O BESTA ATURDIDO

Carlos Novaes, 20 de fevereiro de 2021

A leitura dos textos indicados nos hiperlinks ajuda a contextualizar o que vou dizer.

Reproduzo do UOL, com o mesmo português trôpego, declaração de Bolsonaro em formatura de militares:

“Se tudo tivesse que depender de mim, não seria esse o regime que nós estaríamos vivendo. E apesar de tudo, eu represento a democracia no Brasil. Nunca a imprensa teve um tratamento tão leal e cortês como o meu”

Falou a esfinge… e a mídia está repleta de interpretações. O resumo é: Bolsonaro começa a enxergar o preço do ajuste ao velho normal e está esperneando e choramingando em público. O esperneio foi a troca na Petrobrás: para encobrir sua fraqueza ali onde ainda pode, ele toma decisões desastrosas para si próprio. Detalhemos o choramingo.

Ao ratificar a oportuna prisão facciosa do Silveira, e nos termos em que o fez, a Câmara comandada pelo Centrão deixou duas coisas claras: primeiro, que Silveira perderá o mandato; segundo, e mais importante, que se estreitaram consideravelmente as margens de manobra para a verborragia contra o Estado de Direito. A importância disso é grande porque ao silenciarem-se vozes bestiais até agora livres, fica muito mais difícil para o besta fazer o jogo cínico ambíguo de “defender” as franquias democráticas existentes atentando contra o Estado de Direito que as agasalha. A voz dele vai ficar mais solitária e, portanto, vai destoar da marcha geral das coisas, uma marcha que caminha ao ritmo de restaurar inclusive as encenações do velho normal.

Um ajuste tão apertado torna mais difícil a campanha eleitoral tensionada que Bolsonaro ambiciona. Deixem-me ser bem claro: a encenação do velho normal na defesa de um suposto Estado democrático de direito torna mais difícil a encenação de Bolsonaro em favor de uma vicária ruptura antissistema. Tudo é falso, leitor, seja a defesa da democracia, seja a ameaça de golpe!

Essa perda de espaço é que explica o choramingo do besta reproduzido acima. Note-se que ele foi cínico acerca das franquias democráticas e, ao mesmo tempo, buscou se distanciar de Silveira dizendo-se “cortês”. Bolsonaro está, desesperadamente, girando o hagadezinho para encontrar um meio “cortês” de fazer campanha eleitoral fingindo ser antissistema, mas perfeitamente integrado ao jogo de facções. O ensaio “descortês” feito há poucos meses, que analisei aqui e aqui, não deu certo, e a teatralização didática daquele fracasso está sendo justamente esse caso Silveira.

Bem-vindos ao picadeiro do velho normal, agora tendo ao fundo os escombros da Lava Jato, nos quais as facções estatais deixaram indiscerníveis o que presta e o que não presta desse teatro de operações.

2 pensou em “O BESTA ATURDIDO

  1. Carlos Novaes Autor do post

    A tal PEC não apenas está em perfeita consonância com a decisão sobre o caso Silveira, como é uma decorrência natural dele. Veja bem: eles puniram Silveira porque ele está afinado com uma saída ditatorial para o Estado de Direito Autoritário. Como disse, uma ditadura atrapalharia os negócios e o Centrão é, hoje, o polo dinâmico da política profissional em nosso Estado de direito — o Centrão não liga para a democracia, mas defende esse Estado de direito. Faz essa defesa em nome da democracia porque o vocábulo agrada a maioria e ajuda a embrulhar todo mundo.
    Ao punir Silveira, eles criaram um pretexto para “deixar mais clara” a noção de “imunidade parlamentar”, como se fosse para prevenir/impedir novas atitudes como a de Silveira. Mas não. O que querem é melhorar as condições de manutenção do jogo político faccioso no âmbito do Estado de Direito Autoritário. Logo, como sempre, não havia, nem há, o que prever; é tudo óbvio!

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  2. Ricardo

    Muito me admira que nem mesmo você, Novaes, com sua habitual clarividência, tenha conseguido prever o que viria na sequência da prisão do deputado fantoche: a quase imediata inclusão na pauta de votações da Câmara da intitulada “PEC da Impunidade”, ops!, perdão, eu quis dizer “Imunidade”. E, o que não é de admirar, a maldita e estarrecedora PEC tá tramitando muito mais rápido que o de praxe.
    Por seu lado, os togados do Supremo, capitaneados pelo xerifão Moraes, resolvem se arvorarem os defensores de si mesmos, numa clara demonstração de facciosismo político. São as vítimas, e ainda assim os apuradores e julgadores do processo que usam para defender a honra corporativista da casa.
    Agora, é esperar pelo próximo capítulo para ver como o STF reagirá ao condenável senso de oportunidade dos quadrilheiros do Congresso. Minha aposta é que, quanto mais os deputados saracotearem, mais vossas excelências vão pavonear, até que saia algum acordão desses por debaixo dos panos que, no Brasil, silencia qualquer escândalo e redime qualquer pecado. Qualquer pecado mesmo! Até o de esconder dinheiro escuso em algum lugar mais escuso dentro do samba-canção.

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