{"id":1363,"date":"2014-11-27T15:29:20","date_gmt":"2014-11-27T18:29:20","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1363"},"modified":"2023-05-08T19:34:18","modified_gmt":"2023-05-08T22:34:18","slug":"desigualdade-mudancismo-e-voto-3-de-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1363","title":{"rendered":"DESIGUALDADE, MUDANCISMO E VOTO &#8212; 3 de 4"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><i>Falsa polariza\u00e7\u00e3o, pseudo luta de classes e pemedebismo como tautologia<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\" align=\"center\"><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">Carlos Novaes, 27 de novembro de 2014<\/span><\/p>\n<p>Em <a title=\"MUITO BARULHO POR NADA \u2014 FAL\u00c1CIAS\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1065\">artigo<\/a> publicado neste Blog no dia seguinte \u00e0 elei\u00e7\u00e3o, em 27 de outubro, afirmei que na polariza\u00e7\u00e3o eleitoral havida, o que n\u00e3o fora fuma\u00e7a se revelaria espuma, pois o acirramento que dividira as classes sociais de cima a baixo n\u00e3o era para valer, sendo rid\u00edculo pretender invocar a luta de classes para explicar o resultado. Tempos depois, a revista Piau\u00ed de novembro trouxe o artigo do Marcos Nobre j\u00e1 mencionado no post anterior desta s\u00e9rie, no qual ele afirma que &#8220;a polariza\u00e7\u00e3o voltou&#8221; e segundo um acirramento que \u00e9 para valer, pois assentado na luta de classes.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter inconcili\u00e1vel de nossas opini\u00f5es ganha for\u00e7a se o leitor considerar que enquanto ele sup\u00f5e que o papel atual do PMDB na pol\u00edtica oficial brasileira se definiu no curso dos anos 1980 na forma de uma din\u00e2mica parlamentar, depois generalizada como <i>pemedebismo<\/i> para o sistema pol\u00edtico enquanto tal; para mim, o lugar atual do p-MDB na pol\u00edtica brasileira est\u00e1 dado desde 1965 e n\u00e3o segundo uma din\u00e2mica parlamentar, mas segundo a combina\u00e7\u00e3o de uma interdi\u00e7\u00e3o vinda de cima com uma vigorosa e tenaz inser\u00e7\u00e3o eleitoral enraizada embaixo, numa din\u00e2mica pol\u00edtica que sempre esteve ligada ao \u00e2mago da sociedade brasileira, bem como conectada ao processo de forma\u00e7\u00e3o e espraiamento de uma cultura midi\u00e1tica conservadora, como pretendo ter demonstrado nos dois primeiros artigos desta s\u00e9rie.<\/p>\n<p>Nas linhas que se seguem vou tentar articular de modo prof\u00edcuo esse conjunto de temas e entro na mat\u00e9ria retomando o final do artigo imediatamente <a title=\"DESIGUALDADE, MUDANCISMO E VOTO \u2014 2 de 3\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1340\">anterior<\/a>: como o Brasil e o chamado mundo desenvolvido tem apresentado tra\u00e7os de fam\u00edlia cada vez mais n\u00edtidos, parece clara a impertin\u00eancia de compara\u00e7\u00f5es com base no ros\u00e1rio de <i>d\u00e9ficits<\/i> do nosso &#8220;atraso&#8221; em face a um suposto mundo &#8220;adiantado&#8221;. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 lugar para id\u00e9ias como a de uma &#8220;luta de classes \u00e0 brasileira&#8221;, especialmente quando ela vem apresentada \u00a0com uma\u00a0<i>capitis diminutio<\/i>\u00a0do tipo\u00a0&#8220;foi a luta de classes que o pa\u00eds conseguiu produzir&#8221;, como diz Marcos Nobre no artigo mencionado.