PARA NÃO DIZER QUE NÃO HÁ BOAS NOTÍCIAS

Carlos Novaes, 14 de março de 2021

Com acréscimo de parágrafos antes do final, em 16/03, às 20:00h

O chiste de que o Brasil é, mesmo, o país do futuro, já que o futuro do mundo vai se parecendo cada vez mais com a indigência brasileira, esconde um viés pseudo-crítico, conformista e despontecializador. A ideia de que o mundo vai virando Brasil, no sentido de que todo o planeta vai ficando mais desigual e cada vez mais vive da precarização do trabalho, e deixa viger a unilateralidade na aplicação da lei, é interessante especialmente se valorizarmos o papel da sociabilidade brasileira nesse novo modo de arranjar o mundo. Valorizar o Brasil não de uma perspectiva nacionalista, por certo, mas, ao contrário, o Brasil como exercício de exploração de muitos por poucos, numa sequência de arranjos históricos que sempre apontou o futuro do mundo precisamente porque sempre foi o teatro em que o capitalismo experimentou suas determinações em estado mais puro e em suas grandes linhas tendenciais. E o Brasil foi esse teatro porque seus potentados, possuidores e proprietários combinaram a predatória, populosa, cruenta, longeva e recente escravidão com uma viva conexão ao circuito mundial de mercadorias, dotando o país de uma experiência radical de convivência de estabilidade tradicional com mobilidade moderna, e sem arremate propriamente nacional.

Predatória porque o escravo era predado na África, o que resultava numa desterritorialização cuja implicação mais notável para o que se discute aqui era a destruição no universo simbólico da pessoa escravizada, pois além de não poder contar com o ambiente natural onde crescera, o escravo perdia todos os laços familiares, deixava para trás todas as suas posses, mesmo a vestimenta, era apartado dos seus hábitos alimentares, tinha destruídos seus ritos sociais e proibidos seus rituais religiosos, e, para cúmulo, via sem utilidade sua própria língua, misturado que era com outras etnias africanas (até rivais) e obrigado que era a obedecer ordens em língua que não era a sua e à qual não conhecia.

Detalhe: por essa razão foi impossível escravizar a população indígena local em larga escala e com proveito no engate ao circuito mundial das mercadorias, afinal, a população ameríndia conhecia como ninguém o território e contrapôs ao invasor o seu universo simbólico. Em linha com isso, oportuno observar que a escravidão russa teve nesse aspecto uma diferença fundamental com o Brasil, o que determinou muitas outras diferenças, a começar pelo nacionalismo, fraquíssimo aqui, fortíssimo lá: é que na Rússia o escravo era o próprio nacional, falante da mesma língua, crente das mesmas crenças e, sobretudo, portador comum de todas as outras memórias, desde tempos imemoriais. Voltemos.

Populosa porque entraram no Brasil cerca de 5 milhões de escravos vindos de África, contingente que gerou descendência numerosa, que faz com que mais da metade da população brasileira atual seja, em alguma medida, composta por descendentes de descendentes de africanos.

Cruenta porque no Brasil foi tremendo o massacre do escravo pelo castigo e pelos maus tratos, quando não pelo assassinato sem óbice legal e totalmente legitimado pelo costume, tudo isso em razão, inclusive, das dificuldades para manter a ordem desigual sobre uma grande população escrava.

Longeva porque a escravidão no Brasil durou 350 anos, e, mesmo assim (ou, até por isso), a abolição tardia se deu de um modo que preservou praticamente todas as prerrogativas desiguais que condenaram a população escrava liberta aos sofrimentos que insistem em não se separar da miséria.

Recente porque tendo vindo até às portas do século XX, a escravidão no Brasil estendeu longas e profundas raízes, que nutrem toxicamente o “desenvolvimento nacional” até hoje.

Como a estabilidade tradicional sempre foi obtida com acerba repressão sobre os de baixo, opressão cuja contrapartida é a mobilidade moderna para os de cima, o Brasil jamais conseguiu a solda nacionalista, que sempre requer a adesão insciente dos de baixo a um projeto que não é seu, mas ao qual adere como se o fosse. No Brasil, não: com profunda sabedoria (oriunda também da destruição simbólica mencionada acima), os de baixo sempre desdenharam dos vultos nacionais, deixados ao cocô dos pombos de praça, e jamais se alienaram aos projetos nacionais edificantes.

Infelizmente, de tempos recentes para cá, propagados por veículos de comunicação de massa, feitos esportivos vem contribuindo para delinear entre nós um nacionalismo tardio, fraco, meio boçal, ao qual, em sua antiga falta de fibra estratégica e em seu manjado oportunismo eleitoreiro, a nossa autointitulada esquerda vem aderindo, sem se dar conta de que assim vai legitimando o uso boçal que os conservadores instilam na tendência. O Brasil vem chegando ao nacionalismo justo na hora em que a miséria do mundo dá razão ao que por aqui sempre houve de resistência natural ao embuste do projeto nacional.

