PERPLEXIDADE COM O QUÊ?

Carlos Novaes, 23 de agosto de 2020

Assim como há algumas semanas estávamos imersos em análises do apocalipse iminente, agora é a vez da maré que volta: ao invés das certezas do apocalipse, a mídia convencional está inundada de perplexidades, não sendo infrequente que os perplexos com a popularidade desse Bolsonaro rendido ao Centrão sejam os mesmos frentistas que ainda ontem davam como certo o projeto golpista daquele Bolsonaro que berrava contra o Congresso (comandado pelo mesmo Centrão!).

Bolsonaro recuperou parte do que perdera e ganhou um pedaço do apoio que jamais tivera porque tomou duas providências:

  1. Recuou por palavras e gestos do projeto ditatorial: largou na rua seus apoiadores mais autoritários e dobrou-se ao pendor da maioria que prefere viver sob democracia (ainda que essa maioria não vá além das franquias democráticas hoje existentes, faltando discutir o que entendemos por democracia quando se põe a desigualdade na conversa). E por falar em desigualdade…
  2. Distribuiu dinheiro aos mais pobres e a nem tão pobres (entre estes estão jovens, numeroso contingente que está pondo dinheiro no bolso pela primeira vez graças à pandemia).

Ou seja, mais uma vez, estamos diante de um presidente da República que, rendido ao Estado de Direito Autoritário, se vê empurrado a fazer o jogo das facções estatais, incrustadas como mariscos nas nossas instituições democráticas: obedecer aos rituais eleitorais e de livre-opinião em atividade, enquanto alivia tensões impostas pela desigualdade, pelo menos até a próxima crise, ocasião na qual as facções voltarão a encenar seu telecatch, contando que a platéia continue a se dividir em polarizações fajutas enquanto vai trocando presidentes.

Para apocalípticos e frentistas, a transparência da situação acima é impenetrável pelas seguintes razões:

  1. Eles acreditam que o Brasil se organiza num Estado democrático de direito, não importando que, na prática, esse Estado de Direito mate os pobres de fome e à bala; esteja coalhado de facções a fazer o contrário do que manda o Direito;  tenha um Congresso desde sempre controlado por quem mantém a desigualdade; sustente um Judiciário repleto de privilégios; encurrale as classes-médias nos estreitos limites do dogma de que os ricos nada podem perder (nem do que já acumularam; nem dos mecanismos que lhes permitem acumular);
  2. Tendo feito um grande esforço para entrar na cabeça de Bolsonaro (como se isso fosse possível!), esse pessoal tem grande apego aos resultados que julga ter alcançado nessa faina (como se isso fosse relevante!) e só consegue entender as atitudes do besta segundo os cálculos táticos e estratégicos que atribui ao milico genial. Nossos teóricos esqueceram-se de tudo que pareciam ter aprendido sobre os homens fazerem sua própria história, mas não sob condições da sua escolha. Tudo se passa como se o “metódico”, “esperto” e “coerente” Bolsonaro tivesse não apenas recuado por cálculo, mas mantivesse sob controle as consequências do próprio recuo, como se essas mesmas consequências não caíssem em dobra sobre ele, reforçando com novos compromissos e estados de coisas os obstáculos que o seu projeto ditatorial encontrou logo na primeira rodada, obstáculos estes que o levaram a dar marcha à ré de volta ao velho normal – é como se amanhã o besta pudesse simplesmente voltar a pôr em prática a intenção, que deveras tem, de ser a besta;
  3. Ao restaurar o velho normal, Bolsonaro complica duplamente a vida desses teóricos que vêm pregando uma frente para o país voltar ao status quo anterior a Bolsonaro (só que, dessa vez, com ainda mais poder aos militares…). Primeiro, essa restauração com mais poder aos militares já ocorreu, só que sob a presidência do besta, que juntou os milicos e o Centrão. Segundo, a frente imaginada requer isentar o lulopetismo e/ou os tucanos de responsabilidade pelo que estamos vivendo e não há nada mais parecido com o que esses dois fizeram do que o novo Bolsonaro! A diferença – realisticamente não desprezível (pelo contrário), mas politica e teoricamente incômoda – está em que Bolsonaro trouxe para o primeiro plano interesses, forças políticas e métodos que sempre estiveram presentes na sustentação subterrânea dos mandatos presidenciais de FHC, Lula e Dilma. O pior é que a vinda desse entulho dos bastidores para a ribalta é resultado direto da merecida (ainda que por vias tortas) desmoralização de PSDB e PT, justamente porque se associaram ao que devia ter sido deixado para trás – onde nos levaria uma Frente com essas forças?!

