{"id":1094,"date":"2014-11-07T17:35:12","date_gmt":"2014-11-07T20:35:12","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1094"},"modified":"2014-11-07T17:35:43","modified_gmt":"2014-11-07T20:35:43","slug":"o-palacio-e-a-rua-1-de-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1094","title":{"rendered":"O PAL\u00c1CIO E A RUA &#8212; 1 de 4"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><\/em><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">Carlos Novaes, 07 de novembro de 2014<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em toda parte a ordem pol\u00edtica democr\u00e1tica \u00e9 marcada por algum contraste entre a <strong>l\u00f3gica do pal\u00e1cio<\/strong> e a <strong>l\u00f3gica da rua<\/strong>. A primeira rege o mundo dos hierarcas de estado e dos pol\u00edticos profissionais de carreira; a segunda se manifesta na sociedade. O que determina a intensidade do contraste entre elas \u00e9 o quanto e a quais dos anseios da rua o pal\u00e1cio corresponde. Se o contraste entre as duas l\u00f3gicas existe em toda parte, no Brasil ele assume contornos dram\u00e1ticos porque nossa ordem pol\u00edtica est\u00e1 marcada pela exig\u00eancia de garantir a manuten\u00e7\u00e3o de uma desigualdade cujo sofrimento n\u00e3o tem semelhan\u00e7a com o de nenhuma outra democracia de massas. Veja leitor que nossa democracia est\u00e1 assentada n\u00e3o na miss\u00e3o de gerar algum equil\u00edbrio, por prec\u00e1rio que fosse, mas na exig\u00eancia in\u00e9dita de garantir pela via eleitoral um desequil\u00edbrio visto como inaceit\u00e1vel pela maioria dos observadores informados, e vivido como intoler\u00e1vel pela imensa maioria dos que est\u00e3o submetidos a ele. Nossa desigualdade \u00e9 intoc\u00e1vel. Essa exig\u00eancia vem sendo cumprida, com custos crescentes, desde a escravid\u00e3o, e nossas grandes crises pol\u00edticas se deram em contextos em que os benefici\u00e1rios desse arranjo reagiram contra altera\u00e7\u00f5es que sugeriam uma ordem pol\u00edtica que se desobrigasse dela, sendo o golpe <a title=\"PODER MILITAR, PODER DE POL\u00cdCIA E LEGITIMIDADE PARA O USO DA FOR\u00c7A\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=70\">paisano-militar<\/a> de 1964 o exemplo mais recente de rea\u00e7\u00e3o frontal \u00e0 possibilidade de uma concatena\u00e7\u00e3o entre o pal\u00e1cio e a rua que ao inv\u00e9s de propiciar, enfrentasse a desigualdade.<\/p>\n<p>A nossa desigualdade, at\u00e9 por esse ineditismo implaus\u00edvel, \u00e9 desde sempre a realidade mais desafiadora e o conceito mais central para articular diagn\u00f3stico e alternativa para o Brasil. Sua vig\u00eancia secular anacr\u00f4nica na oitava economia do mundo e num pa\u00eds com mais de 200 milh\u00f5es de habitantes acabou, por\u00e9m, por intrigar quem se ocupa com algo mais do que idiossincrasias locais. Observadores estrangeiros da crescente desigualdade mundial est\u00e3o sendo levados a ver que o mundo mais e mais vai se parecendo com o Brasil, o que n\u00e3o deixa de ser uma maneira de realizar a profecia de que sempre fomos o pa\u00eds do futuro&#8230; Ao reunir \u00e0 imagem de alternativa ambiental amb\u00edgua o exemplo da sua mazela social, nossa experi\u00eancia nacional vem ganhando import\u00e2ncia internacional enquanto laborat\u00f3rio a c\u00e9u aberto sobre at\u00e9 onde se pode chegar com a combina\u00e7\u00e3o <i>interdependente<\/i> entre, de um lado, devasta\u00e7\u00e3o pr\u00f3diga de recursos ambientais abundantes (mas finitos) e desigualdade extrema e, de outro