{"id":1340,"date":"2014-11-25T20:14:33","date_gmt":"2014-11-25T23:14:33","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1340"},"modified":"2015-05-19T15:41:58","modified_gmt":"2015-05-19T18:41:58","slug":"desigualdade-mudancismo-e-voto-2-de-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1340","title":{"rendered":"DESIGUALDADE, MUDANCISMO E VOTO &#8212; 2 de 4"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><i style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">Escolhas passadas arbitram perdas presentes e comprometem o futuro<\/i><\/p>\n<p align=\"right\">Carlos Novaes, 25 de novembro de 2014<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dizia eu no artigo <a title=\"DESIGUALDADE, MUDANCISMO E VOTO \u2014 1 de 3\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1260\">anterior<\/a> que o p-MDB de 2014 est\u00e1 exatamente onde sempre esteve, desde o p-MDB de 1965: coadjuvante de um arranjo pol\u00edtico baseado num modelo eleitoral cujo limite \u00e9 conservador porque destinado a sustentar a desigualdade. O <i>lulopetismo<\/i> oligarquizado e burocratizado \u00e9 o substituto, <i>do momento,<\/i> para a c\u00fapula hier\u00e1rquica da burocracia <i>paisano-militar<\/i>, pano de fundo cujas diferen\u00e7as emba\u00e7amos para melhor fazer o foco na continuidade de largo curso que o p-MDB simboliza, e que \u00e9 preciso entender para poder transformar. O mist\u00e9rio \u00e9 como isso foi poss\u00edvel n\u00e3o obstante tenhamos assistido na tela da Globo as mudan\u00e7as cont\u00ednuas que a sociedade brasileira e o mundo viveram no curso desses 50 anos, a come\u00e7ar pela queda do Muro e pelo processo que nos conduziu, atrav\u00e9s do voto, a transitar do mando dos generais para os governos do PT.<\/p>\n<p>Se, do \u00e2ngulo da desigualdade, tudo mudou para que tudo ficasse como estava, vejamos o que h\u00e1 de mais importante do lado da <b><i>mudan\u00e7a<\/i><\/b> e do lado da <b><i>perman\u00eancia<\/i><\/b>. A mudan\u00e7a mais importante, quando se tem em mente entender o que se passa com o objetivo de transformar o pa\u00eds contra a desigualdade, \u00e9 que <b><i>multiplicaram-se os atores organizados<\/i><\/b>. N\u00e3o apenas temos hoje muito mais organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas dos tipos que j\u00e1 t\u00ednhamos em 65, como partidos e sindicatos, mas tamb\u00e9m inventamos e sustentamos muitas outras formas de organiza\u00e7\u00e3o est\u00e1vel de a\u00e7\u00e3o coletiva, como ONGs e movimentos sociais de v\u00e1rias fei\u00e7\u00f5es. Entretanto, em raz\u00e3o mesmo da desigualdade e da forma desigual com que sua magnitude se faz sofrimento para aqueles que est\u00e3o submetidos a ela, ou seja, em como ela se distribui desigualmente no espectro social, todo esse esfor\u00e7o de a\u00e7\u00e3o organizada perdeu pot\u00eancia transformadora: no caso das organiza\u00e7\u00f5es tradicionais (partidos e sindicatos), depois do impulso inicial, convergente com o primeiro petismo, a velha atra\u00e7\u00e3o pelos benef\u00edcios de ter &#8220;chegado l\u00e1&#8221; levou <i>seus dirigentes<\/i> ao abandono dos prop\u00f3sitos transformadores iniciais (a <i>Carta aos brasileiros<\/i> e a manuten\u00e7\u00e3o do imposto sindical s\u00e3o os s\u00edmbolos mais claros dessa <a title=\"PT PAGA O PRE\u00c7O PELA SUA ACOMODA\u00c7\u00c3O CONSERVADORA\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=478\">capitula\u00e7\u00e3o<\/a>); no caso das organiza\u00e7\u00f5es de novo tipo, o