{"id":1260,"date":"2014-11-21T19:31:57","date_gmt":"2014-11-21T22:31:57","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1260"},"modified":"2022-07-31T14:52:11","modified_gmt":"2022-07-31T17:52:11","slug":"desigualdade-mudancismo-e-voto-1-de-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1260","title":{"rendered":"DESIGUALDADE, MUDANCISMO E VOTO &#8212; 1 de 4"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><i style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">P-<b>MDB<\/b> e <b>GLOBO<\/b>, 50 anos de algum p\u00e3o e muito circo<\/i><\/p>\n<p align=\"right\">Carlos Novaes, 21 de novembro de 2014<\/p>\n<p>A ditadura paisano-militar instalada em 1964 foi o desfecho desfavor\u00e1vel ao povo de uma polariza\u00e7\u00e3o em que se disputava o modo de arranjar o capital local e o tamanho da desigualdade dele decorrente. Venceram os inimigos do povo e a ordem desigual cuja magnitude o golpe buscou preservar se mant\u00e9m at\u00e9 hoje, ainda que o voto direto pleno e a liberdade de imprensa tenham sido recuperados, o que j\u00e1 quer dizer alguma coisa. A TV Globo e o p-MDB que hoje conhecemos foram criados logo no in\u00edcio da ditadura e est\u00e3o para completar 50 anos. As duas institui\u00e7\u00f5es tem uma marca de nascen\u00e7a comum:\u00a0 foram engendradas com um papel pr\u00e9 determinado, o de &#8220;legitimar&#8221; a ordem estabelecida.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio orientada pelo instinto animal capitalista de a tudo abarcar, a Globo se encarregou de ir armando a lona mais abrangente que p\u00f4de, atuando <i>por cima<\/i> no fito de conquistar a prefer\u00eancia do telespectador, no que se tornou uma especialista. Em contrapartida, tendo j\u00e1 de sa\u00edda interditada a disputa dos principais cargos de mando do pa\u00eds, cujo provimento deixara de ser eletivo, o p-MDB foi orientado pelo instinto de sobreviv\u00eancia a se acomodar \u00e0 disputa <i>por baixo<\/i> pela prefer\u00eancia do eleitor, no que acabou por se tornar tamb\u00e9m um especialista. Aparentemente eram movimentos opostos, mas que guardavam grande converg\u00eancia: a emissora partia dos grandes centros, onde havia grande concentra\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica, para dali estender a pot\u00eancia de antena ao interior do pa\u00eds; o partido vinha da disputa local mi\u00fada por milhares de prefeituras e c\u00e2maras de vereadores, para dali dar pot\u00eancia \u00e0 representa\u00e7\u00e3o na c\u00e2mara federal e no senado. O encontro dos dois esfor\u00e7os se dar\u00e1 na transi\u00e7\u00e3o para a democracia, na qual ambos tiveram mais uma vez o mesmo papel: preservar o que desse da desigualdade garantida pela ordem em ru\u00ednas \u00e0 qual deviam o pr\u00f3prio surgimento.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que a lona se estendia em busca do telespectador, maior era o contingente de eleitores sob ela; \u00e0 medida que o descontentamento da rua crescia, maior era o contingente de telespectadores inclinados a votar na alternativa poss\u00edvel, especialmente nos centros socioeconomicamente mais din\u00e2micos, menos amarrados ao <i>governismo<\/i> que caracterizava (como ainda caracteriza) as regi\u00f5es em que a popula\u00e7\u00e3o sofre uma depend\u00eancia maior e mais direta do poder. Assim, de um lado, o p-MDB fazia a disputa local mi\u00fada, que ent\u00e3o abarcava o grosso do eleitorado do pa\u00eds, \u00e2mbito em que n\u00e3o chegou a haver altera\u00e7\u00e3o relevante e bastou dar continuidade \u00e0s pr\u00e1ticas do antigo PSD (ou da UDN), mobilizando <i>dezenas de milhares<\/i> de agentes pol\u00edticos para a disputa do executivo e do legislativo em <i>milhares<\/i> de munic\u00edpios. De outro lado, nos grandes centros, o <i>mesmo<\/i> p-MDB se conformou \u00e0 disputa para o legislativo apartada da elei\u00e7\u00e3o para presidente da Rep\u00fablica, governador e prefeito, cuja escolha n\u00e3o mais se dava pelo voto popular.