MARINA COMO TERCEIRA VIA

Carlos Novaes, agosto de 2014

A próximo DataFolha vai indicar o termos em que se dará a nova largada da corrida presidencial. Esperemos por ele, mas é de supor que Marina vai aparecer bem colocada, como sempre esteve. Mas avancemos um pouco, pois não será surpresa se ela aparecer com pontos acima do patamar anterior, e isso não apenas, nem principalmente, porque se conduziu nos últimos dias afinada com a dimensão afetiva que preside as circunstâncias.

A recusa irracional de Lula em ser candidato, que já discuti em artigo anterior, e o malogro da candidatura de Marina pela Rede, haviam imposto ao enorme contingente de eleitores frustrados a tarefa de buscar uma alternativa, ainda que não tornasse presente para eles a necessidade de uma terceira via. As circunstâncias criadas com a morte de Eduardo Campos parecem indicar que Marina passou a representar não só a terceira via, mas a própria necessidade dela.

A motivação eleitoral do eleitor para o voto tem duas fases: a primeira, mais fraca, se dá nos meses iniciais da campanha, quando o eleitor ainda não está compartilhando suas preferências (ele responde às pesquisas com base num repertório muito restrito de motivações pessoais); a segunda fase, a da motivação forte, se dá quando o eleitor conversa sobre a eleição, quando a preferência é testada no embate com a opinião do outro (e esse outro são aqueles com quem o eleitor partilha sua inserção no mundo). Essa virada de motivação é sempre um grande desafio para os candidatos, pois ela pode implicar também uma mudança na intenção de voto, isto é, um candidato preferido na primeira fase pode deixar de sê-lo na fase forte. Daí a localização temporal e a importância do horário eleitoral, quando cada campanha busca a sintonia com o eleitor no período em que ele passa a se interessar coletivamente pelo pleito.

O desaparecimento brutal de Eduardo Campos antecipou a troca da motivação eleitoral porque trouxe a eleição para a conversa cotidiana, no trabalho, no ponto de ônibus, na escola, à mesa. É essa conversa que engendra a formação coletiva da preferência, pois ela arranca o eleitor das suas motivações epidérmicas e as substitui por motivações propriamente públicas. No ritmo frenético que os acontecimentos recentes impõem, o eleitor está sendo levado a construir suas razões coletivas de voto sob forte impacto emocional, ao invés da transição suave que costuma se dar ao longo do decisivo mês de setembro. Assim, a tragédia também antecipou o horário eleitoral, mesmo que seu início oficial seja adiado. Essas novidades podem beneficiar Marina de um modo duradouro porque a ampla e detalhada cobertura da mídia, juntando lágrimas a gráficos, obrigando todos a elogiar a vítima, arrastou o eleitor a reunir razão e emoção sob a sensação acachapante de que descobriu uma alternativa ao mesmo tempo em que a perdeu: a queda do Cessna envelheceu a política brasileira, fez caducar esse rame rame PTxPSDB,  e o eleitor descobre a necessidade de uma terceira via ao mesmo tempo em que é levado a olhar para Marina, conjunção que dá potência e primazia à sua condição de alternativa.

Nessa ordem de idéias, não haverá motico para surpresa se sob o empuxo da determinação do eleitor de empurrar todo o sitema de volta à racionalidade vier a sair do armário uma outra candidatura, que tem estado artificialmente na sombra – cujo êxito, a essa altura, é bem duvidoso, pois Lula pode ser parte do que envelheceu nos últimos dias. Salvo erros dela própria, que, como já vimos, nunca podem ser descartados, a opção por Marina tem todas as condições para  vir a ser o desfecho natural desse cadinho de represamento, negação e perda na busca de saídas para o sufuco.

Uma ideia sobre “MARINA COMO TERCEIRA VIA

  1. Stela

    Novaes, fiquei muito feliz com a volta das tuas análises sobre a conjuntura política brasileira.
    abraços
    Stela

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *