{"id":1023,"date":"2014-10-22T14:03:09","date_gmt":"2014-10-22T17:03:09","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1023"},"modified":"2015-05-23T15:46:36","modified_gmt":"2015-05-23T18:46:36","slug":"65-ou-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1023","title":{"rendered":"6,5% ou 3% ?"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><i style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">A INDECISOS E A ENRAIVECIDOS<\/i><\/p>\n<p align=\"right\">Carlos Novaes, 22 de outubro de 2014<\/p>\n<p>H\u00e1 dois sentimentos fundamentais nesta elei\u00e7\u00e3o presidencial, a raiva e a indecis\u00e3o. Ainda que por caminhos diferentes, eles tem a mesma origem: a not\u00e1vel semelhan\u00e7a entre as duas propostas finalistas. Por um lado, para a minoria dos mais judiciosos que ainda n\u00e3o se definiram por votar branco ou nulo, a semelhan\u00e7a entre Dilma e A\u00e9cio n\u00e3o poderia deixar de gerar indecis\u00e3o. Por outro lado, essa mesma semelhan\u00e7a gera raiva numerosa por tr\u00eas raz\u00f5es: primeiro, as pessoas est\u00e3o frustradas porque queriam mudan\u00e7a e sabem que n\u00e3o a ter\u00e3o; segundo, e por isso mesmo, porque elas se v\u00eaem demandadas a fundamentar (pelo menos para si mesmas) uma escolha entre op\u00e7\u00f5es t\u00e3o semelhantes e, assim, terceiro, porque a fundamenta\u00e7\u00e3o remeteria \u00e0 descoberta de que n\u00e3o h\u00e1 muito onde se agarrar, o que exigiria o trabalh\u00e3o de repensar tudo e acabar ficando&#8230; indeciso. Resultado: \u00e9 mais f\u00e1cil agarrar-se a interesses imediatos ou a antipatias e preconceitos epid\u00e9rmicos, fazendo de tudo d\u00ednamo para a raiva, que vem disfar\u00e7ada num engajamento aparentemente aguerrido &#8212; parece com 1989, mas n\u00e3o \u00e9. Naquela altura havia a disputa de dois projetos, pois a energia liberada na rebeldia eleitoral de 1974 havia se esgotado e o pa\u00eds estava em busca de uma alternativa para o problem\u00e3o da \u00e9poca, a infla\u00e7\u00e3o, havendo em cena uma for\u00e7a pol\u00edtica com \u00e2nimo transformador ainda n\u00e3o totalmente domesticado pela desigualdade, o PT.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 argumentei amplamente <a title=\"QUANDO A MEM\u00d3RIA MAIS ENTRAVA DO QUE INFORMA O FLUXO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=837\">aqui<\/a>, esse per\u00edodo de busca se encerrou em 1994, com o realinhamento pol\u00edtico-eleitoral induzido pelo sucesso do Plano Real, cujas energias, passados outros vinte anos e depois de terem devorado o pr\u00f3prio <i>lulopetismo<\/i>, est\u00e3o, por sua vez, esgotadas. N\u00e3o por acaso, neste segundo turno de 2014 o mapa eleitoral das prefer\u00eancias em Dilma guarda mais semelhan\u00e7as com o de Collor do que com o de Lula daquele segundo turno de 1989; enquanto A\u00e9cio tem suas prefer\u00eancias mais acentuadas ali onde Lula tamb\u00e9m tinha as suas. Em outras palavras, Dilma tem mais o voto de quem quer <i>conservar<\/i>, enquanto A\u00e9cio tem mais o voto de quem quer <i>mudar<\/i>, pois estamos de volta ao <i>governismo<\/i> versus <i>mudancismo<\/i>, j\u00e1 que dessa vez n\u00e3o se apresentou nenhuma alternativa <i>transformadora<\/i>. Em outras palavras, 1989 foi a abertura de uma disputa entre conserva\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o, disputa essa que foi resolvida em 1994 com a derrota da transforma\u00e7\u00e3o em nome n\u00e3o do continu\u00edsmo, mas da mudan\u00e7a (com FHC), mudan\u00e7a que por sua vez se traduziu num pacto conservador incrementalista ao qual os antigos transformadores aderiram com sucesso em 2002 (Lula e sua <i>Carta aos brasileiros<\/i>), e ao qual burocraticamente ainda se aferram n\u00e3o porque seja uma boa alternativa para o pa\u00eds, mas porque \u00e9 uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o para eles mesmos, aderidos que est\u00e3o a um sistema pol\u00edtico falido.