JOGO DE FACÇÕES: UM ESTUDO DE CASO

Quando 20% se tornam mais fortes do que 80%

Carlos Novaes, 24 de maio de 2020

Com acréscimo às 15:10 h e + acréscimos às 21:10 h, em Fica o Registro

Em artigos recentes deste blog ofereci argumentos para a ideia de que, por daninha que se mostre, a ação da besta atolada não significa em si o apocalipse, situação que ficou mais clara depois que o besta deixou de parecer uma força emergida da sociedade e  se assumiu como membro de mais uma facção estatal, de início restrita ao meio militar, mas agora já articulada a velhas facções congressuais, distribuindo cargos ao Centrão e negociando com Rodrigo Maia, do DEM.

Depois de ter sido tragado pelo jogo das facções estatais, Bolsonaro, em razão da ignorância, truculência e voluntarismo com que se conduz sob a pandemia do novo coronavírus, já está na defensiva na disputa com as outras facções. O governo descortina-se como picadeiro para mais uma luta entre quem busca reunir poder para fazer dinheiro, outra vez opondo facções paisanas e militares, que lutam por hegemonia no exercício faccioso dos poderes institucionais do Estado de Direito Autoritário – daí, por exemplo, a ocupação ruinosa do ministério da saúde por militares e as onerosas incursões na Amazônia, verdadeira farra de helicópteros, madeira ilegal, incompetência, mineração e queimadas, com a tropa marchando gloriosa para infectar populações indígenas indefesas.

Eis a face mais horrenda da luta de facções que há tempos nos infelicita. Estamos na fase terminal da crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário, e não sob a ameaça do apocalipse depois de um período que mereça defesa. Ante desafio tão estupendo, imersos na crise de legitimação de um Estado indesejado, nossos progressistas e nossa auto-intitulada esquerda se uniram conservadoramente para nos convidar a dar um passo atrás junto com eles, e tudo porque não podem enxergar que a fábula fala deles.

A análise de um artigo recente do deputado Marcelo Freixo, publicado na Folha de S.Paulo, ajuda a agarrar o problema.

Freixo acaba de desertar de um projeto natimorto: uma atabalhoada pré-candidatura à prefeitura do Rio em aliança com o lulopetismo. Depois do arranjo personalista não ter sido aceito sequer pela base do seu próprio (vá lá) partido, ele resolveu disfarçar com “grandeza” a inviabilidade do que pretendia, e passou a torturar a realidade: ao invés de simplesmente reconhecer que tomara um caminho errado, que se mostrou inviável, ele está a pretender que se interprete a sua desistência como um sacrifício em nome da “unidade” contra a besta…

No que tem de propriamente jornalístico, o artigo de Freixo é uma recuperação acertada e bem escrita da marcha da besta. Está tudo lá, do pendor ditatorial às reformas nefastas, do apoio às milícias aos decretos daninhos, que agridem sobretudo aos mais fracos. A indigência do artigo está no ajuizamento intelectual do problema.

Freixo não se dá conta do nonsense de reivindicar como conquista democrática esse mesmo Estado de direito que a besta está a manejar com toda desenvoltura para o seu projeto autoritário. O ex-pré-candidato não entende o básico: o Estado é o mesmo deixado por tucanos e petistas. As supostas “conquistas” havidas no período anterior à presidência do besta foram fruto de meras canetadas, e é por isso que agora voltam ao pó pelo frenesi de meras canetadas na direção contrária. Não houve progresso civilizatório algum, houve arranjos distributivos e institucionais na justa medida para garantir o assento das facções nas cadeiras eletivas de poder, já que num Estado de direito o governo e o legislativo só podem ser alcançados via voto popular – o voto de um eleitorado que eles se especializaram em adular, não em esclarecer. Tudo foi improvisado, nada foi consolidado — deram-se arranjos entre as facções estatais, acomodadas em seus próprios “anéis burocráticos” com a sociedade, reciclando forma herdada do entulho da ditadura paisano-militar.

