{"id":1428,"date":"2014-11-29T16:02:38","date_gmt":"2014-11-29T19:02:38","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1428"},"modified":"2015-03-20T16:36:13","modified_gmt":"2015-03-20T19:36:13","slug":"equipe-nova-mas-para-o-mesmo-pacto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1428","title":{"rendered":"EQUIPE NOVA, MAS PARA O MESMO PACTO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\" align=\"center\"><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">Carlos Novaes, 29 de novembro de 2014<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Todo aquele que compreende a din\u00e2mica do pacto incrementalista conservador em curso desde 1994 <b>e<\/b> n\u00e3o \u00e9 um pescador de \u00e1guas turvas, n\u00e3o pode deixar de reconhecer de p\u00fablico, como fa\u00e7o agora, que Dima acertou ao escolher a nova equipe econ\u00f4mica, embora n\u00e3o seja certo que alcan\u00e7ar\u00e1 o principal resultado almejado: reequilibrar a economia de modo a n\u00e3o atrapalhar Lula em 2018.<\/p>\n<p>Note, leitor, que aqui estou me movendo dentro da l\u00f3gica do pacto, n\u00e3o na sua cr\u00edtica, que tenho feito tenazmente neste blog. Essa l\u00f3gica \u00e9 bastante simples de entender quando o observador n\u00e3o deixa que os desejos turvem a mente: o pacto \u00e9 <i>incrementalista<\/i> <b><span style=\"text-decoration: underline;\">e<\/span><\/b> <i>conservador<\/i>, ou seja, incrementa sempre que pode conservar; se n\u00e3o puder conservar, n\u00e3o incrementa. Em outras palavras, os pobres recebem incrementos se, ao mesmo tempo, os muito ricos puderem conservar tanto o que j\u00e1 tem acumulado como os mecanismos que ensejam essa acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A natureza da economia, mormente a de mercado, \u00e9 ser din\u00e2mica, dinamismo que distribui ganhos e perdas, o que exige dos agentes aten\u00e7\u00e3o permanente, de modo a minimizar perdas e maximizar ganhos. Mas a l\u00f3gica do nosso pacto tem um par\u00e2metro de conten\u00e7\u00e3o desse dinamismo natural: <em>os muito ricos n\u00e3o podem perder<\/em> &#8212; ao mesmo tempo, claro, esses muito ricos e seus empregados economistas, grande parte deles escrevendo em jornais, fazem a defesa enf\u00e1tica do livre mercado, cortina de fuma\u00e7a que quando n\u00e3o \u00e9 mera decorr\u00eancia do que h\u00e1 de obtuso nessa gente, se faz necess\u00e1ria para atrapalhar a atividade cognitiva dos advers\u00e1rios, que n\u00e3o se realizam como advers\u00e1rios porque s\u00e3o a grande maioria insciente, que suporta as perdas porque n\u00e3o tem a mesma capacidade de ag\u00eancia dos seus antagonistas poderosos (at\u00e9 porque pouco numerosos).<\/p>\n<p>No \u00e2mbito desse <i>dinamismo ancorado<\/i> pela exig\u00eancia de os muito ricos nada perderem, as margens de manobra para o incrementalismo s\u00e3o estreitas, muito estreitas, afinal, n\u00e3o s\u00f3 os muito ricos det\u00e9m um enorme volume de riqueza, que em suas m\u00e3os \u00e9 improdutiva, sonegando energia a todo o sistema, como tamb\u00e9m os mecanismos que permitem acumular essa riqueza travam energias sociais e produtivas que, uma vez libertas, incrementariam o desenvolvimento, com o inconveniente, entretanto, de distribuir riqueza, ao inv\u00e9s de concentr\u00e1-la.<\/p>\n<p>Segundo o que foi combinado em 1994 (plano Real) e em 2002 (na Carta de ades\u00e3o assinada pelo lulopetismo), o que resta ao gerente do pacto \u00e9 arbitrar perdas e ganhos no \u00e2mbito delimitado do variegado andar de baixo: as classes m\u00e9dias sofrem um pouco mais para que os muito pobres possam comer, tenham algum abrigo e recebam instru\u00e7\u00e3o duvidosa. Quando as trocas com o mundo exterior nos s\u00e3o favor\u00e1veis, h\u00e1 um pouco mais de margem de manobra para o gerente, como na segunda fase do per\u00edodo Lula, mas sempre depois que os muito ricos, no caso os bancos, o agroneg\u00f3cio e a minera\u00e7\u00e3o, tenham tirado o seu quinh\u00e3o, seja em ganhos diretos, seja naqueles auferidos dos preju\u00edzos ambientais n\u00e3o contabilizados que eles legam \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras (nem t\u00e3o futuras assim, a julgar pela crise da \u00e1gua).<\/p>\n<p>Ao escolher a nova equipe econ\u00f4mica Dilma acertou porque est\u00e1, com algum atraso, adaptando a ger\u00eancia ao ritmo de uma fase do pacto pouco prop\u00edcia ao incrementalismo, tal como Lula fez no seu primeiro mandato &#8212; escolhas que se d\u00e3o, como n\u00e3o poderia deixar de ser, respeitando a din\u00e2mica ancorada do pacto: em tempo de vacas magras, os muito ricos seguem sua vida e os outros sofrem o rearranjo conjuntural necess\u00e1rio \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do sentido geral do arranjo primordial. De onde a surpresa? Por que o esc\u00e2ndalo?