<\/p>\n<p>Os desafios para o pa\u00eds j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o simbolizados na infla\u00e7\u00e3o, mas no sistema de <a title=\"S\u00d3 4 J\u00c1 \u2013 representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 profiss\u00e3o\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=115\">representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/a> e no <a title=\"LUGAR E OPORTUNIDADE DA OP\u00c7\u00c3O MARINA SILVA PARA PRESIDENTE\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=31\">modelo de desenvolvimento<\/a>. Mas os candidatos n\u00e3o chegam sequer a enxergar os desafios, que dir\u00e1 oferecer uma alternativa e, assim, \u00e9 nesse estado de coisas que a hist\u00f3ria parece ter <a title=\"O B\u00eabado e a Equilibrista\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=991\">entrado em suspens\u00e3o <\/a>nesse empate entre Dilma e A\u00e9cio, cabendo ao eleitor judicioso a tarefa herc\u00falea de encontrar diferen\u00e7a entre eles que justifique o voto. O debate da Record oferece algum material para esse escrut\u00ednio precisamente porque os contendores se deram conta de que a imensa maioria dos enraivecidos j\u00e1 se definiu &#8212; e em partes praticamente iguais para um e outro. Tendo deixado de alimentar raivas, os candidatos falaram de seu &#8220;projetos&#8221; e, ent\u00e3o, apareceu um contraste que s\u00f3 pode ser encarado como diferen\u00e7a se deixarmos de lado todo o anacronismo que representa: a infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal como os c\u00f4njuges de uma separa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica se agarram na disputa ferrenha por um livro, um DVD ou um quadro, aos quais ningu\u00e9m mais daria import\u00e2ncia, e nem eles mesmos se, livres do recalque que induz \u00e0 disc\u00f3rdia, se permitissem vislumbrar as possibilidades que a vida sempre oferece; tal como um casal assim infeliz, Dilma e A\u00e9cio encontraram na infla\u00e7\u00e3o (!), em torno da qual se definiu uma diverg\u00eancia primordial sanada com o recalque de 2002, o motivo para simular uma grande disc\u00f3rdia: enquanto ela exibe a confian\u00e7a de que a infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 sob controle, dentro da meta (o que n\u00e3o \u00e9 mentira, mas tampouco \u00e9 seguro, ainda que n\u00e3o central), ele insiste na fantasia de que o controle foi perdido e de que a &#8220;infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 de volta, com as pessoas enchendo carrinhos em supermercado&#8221; (o que \u00e9 puro embuste). Dilma, ent\u00e3o, prop\u00f5e que se mantenha o regime de metas atual, com desemprego de 5% e juros de 12%, o que \u00e9 fact\u00edvel (desde que sobreviessem mudan\u00e7as que ela provavelmente n\u00e3o far\u00e1), e A\u00e9cio prop\u00f5e a meta de uma infla\u00e7\u00e3o de 3%, o que traz embutido um desemprego de 12% e juros por volta de 25%. Assim, mesmo ante as semelhan\u00e7as entre os dois que j\u00e1 demonstrei <a title=\"PA\u00cdS EMPATADO, N\u00c3O DIVIDIDO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=946\">aqui<\/a>, um eleitor indeciso, ou a quem a raiva n\u00e3o toldou de todo a raz\u00e3o, pode fazer sua escolha colocando-se o problema de ou preferir arriscar um governo voltado a alcan\u00e7ar 3% de infla\u00e7\u00e3o ao custo de mais que dobrar desemprego e juros, ou aceitar os riscos de uma infla\u00e7\u00e3o de 6,5%, com desemprego e juros nos n\u00edveis de hoje.<\/p>\n<p>Naturalmente, para tomar a decis\u00e3o o eleitor dever\u00e1 tentar antecipar os efeitos de espraiamento de uma situa\u00e7\u00e3o e outra e, ent\u00e3o, avaliar o seu bem-estar e o dos seus. Note que esse &#8220;seus&#8221; dever\u00e1 ser definido pelo pr\u00f3prio eleitor: se mais ego\u00edsta, poder\u00e1 considerar &#8220;seus&#8221; apenas c\u00f4njuge e filhos, por exemplo; se um pouco menos ego\u00edsta, poder\u00e1 incluir entre os &#8220;seus&#8221; outros parentes ou at\u00e9 colegas de trabalho; e se muito altru\u00edsta, poder\u00e1 encarar como &#8220;seus&#8221; todos aqueles que tem motivo para temer pelo pr\u00f3prio bem-estar material b\u00e1sico no