PT E PMDB PREFEREM LULA

Carlos Novaes, maio de 2014

Construído como uma burocracia nacional, o PT jamais se engatou na lógica política federativa, razão pela qual, para exercer o mando conquistado por cima, requer o apoio de um PMDB, cujo desengate de uma dinâmica propriamente nacional se reflete na habilidade com que faz o jogo miúdo (das coisas graúdas) no legislativo, nas instâncias locais e nos estados, uma herança do período em que as limitações da ditadura no plano eleitoral levaram à “seleção natural” de atores e métodos aptos a esse jogo em que se ganha avançando por polegadas. Com as sucessivas eleições livres, essa junção pelo que falta a cada um encontra um de seus limites na aspiração de lideranças locais eleitoralmente bem sucedidas do PT pela conquista dos postos eleitorais mais altos em seus estados (o que arrastaria também ao sucesso nos legislativos e nas prefeituras) e na pressão correlata da base e de setores intermediários da pirâmide do PMDB pela construção de um projeto nacional, pois já enxergaram que a falta dele vem comprometendo o êxito no plano infra-nacional, ainda que se prestando ao conforto de seus “líderes”.

O PT está em vantagem nesse jogo não apenas porque é quem, ao final, fica com a caneta na mão, mas sobretudo porque sua máquina burocrática estabeleceu uma tradição de obediência ao “projeto nacional” que logra submeter seus recalcitrantes – com força decrescente, é verdade. Os mandatários do PMDB derivam seu poder do quanto conseguem distribuir para os apetites regionais da fatia de poder que alcançam exercer no consórcio nacional, combinada com a contenção do avanço estadual do PT, braços de uma pinça crescentemente desfavorável.

Salta aos olhos a fragilidade de uma candidatura Dilma como resposta a esse estado de coisas, especialmente quando todos acreditam que uma candidatura Lula está ao alcance da mão. Do ponto de vista do PT, o entusiasmo com a volta de Lula seria a única maneira de tirar suas candidaturas estaduais combalidas do marasmo a que estarão condenadas num cenário em que se oferecerá mais do mesmo; da perspectiva do PMDB, Lula é visto como um pragmático mais aberto ao toma lá da cá – como Eduardo Cunha deixou claro ao se dizer saudoso dele -, pragmatismo cuja generosidade compensaria, para a cúpula, o avanço estadual do PT, ainda que a conta não vá fechar no futuro — mas quanto ao porvir vale para os oligarcas do PMDB o que disse no passado um partner seu na ditadura: “no futuro estaremos todos mortos”.

Pendurando de outro modo os mesmos dados, Dilma não pode dar impulso às candidaturas estaduais do PT porque não é uma liderança eleitoral (seus votos jamais foram seus) e tampouco pode receber delas um entusiasmo local que não suscita (inclusive, mas não apenas, porque agora é vista como aquela que está ocupando um lugar em que Lula deveria estar) – ou seja, esses dois lados do petismo funcionam como lastro desfavorável recíproco; pelo lado do PMDB, o descontentamento com a inabilidade dela na condução dos seus pleitos é evidente há anos, insuficiência que não é senão uma tradução de suas fragilidades propriamente políticas, resumidas no fato de não saber a grande diferença em política entre mandar (gerência das coisas) e conduzir (distribuição de papéis), jogo em que, mais uma vez, Lula é um mestre.

O que falta então para que, afinal, se dê a candidatura presidencial de Lula em 2014? Que ele cumpra o compromisso assumido marotamente com Dilma no recente Encontro Nacional do PT e a faça a primeira a saber que ele decidiu ser o candidato. Pode não acontecer? Pode, mas é muito improvável que o disparate prevaleça em situação em que o óbvio está tão claro para os agentes que contam e é vivido como demanda por 64% dos simpatizantes da marca PT. Se prevalecer, esse disparate terá saído de uma escolha pessoal que só poderá ser vista como irracional e, então, abrir-se-á uma janela para que o eleitor enxergue outra alternativa, redistribuindo os custos pelo esforço novo para dotar o processo de racionalidade, que não poderá ser apontada por aquele que só pode ser visto pelos interessados como o irracional de plantão.

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