialogando com o legado petista, que não repudiou;

7. tal como no “intervalo de reflexão”, os agentes políticos e a mídia se comportaram como seria de esperar: se colocaram na posição de quem espera uma decisão, sem dar como certa esta ou aquela opção, configurando-se uma expectativa pública tão autêntica quanto benéfica;
8. beneficiada pela credibilidade que justificadamente suscita, a protagonista pôde construir sua adesão ao PV [bem como a daqueles que a acompanhavam] com base em duas condições tornadas públicas: reorientação programática e reestruturação democrática da agremiação partidária [nota de 2012: meses depois, em desgastes crescentes, essas pré-condições à candidatura foram abandonadas, provocando fratura no grupo antes reunido];
9. encontrando-se o PV já em movimentação interna própria aparentemente afinada com as motivações da protagonista, não se encontrou obstáculos de monta para que fossem estabelecidos os termos do acordo que, se entendia, favorecia a vigência daquelas condições;
10. a segunda fase se concluiu no dia 30 de agosto de 2009 com a filiação da Senadora Marina Silva ao Partido Verde.

Em suma (2) – Como não poderia deixar de ser, a variada e auspiciosa recepção ao nome de Marina como candidata à presidência da República não eleva ninguém à condição de grande estrategista ou visionário, pois de realidades maduras, engendradas pela própria dinâmica do beco quase sem saída em que estamos, não se pode esperar senão a apresentação de caminho que de pronto é reconhecido como natural.

IV. IMPACTO NA, E OPORTUNIDADES DA, CENA POLÍTICA

A única força política que pode livrar o país dos erros dessa armadilha improdutiva em que se comprazem a situação e sua auto-intitulada oposição é aquela que propuser um projeto alternativo inovador e aposte no discernimento do eleitor, que vive como impasse simbólico aporias que nascem das agruras da vida material e não está disposto a se deixar embalar no sono proposto pelos realistas com a canção de ninar dos pragmáticos, mesmo que a monotonia da ausência de sonhos seja supostamente compensada pela quase ausência dos pesadelos outrora recorrentes: a inflação e a miséria desvalida. A juventude brasileira quer um projeto pelo qual lutar, quer metas pelas quais sonhar, ocupando-se de dar origem às suas próprias alternativas, assim como a inescapáveis novas deformações.

A entrada de Marina Silva-PV nesse tabuleiro pré-sucessão presidencial promoveu uma troca de jogo: vinha-se jogando damas e passou-se a jogar xadrez. Houve uma diferenciação no movimento das peças e o jogo ganhou complexidade. Como se sabia, cogitar Marina-PV na sucessão leva ao fim, por revelar a sua irrelevância, o plebiscito Lula-FHC e favorece a multiplicação das opções, pelas seguintes razões:

– aparece um terceiro cuja viabilidade, por si só, deve ser considerada;
– o terceiro é egresso do projeto superado e dinamiza a problematização das escolhas feitas por este, mormente nas áreas em que o governo foi mais atrasado;

– a presença de terceiro torna inócuo o sacrifício de outros pretendentes, que se haviam retirado da disputa sob pressão, para configurar o plebiscito;

– já não é o caso de considerar apenas a escolha de “mais do mesmo”, abrindo-se o leque de alternativas à preferência do eleitor.

A viabilidade de Marina-PV nasce da convergência entre os novos desafios mundiais acerca da viabilidade do planeta como plataforma para o conforto humano, por um lado, e o impasse da vida política nacional antes descrito, por outro. Gigante pela própria natureza, o Brasil é visto de fora, e olha a si mesmo, como um viveiro de alternativas socioambientais e de energias limpas com que se pode enfrentar as dificuldades do nosso tempo. Marina é a liderança brasileira mais sintonizada com esse novo lugar do Brasil na cena mundial. Ao mesmo tempo, esse país para o qual todos olham como uma esperança de futuro é o mesmo do desarranjo antigo mais acima descrito, que só se resolverá pela reunião, em torno de um novo projeto liderado pela mesma Marina, do que de melhor há no PT e no PSDB, conjunto que poderá atrair para uma nova dinâmica política os melhores quadros de outros partidos, com destaque para PSB e PDT. Como já disse em outro lugar, não por acaso Marina é aquela cuja atuação demarcou os limites da era Lula, cuja trajetória simboliza o que deve haver de continuidade com o caráter popular dessa mesma era e cuja visão de mundo está em consonância anímica com a perspectiva transformadora que nos remete para além dessa era.

