A TRAVESSIA DE GENOINO

Carlos Novaes, novembro de 2013

Duas das muitas contribuições dessa segunda metade do julgamento do mensalão (falta a primeira, a do PSDB) foram chamar a atenção para a desumanidade de nossas cadeias e enterrar a bobagem de que decisão judicial se cumpre e não se discute. A tudo se discute e, acima de todos, um dos casos. Genoino mobiliza. Nenhum outro dos condenados no processo suscitou ou motiva discussão sobre a justiça da sua respectiva condenação, mas o caso Genoino nos interroga, nos provoca, requer que falemos. Lê-se nas variadas plataformas de mídia toda sorte de opinião acerca dessa queda – há abordagens sociológicas, políticas, jurídicas, filosóficas e, até, psicológicas. Há análise, há ultraje e há ressentimento – sobretudo ressentimento. Fala-se com azedume de suas caras: haveria não um, mas dois e, mesmo,  três ou quatro Genoinos. Fiquemos atentos, porque estamos nos reconhecendo.

Muitos são os apelos do mundo e, ao contrário de homens como Dirceu e Delúbio, que não se dispersam em dúvidas hamletianas, a maioria de nós, homens comuns, traz dentro do peito não um, mas muitos eus. Decidir qual dos chamados seguir é quase sempre uma luta. Estamos revirando Genoino porque o sabemos um de nós – estamos é nos explicando, falando sobretudo de nós mesmos, de nossa dificuldade para por em ordem idéias, emoções e sentimento de justiça diante de situação tão perturbadoramente familiar – não falo das escolhas de Genoino, falo do que vemos de atormentador nessas escolhas. 

Afinal, por mais de 30 anos (30 anos!), essa figura incomum marcou com sua prática política até adversários, até aqueles de nós avessos ao seu partido. Arriscou a vida contra a ditadura paisano-militar, foi emparedado e torturado por ela e, uma vez liberto, lutou pela democracia – sempre falando, às vezes ouvindo, não raro revendo posições a céu aberto. Mesmo para quem tinha clareza do lento e contínuo navegar do PT em direção ao desastre, a voz dissonante de Genoino varava a treva como um sinal de que ainda havia alguém na gávea.

Apenas a inclinação cômoda pela desesperança na esfera política (afinal, ter esperança implica alguma atitude) explica que muitos prefiram vilipendiar essa memória (que também é sua), tratando Genoino ora como um dissimulado que, finalmente, teria se revelado, ora como um aparatinik de alma stalinista – na verdade, foi bem ao contrário, pois o processo de burocratização e oligarquização do PT (que nada deve ao fervor “socialista” da insânia stalinista, mas antes responde às ambições materiais em uma sociedade periférica desigual) emparedou Genoino pela segunda vez e, então, ele cometeu seu grande erro político: não aceitou, ou não entendeu (nesse foro, que sei eu?) a extensão e a profundidade da derrota que sofria naquele triunfo eleitoral de 2002.

Ao receber a presidência formal do PT sem condições de exerce-la de fato, numa altura em que a férrea liga Lula-Dirceu não poderia senão distribuir para o truco as cartas marcadas de um baralho manjado, Genoino sonhou que jogava xadrez e poderia dar uma de peão em lance de espera. Um erro grave, gravíssimo, se considerarmos que eram muitos os que, mesmo então, ainda o tinham como referência política – mas não um crime. Se as circunstâncias havidas no transcurso do mensalão deixam claro que nosso personagem não poderia deixar de saber pelo menos parte do que se passava, tampouco a memória do que ele foi deixa dúvida de que não vinham dele nem o conceber, nem o gerir e muito menos o negociar a partilha das sujeiras destapadas (estado de coisas que só não é crível para quem não tem ideia de como as decisões são tomadas na cúpula do petismo). Sendo assim, ele não poderia ter sido condenado como os demais e, muito menos, como se membro da quadrilha fosse.

Mesmo emparedado pelo desfavor inevitável da opinião pública e pela dureza não de todo impertinente de um judiciário caolho, Genoino não buscou se livrar empurrando os demais para a fogueira, nem assumindo a parte que lhe cabia nos descaminhos havidos, cometendo, neste último caso, mais um erro. A singularidade dessa situação complexa condenou-o à solidão do esbravejar em via pública, cenário que convida ao patético. Mas olhadas com o mínimo de humanidade, mesmo as atribulações desencontradas por que passa sua saúde nos informam da autenticidade do drama: ao invés do perfil inquebrantável que os cínicos costumam exibir na adversidade, vivida como parte do jogo em que estão para o que der e vier (sobretudo der), Genoino apresenta fraquezas, sofrimentos e perturbações típicas de um Fausto que malbaratou sua merecida reputação.

É hora de cumprir a sentença. Que ele o faça refletindo sobre os erros, sem ânimo de desforra e, sobretudo, sem a determinação ruinosa de a tudo abandonar. Que Genoino encontre forças para voltar à cena pública reencontrado com sua memória, dando a todo aquele que dela partilhou, e ainda preserva em si ao menos a nostalgia de alguma decência, a oportunidade de dizer: muito obrigado.

2 ideias sobre “A TRAVESSIA DE GENOINO

  1. Cláudio Rodrigues

    AS PM’S SÓ EXISTEM ATÉ OS DIAS DE HOJE POR INTERESSE POLÍTICO , JÁ DEVERIA TER SIDO EXTINTA OU TRANSFORMADA EM “POLÍCIA NACIONAL BRASILEIRA” (DE ESTADUAL PARA NACIONAL) HÁ MUITO TEMPO , POIS A ÚNICA COISA QUE SOBROU DA DITADURA FORAM AS POLÍCIAS MILITARES BRASILEIRAS , ENTÃO PORQUE MANTÊ-LAS , QUAL O VERDADEIRO INTERESSE , SERÁ QUE SE NÃO FOSSE MILITAR (CUMPRINDO ORDENS ATÉ ABSURDAS COMO AGREDIR MANIFESTANTES) HAVERIA TODA ESSA REPRESSÃO ? O POLICIAL PODERIA SE RECUSAR , EM RECUSAR NÃO SER PUNIDO COMO ACONTECE HOJE ? VAMOS MUDAR PARA MELHOR O BRASIL , SE DER COLOCAR A PM NO PACOTE , NÃO À CARGA TRIBUTÁRIA EXCESSIVA , À IMUNIDADE E AOS ALTOS SALÁRIOS POLÍTICOS , DIREITOS AOS CUMPRIDORES DOS SEUS DEVERES E OBRIGAÇÕES , OS RIGORES DE UMA LEI QUE PUNI QUEM PRATICA CRIMES PRINCIPALMENTE CONTRA A VIDA , SEJA EM ROUBO OU FURTO OU CRIME PACIONAL

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