O FIM DO QUE NUNCA EXISTIU – o lulismo

Carlos Novaes, 7 de setembro de 2014

Não faz muito tempo que, com o brilho fátuo dos pseudo conceitos, um espectro emergiu da manjedoura da nossa estrebaria acadêmica: o lulismo. Protegido pela benevolência amiga dos mais velhos, poupado pela covardia corporativa de comensais contemporâneos e louvado pela adulação carreirista dos discípulos, esse gasparzinho da crítica camarada enfunou-se, e rapidamente se espraiou pelas redações do jornalismo político. Pairando desajeitado sobre as eleições municipais de 2012, ele imaginou ver confirmação da sua existência na vitória de Fernando Haddad para prefeito de São Paulo, ainda que para lograr essa encarnação tenha precisado comportar-se como um zumbi: aboliu a memória eleitoral da mais populosa cidade do país.

Qualquer um que tenha se debruçado sobre a história eleitoral da cidade desde que as eleições diretas foram reintroduzidas, em 1988, quando Luiza Erundina se saiu vitoriosa, sabe que a periferia tem preferido o PT (padrão que pode mudar nesta eleição de 2014) e as áreas centrais votam ora à direita, ora ao centro. Uma camada endinheirada e mais escolarizada das áreas centrais da cidade também pode votar PT em pleitos municipais, desde que diante da combinação de duas circunstâncias: o candidato anti-PT seja inaceitável e o candidato do PT ilumine essa inaceitabilidade com um perfil social em que aquela camada se reconheça. Foi assim que depois da adoção dos dois turnos o PT venceu a disputa para a prefeitura de SP duas vezes: a primeira com Marta Suplicy, em 2000, e a segunda com Haddad, em 2012.

Como a primeira dessas duas vitórias em tudo assemelhadas se deu dois anos antes de Lula chegar à presidência em 2002 (quando, embora tenha ganho a eleição, Lula perdeu para o candidato de FHC entre os pobres assistidos pelo governo federal), pretender creditar a um suposto lulismo a vitória de Haddad é tomar um lulismo por outro. O lulismo que operou em favor de Haddad foi a força de Lula dentro do PT, adquirida depois que ele escapou do mensalão enquanto viu queimar ali o único quadro que fazia o contraponto ao seu mando carismático sobre a burocracia partidária, o Zé Dirceu. Tendo imposto Haddad como candidato, o lulismo de partido concluiu sua tarefa – o resto foi feito pelo petismo e pelo eleitorado paulistano, que assim como entendeu o esgotamento de Maluf em 2000, constatou o de Serra em 2012, em ambos os casos favorecendo a candidatura petista de perfil conciliador, sem que haja dados que justifiquem dizer que nesse último pleito teria havido um “realinhamento” eleitoral na cidade.

Mas o espectro não se dá por achado e volta a ulular em 2014, agora buscando refúgio num suposto núcleo duro do lulismo, massa densa de pobres assistidos por programas sociais federais que, depois de exibir um tão inédito quanto fantasioso realinhamento de preferências, apresentaria, agora, uma inclinação especial por “candidatos lulistas”, sintagma já de si esquisito, pois não sabemos se estes tais candidatos são “lulistas” porque Lula os apóia, se porque eles se dizem “lulistas”, ou porque defendem o que seria identificado pelo eleitor como um ideário “lulista” , ou ainda porque se poderia defini-los como “lulistas” segundo um bem assentado conceito de lulismo –– provavelmente é um pouco de cada coisa… Seja como for, o tal realinhamento definido como lulismo seria a explicação para os mais pobres preferirem Dilma.

Permitam-me transigir com o implausível apenas no intuito de melhor demonstrar sua imperspicuidade: esqueçamos que o que explica o voto dos mais pobres em Dilma é não esse fenômeno recentíssimo, o lulismo, mas o velho de séculos governismo. Esqueçamos isso e aceitemos a tese novidadeira — que, diga-se de passagem, já vem sendo aliviada de suas pretensões explicativas, escolhendo acomodar-se numa fenomenologia eleitoral de baixa intensidade –, esqueçamos o velho para observar o que se passa com os dois candidatos mais vistosa e inapelavelmente lulistas desta eleição: Alexandre Padilha, em SP; e Lindenbergh Faria, no Rio.

Se houvesse um lulismo realinhando preferências do eleitor mais pobre, Padilha e Lindenbergh deveriam estar colhendo esse realinhamento, e não estão. O que as pesquisas de intenção de voto vem mostrando é, a um só tempo, novo e velho: velho porque mostram em pleno vigor a gratidão e o conservadorismo governista dos pobres, que votam preferencialmente em Dilma nesses estados; e novo porque esses mesmos pobres, vivendo nos dois mais dinâmicos estados da federação, muito mais informados do que no passado, embora não tenham deixado de ser gratos e conservadores, não deixam de perceber que não há razão para misturar as coisas e atinam que seria indevido transferir seus sentimentos governistas federais para os lulistas estaduais — superam, assim, a confusão desinformada que seria necessária para seguirem um não menos confuso lulismo, que nunca existiu, e preferem votar em candidatos a governador segundo critérios que não tem relação direta com os tais programas federais de assistência e renda e, muito menos, se guiam por hemisférios liberais e não-liberais no cenáculo eleitoral (aqui as coisas já tomam contornos de delírio).

Lula, que acreditou na lenda do lulismo, parece estar colhendo o resultado das escolhas reais que fez e sobre as quais tive oportunidade de escrever na virada de 2008 para 2009, quando ele se fixava em Dilma como sua candidata à sucessão de 2010:

Esse arranjo, a um só tempo autoritário e popular, tem levado alguns críticos a dizer que Lula repete Putin, o todo poderoso ex-presidente da Rússia. Embora a história política das duas sociedades se preste cada vez mais a comparações iluminadoras (escravidão até a segunda metade do século XIX, tentativa autocrática para sair do atraso, populismo presidencialista, oligarquização política corrupta, etc), Putin impôs Medvedev com duas diferenças fundamentais: primeiro, a condição explícita de que o próprio Putin continuaria em cena, e em primeiro plano, agora na figura de primeiro-ministro fortalecido com poderes subtraídos da presidência; segundo, uma maioria governista quase pétrea, sem contraste, no legislativo russo. Ou seja, como já não vai estar lá, Lula arma para o Brasil experimento ainda mais precário do ponto de vista da rotina institucional: se entregar a faixa presidencial a quem deseja, Lula abrirá a caixa de Pandora onde espremeu o PMDB e a burocracia petista – que vêm aceitando a compressão da mola e a tudo suportam no antegozo de que o dia de amanhã lhes pertence – mergulhando o país num vórtice que engolirá o próprio Lula.

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