dia de amanh\u00e3, grupo que pode incluir o pr\u00f3prio eleitor. Talvez uma boa trilha a tomar seja a que leva \u00e0 verdade incontorn\u00e1vel de que <em>n\u00e3o existe almo\u00e7o de gra\u00e7a e j\u00e1 h\u00e1 muita gente sem meios de comprar o almo\u00e7o<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><b>NOTAS<\/b><\/p>\n<p><b>Revendo os debates<\/b> t\u00e3o diferentes e movimentados do UOL-SBT e da Record fica claro que: primeiro, os jornalistas n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o fazem falta, como \u00e9 melhor sem eles; segundo, A\u00e9cio errou no UOL-SBT n\u00e3o tanto porque agrediu uma mulher, mas mais porque se conduziu como quem j\u00e1 ganhou e, terceiro, que pesquisas internas devem ter mostrado o problema, pois o tucano n\u00e3o perdeu oportunidade de na Record fazer peti\u00e7\u00e3o de humildade ante a necessidade de ainda conquistar a prefer\u00eancia do eleitor. Essas vari\u00e1veis comportamentais ganham peso especialmente quando n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7as claras de conte\u00fado.<\/p>\n<p><strong>Aten\u00e7\u00e3o para o que se passa no Rio<\/strong> &#8211; \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a em cima pode corresponder, nesse eleitorado irrequieto, uma resolu\u00e7\u00e3o por alguma mudan\u00e7a embaixo. Crivella pode deslocar Pez\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o h\u00e1 conte\u00fado plebiscit\u00e1rio<\/strong> na disputa entre A\u00e9cio e Dilma porque falta \u00e0 disputa a marca dos plebiscitos: uma disjuntiva clara. O que o eleitor decide \u00e9 qual o caminho menos ruim para tocar o que resta do Plano Real, n\u00e3o a implementa\u00e7\u00e3o de um NOVO projeto.<\/p>\n<p><b>A Folha de S.Paulo <\/b>traz uma <a title=\"Entrevista com ACM Neto na Folha\" href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/poder\/191519-pt-quer-ser-dono-do-nordeste-diz-prefeito-de-salvador.shtml\">entrevista <\/a>com ACM Neto, na qual ele adere \u00e0 <a title=\"Uma REFORMA POL\u00cdTICA  r e a c i o n \u00e1 r i a\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=580\">reforma pol\u00edtica reacion\u00e1ria<\/a> apresentada por Marina, que prev\u00ea coincid\u00eancia de mandatos com elei\u00e7\u00f5es a cada cinco longos anos. Embora ainda mo\u00e7a, a ex-senadora j\u00e1 vai reunindo netinhos em torno da sua &#8220;nova pol\u00edtica&#8221;: primeiro foi o neto de Irineu Bornhausen, depois o neto de Tancredo Neves e agora o neto de ACM.<\/p>\n<p><strong>Reproduzo entre aspas<\/strong> os \u00faltimos tr\u00eas par\u00e1grafos da coluna de hoje de Marcelo Coelho, na Folha de S.Paulo: &#8220;Voto nos dois. Acho que uma vit\u00f3ria de A\u00e9cio pode ter efeitos &#8220;amargos&#8221;, mas necess\u00e1rios, na macroeconomia, e tende a cercear a autocomplac\u00eancia de um PT acostumado demais \u00e0s pr\u00e1ticas do poder. Acho que uma vit\u00f3ria de Dilma garante mais a expans\u00e3o de iniciativas sociais, que n\u00e3o se resumem ao Bolsa Fam\u00edlia.<\/p>\n<p>N\u00e3o voto em nenhum, se for para esperar controle real da corrup\u00e7\u00e3o, melhoria sens\u00edvel na seguran\u00e7a ou na sa\u00fade p\u00fablica. Todos sabem que, por mais que se tenha feito, falta muita coisa a fazer, e nenhum governo deixa de ter realiza\u00e7\u00f5es ou omiss\u00f5es quanto a isso em seu curr\u00edculo.<\/p>\n<p>No resto, espero que todos os governos, pr\u00f3ximos ou passados, municipais, estaduais ou federais, terminem as obras na Jacu-P\u00eassego. Caso j\u00e1 tenham terminado, sugiro que dupliquem as faixas ent\u00e3o. \u00c9 que vou ficando um bocado fisiol\u00f3gico tamb\u00e9m.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A INDECISOS E A ENRAIVECIDOS Carlos Novaes, 22 de outubro de 2014 H\u00e1 dois sentimentos fundamentais nesta elei\u00e7\u00e3o presidencial, a raiva e a indecis\u00e3o. Ainda que por caminhos diferentes, eles tem a mesma origem: a not\u00e1vel semelhan\u00e7a entre as duas propostas finalistas. 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