<\/p>\n<p>Ao tornar sup\u00e9rfluo para a oposi\u00e7\u00e3o desenvolver e defender para valer projetos de governan\u00e7a de alcance mais geral, a ditadura n\u00e3o s\u00f3 obrigou o partido de oposi\u00e7\u00e3o a se especializar nos m\u00e9todos da disputa mi\u00fada, como o privou (e ao pa\u00eds) dos influxos trazidos pelas disputas mais gerais \u00e0 vida partid\u00e1ria &#8212; <strong>o p-MDB nasceu<\/strong> como um <i>partido coadjuvante<\/i>, cuja pr\u00e1tica, enquanto inibia, descartava ou sequer atraia os mais combativos, foi diuturnamente selecionando (e premiando) <a title=\"PARTIDOS E PROFISSIONAIS DA REPRESENTA\u00c7\u00c3O\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=159\">profissionais da pol\u00edtica<\/a> especializados na busca do \u00eaxito via trafic\u00e2ncia mi\u00fada e <i>sem projeto pr\u00f3prio de poder nacional<\/i>: protagonismo municipal, acomoda\u00e7\u00e3o estadual e caronismo federal (soa familiar?). Essa supremacia adestradora do jogo mi\u00fado era de tal ordem que em 1974, quando o eleitorado conduziu um realinhamento eleitoral que deu ao p-MDB 16 das 22 cadeiras em disputa para o Senado, o senador eleito por S. Paulo foi um pol\u00edtico ent\u00e3o desconhecido, Orestes Qu\u00e9rcia, que s\u00f3 alcan\u00e7ara a condi\u00e7\u00e3o de candidato porque os maiorais do p-MDB achavam imposs\u00edvel derrotar Carvalho Pinto, o candidato da ARENA, e, claro, desprezavam a condi\u00e7\u00e3o de candidato majorit\u00e1rio enquanto tal (diga-se de passagem que essa vit\u00f3ria de Qu\u00e9rcia em 74 fortaleceu em torno dele a pol\u00edtica mi\u00fada e foi com base nela que ele se imp\u00f4s como vice da candidatura de Montoro a governador, em 1982, deslocando Covas).<\/p>\n<p>Enquanto isso, a Globo foi desenvolvendo uma programa\u00e7\u00e3o em tr\u00eas faixas b\u00e1sicas: a chamada linha de shows, as novelas e o telejornalismo. Como a extens\u00e3o da pot\u00eancia de antena era onerosa e requeria tempo distribuir equipamentos para vencer as grandes dist\u00e2ncias que o tamanho do pa\u00eds imp\u00f5e, a emissora desde logo teve como desafio conquistar o telespectador dos grandes centros, \u00e2mbito restrito no qual, pelas mesmas limita\u00e7\u00f5es financeiras e log\u00edsticas, se dava a medi\u00e7\u00e3o da audi\u00eancia \u00e0 TV. Ou seja, enquanto o p-MDB tinha como tarefa primeira conquistar o eleitor do interior, menos afeito \u00e0 mudan\u00e7a e de cujo apoio dependiam o grosso das representa\u00e7\u00f5es legislativas proporcionais (mormente para a C\u00e2mara federal) e dos executivos municipais, a primeira tarefa da Globo foi satisfazer ao gosto dos moradores das grandes concentra\u00e7\u00f5es urbanas, mais propensos \u00e0 mudan\u00e7a e de cuja audi\u00eancia viriam os recursos para financiar a expans\u00e3o da rede. Considerando que os esfor\u00e7os das duas institui\u00e7\u00f5es eram vigiados de perto pela ditadura paisano-militar, cujos dispositivos de repress\u00e3o e censura n\u00e3o chega a ser necess\u00e1rio rememorar, tudo se passava dentro do mesmo marco geral comum: constata\u00e7\u00e3o limitada da realidade, fantasia truncada e, portanto, interdi\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o se tratava de uma ordem totalit\u00e1ria, mas autorit\u00e1ria, havia pol\u00edtica e, portanto, graus de liberdade. Na explora\u00e7\u00e3o deles emergiam atores menos obedientes: o p-MDB teve seus &#8220;aut\u00eanticos&#8221; e a Globo teve seus &#8220;comunistas&#8221;, vozes que, a um s\u00f3 tempo, embora denunciassem a ordem mals\u00e3, n\u00e3o podiam deixar de refor\u00e7\u00e1-la, pois o ato mesmo de denunciar, respeitando os limites do marco geral ditatorial, atualizava a obedi\u00eancia devida por todos ao regime autorit\u00e1rio vigente. Esses