<\/p>\n<p>Ao tentar dar alguma rosca ao parafuso sem rosca que \u00e9 o seu <i>pemedebismo<\/i>, nosso autor voltou para a ferramentaria da revolu\u00e7\u00e3o industrial e de l\u00e1 saiu sem a reforma pol\u00edtica a que de in\u00edcio aludira (menos mal!), mas, em troca, trouxe uma luta de classes em toda a sua imperfei\u00e7\u00e3o tropical e, por isso mesmo, polidamente anexou, a um convite para entrarmos na plat\u00e9ia do <em>telecatch<\/em> que \u00e9 a polariza\u00e7\u00e3o PT-PSDB, um pedido de desculpas pelo nosso atraso diante do mundo cl\u00e1ssico da verdadeira luta de classes (que j\u00e1 n\u00e3o se v\u00ea em parte alguma).<\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">Quem leu com aten\u00e7\u00e3o o artigo, por\u00e9m, n\u00e3o pode ter deixado de perceber que o autor nos pede mais do que aceitar essa esquisita &#8220;luta de classes \u00e0 brasileira&#8221; &#8212; ele pretende que a aceitemos sem sequer nos apresentar as classes que estariam em luta. O m\u00e1ximo que nos concede \u00e9: ou uma, e s\u00f3 uma, das cinco &#8220;classes sociais&#8221; do Instituto de Pesquisas DataFolha, parte de um aparato t\u00e9cnico interessante, mas constru\u00eddo para segmentar amostras de pesquisas de opini\u00e3o e que n\u00e3o pode servir de dubl\u00ea a uma teoria de classes voltada \u00e0 miss\u00e3o imposs\u00edvel de resgatar a luta de classes (<em>ceteris paribus<\/em>); ou um certo <em>&#8220;rochedo lulista&#8221;<\/em>, formula\u00e7\u00e3o sa\u00edda da sopa rala oferecida por Andr\u00e9 Singer nessa pequena calamidade intelectual, n\u00e3o obstante possa ser acad\u00eamica \u00e0 brasileira, que \u00e9 o seu livro sobre um presumido <i>lulismo, <\/i>&#8220;conceito&#8221; inconsistente, entre outras raz\u00f5es, porque depende de um realinhamento eleitoral que postula, mas n\u00e3o existiu, como j\u00e1 demonstrei <a title=\"QUANDO A MEM\u00d3RIA MAIS ENTRAVA DO QUE INFORMA O FLUXO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=837\">aqui<\/a>. De sorte que, salvo melhor ju\u00edzo, Nobre nos apresenta uma limita\u00e7\u00e3o sua (n\u00e3o conseguiu identificar as classes) como se fosse uma limita\u00e7\u00e3o da realidade (o Brasil seria atrasado e faria a luta de classes imperfeita que seu atraso deixa fazer).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">Lamentavelmente, a \u00fanica luta que ele pr\u00f3prio conseguiu identificar se d\u00e1 dentro de uma mesma classe, cindida ao meio, segundo as pesquisas do mesmo instituto. Ora, mas se a &#8220;classe m\u00e9dia intermedi\u00e1ria&#8221; do DataFolha se dividiu ao meio (como, <em>mutatis mutandis<\/em>, todas as outras), cada metade indo em dire\u00e7\u00f5es &#8220;opostas&#8221; na polariza\u00e7\u00e3o que o autor enxerga na disputa presidencial, n\u00e3o parece muito produtivo insistir que estamos diante de uma classe, a menos que encaremos uma das metades (ou a ambas) como alienada de seus pr\u00f3prios interesses de classe, aspecto que o autor n\u00e3o enfrentou, pois se limitou a nos contar o que sup\u00f5e sejam os elaborados c\u00e1lculos mentais utilit\u00e1rios que a turma fez. Se, como eu, o leitor entender que a polariza\u00e7\u00e3o havida \u00e9 fajuta, pois PT e PSDB s\u00e3o vetores de um mesmo projeto de mudan\u00e7a incremental conservadora, a classe cindida do Marcos Nobre n\u00e3o nos \u00e9 \u00fatil porque nem est\u00e1 em luta propriamente de <i>classes<\/i>, nem se presta a explicar o porque de cada metade ter escolhido um dos vetores da disputa.