O LOOPING DAS FACÇÕES

Outras tarefas e a falta de interesse em perseguir uma situação política cujos traços principais se haviam desenhado há tempos levaram-me a não publicar neste blog por quase um ano. Dentre as tarefas mencionadas está minha pesquisa sobre o realismo literário russo do século XIX, da qual o texto Turguêniev levanta o olhar_PARTE-I_Uma leitura de Eugênio Oneguin é resultado parcial, a ser complementado com outro, que está quase concluído.

Como essa diminuição da carga de trabalho se deu justamente na hora em que a política brasileira completa com precisão astronômica uma volta ao ponto de partida da sua desorientação mais recente, me vejo motivado a voltar a me ocupar dela neste blog.

O LOOPING DAS FACÇÕES

Carlos Novaes, 09 de novembro de 2019

Há tempos disse aqui e em outros artigos o que pensava da condenação de Lula, posição que mantenho, assim como sigo defendendo como legítimo, necessário e oportuno que réus condenados em segunda instância possam ser presos – proibir essa modalidade de prisão contribui para a impunidade dos ricos e nada muda para os pobres, que têm sido mantidos nas cadeias até sem terem sido ouvidos pela primeira instância do Judiciário.

O fato de Lula ter sido solto em decorrência da proibição de prisão com base em condenação em segunda instância escancara o largo looping realizado pelas facções do Estado de Direito Autoritário desde que se iniciou o processo de impeachment de Dilma: naquela altura, as facções não petistas imaginaram que poderiam dispensar a facção de Lula sem sequer agradecer pelos serviços prestados, empurrando o sistema político-estatal a uma desordem irracional, pois não é senão irracional uma decisão que prejudicou diretamente ao conjunto das facções (vitória de Bolsonaro, com seu inaproveitável ímpeto anti-sistema); não abriu caminho para ganhos coletivos futuros (vitória de Bolsonaro, com sua cegueira para o que realmente importa); gerou tão-somente ganhos ocasionais aos oportunistas de ocasião (vitória de Bolsonaro, que fraqueou o Estado à predação de varejo sem alterar o jogo faccioso que o estrutura); e, por tudo isso, tornou ainda mais incerto um futuro que nunca fora claro.

Depois de uma vez mais ter se deixado arrastar para polarizações fajutas, a sociedade brasileira mais uma vez descobre que pagou caro para conhecer um final que os principais agentes do establishment já haviam previsto: eram contra o impeachment de Dilma, pois viam na manobra do baixo-clero, depois encampada por facções várias, uma ação danosa aos seus interesses que, no final, obrigaria a uma volta à situação anterior.

A decisão do STF é uma gambiarra pela qual o sistema político-estatal, ao reintegrar Lula e seus seguidores, volta a se arrumar em campo em meio à crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário, ao qual reivindica, com todo direito, como obra de suas malas-artes nos últimos 30 anos – enfim, o óbvio se impôs: num país com essa desigualdade, não há como manter as franquias democráticas eleitoreiras que lhes sustentam o jogo sem a participação do lulobsoletismo. Não é possível garantir a ordem em que todas as facções refugiadas no Estado se locupletam (ganhos salariais e/ou vantagens de toda ordem e/ou corrupção) sem as válvulas de escape oferecidas pelas facções autointituladas de esquerda, que se especializaram em amortecer as tensões que poderiam afetar para valer os interesses do establishment.

Com a ausência de alternativas, no curto prazo a reentrada de Lula em cena reduz o campo de ação em que Ciro Gomes já não ia bem por seus próprios erros, e beneficia Bolsonaro, pois realimenta o sentimento antissistema da sua base, formada por quem respondeu à crise de legitimação do Estado querendo mais autoritarismo. No médio e longo prazos, Lula deverá avançar como alternativa possível; Ciro deve desaparecer, pois dificilmente se tornará capaz de reposicionar-se a ponto de ser visto como uma terceira via; e Bolsonaro, além da ação oposicionista de Lula, terá contra si os resultados funestos da própria imbecilidade e será desidratado pela avidez das “alternativas” que se apresentam em seu próprio campo político.

2 ideias sobre “O LOOPING DAS FACÇÕES

  1. Luciana Mayrhofer

    Ainda bem que você voltou a escrever. Tenho consultado seu blog praticamente todos os dias desde 11/11/2018, esperando encontrar algum comentário. Por favor arrume sempre um tempinho para seus leitores. Você nos faz falta! Abs.

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