lado, sistema eleitoral honesto e com voto obrigat\u00f3rio aberto de todos os cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Essa disjuntiva pode ser encontrada no atual debate pol\u00edtico interno n\u00e3o de qualquer pa\u00eds perif\u00e9rico, mas nos Estados Unidos, centro ordenador da desigualdade mundial, que vai sendo empurrado a enxergar que a desigualdade n\u00e3o \u00e9 algo que se possa apenas impor aos outros, pois sua l\u00f3gica cobra uma contrapartida local. Talvez a melhor maneira de ilustrar a situa\u00e7\u00e3o americana de um modo que ajude a entender o que est\u00e1 em jogo no Brasil (e vice versa) seja reunir os custos ambientais tremendos da autosufici\u00eancia americana em petr\u00f3leo, que logo poder\u00e1 ser obtida com a extra\u00e7\u00e3o de \u00f3leo e g\u00e1s de xisto, tanto com a recente manifesta\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m menos que a presidente do FED, o Banco Central americano, Janet Yellen, sobre a crescente desigualdade no pa\u00eds, quanto com as n\u00e3o menos recentes medidas para atrapalhar e desestimular a participa\u00e7\u00e3o eleitoral dos pobres e das minorias nos estados em que a experi\u00eancia da escravid\u00e3o foi mais renitente\u00a0 &#8212; benef\u00edcios estabilizadores do voto facultativo&#8230;<\/p>\n<p>Segundo Yellen, &#8220;as desigualdades voltaram a se aprofundar durante a reativa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, enquanto que o mercado financeiro se recuperou&#8221;, resultado que n\u00e3o \u00e9 de admirar quando se sabe que por mais acarinhado que seja, ao inv\u00e9s de orient\u00e1-los a refor\u00e7ar a capacidade produtiva, o &#8220;esp\u00edrito animal&#8221; dos capitalistas americanos tem se voltado para investimentos especulativos, inclusive em pa\u00edses emergentes, onde os juros s\u00e3o convidativos. Se as proje\u00e7\u00f5es quanto ao rendimento da extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s de xisto de confirmarem, por\u00e9m, \u00e9 prov\u00e1vel que a diminui\u00e7\u00e3o acentuada dos custos de energia leve a uma retomada nos investimentos produtivos, o que poder\u00e1 diminuir as perdas no mundo do trabalho, mas pressionar\u00e1 negativamente o meio ambiente, pois embora menos poluente do que o carv\u00e3o, esse incremento da atividade se somar\u00e1 ao fato de que o g\u00e1s s\u00f3 pode ser extra\u00eddo com enormes custos para a quantidade e, sobretudo, qualidade da \u00e1gua dispon\u00edvel. Enquanto isso, estados controlados pelos republicanos &#8212; a quem nenhum dado de realidade faz abandonar a quimera de que o enriquecimento t\u00e3o desonerado quanto poss\u00edvel de uma minoria estimularia o crescimento, favorecendo a queda do desemprego e a melhora de vida dos pobres &#8212; desativaram postos de vota\u00e7\u00e3o em que seria de antecipar um engajamento dos mais pobres em desfavor de seus candidatos &#8212; \u00e9 que l\u00e1 as autoridades locais tem a prerrogativa de ditar boa parte das regras eleitorais de cada pleito, incluindo n\u00famero de urnas e locais de vota\u00e7\u00e3o. Ou seja, no limite, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o deixar os pobres votarem, tal como recentemente declarou o dirigente chin\u00eas em Hong Kong, <a title=\"Pobres dominariam em elei\u00e7\u00f5es livres\" href=\"http:\/\/noticias.sapo.tl\/portugues\/lusa\/artigo\/18391327.html\">CY Leung<\/a>. Mas falemos do Brasil, onde n\u00e3o \u00e0 toa vem ganhando corpo a ideia de acabar com a obrigatoriedade do voto.