problema foi que, salvo exce\u00e7\u00f5es conhecidas, <i>seus dirigentes<\/i> desviaram seus vetores de for\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o do Estado, legitimando-o tal como \u00e9, tratando-o comodamente como o estu\u00e1rio natural das car\u00eancias (vide a <i>Constitui\u00e7\u00e3o postergada<\/i>), sem que se tivessem formado na sociedade an\u00e9is firmes em torno do inegoci\u00e1vel na luta contra a desigualdade &#8212; em ambos os casos vigorou o velho ditado &#8220;farinha pouca, meu pir\u00e3o primeiro&#8221;.<\/p>\n<p>Insistir sobre a capacidade de coopta\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro para explicar esse fen\u00f4meno seria fazer o cachorro correr atr\u00e1s do pr\u00f3prio rabo, uma vez que essa <i>capacidade<\/i> \u00e9 exatamente o sim\u00e9trico da &#8220;<i>inclina\u00e7\u00e3o&#8221;<\/i> dos burocratas das organiza\u00e7\u00f5es \u00e0 coopta\u00e7\u00e3o, e o que d\u00e1 vig\u00eancia a elas, digo \u00e0 capacidade e \u00e0 &#8220;inclina\u00e7\u00e3o&#8221;, \u00e9 a desigualdade. Apontar que o fim da desigualdade resolveria o problema seria desconsiderar que o que permite a manuten\u00e7\u00e3o da desigualdade s\u00e3o tamb\u00e9m aquelas capacidade e &#8220;inclina\u00e7\u00e3o&#8221;. Em suma, o problema \u00e9 entender onde est\u00e3o apoiadas as for\u00e7as pr\u00f3-desigualdade e porque as melhores e mais aut\u00eanticas for\u00e7as em prol da mudan\u00e7a, quando n\u00e3o morrem na praia, v\u00edtimas da viol\u00eancia paisano-militar do Estado brasileiro, acabam por se acomodar ao sol filtrado por uma desigualdade cuja magnitude n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o diminui, mas parece que se prepara para aumentar, tal como vem acontecendo no chamado mundo desenvolvido, com o qual nos parecemos cada vez mais (ou seria o contr\u00e1rio?).<\/p>\n<p>De fato, o cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro apresenta uma configura\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 vigente em pa\u00edses chamados de primeiro mundo, sendo exemplos mais n\u00edtidos a Espanha e a It\u00e1lia: a primeira porque um movimento de rua recente, ainda mais abrangente e vigoroso do que o nosso, motivado a contestar o ajuste fiscal exigido pelo capital para corrigir efeitos t\u00f3xicos das suas pr\u00f3prias estripulias, acabou por tamb\u00e9m desembocar eleitoralmente na polariza\u00e7\u00e3o eleitoreira PSOE-PP, com a vit\u00f3ria da alternativa mais conservadora, ou seja, ainda mais apegada do que o PSOE aos dogmas do mercado que haviam gerado o veneno contra cujos efeitos a rua se mobilizara &#8212; o disparate se deu porque o PSOE era governo e o PP se assentava na condi\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel de oposi\u00e7\u00e3o (pela mesma ordem de raz\u00f5es, mais um pouquinho de Petrobr\u00e1s na campanha e A\u00e9cio teria derrotado Dilma).<\/p>\n<p>J\u00e1 com a It\u00e1lia nos parecemos duplamente: tanto porque nossa ida \u00e0s ruas contra os limites do pacto conservador que nos infelicita tem sido pouco menos aguerrida do que l\u00e1, sem o \u00edmpeto espanhol (afinal tamb\u00e9m ele malogrado, tal como sua vers\u00e3o norte-americana, ainda menos efetiva do que o <i>15M <\/i>ib\u00e9rico, o <i>Occupy<\/i> &#8212; sem preju\u00edzo de que, l\u00e1 como c\u00e1, nada chegou ao fim); tamb\u00e9m parecemos com a It\u00e1lia, eu dizia, porque a nossa corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 igualmente end\u00eamica e, se