Apegados à ideia falsa de que houve um grande avanço na direção da democracia (e, até, do socialismo!) nesses governos saídos da polarização fajuta entre PSDB e PT, nossos apocalípticos e frentistas nem podem enxergar as semelhanças e continuidades que explicam os últimos 30 anos da vida brasileira, como ainda são empurrados a criar teorias mirabolantes para explicar o que se passa, sendo a mais engraçada delas a que está na expectativa de um suposto “novo realinhamento eleitoral” dos pobres do Nordeste brasileiro.

A coisa funcionaria assim: os pobres do Nordeste teriam se realinhado eleitoralmente em 2006, quando votaram pela reeleição de Lula, depois de o terem recusado em 2002, quando preferiram Serra. Assim, em 2006 teria surgido o “lulismo”, fruto do tal realinhamento eleitoral do eleitorado pobre do Nordeste. Agora, depois de terem votado em Haddad e nos candidatos a governador do PT, esses mesmos pobres estariam a dar sinais de um novo realinhamento, na direção de Bolsonaro (ainda não se falou em “bolsonarismo”, mas não demora…).

A “teoria” esdrúxula resumida acima é amplamente aceita, só que não tem pé nem cabeça. Afinal, o eleitorado pobre do Nordeste não se realinhou em 2006, nem está agora a se realinhar. Continua onde sempre esteve: vota em quem lhe dá algum dinheiro significativo. Em 2002 quem dava era o FHC, então votaram em Serra. Em 2002, Lula ganhou de Serra contra o voto do Nordeste. Uma vez presidente, Lula fez o que já fizera FHC, deu dinheiro aos pobres do Nordeste sem mexer na estrutura da desigualdade. Quando chegou 2006, os pobres do Nordeste continuaram a votar como sempre: votaram em Lula, que lhes dera algo significativo. Em 2010 e 2014, como sempre, votaram na sucessora de Lula, que continuava a lhes dar dinheiro. Em 2018 votaram em Haddad, o candidato de Lula, pois Temer não só não lhes dera nada a mais, como ainda nem tivera tempo de cortejá-los. Em 2020, a pandemia levou Bolsonaro a lhes dar muito mais dinheiro do que jamais haviam recebido, logo, passam a achá-lo bom, como outrora acharam FHC, Lula e Dilma. Se Bolsonaro encontrar meios de manter a distribuição de dinheiro, eles irão votar nele em 2022, sem jamais terem mudado de conduta.

Veja bem, leitor, quem vem se realinhando são os presidentes, não os eleitores pobres do Nordeste. FHC se elegeu para desenvolver o Brasil depois de ter domado a inflação, mas deixou o Real encruar e se realinhou às velhas oligarquias. Lula foi eleito para transformar o Brasil, enfrentando a desigualdade (a tal “inclusão”, lembra?), mas se realinhou ao jogo de facções, distribuindo migalhas e miçangas, caminho que Dilma não abandonou. Bolsonaro foi eleito como o candidato antissistema, já se realinhou ao jogo das facções e começa a distribuir migalhas, sendo improvável que ache necessário distribuir as miçangas culturais de que os antecessores tiveram de lançar mão – acha mais rentável dar dinheiro aos militares.

Resumindo muito: os trabalhadores organizados, os pobres das periferias urbanas e as camadas médias fazem um esforço enorme para encontrar o, e perseverar no, que lhes parece o caminho da mudança e votam como podem no que julgam ser um nova política, derrotando as forças do atraso. Na rodada seguinte, os eleitos para mudar se realinham ao velho normal, passam a cortejar e a dar migalhas ao eleitorado que havia sido derrotado para que pudessem triunfar com seu projeto de mudança, jogando a maioria da sociedade em mais uma rodada de desorientação e polarizações vazias, para benefício dos eternos ocupantes das nossas instituições democráticas.