Ao ter o governo Lula como “ponto de partida” para o que propõe, Ciro Gomes (a quem só o gesto de Marina recolocou no campo de jogo – ou seja, ele não era, e não é, alternativa autêntica, que pudesse se apresentar de moto próprio, sem pedir licença, como Marina) faz de si mesmo uma opção a mais para a continuação do esgotado projeto lulista. Como sua menoridade política o impede de criticar o governo Lula enquanto tal, Ciro se refugia no questionamento do arranjo político em torno de Dilma, como a dizer que se trata de continuar, mas com outro tipo de coalizão. A formulação é imaginosa, pois se apóia num temor real do eleitor: Lula não estará lá para conter os apetites. Aliás, o cerne do que há de aventureiro na alternativa Dilma está nisso: ela não tem recursos próprios (até os votos receberá por empréstimo, com carência de quatro anos) para conter a avidez das máquinas do PT e do PMDB.

Preocupado em não criticar o que parece estar dando certo, Ciro não compreendeu que Lula é ponto de chegada, não de partida. Com Lula se encerra um projeto, que terá de receber críticas; com Marina é que se abre um projeto novo. Lula do ABC, que deixou a sua terra e se tornou importante, Lula das montadoras, Lula que se orgulha de ter sido o primeiro dos irmãos a comprar geladeira e carro, Lula, filho e homem de sua época, Lula, o metalúrgico resistente aos desafios socioambientais, encerra tardiamente um projeto antigo (e não por culpa sua, afinal, fez o que pôde e foi além do que seria de exigir), cuja herança teremos de trabalhar. Para sucedê-lo, Marina, que saiu da floresta para se engajar lucidamente na luta brava da cidade, Marina, a que fez importante para o mundo a luta da sua terra, Marina, a filha de seringueiro que se orgulha de ter estudado, Marina, a professora que compreendeu e ensina que não há desenvolvimento sem respeito às fontes da vida.

A humanidade experimenta uma convergência inédita: os interesses da ciência de ponta com os desejos da juventude. Em geral avessos às limitações do aprendizado de rotinas, base de todo conhecimento, contrapondo a elas a vigorosa experimentação dos corpos, os jovens enquanto massa estão pressionados pelos limites socioambientais à expansão dos modos de vida ultrapassados em que se acham semiperdidos, a alternar sentimentos de repulsa, engajamento e abandono, e se vêem desafiados a ampliar seus conhecimentos sobre, afinal, o que se passa com o planeta . Mas esse interesse não é mera reposição juvenil da tensão velha de milênios entre Homem e Natureza, uma vez que aquilo que está sob investigação é a própria ação do homem, que reconfigurou aquela dicotomia primeira na forma atual de Natureza-Homem-Natureza’ (N-H-N’). Esse processo reflexionante cria novas possibilidades para a legitimação racional do revigoramento de energias utópicas, que se esvaeceram ao longo do penoso percurso em que o trabalho perdeu a centralidade que permitira prefigurar-se, na segunda metade do século XIX, um datado sujeito histórico da transformação.

A terceira fase da entrada de Marina em cena termina em 30 de setembro de 2009, quando se encerra o prazo para as filiações propriamente eleitorais. Em outubro inicia-se a pré-campanha, cuja primeira fase se encerrará em fevereiro de 2010. De março a junho teremos a segunda fase da pré-campanha. De julho a outubro dar-se-á a campanha propriamente dita.

Em suma (3) – Quando o fim do apelo motivacional do socialismo internacional e a rotinização oligárquica da política nacional pareciam ter nos conduzido a um inescapável marasmo político, as urgências socioambientais do crescimentismo incauto e o descalabro político emergem como desafio emblemático de velhos problemas em busca de liderança unificadora para alternativas novas. Marina é a pessoa certa, no lugar certo e no tempo certo.

V. DESAFIOS PRELIMINARES

Há que ultrapassar o ambientalismo. Marina é candidata a presidenta do Brasil, não a símbolo internacional com prestígio local. Não se deve desconsiderar que a aceitação preliminar do nome de Marina deriva também da junção perigosa de suas credenciais de liderança com a comodidade de recebê-la como alerta, não como alternativa. Dá-se com o Meio Ambiente algo semelhante ao que sucede com a Reforma Agrária: ninguém é contra porque parece não haver custo em ser a favor – o tranco vai se dar alhures e em terras alheias. É nessa recepção naife da sustentabilidade que vêm surfando as candidaturas concorrentes, que ao incluírem a sustentabilidade em seus projetos, matam três coelhos com uma só cajadada: mostram-se atualizados, reafirmam o caráter de apêndice complementar da questão ambiental e reforçam o confinamento de Marina na posição respeitável, mas atenuada, de portadora de um alerta.