<\/span><\/p>\n<p>Na cita\u00e7\u00e3o abaixo re\u00fano trechos diferentes do artigo de Nobre para facilitar a discuss\u00e3o do que suponho ser a inconsist\u00eancia central da sua an\u00e1lise e apontar o quanto essa inconsist\u00eancia deriva do emprego circular do tal <i>pemedebismo <\/i>(o que, \u00e9 claro, n\u00e3o exime o leitor de ir ao texto integral):<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Essa \u00e9 a luta de classes que o pa\u00eds conseguiu produzir. Junho de 2013 foi o marco inaugural dessa fase. [\u00a7]. Assim como em junho de 2013, ao longo de 2014 muita gente se espantou com a virul\u00eancia dos ataques e das defesas das diferentes posi\u00e7\u00f5es. [&#8230;]. A virul\u00eancia da disputa social ainda n\u00e3o arranjou o sistema pol\u00edtico no sentido das ruas [&#8230;]. Em sistema pol\u00edtico pemedebizado, a polariza\u00e7\u00e3o quer dizer simplesmente que a disputa pelo cargo de s\u00edndico \u00e9 para valer e n\u00e3o s\u00f3 para constar [&#8230;]. O PMDB&#8230;fortaleceu sua posi\u00e7\u00e3o [no] sistema pol\u00edtico pemedebizado. [&#8230;]. &#8230;[A] volta da polariza\u00e7\u00e3o para a elei\u00e7\u00e3o de s\u00edndico pode n\u00e3o significar nada al\u00e9m de um novo impulso e de uma nova m\u00e1scara para a geleia geral do pemedebismo.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Nobre moldou uma luta de classes que curiosamente n\u00e3o se presta a contrastar o sistema pol\u00edtico, mas adere a ele. O problema \u00e9 que, para poder funcionar, esse arranjo anal\u00edtico, al\u00e9m de tornar sup\u00e9rflua a luta de classes cuja volta celebrou, tem de transformar a\u00a0 virul\u00eancia das ruas numa fant\u00e1stica busca comum pela n\u00e3o-mudan\u00e7a. A raz\u00e3o disso tudo \u00e9 o fato de Nobre ter comprado o discurso oficial de que o pacto diminuiu a desigualdade (na verdade, melhorou a situa\u00e7\u00e3o dos de baixo) sem acarretar perdas a ningu\u00e9m, o que o empurra a atribuir ao voto de todo mundo motiva\u00e7\u00f5es conservadoras segundo elaborado c\u00e1lculo utilitarista &#8212; \u00e9 por isso que sua &#8220;classe m\u00e9dia intermedi\u00e1ria&#8221;, pedra angular do artigo, vem dividida entre a metade que votou em A\u00e9cio pelo &#8220;congelamento da grade de classes&#8221; e a outra metade que foi de Dilma para &#8220;consolidar a posi\u00e7\u00e3o rec\u00e9m-alcan\u00e7ada&#8221; &#8212; ou seja, espantosamente, num pa\u00eds sabidamente insatisfeito, ningu\u00e9m teria buscado a mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Segundo a implaus\u00edvel &#8220;dial\u00e9tica&#8221; dessa polariza\u00e7\u00e3o \u00e0 brasileira, a classe fundamental do processo se dividiu acirradamente no voto apenas para se manter unida no mesmo prop\u00f3sito: <em>que tudo fique como est\u00e1<\/em>. Ora, uma luta de classes que se d\u00e1 na esquizofrenia da mesma classe, com as duas metades brigando irreconciliavelmente n\u00e3o para alcan\u00e7ar objetivos d\u00edspares, mas objetivando o mesmo resultado, isto \u00e9, congelar a realidade, uma luta de classes assim \u00e9, n\u00e3o por acaso, a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o do <i>pemedebismo<\/i>, racioc\u00ednio circular com o qual nosso autor solda a sociedade com o sistema pol\u00edtico, n\u00e3o havendo entre os dois hemisf\u00e9rios nenhuma contradi\u00e7\u00e3o a resolver. \u00c9 uma pena que essa maneira de enxergar antes desmancha do que constr\u00f3i seja a luta de classes, seja a polariza\u00e7\u00e3o real pretendida pelo autor: tudo gira em falso.