graus de liberdade eram exercidos (e tolerados) de modo diferente conforme a esfera de atua\u00e7\u00e3o: assim como nas disputas para as prefeituras, unidades or\u00e7ament\u00e1rias ordenadoras de despesas, nunca houve muito espa\u00e7o para os aut\u00eanticos do p-MDB, tamb\u00e9m no telejornalismo da Globo n\u00e3o havia lugar para disson\u00e2ncias, pois a sua dramaturgia (a do jornalismo, pois ele tinha, como tem, a sua pr\u00f3pria carpintaria dram\u00e1tica) sempre foi orientada para fantasiar a realidade da desigualdade em favor da conserva\u00e7\u00e3o: as duas vozes que passaram a obedientemente se alternar na bancada coreografada do Jornal Nacional funcionavam como mimetiza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de uma altern\u00e2ncia vic\u00e1ria entre a dupla p-MDB-ARENA na n\u00e3o menos coreografada li\u00e7a pol\u00edtica, que n\u00e3o raro assumia o jeit\u00e3o de um <a title=\"Telecath na Wikip\u00e9dia\" href=\"https:\/\/www.google.com.br\/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=1&amp;cad=rja&amp;uact=8&amp;ved=0CB8QFjAA&amp;url=http%3A%2F%2Fpt.wikipedia.org%2Fwiki%2FTelecatch&amp;ei=RMdvVM78ArHLsATH1YLgAg&amp;usg=AFQjCNF0MVnaZAWPdoGTqWvtDYN_cn241g&amp;bvm=bv.80185997,d.cWc\">telecatch<\/a>. Sem o saber, Cid Moreira e S\u00e9rgio Chapelin iam treinando a opini\u00e3o p\u00fablica na aceita\u00e7\u00e3o do dualismo fajuto, e por isso <a title=\"\u00daltimas pesquisas, \u00faltimo debate, nenhuma esperan\u00e7a\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=815\">est\u00e9ril<\/a>, que <a title=\"PA\u00cdS EMPATADO, N\u00c3O DIVIDIDO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=946\">ainda hoje<\/a> se faz notar na porfia v\u00e3 entre <a title=\"IGUALMENTE COMPROMETIDOS\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1039\">PT e PSDB<\/a> &#8212; mas n\u00e3o nos adiantemos tanto.<\/p>\n<p>Eleitoral e diretamente dependentes de um jogo sa\u00eddo da pol\u00edtica mi\u00fada dos munic\u00edpios, e institucionalmente submetidas ao governador respectivo, as representa\u00e7\u00f5es nas Assembleias estaduais eram, tal como hoje, pouco afeitas \u00e0 contesta\u00e7\u00e3o e pr\u00f3digas em negocia\u00e7\u00f5es de interesses apartados do que quer que a sociedade aspirasse &#8212; um aut\u00eantico circo, onde todos tinham voz e vez desde que respeitados a geleia geral e o &#8220;decoro&#8221;, recebendo-se, em contrapartida, os favores ou defer\u00eancias que a caneta do governador determinasse sob a vigil\u00e2ncia uniformizada que tinha atr\u00e1s de si. Tudo mais ou menos no esp\u00edrito da &#8220;linha de shows&#8221; da Globo, onde os campe\u00f5es de audi\u00eancia eram o Programa do Chacrinha e o Programa Silvio Santos, nos quais se acolhia igualmente aberra\u00e7\u00f5es e talentos, reuni\u00e3o cujo potencial explosivo era desengatilhado pela figura judicante do apresentador, que naturalizava simbolicamente a ordem unipessoal desigualit\u00e1ria anti-povo vigente fora do palco distribuindo arbitrariamente, no mesmo palco, microfone, bacalhau e dinheiro, contando com a retaguarda prestimosa das uniformizadas <em>chacretes<\/em>, <em>silvetes<\/em> e cong\u00eaneres, cuja passividade feminina disciplinada\u00a0era o rebate tergiversador da hier\u00e1rquica ordem militar masculina. Como deveria ser \u00f3bvio, n\u00e3o estou postulando a exist\u00eancia de nenhum g\u00eanio do mal que a tudo tenha previa e intencionalmente concebido: representa\u00e7\u00f5es s\u00e3o exerc\u00edcio de mimetiza\u00e7\u00e3o que invocam mem\u00f3rias j\u00e1 partilhadas e, por isso, em geral tendem inercialmente \u00e0 converg\u00eancia formal, independentemente das inten\u00e7\u00f5es de quem quer que seja &#8212; o que d\u00e1 trabalho \u00e9 romper a in\u00e9rcia e, por isso, televis\u00e3o e pol\u00edticos mudam t\u00e3o devagar e, na mesma batida, <a title=\"MAIS PODER AO ELEITOR \u2013 eleitor e telespectador s\u00e3o a mesma pessoa\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=28\">telespectador e eleitor<\/a> n\u00e3o s\u00e3o menos lentos para mudar de canal e de voto, mantidas as condi\u00e7\u00f5es normais de temperatura e press\u00e3o.<\/p>\n<p>Tendo como certo, portanto, n\u00e3o ser por acaso que a palavra <i>representa\u00e7\u00e3o<\/i> seja empregada tanto para descrever a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica como a a\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, tamb\u00e9m n\u00e3o haver\u00e1 de ser casual que os teatros das grandes encena\u00e7\u00f5es que treinaram eleitores e telespectadores no jogo <i>proibido x permitido<\/i> tenham sido (e, de certa maneira, ainda venham sendo) o Congresso Nacional e as telenovelas noturnas da Globo. Assim como a anti-candidatura de Ulisses Guimar\u00e3es \u00e0 presid\u00eancia contra o general Ernesto Geisel &#8212; uma pedag\u00f3gica encena\u00e7\u00e3o de &#8220;enfrentamento&#8221;, pois o recuo j\u00e1 estava embutido &#8212; acabou por preparar os \u00e2nimos para a <em>lenta, gradual e segura<\/em> transi\u00e7\u00e3o at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es diretas (e para al\u00e9m delas&#8230;), tamb\u00e9m a teledramaturgia novelesca da Globo foi a encena\u00e7\u00e3o de exerc\u00edcios prolongados de transi\u00e7\u00e3o em que ganhadores e perdedores nunca chegavam realmente a se caracterizar &#8212; nossa Lei de Anistia, que encobriu torturadores e n\u00e3o se ocupou dos desaparecidos, foi fruto da mesma inclina\u00e7\u00e3o pelos panos quentes.<\/p>\n<p>Ao assistir, torcendo por ela, Gerusa, a neta do coronel Ramiro Bastos, realizar sua fantasia romanesca proibida com o <i>Dr.<\/i> Mundinho (o &#8220;Dr.&#8221; \u00e9 importante), um jovem que se opunha ao av\u00f4 poderoso e que, sem poder chegar \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de coronel, contentou-se em disputar o posto eletivo de &#8220;Intendente do porto&#8221; contra a vontade do velho autocrata, ao acompanhar o desenrolar dessa trama em que tudo mudou para que tudo ficasse como estava, aspecto que a desdita da rebelada Malvina (magistralmente vivida pela ent\u00e3o estreante Elizabeth Savalla) n\u00e3o deixou de real\u00e7ar, o telespectador-eleitor n\u00e3o estava sendo entretido para esquecer a realidade, antes estava sendo levado a consider\u00e1-la sob a \u00f3tica de um pacto em que a mistura do velho com o novo n\u00e3o resultava em um monstrengo, mas na felicidade de todos (ou quase). Al\u00e9m de Walter Durst, tamb\u00e9m Dias Gomes, Br\u00e1ulio Pedroso e Jorge Andrade fizeram uso, nas suas novelas daquele per\u00edodo, desse arremedo da &#8220;linguagem es\u00f3pica&#8221; que caracterizara a literatura russa sob censura tzarista no s\u00e9culo XIX (um exemplo \u00e9 o conto <i>Rel\u00edquia viva<\/i>, de Ivan Turgu\u00eaniev, cuja an\u00e1lise fiz <a href=\"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/LITERATURA-CONTRA-IMOBILISMO-NA-RUSSIA-DO-SECULO-XIX_Carlos-NOVAES_VERSAO_FINAL.pdf\">aqui<\/a> (pag.192).<\/p>\n<p>A chegada \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica do <i>p-emedebista<\/i> ultra-conservador Tancredo Neves pelo voto indireto, tendo como vice Jos\u00e9 Sarney, da ARENA, foi o coroamento desse jogo de esconde-esconde midi\u00e1tico-pol\u00edtico, que reunia pol\u00edticos experimentados na pr\u00e1tica de arrancar na mi\u00fada o voto do eleitor para fazer \u00e0s suas costas a trafic\u00e2ncia dos interesses gra\u00fados. O \u00e1pice da mistifica\u00e7\u00e3o se deu na tela da Globo, que depois de ter tentado em v\u00e3o esconder a campanha das diretas, cobriu esse resultado do malogro da luta popular de modo a levar o eleitorado \u00e0 fantasia de que era ele o respons\u00e1vel por aquela &#8220;conquista&#8221; no Col\u00e9gio eleitoral