for combatida a fundo, poder\u00e1 arrastar com ela todo o sistema pol\u00edtico e boa parte das grandes empresas, tal como <i>quase<\/i> aconteceu na <em>Bota<\/em> no decurso da chamada &#8220;opera\u00e7\u00e3o m\u00e3os limpas&#8221; &#8212; o que n\u00e3o deixa de ser uma deixa, embora j\u00e1 surjam vozes &#8220;sensatas&#8221;, sa\u00eddas dessa nova jabuticaba anal\u00edtica brasileira, a <a title=\"MAIS UMA DA CR\u00cdTICA CAMARADA\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1299\">&#8220;cr\u00edtica camarada&#8221;<\/a>, a nos advertir para os perigos da s\u00edndrome de Berlusconi, sem perceber que o rem\u00e9dio prescrito \u00e9 precisamente o que realizaria a s\u00edndrome: como sabido, o fascista bufo, e a &#8220;nova&#8221; corrup\u00e7\u00e3o que o acompanhou, emergiram da devasta\u00e7\u00e3o provocada pela &#8220;m\u00e3os limpas&#8221; exatamente porque ela n\u00e3o devastou a <i>ordem<\/i> pol\u00edtica, que foi preservada, mas apenas a <i>elite<\/i> pol\u00edtica italiana.<\/p>\n<p>L\u00e1 como c\u00e1, <a title=\"O PAL\u00c1CIO E A RUA \u2014 1 de 4\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1094\">o mesmo fosso<\/a> entre a l\u00f3gica de pal\u00e1cio (mantenedora da ordem desigual), e a l\u00f3gica da rua (de quem sofre a desigualdade), e o mesmo desfecho frustrante das mobiliza\u00e7\u00f5es de rua, que esbarram nos aparatos policiais e se dissipam em falsas polariza\u00e7\u00f5es eleitoreiras entre as for\u00e7as que se especializaram em disputar os postos de mando do pal\u00e1cio. Como em cada pa\u00eds o arranjo pol\u00edtico se d\u00e1 segundo modelos eleitorais e partid\u00e1rios peculiares, havendo as combina\u00e7\u00f5es institucionais mais variadas para acabar nas mesmas frustra\u00e7\u00f5es na representa\u00e7\u00e3o, a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o vir\u00e1 pela imita\u00e7\u00e3o de uns do modelo eleitoral dos outros, o que deveria ser suficiente para soterrar todas as ilus\u00f5es em torno de uma <a title=\"REFORMA CONTRA MUDAN\u00c7A\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=46\">reforma pol\u00edtica redentora<\/a> para o Brasil: o <a title=\"UMA MUDAN\u00c7A DE ALCANCE MUNDIAL\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=121\">pa\u00eds e o mundo<\/a> precisam de uma transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que dobre a aposta na busca de uma forma democr\u00e1tica de resolver conflitos que incorpore ainda mais a vontade dos insatisfeitos.<\/p>\n<p>Conectado \u00e0quela mencionada multiplica\u00e7\u00e3o de atores organizados verificada no curso dos \u00faltimos 50 anos da pol\u00edtica brasileira, temos um <b><em>dispositivo institucional invariante<\/em>. <\/b>Partilhado por praticamente todas as chamadas democracias ocidentais, sua longeva solidez porosa ajuda a explicar a perda do \u00edmpeto transformador das novas organiza\u00e7\u00f5es sociais porque faz dele o principal filtro pol\u00edtico contra a mudan\u00e7a: <b>a <em>reelei\u00e7\u00e3o infinita para o legislativo<\/em><\/b>, cuja inadequa\u00e7\u00e3o e imbrica\u00e7\u00e3o com a desigualdade discuti longamente <a title=\"A POL\u00cdTICA ENTRE A MEM\u00d3RIA E O FLUXO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=750\">aqui<\/a> e em outros <a title=\"PARTIDOS E PROFISSIONAIS DA REPRESENTA\u00c7\u00c3O\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=159\">textos<\/a> deste blog. Em poucas linhas: por mais novidades que tragam, aqueles novos atores organizados