<\/p>\n<p>Ao se render ao discurso legitimador do pacto, que torna a sociedade ref\u00e9m de suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es (do pacto e da an\u00e1lise), Nobre fica impedido de atinar para a circularidade em que se enredou e, ent\u00e3o, termina seu artigo especulando <i>hipoteticamente<\/i> que a <i>&#8220;polariza\u00e7\u00e3o para a elei\u00e7\u00e3o de s\u00edndico pode n\u00e3o significar nada al\u00e9m de um novo impulso e de uma nova m\u00e1scara para a geleia geral do pemedebismo&#8221;&#8230;. <\/i>Ora,<i> <\/i>n\u00e3o \u00e9 que &#8220;pode n\u00e3o significar&#8221;; o artigo depende de que a <i>polariza\u00e7\u00e3o<\/i> apontada <i>coincida<\/i> com o <i>pemedebismo <\/i>presumido, pois de antem\u00e3o ningu\u00e9m quer mudan\u00e7a sen\u00e3o para que tudo fique como est\u00e1. Em outras palavras, o autor n\u00e3o viu, mas ele pr\u00f3prio j\u00e1 fez acontecer o que teme que possa vir a acontecer.<\/p>\n<p>Tudo fica bem mais simples de entender se encararmos que junho de 2013 n\u00e3o foi um raio em c\u00e9u azul, um acontecimento descolado de tudo, mas um movimento de <b><i>descontentes<\/i><\/b> tamb\u00e9m sa\u00eddo das <i>perdas impostas<\/i> a essa &#8220;classe m\u00e9dia intermedi\u00e1ria&#8221; (os &#8220;vinte centavos&#8221;, a corrup\u00e7\u00e3o e tudo o mais, lembram?) pelo pacto <i>incrementalista conservador<\/i> partilhado por Dilma e A\u00e9cio: ao <i>incrementar<\/i> a vida dos muito pobres <i>conservando<\/i> para os muito ricos os mecanismos pelos quais eles auferem e acumulam toda a sua riqueza, o pacto aumentou o sofrimento das camadas m\u00e9dias, que vem pagando o pato com a degrada\u00e7\u00e3o da qualidade de vida nos maiores centros urbanos, perdas que o <a title=\"\u00daltimas pesquisas, \u00faltimo debate, nenhuma esperan\u00e7a\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=815\">aumento do poder de consumo<\/a> n\u00e3o chega a compensar.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o h\u00e1 luta de classes coisa nenhuma, mas mera polariza\u00e7\u00e3o governo-oposi\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito de um conflito distributivo, os eleitores se dirigiram ao guich\u00ea que lhes pareceu <i>mais prop\u00edcio <\/i>\u00e0<i> mudan\u00e7a, n\u00e3o <\/i>\u00e0<i> estagna\u00e7\u00e3o <\/i>(quem quer <a title=\"O PAL\u00c1CIO E A RUA \u2014 4 de 4\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1200\">estagna\u00e7\u00e3o \u00e9 o p-MDB<\/a>, o que boa parte dos eleitores ignora). A polariza\u00e7\u00e3o que os dois finalistas motivaram nasce da desinforma\u00e7\u00e3o e \u00e9 falsa pela simples raz\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre os dois lados da disputa, que nada tem \u00e0 oferecer sen\u00e3o a continua\u00e7\u00e3o, aos trancos e barrancos, do pacto a que se deixam amarrar.