da ditadura &#8212; nada poderia ser mais emblem\u00e1tico do impasse em que nos encontr\u00e1vamos e, por isso mesmo, o circo tinha de ser total: apresentou como uma conquista da sociedade um arranjo palaciano destinado a burlar o que ela mais queria, por mais complicado que tenha sido para os pol\u00edticos profissionais lograr tal resultado. Ali\u00e1s, foi complicad\u00edssimo precisamente porque destinado a contornar o incontorn\u00e1vel, a desigualdade &#8212; frustra\u00e7\u00e3o de que o PT foi o principal benefici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Veio a Constituinte e nela o pluripartidarismo nominal foi suplantado pelo &#8220;bipartidarismo&#8221; real, naquela altura ainda com a exce\u00e7\u00e3o do PT, que corria por fora, energizado por liga\u00e7\u00e3o direta pr\u00f3pria com a sociedade. O Centr\u00e3o, assim como a ARENA havia feito, organizou os mais conservadores e o p-MDB continuou a fazer o jogo pela outra ponta, mas agora em um cen\u00e1rio em que as posi\u00e7\u00f5es de mando estavam <i>quase<\/i> invertidas &#8212; o s\u00edmbolo desse rearranjo estava em que Ulisses Guimar\u00e3es passara de anti-candidato \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica \u00e0 presid\u00eancia dos trabalhos constituintes: quem tivesse acompanhado o per\u00edodo anterior n\u00e3o poderia ver nisso propriamente uma transforma\u00e7\u00e3o. Com efeito, a despeito da formid\u00e1vel mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade, as <a title=\"O PAL\u00c1CIO E A RUA \u2014 1 de 4\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1094\">aspira\u00e7\u00f5es das ruas foram vencidas pelos interesses de pal\u00e1cio<\/a>, que nos legaram uma <i>Constitui\u00e7\u00e3o postergada<\/i>: repleta de novidades alvissareiras, mas quase tudo que dizia, e diz, respeito a alterar a ordem que mant\u00e9m a desigualdade foi procrastinado para regulamenta\u00e7\u00e3o ulterior. Esse resultado reproduziu a l\u00f3gica dramat\u00fargica das novelas dos anos 1970, nas quais, depois de muito lutarem comendo o p\u00e3o que o diabo amassou, os mocinhos colhiam como vit\u00f3ria uma solu\u00e7\u00e3o de compromisso com o estado de coisas que combatiam. Ou seja, a cad\u00eancia da transi\u00e7\u00e3o lenta, gradual e segura pautou e continua a pautar a vida pol\u00edtica nacional, e \u00e9 contra essa l\u00f3gica de pal\u00e1cio que as ruas voltam a se agitar, empurradas pelos sofrimentos intoler\u00e1veis da desigualdade (voltaremos a isso).<\/p>\n<p>Ao dar apoio para o quinto ano de mandato do arenoso Sarney, o p-MDB deixou claro que pau que nasce torto morre torto: nascidos e selecionados num longo processo em que n\u00e3o se disputava um projeto nacional, peneirados segundo fossem capazes de \u00eaxito em renhidas disputas mi\u00fadas (ainda que por presas gra\u00fadas), os profissionais do p-MDB n\u00e3o viram problema, sequer fizeram caso, de que a prorroga\u00e7\u00e3o do mandato do presidente indireto implicaria em que a elei\u00e7\u00e3o presidencial direta prevista seria realizada inteiramente desamarrada das elei\u00e7\u00f5es para os legislativos federais: eles n\u00e3o aspiravam a presid\u00eancia, mas o mando da l\u00f3gica de pal\u00e1cio, cujo p\u00f3lo din\u00e2mico, sabiam-no desde sempre, era o Congresso, onde J\u00c1 estavam assentados (e de onde a <a title=\"S\u00d3 4 J\u00c1 \u2013 representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 profiss\u00e3o\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=115\">reelei\u00e7\u00e3o infinita<\/a> permite que n\u00e3o saiam). Foi esse c\u00e1lculo antigo que selou a sorte de Ulisses Guimar\u00e3es nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1989: disputando uma elei\u00e7\u00e3o solteira, apartado das ruas e sem projeto, ele viu seus partid\u00e1rios aderirem ao candidato da Globo (claro!), cuja capacidade de