<\/p>\n<p>Interpretar as declara\u00e7\u00f5es de Dilma na campanha como um compromisso de quebrar o pacto \u00e9 coisa para ignorante ou espertinho. Quando ela disse que os tucanos &#8220;plantam infla\u00e7\u00e3o para colher juros&#8221; n\u00e3o fazia a promessa imbecil de jamais subir juros, pois isso seria abrir m\u00e3o de fazer pol\u00edtica econ\u00f4mica; ela antes demarcava uma diferen\u00e7a para com o outro disputante, membro de uma turma cuja predile\u00e7\u00e3o por pol\u00edticas ortodoxas deixa escapar oportunidades de interpretar o pacto de maneira menos dolorosa aos de baixo\u00a0 &#8212; foi a isso que se reduziu o <em>lulopetismo<\/em> dentro do pacto incrementalista conservador, companheiro!<\/p>\n<p>Ainda nessa horda dos ignorantes, vale \u00e0 pena comentar aqueles que, sendo &#8220;do contra&#8221; por profiss\u00e3o, depois de passarem anos criticando Dilma por se &#8220;imiscuir&#8221; na condu\u00e7\u00e3o da economia, vem agora reclamar que ela n\u00e3o aparece quando a nova equipe fala com desenvoltura e por si mesma sobre a corre\u00e7\u00e3o de rumos dentro da din\u00e2mica ancorada do pacto. O mais curioso \u00e9 que s\u00e3o esses mesmos que, nos \u00faltimos tempos, vem n\u00e3o s\u00f3 insistindo na velha impertin\u00eancia de independ\u00eancia do Banco Central, como agora inventaram a figura do ministro da Fazenda independente. Isso equivale a pretender que o gerente do pacto, al\u00e9m de obedecer a \u00e2ncora que lhe \u00e9 inerente, abra m\u00e3o dos instrumentos que ainda permitem alguma arbitragem propriamente governamental na distribui\u00e7\u00e3o de perdas e danos entre os de baixo. Ou seja, esses ignorantes est\u00e3o a servi\u00e7o daquela gan\u00e2ncia que, instru\u00edda por experimentalismo s\u00e1dico, n\u00e3o abre m\u00e3o de explorar as margens eventuais do sofrimento alheio que ainda podem ser apropriadas como ganho pelo &#8220;mercado&#8221;.<\/p>\n<p>Aqueles que turvam a \u00e1gua para poder pescar o fazem porque n\u00e3o suportam assistir a boa pesca eleitoral que os advers\u00e1rios fazem do outro lado desse lago que julgavam s\u00f3 seu, e que insistem em n\u00e3o querer compartilhar. Como n\u00e3o querem escancarar o rid\u00edculo de ficar contra a ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas que tamb\u00e9m s\u00e3o suas, preferem o rid\u00edculo de torcer para que n\u00e3o d\u00ea certo ou, quando mais rid\u00edculos, ficam a acusar o outro lado de trair a si mesmo, numa apropria\u00e7\u00e3o ind\u00e9bita e anacr\u00f4nica de uma indigna\u00e7\u00e3o alheia que h\u00e1 muito j\u00e1 n\u00e3o encontra lastro. Isso \u00e9 que \u00e9 estelionato ideol\u00f3gico!<\/p>\n<p>Finalmente, ainda nesse cap\u00edtulo dos rid\u00edculos, quando \u00a0a gente pensa que j\u00e1 viu tudo, o pluralismo da Folha de S.Paulo n\u00e3o nos desampara e abre espa\u00e7o para o &#8220;rid\u00edculo atroz&#8221;, como gosta de dizer o Delfim Neto quando lhe conv\u00e9m sacanear os neocl\u00e1ssicos &#8212; penso aqui naquela alma sonh\u00e1tica frustrada (&#8220;um Cubas!&#8221;<sup>*)<\/sup>, que almejou um minist\u00e9rio e, agora, al\u00e9m de dar eco \u00e0 ladainha sobre a &#8220;incoer\u00eancia&#8221; de Dilma, geme sua inveja do colega de turma nomeado advertindo-o dos riscos reputacionais da investidura para quem almeja voltar, algum dia, ao disputado mercado de servir aos muito ricos. Isso \u00e9 que \u00e9 papel\u00e3o!<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, que compreendemos a din\u00e2mica do pacto e n\u00e3o somos pescadores de \u00e1guas turvas, resta torcer para que Dilma acerte o mais que possa, sempre que tiver o intuito de minorar o sofrimento dos mais fracos, e trabalhar para que essa inevit\u00e1vel\u00a0dose adicional de sofrimento se junte \u00e0 mem\u00f3ria sofrida na forma de esp\u00edrito de luta contra o pacto e as for\u00e7as que o sustentam (voltarei a este tema no quarto e \u00faltimo artigo da s\u00e9rie em andamento, DESIGUALDADE, MUDANCISMO E VOTO).<\/p>\n<p>* &#8211; refer\u00eancia a uma passagem na vida do personagem central \u00a0do romance <em>Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas, <\/em>de Machado de Assis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Novaes, 29 de novembro de 2014 &nbsp; Todo aquele que compreende a din\u00e2mica do pacto incrementalista conservador em curso desde 1994 e n\u00e3o \u00e9 um pescador de \u00e1guas turvas, n\u00e3o pode deixar de reconhecer de p\u00fablico, como fa\u00e7o agora, que Dima acertou ao escolher a nova equipe econ\u00f4mica, embora n\u00e3o seja certo que alcan\u00e7ar\u00e1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1338,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-1428","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos-mais-antigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1428","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1338"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1428"}],"version-history":[{"count":38,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1428\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1544,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1428\/revisions\/1544"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1428"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1428"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1428"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}