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 1rem; line-height: 1.714285714;\">Sem que se estabele\u00e7a quais s\u00e3o as classes em luta e, pelo menos em linhas gerais, o que elas tem como projeto, n\u00e3o h\u00e1 base para se falar em <em>luta de classes<\/em> e o que se tem \u00e9 <\/span><i style=\"font-size: 1rem; line-height: 1.714285714;\">conflito distributivo<\/i><span style=\"font-size: 1rem; line-height: 1.714285714;\">, ou seja, conflito em torno do quanto cada um apropria da riqueza social produzida, mas sem realizar politicamente que a riqueza produzida \u00e9 justamente <\/span><i style=\"font-size: 1rem; line-height: 1.714285714;\">social<\/i><span style=\"font-size: 1rem; line-height: 1.714285714;\">. Foi dessa maneira geral que tratei de &#8220;classes&#8221; em v\u00e1rios de meus textos neste Blog nesse intervalo entre agosto e novembro de 2014. Por exemplo, num <\/span><a title=\"O PAL\u00c1CIO E A RUA \u2014 2 de 4\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1102\"><i style=\"font-size: 1rem; line-height: 1.714285714;\">post<\/i><\/a><span style=\"font-size: 1rem; line-height: 1.714285714;\"> de 8 de novembro:<\/span><\/p>\n<blockquote><p>\u201c<strong>os muito pobres<\/strong>, embora se mostrem felizes porque o pouco que receberam com o Bolsa Fam\u00edlia e o Minha Casa Minha Vida \u00e9 mais do que tudo o que jamais haviam recebido, e quase abarca o que a desgra\u00e7a em que viviam lhes permitia sonhar (a relatividade ilus\u00f3ria da felicidade joga aqui o seu papel), esses pobres, ainda assim, n\u00e3o podem deixar de estar insatisfeitos com a vida que levam e, sobretudo, deploram a vida que h\u00e3o de continuar a levar. <strong>Os neo-pobres<\/strong> foram parcialmente contentados porque gra\u00e7as ao incremento do sal\u00e1rio m\u00ednimo e \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do desemprego julgam ter firmado o p\u00e9 na lama (antes escorregavam), mas prudentemente temem recuos e querem muito mais, claro. <strong>As classes m\u00e9dias<\/strong> mostram toda a sua diversidade ora com os reconhecimentos que a solidariedade imp\u00f5e, ora com a f\u00faria de quem se v\u00ea espremido numa situa\u00e7\u00e3o urbana cada dia mais hostil ao gozo do que pode haver de bom na vida, ora ainda com o regozijo de quem alcan\u00e7ou esse ou aquele bem de consumo dur\u00e1vel. <strong>Os ricos<\/strong> sofrem com a desigualdade porque tamb\u00e9m vivem na \u00e1rea urbana degradada, e mais: est\u00e3o tendo de conviver cada vez mais com quem \u00e9 pobre \u2014 sofrem porque est\u00e3o a ver semelhantes por toda parte. <strong>Parte\u00a0dos muito ricos<\/strong> (os menos muito ricos dentre eles) sofre pelas mesmas raz\u00f5es dos ricos e, ainda, porque come\u00e7a a temer que a movimenta\u00e7\u00e3o da tigrada venha a avan\u00e7ar sobre sua riqueza e o modo de acumula-la, enquanto protesta contra o pre\u00e7o que paga pela seguran\u00e7a prec\u00e1ria.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Naturalmente, uma descri\u00e7\u00e3o como essa, e outras que fiz antes, n\u00e3o me autoriza a falar em &#8220;luta de classes&#8221; precisamente porque essas classes n\u00e3o permitem, salvo melhor ju\u00edzo, invocar espectros cl\u00e1ssicos, sa\u00eddos da hist\u00f3ria do internacionalismo prolet\u00e1rio, racioc\u00ednio que, suponho, vale tamb\u00e9m para os pa\u00edses desenvolvidos em que o povo foi \u00e0s ruas recentemente, como os mencionados no artigo anterior. Nas linhas a seguir tento explicar porque penso assim.