O nível está baixo

Carlos Novaes, 7 de setembro de 2014

Para quem luta por uma transformação da política brasileira, a candidatura de Marina tem problemas sérios. Mas eles não estão ali onde jornalistas e adversários estão batendo, como numa suposta semelhança com Collor e Jânio. Por isso, antes de continuar a apresentar, em textos ulteriores, a crítica que venho fazendo ao que julgo reacionário no programa de governo da candidata, vou apresentar meu ponto de vista sobre aquilo que tem sido objeto do alarido da mídia.

A CRENÇA

Respondendo a um questionário das filhas, em mais um dos jogos em que se divertia a viver com elas os afetos familiares, Marx disse que o mais tolerável dos defeitos humanos é a credulidade, não obstante deplorasse religião e, ainda mais, a pregação. Certa auto-intitulada esquerda marxista brasileira embaralhou os três termos para pregar censuras descabidas a Marina, como se a condição de crente necessariamente a transformasse numa militante política movida a religião, obstinada em fazer do palácio do planalto púlpito de pregação para uma governança obscurantista.

Para mim, deus ou Deus é uma superstição tolerável como outra qualquer. Uma superstição pode se tornar um problema político quando ganha contornos de religião, especialmente quando os religiosos se organizam em igreja e passam a pretender judicar, com menos ou mais ênfase, sobre os não supersticiosos e/ou sobre os que preferem outras superstições. O estado laico não é o estado em que não há supersticiosos no comando. Laico é o estado em cujo comando os supersticiosos não atuam de modo religioso e, mais ainda, como igreja. Se o governante reza ou consulta textos que supõe sagrados antes de tomar decisões, dá provas de superstição, não de religiosidade fora do lugar ou de obediência extravagante, impertinências que só se configurariam se, por exemplo, praticasse cultos em palácio ou fizesse da igreja instância recursal para decisões de governo.

Se o supersticioso que postula governar é membro de uma religião e segue os preceitos de igreja inspirada nela, é justo que sua prática política e suas propostas de governo sejam examinadas por todo aquele que entenda haver risco em sua eleição. Pois bem, embora o recuo de Marina nos direitos dos LGBTs tenha importância como sinal de alerta do que poderá ser seu comportamento na presidência diante de pressões religiosas, não é menos importante reconhecer que sua prática política e seu programa de governo oferecem garantias explícitas de que esse será um terreno favorável à luta, e não à retirada, caso ela ganhe o governo, pois seu programa consagra direitos e conquistas que contrariaram, e contrariam, essas mesmas forças religiosas – textualmente:

“Não podemos mais permitir que os direitos humanos e a dignidade das minorias sexuais continuem sendo violados em nome do preconceito. O direito de vivenciar a sexualidade e o direito às oportunidades devem ser garantidos a todos, indistintamente.” (grifo meu).

” Como nos processos de adoção interessa o bem-estar da criança que será adotada, dar tratamento igual aos casais adotantes, com todas as exigências e cuidados iguais para ambas as modalidades de união, homo ou heterossexual.”

“Incluir o combate ao bullying, à homofobia e ao preconceito no Plano Nacional de Educação”.

“A violência que chega ao assassinato, vitima muitos dos membros dos grupos LGBT. Dados oficiais indicam que, entre 2011 e 2012, os crimes contra esse grupo aumentaram em 11% em nosso país. Outros sofrem tanto preconceito que abandonam a escola e abrem mão de toda a oportunidade que a educação pode dar, o que também, de certa forma, corresponde a uma expressão simbólica de morte.”

Em suma, que os riscos oferecidos pela filiação de Marina à sua igreja, que são reais, não colham  antecipadamente na esfera pública política o prêmio pelo obscurantismo que encerram, em razão de os progressistas terem desertado de um terreno favorável à luta por menos obscurantismo nessa mesma esfera.

 O PRÉ-SAL

Ninguém medianamente informado pode deixar de reconhecer que a civilização do petróleo tem dois problemas centrais: primeiro, vai acabar quando acabar o petróleo e, segundo, pode acabar antes do petróleo, se continuar a fazer um mal uso dele. Com isso em mente, as reservas do pré-sal devem ser recebidas como uma conquista e um desafio: são uma conquista porque oferecem aos brasileiros recursos valiosos na luta por uma vida melhor na civilização do petróleo; são um desafio porque reclamam aos brasileiros que encontrem um emprego mais inteligente para esse petróleo do que alterar para pior a matriz energética de seu país e as condições ambientais do planeta – estamos desafiados a investir parte dos recursos do pré-sal na busca e invenção de fontes mais limpas de energia, que nos ajudem, inclusive, a achar o caminho para uma civilização pós-petróleo. É isso que Marina propõe e é sobretudo nisso que ela é superior aos adversários, que já demonstraram não compreender a encrenca em que a humanidade está metida e o papel central que o Brasil pode jogar na busca da solução.

Dessa perspectiva, a patriotada petista em torno do pré-sal é obscurantista e desonesta. Obscurantista porque apresenta uma devoção religiosa ao bezerro negro, guiando-se por cálculos que não superam uma geração (como é próprio da avidez petista); desonesta porque orientada pela devoção ao poder passa por cima de verdade que deveria reconhecer: Marina propõe um desenvolvimento sustentável que não negligencia e, muito menos, ignora, a importância da riqueza perigosa do pré-sal (se bem que a candidata não venha primando pela coragem de defender pontos de vista mais complexos sobre esse e outros temas eleitoralmente delicados – se mais uma vez Marina vir escapar a oportunidade, terá sido principalmente por isso, ainda que não se possa negligenciar o peso que tem a perda de contingentes de transformadores, inconformados com o reacionarismo de certas propostas).

As reações de Aécio sobre o atual caso Petrobrás até podem enganar os desinformados sobre os acertos entre o PT e o PSDB quando diante de CPIs embaraçosas. Leia a seguir trecho sobre o pré-sal extraído de um texto que escrevi em 2009 e cuja íntegra pode ser encontrada aqui.

“É provável que a era Lula (nela incluída a oposição) não venha a oferecer emblema mais acabado de seu ocaso inventivo, do que o estardalhaço patrioteiro em torno do Pré-sal, verdadeira apoteose da campanha varguista de há 50 anos, O Petróleo é Nosso, num tempo em que os esforços da ciência internacional estão voltados não para a extração de combustível de origem fóssil (por mais complicada e rentável que se apresente a monótona tarefa), mas para a produção de energias de origem renovável que ajudem a conter a mudança climática oriunda fundamentalmente da emissão de carbono. Se O Petróleo é Nosso, Nosso CO2 é de Todos. Embora o petróleo venha a ter lugar central num projeto que busque um novo modelo de desenvolvimento — pois temos de tirar proveito do nosso atraso relativo –, não será o caso nem de celebrá-lo cegamente em suas aplicações como combustível, nem de deixar de incluir nos custos e benefícios da sua extração garantias e projetos de orientação socioambiental que permitam, no longo prazo, a transição eficaz do modelo do ouro negro para a economia verde.

Para completar o quadro acabrunhador, e como não poderia deixar de ser, a auto-intitulada oposição não se peja de gastar suas energias a bramir sua revolta contra o uso eleitoral do Pré-sal. Faz sentido: se o projeto é o mesmo, tudo que se pode fazer é espernear contra os benefícios eleitorais que advém para o realizador de turno de mais uma conquista do projeto comum, da qual, por um “azar do destino”, se está momentaneamente apartado e, portanto, impedido de comemorar.

Essa escolha do PSDB é muito ilustrativa de suas limitações de formulação acerca do que realmente interessa, pois despreza o fato de que a Petrobrás é o exemplo mais acabado dessa longa jornada do crescimentismo, agora hegemonizado pelo trabalhadorismo: uma empresa petrolífera de economia mista sob controle estatal em que pela primeira vez na história desse país o poder empresarial e o poder sindical se sobrepõem, situação cujos resultados mais pestilentos ainda estão por vir à tona.”

CESSNA, PLÁGIO E DECALQUE

Depois da tentativa esdrúxula de apresentar como prova da “velha política” Marina ter declarado que não sabia da situação patrimonial (não a contratual) do avião cuja queda matou quem contratara o serviço, como se o não saber, nesse caso, fosse a mesma coisa que tentar se eximir de responsabilidade diante de denúncias que envolvessem prática sua, ou ação levada a cabo em seu benefício; depois disso, apareceu contra Marina a acusação de ter plagiado em seu programa de governo propostas políticas de domínio público, amplamente conhecidas, como se fosse possível que ela aspirasse enganar alguém de modo tão pueril. Mais adiante, quando todo absurdo já parecia ultrapassado, apareceu a “acusação” de que Marina plagiara a si mesma, copiando em seu programa de governo, vejam só a perfídia, declaração sua de 2010…Que ignorantes ou interessados desqualificados façam isso, vá lá, mas é deplorável que denúncias desse tipo encontrem guarida em meios respeitáveis pela audiência de que desfrutam, e no texto de gente que se passa por séria, ou na boca de quem aspira ser levado a sério.