esbarram num sistema pol\u00edtico estruturado para n\u00e3o mudar, pois a reelei\u00e7\u00e3o infinita permite a perpetua\u00e7\u00e3o dos mesmos personagens e das mesmas rotinas, independentemente de o quanto a sociedade tenha mudado &#8212; em outras palavras, se as sociedades mudam devagar, ainda mais lenta se faz a mudan\u00e7a quando elas est\u00e3o amarradas pela reelei\u00e7\u00e3o infinita. Para piorar as coisas, essa din\u00e2mica da reelei\u00e7\u00e3o \u00e9 replicada em praticamente todos as <a title=\"NEM DELEGAT\u00c1RIOS, NEM ABNEGADOS\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=125\">novas organiza\u00e7\u00f5es<\/a>: a tend\u00eancia \u00e9 reconduzir quem j\u00e1 est\u00e1 no comando, numa nega\u00e7\u00e3o ao fluxo de mudan\u00e7a que vem da sociedade &#8212; n\u00e3o sei n\u00e3o, mas desconfio que as dire\u00e7\u00f5es de nossas organiza\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o ainda mais est\u00e1veis do que as das grandes empresas, que realizam trocas para n\u00e3o perder o bonde do fluxo das mercadorias.<\/p>\n<p>Explicar a crise de representa\u00e7\u00e3o pela l\u00f3gica de pal\u00e1cio (como faz Marcos Nobre com seu <i>pemedebismo<\/i>) \u00e9 tomar o efeito como causa do problema: h\u00e1 crise de representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o porque criou-se uma din\u00e2mica de pal\u00e1cio em que uns vetam os outros (isso, quando muito, descreve l\u00e1 a briga entre eles, enquanto j\u00e1 divorciados da sociedade e ocupados do butim &#8211; ao pre\u00e7o de deixar de lado o lastro que permite que eles se deem ao luxo dessa briga), mas porque a escolha do representante em uma sociedade que quer mudan\u00e7a se faz segundo um modelo eleitoral hostil \u00e0 l\u00f3gica da rua (na qual est\u00e3o mais ou menos engajados os representados), que obriga fazer a escolha sempre entre os mesmos, o que leva \u00e0 fratura do fluxo j\u00e1 lento da mudan\u00e7a pelo acionamento dos freios da in\u00e9rcia que o modelo favorece no comportamento propriamente eleitoral do cidad\u00e3o que, n\u00e3o obstante, quer mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Essa a engrenagem de onde tamb\u00e9m saiu a nossa transi\u00e7\u00e3o lenta, gradual e segura da ditadura para a democracia, com o p-MDB preservando seu papel de pelego gra\u00e7as \u00e0 especializa\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica eleitoral mi\u00fada que a ditadura o obrigou a adquirir e para a qual ele seleciona, h\u00e1 50 anos, os mais tarimbados profissionais nessa correia de transmiss\u00e3o que sai dos munic\u00edpios, passa pelos Governos e Assembl\u00e9ias estaduais e chega ao Congresso Nacional, sem jamais precisar de projeto nacional algum, pois este sempre ser\u00e1 o trabalho do <i>outro<\/i> &#8212; esse \u00e9 o legado propriamente pol\u00edtico da ditadura paisano-militar para a continuidade da desigualdade: sem o saber, ao adestrar o p-MDB, a ditadura criou o partido ideal para tirar proveito desse modelo eleitoral em benef\u00edcio da manuten\u00e7\u00e3o da desigualdade mesmo sob democracia, pois esse partido aglutina for\u00e7as n\u00e3o por ter um projeto para o pa\u00eds, mas precisamente por n\u00e3o t\u00ea-lo: ao mimetizar na pol\u00edtica os interesses individuais mi\u00fados que s\u00e3o a mat\u00e9ria escura da sociedade, o p-MDB \u00e9 o pr\u00f3prio entulho autorit\u00e1rio embrulhado para presente &#8212; ele \u00e9 a mem\u00f3ria que empata o fluxo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que