<\/p>\n<p>Como aqui a tarefa do pal\u00e1cio \u00e9 garantir a desigualdade, na maior parte do tempo nossos pol\u00edticos est\u00e3o de costas para a sociedade, e os dois circuitos s\u00f3 se encontram nas elei\u00e7\u00f5es, ocasi\u00e3o em que se d\u00e1 o simulacro democr\u00e1tico, la\u00e7o cuja frouxid\u00e3o vem disfar\u00e7ada no engajamento c\u00edvico do cidad\u00e3o, engajamento no qual, \u00e0 medida que o div\u00f3rcio entre as duas l\u00f3gicas aumenta, a credulidade cada vez mais cede a vez \u00e0 raiva epid\u00e9rmica, raiva essa que, por sua vez, tamb\u00e9m desvia o eleitor da cr\u00edtica \u00e0 ordem enquanto tal e o atola em porfias v\u00e3s que nutrem o conjunto mals\u00e3o. O melhor exemplo dessa desorienta\u00e7\u00e3o tensa \u00e9 a pseudo radicalidade do embate entre PT e PSDB, que n\u00e3o passam de vetores de um mesmo projeto, como acabam de dar prova as semelhan\u00e7as entre os primeiros movimentos da Dilma rediviva e as promessas &#8220;impopulares&#8221; do A\u00e9cio semimorto, estado de coisas que s\u00f3 surpreende analistas soterrados em reflex\u00f5es autojustificadoras de suas pr\u00f3prias ilus\u00f5es (sejam elas <i>lulistas<\/i> ou <i>tucanocr\u00e1ticas<\/i>) e transforma em trouxas todos esses esbravejadores que fazem das redes sociais plataforma virtual para troca de insultos (pe\u00e7o desculpas antecipadas pelo <i>trouxas<\/i>).<\/p>\n<p>Na desigualdade, como se sabe, ao sofrimento de maiorias corresponde, na outra ponta, a entrega do luxo \u00e0 minoria. N\u00e3o \u00e9 de surpreender, pois, que uma desigualdade como a brasileira exiba na vitrine radicais de butique, enquanto <a title=\"PA\u00cdS EMPATADO, N\u00c3O DIVIDIDO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=946\">PT e PSDB<\/a> &#8212; que pelo menos desde 2002 est\u00e3o de acordo em promover a diminui\u00e7\u00e3o gradual\u00edssima da pobreza sem ferir a riqueza privada acumulada, nem alterar os mecanismos que permitem essa acumula\u00e7\u00e3o &#8212; se d\u00e3o ao luxo da divis\u00e3o, ao inv\u00e9s de somarem esfor\u00e7os para levar logo at\u00e9 o fim a l\u00f3gica encrencada dessa alternativa inatual que representam e, assim, dar ao pa\u00eds a oportunidade de finalmente encarar os seus problemas estruturais, que n\u00e3o derivam nem da pobreza, como querem nos fazer crer esses espertalh\u00f5es que a usam como zumbi de piranha, nem do excesso de estado, como propagam os acariciadores do &#8220;esp\u00edrito animal&#8221; do mercado. A desigualdade \u00e9 a base para a l\u00f3gica do pal\u00e1cio e para a l\u00f3gica da rua. A do pal\u00e1cio \u00e9 &#8220;financiada&#8221; pela, tem por base a, riqueza extrema dos de cima, a quem o modelo de acumula\u00e7\u00e3o nutre; e a da rua reflete tanto os sofrimentos da imensa maioria que ficou por baixo, a quem a desigualdade desampara, quanto, em situa\u00e7\u00f5es de crise, os temores da minoria dos de cima, desassossegada quando a a\u00e7\u00e3o dos de baixo toma ares de desafio ao<em> <i>status quo &#8212; \u00e9 esse encontro na crise que est\u00e1 a brotar nas ruas feito capim, a servir de pasto ao alarido de certa m\u00eddia em torno da suposta &#8220;insatisfa\u00e7\u00e3o generalizada contra o PT&#8221;, como se o PSDB n\u00e3o tivesse parte no imbr\u00f3glio<\/i>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Novaes, 07 de novembro de 2014 &nbsp; Em toda parte a ordem pol\u00edtica democr\u00e1tica \u00e9 marcada por algum contraste entre a l\u00f3gica do pal\u00e1cio e a l\u00f3gica da rua. 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