3 ideias sobre “O nível está baixo

  1. Soraia Kuya

    Novaes, grata pela resposta; e desculpe minha impertinência e insistência no q ñ dá pra responder. é q essa questão ‘nuclear’ mexe muito comigo.. e tbm nunca tinha encontrado site mais lúcido q este pra saber se minhas perguntas ao menos tavam certas.
    aguardo um dia, talvez, suas ideias sobre angra 3.
    um grande abraço.

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  2. Soraia Kuya

    Oi Novaes, quando vc diz, no trecho ‘O pré-sal’, q “(..) as reservas do pré-sal devem ser recebidas como uma conquista e um desafio: são uma conquista porque oferecem aos brasileiros recursos valiosos na luta por uma vida melhor na civilização do petróleo; são um desafio porque reclamam aos brasileiros que encontrem um emprego mais inteligente para esse petróleo do que alterar para pior a matriz energética de seu país e as condições ambientais do planeta – estamos desafiados a investir parte dos recursos do pré-sal na busca e invenção de fontes mais limpas de energia, que nos ajudem, inclusive, a achar o caminho para uma civilização pós-petróleo. É isso que Marina propõe e é sobretudo nisso que ela é superior aos adversários, que já demonstraram não compreender a encrenca em que a humanidade está metida e o papel central que o Brasil pode jogar na busca da solução. (…)”

    Mas, no seu ‘Ibope e outros temas’, de 03/09/14: vc diz q “Marina adotou a meta de conceder autonomia legal ao Banco Central, privando o Executivo de um dos braços de regulação da política econômica. A crise da Europa deixou à vista de todos a desgraça dessa autonomia para a Grécia, Espanha, Portugal, etc. Ela, que prega mais Estado nas políticas sociais, com excelentes propostas no lado da entrega do balcão, escolhe amputar um braço indispensável para implementar a base econômica dessas propostas, num liberalismo de alto risco. Definitivamente, ela não sabe o que diz, aqui.
    Marina também nada diz sobre o problema tributário ali onde ele é realmente assunto relevante quando se pensa no combate à desigualdade: como fazer a acumulação de riqueza ser contida? Ela repete o discurso vazio do PT em prol de políticas sociais, vazio porque não enfrentou o problema da riqueza (o Lula se ufana de que em seu período os ricos ganharam dinheiro como nunca), limitação que já mostrou, na prática, que o partido segue os liberais ali onde eles pregam o direito à acumulação infinita. Marina vem se mostrando por demais influenciável pela companhia de gente muito rica e de seus “pensadores” de estimação. São pessoas de cujas boas intenções sociais não podemos duvidar, mas que estão tão impedidas de pensar um governo de combate à desigualdade quanto os atuais parlamentares estão impedidos de pensar regras eleitorais que ameacem as rotinas com que reproduzem seus êxitos. Marina parece não ter entendido que quando se põe as raposas para cuidar do galinheiro o único benefício a que se pode aspirar é assistir as raposas brigarem quando as galinhas escassearem.(…)”

    Então, te pergunto: Marina (o programa e o pessoal dela) teria alguma disposição numa quiçá revisão do acordo monstro/nuclear com a alemanha, q levanta o zumbi dos anos 70 do sec passado – angra 3, em plenos 2000?; quando a europa, japão, etc só tão querendo agora enterrar esse assombro, nós, ao contrário, ainda queremos ‘abraçar o capeta’..
    o greenpeace está pedindo essa revisão, e só o Eduardo Jorge se posicionou.. diante de propostas sociais tão sem base econômica como as de Marina, vc acha q ela tá afim de energias renováveis de fato, q tem fôlego pra isso? e q se tivesse, isso não implicaria tentar, com toda a fé e até o últimos suspiro, enterrar o monstro angra 3 de vez?

    muito grata: além de ler aqui, assisto a todos os seus vídeos no youtube.

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    1. Carlos NOVAES

      Soraia,
      como você bem viu, venho tentando discutir o significado da candidatura de Marina segundo sua trajetória e suas propostas. Nesse intento, é inevitável que encontre aspectos negativos e positivos. Talvez, ao final do transcurso, cada um que tenha achado interessante seguir meus comentários venha a contar com elementos novos para saber o que esperar de um eventual governo Marina e, com base nisso, decidir seu voto e a maneira de proceder politicamente diante desse governo, se ela triunfar. Cabe a cada um dos que nos leem dar uma resposta à sua pergunta sobre o “nuclear”, talvez com a ajuda do que venho discutindo aqui. Mais adiante, se Marina der mais elementos, eu próprio tratarei desse tema. Um abraço.

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