<\/p>\n<p>O potencial transformador das energias, frustra\u00e7\u00f5es, aprendizados e esperan\u00e7as reunidos na luta internacionalista dos trabalhadores (a luta de classes) ao longo do s\u00e9culo que vai dos primeiros levantes <i>ludistas<\/i> (1810) at\u00e9 a vota\u00e7\u00e3o dos cr\u00e9ditos de guerra pela <i>social-democracia alem\u00e3<\/i> (1914), s\u00f3 foi irremediavelmente vencido ao pre\u00e7o de duas guerras <i>nacionalistas<\/i> (e s\u00f3 chamadas <i>mundiais, <\/i>portanto, n\u00e3o exatamente porque abarcaram todo o mundo, mas porque foram realizadas pelo impulso do capital \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o contra o outro impulso realmente <i>mundial<\/i> em jogo, o do <i>internacionalismo<\/i> prolet\u00e1rio) e pela consolida\u00e7\u00e3o concomitante, e n\u00e3o menos <i>nacionalista,<\/i> da nova autocracia sa\u00edda da revolu\u00e7\u00e3o russa, de 1917. Ali\u00e1s, n\u00e3o foi \u00e0 toa que enquanto Stalin desviava a energia revolucion\u00e1ria da R\u00fassia para o <i>socialismo num s\u00f3 pa\u00eds<\/i>, Hitler tangia as energias ut\u00f3picas frustradas na Alemanha para o <i>nacional-socialismo: <\/i><b>ambos se apoiavam perversamente nas energias da luta socialista, que recalcavam, para consolidar regressivas comunidades imaginadas em chave contraditoriamente &#8220;anticapitalista&#8221; \u2013 <\/b>s\u00f3 mesmo via totalitarismo.<b><\/b><\/p>\n<p>Submetido aos nacionalismos, o europeu comum brutalizado, miseravelmente confinado na figura\u00e7\u00e3o de sujeito nacional ao mesmo tempo em que trazia a mem\u00f3ria secular do fluxo de lutas que resultara no ativismo internacionalista, quando ap\u00f3ia o massacre de judeus e ciganos, o faz tamb\u00e9m porque, aos olhos dele, eles possu\u00edam o que a derrota da luta de classes lhe havia negado: coes\u00e3o sociocultural, propriedades e riqueza l\u00edquida alcan\u00e7adas sem a necessidade de p\u00e1tria e, no limite, contra ela. Tragada pela m\u00e1quina de propaganda, essa combina\u00e7\u00e3o foi expelida para consumo simb\u00f3lico, sendo processada como a representa\u00e7\u00e3o monstruosa de tudo o que o internacionalismo prolet\u00e1rio vencido prometera e n\u00e3o tinha entregue, arrastando os aderentes a expiar no fluxo fren\u00e9tico da &#8220;solu\u00e7\u00e3o final&#8221; de Hitler o recalque das energias e esperan\u00e7as de quase 150 anos de luta social viva &#8212; o estrago tinha que ser grande, pois visava sufocar uma grandiosa alternativa para a humanidade; por pouco clara que estivesse a maneira pol\u00edtica de realiz\u00e1-la, sem esquecer que o capital tampouco oferece uma, j\u00e1 que todas lhe servem.<\/p>\n<p>Se foi assim, parece necess\u00e1rio reconhecer que a reconfigura\u00e7\u00e3o da ordem do capital ocorrida entre 1920 e 1950 foi a contrapartida cobrada <i>aos<\/i> capitalistas <i>nacionais<\/i> por todo o mortic\u00ednio em ritmo industrial, destrui\u00e7\u00e3o material e falsifica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que haviam sido necess\u00e1rios para derrotar a luta de classes (sin\u00f4nimo nesse texto de internacionalismo prolet\u00e1rio), ou seja, as perdas de patrim\u00f4nio, as transfer\u00eancias de riqueza e as concess\u00f5es culturais em favor dos trabalhadores havidas naquele per\u00edodo em todas a principais economias <i>nacionais<\/i> do mundo compuseram o pre\u00e7o que o capital pagou por ter derrotado a luta de classes, e n\u00e3o a realiza\u00e7\u00e3o local de conquistas dessa luta, cujo resultado transformador s\u00f3 poderia ter sido internacional. Tanto \u00e9 assim que, apartado definitivamente em na\u00e7\u00f5es, o mundo que emergiu ao t\u00e9rmino desse per\u00edodo de massacre zeloso, concerta\u00e7\u00e3o social e engenho tecnol\u00f3gico foi o mundo de um tempo reconfigurado, no andamento do qual a luta de classes, uma <b><i>proposta<\/i><\/b> plaus\u00edvel entre 1810 e 1914, j\u00e1 n\u00e3o tinha lugar: tudo o que era s\u00f3lido se desmanchara no ar e o capital herdara o mundo.