Fica o Registro:

Quem está minimamente familiarizado com as ideias que desenvolvo neste blog não deve deixar passar a oportunidade de ver um exemplo de como se dá o dessorar das ideias entre nós. Em artigo na Folha de S.Paulo de hoje, Fernando Haddad, como quem não quer nada,  naturaliza o passado de traições recentes à maioria da sociedade brasileira dizendo que “Em duas décadas de disputa por diferentes projetos de futuro, tanto PT, pela centro-esquerda, como PSDB, pela centro-direita, tiveram que se aliar ao passado” (grifo meu). Como assim, tiveram?! Vocês preferiram a via fácil de se aliar ao passado do que a pedreira de realmente se expor à construção de um projeto de futuro.

Mais adiante, no mesmo artigo, Haddad se sai com essa: “ A Lava Jato sempre contou com duas vertentes: a de Sergio Moro, que tinha a finalidade de destruir uma força política, o PT, e poupava de melindres as demais (revejam as fotos de Moro com Aécio e Temer); e a de Rodrigo Janot, o artífice do Joesley Day, que queria implodir todo o sistema político-partidário.” Haddad fala em “vertentes” da Lava Jato, evitando o termo facções (como chegou a falar no passado), precisamente porque falar nas facções da Lava Jato exigiria tratá-las pelo que são: formações do Estado de Direito Autoritário em que o lulopetismo está vistosamente implicado. Já notaram que Haddad não fala de corrupção, nunca, nem mesmo diante dos inquéritos abertos contra os tucanos de SP? Ou seja, depois de terem sido incapazes de construir um projeto comum para o Brasil e nos terem trazido à situação atual, o silêncio sobre a corrupção de PT e PSDB é a solda tardia da sobrevivência que restou para os pretensos protagonistas da Frente das Facções. Não à toa estão unidos ao Centrão e a Bolsonaro no desmonte da Lava Jato, cujas mazelas estão servindo de pretexto para “estancar a sangria”, quando deveriam servir para corrigir os rumos do necessário combate à corrupção.

2 ideias sobre “PERPLEXIDADE COM O QUÊ?

  1. João Rocha

    Professor estava esperando sua nova análise. Diante do atual cenário, creio que Bolsonaro vem forte para 2022, uma lástima haja vista que não teremos uma frente diante desse desastre. Não é o novo nem velho normal, é um apocalipse normal.

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  2. Ricardo

    A corrupção já se converteu em endemia nas entranhas dos partidos, gabinetes de congressistas e secretarias ministeriais. Veja o caso de nosso atual presidente, eleito com a promessa de combate à corrupção de gola alva e fortemente suspeito de praticar corrupção rasteira.
    Basta ganhar os holofotes que um político logo tem a depravação de seus atos pregressos e hodiernos desnudos para a massa, boa parte da qual, quando não se impõe a cegueira voluntária, sinaliza que pode ser comprada. Isso prova que a desigualdade socioeconômica atrelada aos baixos índices educacionais do país se traduz no filão de nossa elite dirigente. Faz lembrar os senadores e magistrados de Roma encenando virtude para o povo que se contentava com pão e circo.
    Agora, sendo mais pragmático, estamos assistindo, na semana que corre, ao governo se debater para dar à luz um novo programa nacional de auxílio aos pobres. Um ministro cada vez mais esvaziado de autoridade em sua própria pasta, em nome da santa austeridade nas contas públicas, alega que o novo “Bolsa Família” não pode passar dos R$ 270,00, e isso cortando outros programas importantes, como o Farmácia Popular; já o presidente, que recentemente descobriu sua “vocação populista”, mesmo a despeito da vigência do Teto de Gastos e da Lei de Responsabilidade Fiscal, acena com a efetivação de uma importância maior. E não é só uma divergência pontual: o próprio ministro, semana anterior, ao se referir aos gastos que o presidente anda sendo convencido à sancionar, comunicou a possibilidade de se desenhar uma “zona de impeachment”. Pelos vistos, após o pilar do combate à corrupção ter ruído com a saída de Moro, chegou a vez de o pilar da ordem fiscal conhecer destino semelhante Se ficar nesse governo, Guedes assume papel decorativo.
    A pergunta que resta é: que país sobrará (inclusive na dimensão das relações internacionais) quando o aventureiro com a caneta e o Diário Oficial na mão esgotar seu prazo na cadeira presidencial? Espero com isso que a nação aprenda a se reinventar, do contrário estaremos fadados a assistir esse mesmo filme ad aeterno.

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