Mas o Desenvolvimento Sustentável contém um alerta ambiental e uma proposição desenvolvimentista. O alerta já foi dado, falta consolidar a proposição desenvolvimentista, fazer as propostas para que o país conheça um novo ciclo de desenvolvimento, que gere riqueza de um modo diferente, e que essa diferença, orientada pelo respeito ao caráter finito e ao equilíbrio delicado da natureza, seja agregadora de valor e mais eficaz para gerar soluções para os problemas vividos pela população. O mais alto requisito moral desse novo padrão de eficácia é o respeito ao direito à vida das gerações futuras; a viabilidade de sua aceitação depende de ele não ser recebido como um obstáculo à fruição da vida pelos que labutam no presente.

Nessa mesma ordem de idéias, a difusão repetida da notícia de que os prazos para que apareçam os resultados das medidas de contenção da emissão de gazes provocadores do efeito estufa são contados em períodos que ultrapassam mais de uma geração gera um tipo novo de cálculo social, pelo qual aquele que se ocupa da tarefa entende de antemão que não se beneficiará do resultado. Esse entendimento é fundamental para que o eleitor se abra às formulações acerca da sustentabilidade. Na contramão, outro desafio da campanha de Marina será não cair na armadilha de pretender relacionar explicitamente toda e qualquer política a ser proposta com a questão socioambiental. Além de sugerir unilateralismo, a onipresença do socioambientalismo conferiria a tudo um ar de invencionice. Em muitos temas, a associação, se ocorrer, deverá ser deixada a cargo do eleitor, sendo de preferir que a aceitação se dê pelas vantagens materiais que ele antecipe no projeto, do que pelo valor moral contido nele.

No Brasil, em razão de nossa longeva, cruenta, populosa e recente escravidão, os apelos a valores elevados são sempre recebidos com desconfiança nos agrupamentos populares: afinal, a hipocrisia moral atingiu por aqui níveis desumanos. A audiência que prestamos individualmente à prédica edificante, quando prestamos, não fala ao que somos (e, muito menos, ao que fomos), mas ao que supomos que deve ser tido como bom. Esse vínculo frágil com o elevado não resiste ao látego das urgências materiais, mormente quando os indivíduos edificados têm de confabular uns com os outros. No curso da interlocução, as boas intenções são escrutinadas e trituradas sob a mó dos interesses, ocultos ou não.

Pesquisas realizadas pelo autor mostram que o voto entre nós, brasileiros, conhece duas motivações. A motivação moral/afetiva, chamada de fraca, e a motivação racional/instrumental, chamada de forte. Embora coexistam no eleitor, em geral essas motivações afloram à predominância em momentos diferentes da campanha. A primeira motivação é chamada de fraca porque se dá a conhecer na fase da campanha em que os eleitores ainda não estão voltados para a eleição. É um período em que o eleitor experimenta como extemporânea a solicitação de opinião acerca do tema, ocupado que está com as lides cotidianas. Provocado, ele até fala do assunto, mas o faz a partir de repertório muito pessoal, imediato, mobilizado à força, que ainda não recebeu os influxos das trocas interpares. Por isso mesmo, externa suas preferências com base em valores que são pronta, fácil e epidermicamente mobilizáveis, mormente quando há escassa memória acerca das “realizações” do candidato.

A segunda motivação, a racional/intrumental, é chamada de forte porque resulta da formação coletiva da preferência. Ela entra em cena depois que a campanha seguiu seu curso e já se presta ao escrutínio coletivo. Desvinculada da vida cotidiana pela via da especialização profissional, a política só ocupa o eleitor médio quando ele sente que está muito próximo do dia em que terá de fazer a sua escolha. É quando a campanha vira assunto público e as pessoas se vêem exigidas a terem opinião. Dão-se as conversas no trabalho, nos ônibus, em casa, na escola e tem-se a formação compartilhada da preferência. Nessa fase, vêm à tona as carências e necessidades materiais, faz-se o cálculo do que está em jogo e, então, a motivação para o voto muda e, no embalo dela, muitas vezes muda também a preferência, que passa de um para outro candidato, segundo ele tenha propostas claras e persuasivas.

Em suma (4) – Diante da conclusão de um projeto bem sucedido, não obstante criticável em suas limitações, é necessário contrapor um modelo novo em que os elementos de descontinuidade possam aparecer como plausíveis e rentáveis. O melhor é que eles surjam nas áreas mais críticas: saúde, violência/segurança, educação, produção e energia poluente (termoelétricas).