Pendurados no carrossel dos que conservadoramente defendem a recuperação de um fantasioso Estado democrático de direito que nunca existiu, incapazes de compreender e dialogar com nada menos do que 80% da sociedade brasileira, Freixo e os demais fizeram dos incondicionais 20% que apoiam o besta um problema maior do que são, atribuindo a essa parcela minoritária a força do apocalipse. Ora, o problema principal não são os 20% que já tomaram seu rumo na estrada que leva de volta à ditadura; o desafio está em apontar um caminho para os 80% que querem ir adiante, mas não sabem como, nem a quem ouvir, traídos que foram pelo PSDB e pelo PT. Para o gato que não sabe o que fazer, quatro ratos podem assumir ares de cavaleiros do apocalipse.

Essa presumida vanguarda não consegue se conectar aos 80% precisamente porque está agarrada feito marisco ao que essa imensa maioria recusa, ainda que com níveis diferentes de clareza: o Estado de Direito Autoritário.

A pré-candidatura de Freixo ruiu porque ele ofereceu a uma sociedade enojada uma aliança com a facção mais vistosamente enlameada desse Estado, o lulopetismo (a injustiça que há nessa situação não está em haver lama demais sobre Lula e os seus, mas em haver lama de menos sobre os demais).

A proposta de Frente de Freixo já nasceu morta porque não dialoga com os 80% que já decidiram deixar para trás o que a autointitulada esquerda e os chamados progressistas defendem como meta da tal Frente: restaurar o status quo vigente antes da vitória da besta (mesmo tendo sido justamente a recusa da maioria a esse status quo que levou o besta à vitória!).

É esse insistente recalque do ímpeto transformador da maioria da sociedade que pode levar o Brasil ao apocalipse, quer esse mula sem cabeça permaneça ou não na presidência da República.

Fica o Registro:

[15:10h]Depois do recuo no domingo passado, Bolsonaro compareceu hoje a uma manifestação com golpistas gritando slogans e portando faixas contra o Congresso e o Judiciário. Não vão faltar repetecos de análises sobre a “estratégia” da besta, propositadamente errática etc.

Nada disso. Longe de ser uma “estratégia”, esse vai-e-vem reflete a confusão em que se acha a besta. Ainda antes da eleição de 2018, opinei que Bolsonaro era um fenômeno novo: a marionete das massas. O fato de seu governo já ter se tornado expressão de uma nova rodada da luta de facções não abole a relação de Bolsonaro com sua base dura. Sob fogo cruzado de outras facções, entrincheiradas em outros poderes da República, ele está entre dois comandos: Centrão e militares fascistas por um lado, e a massa por outro. Não há estratégia alguma. Ele está perdido e se enfraquecendo a cada zigue-zague, pois não há como agradar a base com o jogo de facções a que seu governo se prostrou.

[21:10h]Se ao exibir no SBT a gravação da reunião ministerial Silvio Santos pretendeu ajudar a besta, errou feio. Ao contrário do que pensa o próprio Bolsonaro, o conteúdo do material aumenta as suas dificuldades exatamente porque dá coesão e ânimo aos 20% incondicionais, e por duas razões: (i) essa animação atrapalha alcançar a normalidade institucional necessária à ação paisano-militar das facções que apoiam a besta em sua luta contra as outras facções estatais; e (ii) enquanto agrada os tais 20%, o conteúdo da gravação afasta os 80% que estão à espera de uma via para ultrapassar toda essa insânia.

A única possibilidade de Bolsonaro sair-se bem da situação seria a Covid-19 sumir rapidamente, na linha da imunidade cruzada, uma hipótese aventada por alguns cientistas: grande parte da humanidade já teria tido contato com o coronavírus, mas permaneceria assintomática em razão de imunidade adquirida pelo combate do organismo a vírus anteriores, semelhantes ao novo coronavírus. Ainda sabemos muito pouco sobre a Covid-19.

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