Dessa perspectiva, estamos mais uma vez na contramão, e duplamente: deploramos que o mundo venha se assemelhando ao Brasil e damos como resposta insciente um nacionalismo anacrônico ou um racialismo perigoso, mistureba que resulta numa autoafirmação despeitada e regressiva, calcada em motivações conservadoras contraproducentes.

O racialismo é uma fuga regressiva pseudo internacionalista que contorna o problema mais difícil: dizer do que é ser brasileiro. As saídas branquelas são nacionalistas exatamente por isso: se refugiam no anacronismo de um nacional não apenas tardio, mas impertinente em face da memória brasileira, pois a grande vantagem da nossa sociedade foi ter se mostrado infensa aos nacionalismos justamente porque a escravidão a vacinou contra orgulhos pátrios.

Melhor seria valorizar o Brasil como exemplo negativo, quando visto em suas assimetrias, e como exemplo positivo, quando visto desde a resistência não nacionalista do seu povo aos sofrimentos impostos por essas assimetrias, saídas da desigualdade. De modo que o desafio é orientar o Brasil num sentido emancipatório que prescinda de raça e de nacionalismo, o que seria uma orientação realmente pós-moderna.

Se os países do mundo vão ficando cada vez mais parecidos entre si, e se esse mundo mudado vem assumindo contornos de Brasil, é sinal de que o capitalismo, enquanto fenômeno planetário, está a se aproximar daquele que sempre foi o seu padrão não explícito, jamais reconhecido, mas que sempre vigeu: o Brasil. Se há um povo treinado para resistir ao futuro do capitalismo, esse é o povo brasileiro. Brasileiros de todos os países, uni-vos!

5 pensou em “PARA NÃO DIZER QUE NÃO HÁ BOAS NOTÍCIAS

  1. Pedro Rules

    Professor Novaes, para além dos seus excelentes textos, creio que seria do apreço de todos os seus admiradores e leitores que o senhor também participasse de veículos audiovisuais da imprensa progressista, portanto, pergunto ao professor: Já houve convite para entrevistas ou análises em órgãos como TVT, 247 e DCM ? O professor aceitaria? De minha parte, professor, lhe digo que seria ótimo ouvir análises políticas semanais suas em algum desses veículos. Quanto mais grandes intelectuais de esquerda tivermos para se comunicar e decifrar para o povo o cenário político, institucional e social da atualidade no Brasil e no mundo, mais preparados estaremos para mobilizar o povo para as mudanças históricas necessárias.

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  2. Ricardo

    Conclamar o povo brasileiro à UNIÃO não equivaleria a exaltar o mesmo NACIONALISMO que seu artigo critica, em certa medida, Novaes? E seria possível haver união onde a metade da população sobrevive com um quinto da renda nacional, metade da renda nacional é apropriada pelo um quarto mais rico, e os espremidos entre esses dois universos invejam os de cima enquanto se enojam dos de baixo?
    Penso eu que seja muito difícil, como pretendia Gilberto Freyre, interpretar a alma brasileira e a “sabedoria” do povão embrutecido pela falta de uniformidade no acesso à educação e renda. Correndo o risco de incorrer em imenso simplismo, vejo a gente do meu país como que perfeitamente representada por Fabiano, o personagem principal de Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Fabiano até sabe o que de errado há na estrutura social porque sente o pulsar da injustiça em toda parte, mas seu vocabulário restrito e o sentimento da própria impotência fazem que ele renuncie o desejo da luta por mudanças, aceitando e, portanto, legitimando a cruel realidade como única, imutável.

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    1. Carlos Novaes Autor do post

      Ricardo, não faz muito tempo escrevi contra essa ideia de união nacional, acho que num desses artigos contra o frentismo, quando saiu um manifesto porco, assinado pelo Huck, por gente do PSOL e pelo respeitável Dráusio Varella. União nacional é, sempre, uma forma de ferrar o povão. O brasileiro está, mais do que nunca, empurrado a uma visão internacional dos seus problemas, pois não há porque esperar nada dos de cima no Brasil — incluindo o lulopetismo, claro.

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    2. Carlos Novaes Autor do post

      Ricardo, só hoje percebi que o sentido dessa sua observação era criticar o meu “brasileiros de todos os países, uni-vos!”. Demorei a entender porque julguei óbvio o sentido do que propus.
      Veja bem: nesse “brasileiros de todos os países” estou apagando fronteiras nacionais e estou a chamar de “brasileiros” todos aqueles que sofrem a desigualdade nesse mundo globalizado. Nesse movimento, excluo de “brasileiros”, claro, todos aqueles que promovem, e ganham com, a desigualdade, inclusive os nacionais do Brasil que o fazem. “Brasileiro” passa a ser, então, todo aquele que sofre a desigualdade, não o nacional do Brasil. Foi a maneira que encontrei de problematizar o chiste sobre o futuro do mundo e, ao mesmo tempo, escancarar a tolice do nacionalismo da nossa autointitulada esquerda.

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