SINAIS DE EROSÃO NO APOIO AO BESTA?

Carlos Novaes, 05 de novembro de 2020

Com acréscimo em 06/11, às 10:00h, em Fica o Registro

Resultados de pesquisa DataFolha publicados há pouco mostram a liquefação eleitoral de Russomano, o que replica desempenhos anteriores dele em disputas eleitorais pela capital de São Paulo. Embora o personagem seja o mesmo e a situação esteja a se repetir, há significado novo nesse insucesso: é que havia a expectativa de que o fator Bolsonaro atuasse nesta eleição de modo a alterar o desfecho das malsucedidas candidaturas anteriores de Russomano. No entanto, não obstante o apoio explícito do besta, a história se repete, ainda mais farsesca.

Olhada de modo apressado, a situação indicaria que as coisas se passam assim porque Russomano é tão frágil que nem mesmo o apoio do bem-avaliado Bolsonaro consegue levar o eleitor a fixar no paladino dos consumidores incautos sua preferência eleitoral. Mas talvez não seja bem isso.

Como já expliquei aqui, a formação da preferência eleitoral tem, para mim, duas fases: uma, à qual chamo de motivação emocional, e outra, que digo motivação racional para o voto. Russomano é o típico campeão do emocional, quando o eleitor responde solitariamente às pesquisas; e, depois, torna-se o não menos típico perdedor no ajuizamento racional, quando o eleitor passa a formar coletivamente a sua preferência, respondendo às pesquisas já não segundo o que lhe dá na telha, mas segundo a sua inserção propriamente social na esfera pública política.

O fato de nessa passagem da motivação emocional para a racional o eleitor, a despeito do apoio do besta, ter mais uma vez deixado Russomano de lado, pode estar a indicar que estamos diante de um início de erosão oculta no apoio ao próprio Bolsonaro, percepção que se reforça quando observamos que outros candidatos apoiados pelo besta também estão indo mal, ao contrário do que o prestígio de Bolsonaro sugeria. O fenômeno pode ter um sentido mais geral.

Minha hipótese é a de que para persistir no apoio ao besta contra evidências tão notórias da inadequação dele para o cargo presidencial, e num ambiente altamente polarizado, o eleitor foi levado a um engajamento emocional que torna difícil para ele reconhecer, nas pesquisas, que já não aprova Bolsonaro tanto assim. Nosso cérebro tende a conservar narrativas, especialmente quando elas foram construídas para reforçar/recalcar estados emocionais profundos. Dessa perspectiva, parte do eleitorado que ainda diz nas pesquisas apoiar Bolsonaro já está a se distanciar dele, e dá mostras disso ao transferir para os candidatos apoiados por ele a aversão ao besta que deveras já está a desenvolver.

Fica o Registro:

  • E a mídia continua a tratar o comportamento antirrepublicano de Trump como suposta ameaça real às instituições dos EUA — bom para vender jornal e gerar cliques e likes, mas péssimo para levar as pessoas a avaliarem com proveito a situação. Trump já começou a ser derrotado em suas descabidas solicitações ao Judiciário e logo se verá diante da inapelável realidade da derrota. Quando a hora chegar, ele deixará a Casa Branca e se tornará passado (ainda que aquilo a que deu voz vá persistir, é claro).
  • Supor que, uma vez derrotado, Trump possa reunir forças que lhe permitam não entregar o poder é pura tolice; não sendo tolice menor a ideia de que ele possa, uma vez fora da presidência, se tornar uma espécie de líder de contingentes insurgidos contra as instituições dos EUA.
  • Dentro de pouco tempo, estaremos diante de um cenário ainda mais patético do que aquele visto aqui há poucos meses, quando se propagaram riscos imaginários às franquias democráticas no Brasil: os analistas do caos vão continuar a escrever nos jornais como se não tivessem escrito as bobagens alarmistas que inquietaram seus leitores e espectadores, contribuindo reiteradamente para a desorientação deles.
  • 06/11 – 10:00h — E a desinformação continua: o comportamento execrável de Trump é repetidamente classificado na mídia convencional como antidemocrático. Não é isso. Trump se conduz de modo antirrepublicano. Ele atenta contra os ritos da República, não contra direitos democráticos como a livre opinião, manifestação, liberdade de imprensa etc. Trump não ataca as franquias democráticas, ele faz uso antirrepublicano delas.

3 pensou em “SINAIS DE EROSÃO NO APOIO AO BESTA?

  1. Ricardo

    Em BH o candidato ligado ao Ciro Gomes está na frente do candidato bolsonarista, segundo as pesquisas. Aqui no Rio Paes lidera com larga margem sobre Crivella, o “candidato besta”. Agora, é bem difícil dizer se o pífio desempenho de Crivella nas pesquisas de intenção de voto se deve aos sucessivos ESCÂNDALOS em torno de sua gestão ou à associação com o atual presidente. Talvez um pouco dos dois.
    Acho que o castelo de cartas de Bolsonaro começa a se desfazer com a derrota do besta dos bestas, sua grande fonte de inspiração e guia boçal: Trump. Sinal, eu creio, de que o vento das mudanças logo irão soprar aqui no Brasil. Espero encerrarmos este capítulo trágico da história política recente vendo tanto Trump quanto Bolsonaro julgados e presos por seus crimes. O besta por prevaricação, lavagem de dinheiro e outros tantos desvios administrativos, e o besta dos bestas por sonegação de impostos.

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  2. João+Rocha

    Boa tarde professor,

    Infelizmente não vejo um cenário diferente do que a vitória de Bolsonaro em 2022. Sobretudo porque não há uma liderança capaz de derrota-lo. Não temos uma frente ampla, um partido capaz de reunir forças. A esquerda está fragmentada e o lulusmo corrói as bases para uma renovação. O Psol faz frente mas parece não ter o mesmo alcance. Vejo Flávio Dino como uma liderança, porém não nacionalmente. O que o senhor espera para 2022?

    Obrigado por nos brindar com novas análises.

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    1. Carlos Novaes Autor do post

      É cedo para ver cenários de 2022. Seja como for, como já expliquei, não vejo alternativa numa frente, nem em qualquer dessas lideranças manjadas — muito menos em gente como Mandeta, Huck, Moro e outros ainda menos cotados. A política brasileira precisa ser reinventada.

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