agrada aos tucanos letrados ver o p-MDB cindido em duas criaturas (MDB e PMDB), uma antes da abertura pol\u00edtica e outra depois, pois assim se joga fora precisamente a ponte org\u00e2nica entre esse <i>antes<\/i> e esse <i>depois<\/i>, transfigura\u00e7\u00e3o que se deu segundo os des\u00edgnios de uma transi\u00e7\u00e3o &#8220;lenta, gradual e segura&#8221;: o p-MDB foi o instrumento para a pol\u00edtica Geisel-Golbery, conjunto que respondeu pela preserva\u00e7\u00e3o dos interesses da ordem do capital numa democracia desigualit\u00e1ria. Reapertado pelo <i>lulopetismo<\/i>, o plano Real <i>tucano<\/i> \u00e9 um n\u00f3 de marinheiro nessa corda antiga, que desde sempre est\u00e1 a amarrar os interesses dos extremos: os muito ricos s\u00e3o <i>governistas<\/i> enquanto fazem o governo, a quem s\u00f3 assim engolem; e os muito pobres o s\u00e3o porque dependem do governo, a quem s\u00f3 sufragam enquanto lhes d\u00e1 de comer.<\/p>\n<p>Logo, n\u00e3o foi um erro de c\u00e1lculo de presidentes mal assessorados que fez do p-MDB pe\u00e7a indispens\u00e1vel ao projeto mudancista que orienta o pa\u00eds desde o <a title=\"QUANDO A MEM\u00d3RIA MAIS ENTRAVA DO QUE INFORMA O FLUXO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=837\">realinhamento eleitoral de 1994<\/a>: o plano Real. PSDB e PT, conquanto n\u00e3o proponham nenhuma ruptura com o passado, precisam do p-MDB na sua disputa improdutiva pelo protagonismo na condu\u00e7\u00e3o do projeto comum precisamente porque ele s\u00f3 poderia ser dispensado se houvesse uma ruptura com o passado, cuja continuidade ele representa. O fato de no in\u00edcio de cada uma das suas respectivas eras governativas, tanto tucanos como lulopetistas terem tentado seguir sem o p-MDB mostra apenas que, como n\u00e3o poderia deixar de ser, eles partilham n\u00e3o apenas o projeto, mas tamb\u00e9m seu ponto cego: um projeto que satisfaz aos muito ricos e aos muito pobres, levando os primeiros a ganhar dinheiro como nunca e os segundos a comer como nunca antes, n\u00e3o \u00e9 um projeto transformador numa ordem econ\u00f4mica com grande desigualdade porque as faixas do meio do espectro social, motor de arranque de qualquer transforma\u00e7\u00e3o, s\u00e3o justamente aquelas que pagam o pato. Ou seja, uma vez sacrificada a energia social transformadora, o resultado s\u00f3 pode ser as for\u00e7as mudancistas dependerem da capacidade acomodat\u00edcia que a for\u00e7a partid\u00e1ria conservadora prov\u00ea. A for\u00e7a do p-MDB se nutre duplamente do sofrimento das camadas m\u00e9dias: a desorienta\u00e7\u00e3o delas tanto favorece a constru\u00e7\u00e3o da falsa polariza\u00e7\u00e3o em que ele se encosta como indispens\u00e1vel, como confere a ele os votos indispens\u00e1veis para que possa se fazer <em>encosto<\/em>.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o faz nenhum sentido enxergar na <a title=\"PA\u00cdS EMPATADO, N\u00c3O DIVIDIDO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=946\">polariza\u00e7\u00e3o <i>telecatch<\/i><\/a> da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2014 a tradu\u00e7\u00e3o de um impasse real porque n\u00e3o estaria &#8220;mais \u00e0 vista a possibilidade de que algu\u00e9m melhore sem que algu\u00e9m piore&#8221;, como quer Marcos Nobre. N\u00e3o. H\u00e1 um vasto segmento intermedi\u00e1rio perdendo desde o in\u00edcio, seja na remunera\u00e7\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica, contra\u00edda pela maioria