<\/p>\n<p>Por isso mesmo, desde 1950, com \u00eanfase \u00e0 partir dos 70, por mais que os indiv\u00edduos nacionais se organizem para preservar as &#8220;compensa\u00e7\u00f5es de guerra&#8221; recebidas (o maio de 1968 e as lutas contra Thatcher foram o karaok\u00ea do canto de cisne entoado em uma primavera 120 anos antes), os capitalistas mundializados, com apoio nos seus Estados respectivos,\u00a0vem recolhendo\u00a0o resultado daquele misto de recuo e rev\u00e9s na retomada da concentra\u00e7\u00e3o da riqueza privada, que s\u00f3 faz aumentar [sendo interessante observar que enquanto na Alemanha o colapso militar obrigou ao mea-culpa pelos seis milh\u00f5es do Holocausto (como depois, na Argentina, o colapso da ditadura na derrota militar das Malvinas permitiu a pris\u00e3o dos assassinos e torturadores) ; na R\u00fassia, a implos\u00e3o engaiolada do bunker sovi\u00e9tico pela &#8220;KGB&#8221; (o p-MDB russo) vem impedindo o acerto de contas dos milh\u00f5es de mortos no Gulag (tal como a Anistia da nossa transi\u00e7\u00e3o impede a puni\u00e7\u00e3o dos torturadores e dos empres\u00e1rios bandeirantes da OBAN)]; e a riqueza aumenta segundo mecanismos tais que os grandes problemas da ordem do capital est\u00e3o a reclamar mais do que nunca uma solu\u00e7\u00e3o mundial: l\u00e1 atr\u00e1s, a luta de classes foi uma sa\u00edda mundial plaus\u00edvel, ainda que dif\u00edcil; agora, em que a reestrutura\u00e7\u00e3o industrial pela tecnologia, o peso predominante do setor de servi\u00e7os e as variegadas inser\u00e7\u00f5es nacionais das camadas m\u00e9dias fizeram caducar a proposta da luta de classes, a sa\u00edda tem de ser encontrada com outras formas de luta, momento tempestuoso em que n\u00e3o tem faltado novas regress\u00f5es nacionalistas como ref\u00fagio avestruz ante o cada vez menos contorn\u00e1vel car\u00e1ter mundial do desafio. Dito isso, voltemos o foco para o Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falsa polariza\u00e7\u00e3o, pseudo luta de classes e pemedebismo como tautologia Carlos Novaes, 27 de novembro de 2014 Em artigo publicado neste Blog no dia seguinte \u00e0 elei\u00e7\u00e3o, em 27 de outubro, afirmei que na polariza\u00e7\u00e3o eleitoral havida, o que n\u00e3o fora fuma\u00e7a se revelaria espuma, pois o acirramento que dividira as classes sociais de cima [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1338,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-1363","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos-mais-antigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1363","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1338"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1363"}],"version-history":[{"count":67,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1363\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8301,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1363\/revisions\/8301"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1363"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1363"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1363"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}