VI. O SOBREVALORIZADO PARÂMETRO OBAMA

As eleições presidenciais americanas de 2008 se deram no contexto originado do 11 de setembro de 2001, dia a partir do qual os EUA vieram dando cabeçadas. A pretexto de dar resposta à ferida inesperada, foram arrastados a uma guerra cruenta e prolongada, cuja aprovação foi obtida com base numa mentira presidencial internacionalmente divulgada e desmascarada: as armas de destruição em massa do Iraque. Seguiu-se um período em que o antiamericanismo conheceu um alastramento e intensidade nunca imaginados (que dirá vividos), sentimento hostil que se somou à crise econômico-financeira, carga penosa que jogou no chão a auto-imagem do americano médio que, até então, se sentira poderoso e inexpugnável. O presidente George W. Bush passou a simbolizar esse fracasso e não foi necessário muito trabalho para transformá-lo no espantalho a ser batido: mentiroso, belicista e incompetente.

Obama pôde dialogar com o conservadorismo norte americano porque soube mobilizar um passado mítico em prol de um renascimento, não de uma transformação. Obama falou do futuro promissor tendo o cuidado de avisar que ele se distanciaria do presente ruim, mas para se assemelhar a um reconfortante passado idealizado. A invocação de valores morais e a mobilização dos afetos vieram assentados na dimensão material e palpável da crise, permitindo a Obama apresentar-se como líder de um projeto de mudança que foi habilmente encenado como um resgate de valores recorrentemente sobrevalorizados: o eldorado perdido que pode ser recuperado. Uma conservadora volta ao passado como credencial para um seguir adiante liberal. Essa equação formidável só foi possível porque os norte-americanos há muito se habituaram a se sentirem superiores, vivenciaram um longo experimento histórico que lhes “confirmou” essa superioridade e estavam em uma crise de auto-imagem sem precedentes em razão de reveses internos e externos. A essas circunstâncias se somaram as qualidades pessoais de um homem cuja experiência de vida pôde ser posta em harmonia com a propaganda  de que os EUA são a terra das oportunidades para os diferentes: Obama apareceu como a própria confirmação da possibilidade de vigência do passado venturoso que momentâneos dias maus encobriram.

Para os propósitos destas linhas, não chegam a fazer falta os conhecimentos de que o autor não dispõe acerca da realidade norte-americana. O quadro abaixo esquematiza a situação que se pretende sintetizar, no singelo objetivo de relativizar a importância da campanha eleitoral do fenômeno político Obama para o planejamento da empreitada eleitoral de Marina.

 

[ENTRA AQUI A FIGURA 1]

 

O quadro acima deixa claro que a situação dos EUA era propícia a uma proposta de mudança centrada na propaganda de valores e afetos. Obama pôde falar tanto em valores porque havia base material para o cálculo das perdas de uma classe média empobrecida. Em outras palavras, se as chamadas materialidades e institucionalidades fossem positivas, não haveria nem lugar para um apelo ao passado redentor, nem toda aquela disposição para ouvir a pregação de valores.

Ora, no Brasil em que transcorre o período eleitoral, o quadro é bem outro. Não só Lula não é visto como Bush, mas não o é não por força de algum sortilégio do marketing, senão porque, de fato, está associado a um efetivo, embora contraditório, renascimento do país.
Tendo em mente o que se acaba de discutir, completemos o quadro acima incluindo uma coluna para a realidade do Brasil, fazendo a comparação.

 

[ENTRA AQUI A FIGURA 2]

 

 

Assim classificadas e arrumadas, as realidades dos dois países não deixam muita margem a dúvidas sobre a impertinência de uma campanha centrada em valores quando se está, como nós, diante de uma sociedade cujos pobres alegremente imaginam mover-se na direção da classe média. Observe-se que as três células verdes da coluna dos EUA se harmonizam perfeitamente contra as mazelas das suas células vermelhas. No caso brasileiro, as qualidades da candidata terão de encontrar tradução direta no combate aos problemas do plano material tendo que rediscutir o que se reivindica como êxito e, ainda por cima, sem poder invocar um passado sagrado que houvesse sido profanado. Muito pelo contrário, o nosso passado é mais do que nunca repudiado, mormente ali onde se identifica que ele perdura, agarrado às instituições políticas (o que não deixa de ser um gancho).

Em suma (5) – A inspiradora campanha de Obama não deve ser para nós mais do que um exemplo de técnicas de arregimentação e persuasão. Seria um desastre se tentássemos realizar uma campanha centrada em valores de ordem moral e/ou afetiva. Nosso desafio é fazer da chancela moral de que desfruta a candidata uma janela aberta nas consciências para a aceitação das nossas propostas, que devem estar voltadas à solução dos problemas materiais da população.