manipula\u00e7\u00e3o foi mais uma vez posta a servi\u00e7o da manuten\u00e7\u00e3o da desigualdade e contra a l\u00f3gica da rua, ent\u00e3o simbolizada por Lula (julgo que o leitor tiraria mais proveito dessa narrativa se lesse tamb\u00e9m dois outros textos meus:\u00a0<i><a title=\"QUANDO A MEM\u00d3RIA MAIS ENTRAVA DO QUE INFORMA O FLUXO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=837\">Quando a mem\u00f3ria mais entrava do que informa o fluxo<\/a>\u00a0<\/i>e <a title=\"A POL\u00cdTICA ENTRE A MEM\u00d3RIA E O FLUXO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=750\">A Pol\u00edtica entre a mem\u00f3ria e o fluxo<\/a>).<\/p>\n<p>Enfim, quando, em nossos dias, saturados de tanta porfia eleitoral escamoteadora, novela e teledramaturgia jornal\u00edstica, temos, <b>de um lado<\/b>, no folhetim\u00a0<em>Imp\u00e9rio<\/em>, a Globo a arrastar o tal beijo gay a ponto de dar-lhe a forma de uma fotografia, num arranjo pl\u00e1stico em que os protagonistas mais parecem pai e filho, e nenhum dos dois \u00e9 um gay t\u00e3o convicto assim, e enxergamos a semelhan\u00e7a com a camuflada dupla gay da novela <em>O Reb\u00fa<\/em>, velha de 40 anos (1974), onde Buza Ferraz aparecia comportadamente &#8220;adotado&#8221; por Zimbinsky &#8212; e, <b>de outro lado<\/b>, temos Michel Temer, o comandante do p-MDB e <b><i><span style=\"text-decoration: underline;\">vice<\/span><\/i><\/b>-presidente da Rep\u00fablica, a observar, com a fleugma costumeira, que no caso Petrobr\u00e1s h\u00e1 que eventualmente corrigir &#8220;exageros&#8221;&#8230; diante de tergiversa\u00e7\u00f5es desse porte e a essa altura dos acontecimentos e dos costumes, onde o vanguardismo sem risco da Globo n\u00e3o passa de um arrombar portas abertas e o mudancismo sem risco do p-MDB \u00e9 a face vis\u00edvel de uma inser\u00e7\u00e3o eleitoral de 50 anos, n\u00e3o sei exatamente onde se pode encontrar amparo para a tese de Marcos Nobre de que a pr\u00e1tica p-medebista teve origem congressual na d\u00e9cada de 1980 e, a partir de ent\u00e3o, contaminou o resto do sistema pol\u00edtico: o autor parece acreditar que o c\u00e2ncer de medula do nosso sistema pol\u00edtico se deva a erro de postura e seja transmitido por cont\u00e1gio atmosf\u00e9rico!<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o h\u00e1 propriamente singularidade, mas a raz\u00e3o \u00e9 outra: <i>centrismo, demismo, pemedebismo, tucanismo, lulismo <\/i>e<i> lulopetismo <\/i>s\u00e3o proje\u00e7\u00f5es prism\u00e1ticas na ordem pol\u00edtica local de uma mesma interdi\u00e7\u00e3o imposta aqui pela ordem do capital: o enfrentamento da desigualdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P-MDB e GLOBO, 50 anos de algum p\u00e3o e muito circo Carlos Novaes, 21 de novembro de 2014 A ditadura paisano-militar instalada em 1964 foi o desfecho desfavor\u00e1vel ao povo de uma polariza\u00e7\u00e3o em que se disputava o modo de arranjar o capital local e o tamanho da desigualdade dele decorrente. Venceram os inimigos do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1338,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,2],"tags":[],"class_list":["post-1260","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reforma-politica","category-textos-mais-antigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1260","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1338"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1260"}],"version-history":[{"count":48,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1260\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7016,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1260\/revisions\/7016"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1260"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1260"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1260"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}