junto aos rentistas, seja na degrada\u00e7\u00e3o correspondente da qualidade de vida nas maiores cidades. Em outras palavras, o analista n\u00e3o pode comprar a ilus\u00e3o das camadas m\u00e9dias (entre as quais est\u00e1 toda a camada superior dos empregados da ind\u00fastria) como se fosse real: os <a title=\"\u00daltimas pesquisas, \u00faltimo debate, nenhuma esperan\u00e7a\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=815\">ganhos f\u00e1tuos<\/a> que ela comemora em consumo custaram a deteriora\u00e7\u00e3o da qualidade de vida, enormes perdas ambientais n\u00e3o contabilizadas e o comprometimento da capacidade de investimento do Estado no futuro pr\u00f3ximo, tudo em favor dos mais ricos, cujos interesses tem sido garantidos pelas duas for\u00e7as que se enfrentam desde 1994 e cujo \u00eaxito varia conforme elas tenham ou n\u00e3o sucesso em receber a ades\u00e3o <i>governista<\/i> dos muito pobres, n\u00e3o sem antes lograrem alcan\u00e7ar a simpatia daquela parte das camadas m\u00e9dias que oscila eleitoralmente de um lado para o outro porque PT e PSDB s\u00e3o mais parecidos entre si do que Democratas com Republicanos, nos EUA, ou PSOE com PP, na Espanha.<\/p>\n<p>Como o Brasil emergente vem mais e mais se parecendo com os emergidos, fica cada vez mais dif\u00edcil saber quem copiou a quem. Por isso, os modelos explicativos apoiados na ideia de que o pa\u00eds mais adiantado \u00e9 o espelho do mais atrasado, ou na sua vers\u00e3o mais dial\u00e9tica (a palavra n\u00e3o \u00e9 minha) sobre um desenvolvimento desigual e combinado, est\u00e3o com \u00e1gua na g\u00e1vea &#8212; afinal, pelo andar da carruagem da desigualdade em toda parte, parece estar havendo uma revers\u00e3o pela qual o Brasil que temos sido sempre fora o futuro do mundo, que <em>j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o que era<\/em>, como concluiu Paul Val\u00e9ry diante do horror da primeira guerra mundial. Nessa ordem de id\u00e9ias, em que se destaca simetrias e semelhan\u00e7as sob a ordem do capital, e se desconfia das no\u00e7\u00f5es de &#8220;forma original&#8221; e &#8220;c\u00f3pia&#8221;, um suposto atraso brasileiro no concerto das na\u00e7\u00f5es tem de ser visto com cautela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escolhas passadas arbitram perdas presentes e comprometem o futuro Carlos Novaes, 25 de novembro de 2014 &nbsp; Dizia eu no artigo anterior que o p-MDB de 2014 est\u00e1 exatamente onde sempre esteve, desde o p-MDB de 1965: coadjuvante de um arranjo pol\u00edtico baseado num modelo eleitoral cujo limite \u00e9 conservador porque destinado a sustentar a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1338,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,2],"tags":[],"class_list":["post-1340","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reforma-politica","category-textos-mais-antigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1340","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1338"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1340"}],"version-history":[{"count":24,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1340\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1359,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1340\/revisions\/1359"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1340"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1340"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1340"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}