{"id":1472,"date":"2014-12-05T15:28:49","date_gmt":"2014-12-05T18:28:49","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1472"},"modified":"2015-10-20T17:58:51","modified_gmt":"2015-10-20T20:58:51","slug":"desigualdade-mudancismo-e-voto-4-de-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1472","title":{"rendered":"DESIGUALDADE, MUDANCISMO E VOTO &#8212; 4 de 4"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><b style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\"><i>\u00c9\u00a0 a \u00a0P O L \u00cd T I C A !<\/i><\/b><\/p>\n<p align=\"right\">Carlos Novaes, 05 de dezembro de 2014<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sob democracia, adotar e obter resultados de mudan\u00e7as econ\u00f4micas voltadas a alterar o modelo de acumula\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o da riqueza e da renda requer conhecimento, negocia\u00e7\u00e3o-press\u00e3o e tempo. A desigualdade \u00e9 resultado inevit\u00e1vel de qualquer modelo econ\u00f4mico, e suscita discu\u00e7\u00e3o especialmente quando h\u00e1 sinais de que est\u00e1 a travar o desenvolvimento almejado pelo modelo, ou est\u00e1 a impor priva\u00e7\u00f5es demasiadas a quem suporta o aspecto desfavor\u00e1vel dela, ou ambos. Um bom debate do problema deve envolver o aspecto moral implicado, pois h\u00e1 embutida uma quest\u00e3o de justi\u00e7a; o aspecto propriamente econ\u00f4mico, no qual se re\u00fanem as magnitudes em jogo; e o aspecto pol\u00edtico, que trata da din\u00e2mica das for\u00e7as a serem levadas em conta.<\/p>\n<p>A desigualdade vem rondando o centro do debate pol\u00edtico brasileiro pelas raz\u00f5es apontadas, mas esse debate se d\u00e1 de maneira incompleta porque exatamente seu aspecto propriamente pol\u00edtico \u00e9 evitado. Como o nosso pacto incrementalista conservador \u00e9 apresentado, e tido por muitos, como o limite do que podemos aspirar, a coisa toda toma ares de engenharia econ\u00f4mico-social, como ficou estampado nas pantomimas propagand\u00edsticas e &#8220;program\u00e1ticas&#8221; das tr\u00eas candidaturas presidenciais mais votadas na elei\u00e7\u00e3o recente, cujas diferen\u00e7as se davam apenas segundo a dose de mudancismo, conservadorismo e reacionarismo que traziam, vale dizer, todas subordinadas ao <i>status quo<\/i>, sem nenhuma pegada transformadora &#8212; as primeiras medidas econ\u00f4micas e os primeiros nomes do minist\u00e9rio de Dilma rumo ao segundo mandato mostram esse limite. A m\u00eddia convencional n\u00e3o \u00e9 menos conservadora quando trata da desigualdade, e no mais das vezes, com raras exce\u00e7\u00f5es, estampa um debate economicista com fundo moral &#8212; tudo se passa como se o desafio fosse encontrar a melhor t\u00e9cnica econ\u00f4mica para reparar uma injusti\u00e7a inconveniente, pois do contr\u00e1rio ter-se-ia de enfrentar a conversa dif\u00edcil sobre a mudan\u00e7a do sistema pol\u00edtico que sustenta o modelo.<\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">A ida \u00e0s ruas em 2013 e a vontade de mudan\u00e7a que marcou o eleitorado em 2014 s\u00e3o sintomas de sofrimentos de ordem material e moral, dos quais a causa \u00faltima \u00e9 a desigualdade: no plano econ\u00f4mico, ela causa sofrimento material e moral sonegando recursos; no plano pol\u00edtico, ela causa sofrimento material e moral esbanjando recursos na corrup\u00e7\u00e3o. Como todos j\u00e1 estamos mobilizados do ponto de vista moral, pelo menos at\u00e9 onde a moral \u00e9 informada pela indigna\u00e7\u00e3o e pela compaix\u00e3o; como as magnitudes s\u00e3o mais do que conhecidas, pelo menos at\u00e9 ali onde os n\u00fameros e \u00edndices corriqueiros n\u00e3o conseguem esconder as assimetrias entre os muito ricos e os demais, por certo subestimadas; e como perdas j\u00e1 houve &#8212; e est\u00e3o estampadas no estado em que se encontram os equipamentos urbanos, os servi\u00e7os p\u00fablicos, a infra-estrutura, o meio-ambiente e a viol\u00eancia em nossas grandes cidades, degrada\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deixa d\u00favida sobre quem foi o &#8220;algu\u00e9m&#8221; que perdeu &#8212; os perdedores, fundamentalmente as camadas m\u00e9dias, est\u00e3o desafiados a redescobrirem a pol\u00edtica para constru\u00edrem n\u00e3o apenas os meios de se defenderem contra esse modelo que imp\u00f5e perdas unilaterais, mas tamb\u00e9m os instrumentos que permitam ultrapass\u00e1-lo, processo no qual se completaria a compreens\u00e3o\u00a0 das dimens\u00f5es moral e econ\u00f4mica do problema. Logo, a dificuldade para enfrentar a desigualdade \u00e9 uma s\u00f3: reunir for\u00e7as para fazer perder aqueles que tem for\u00e7a para se proteger de perdas, os muito ricos. O problema \u00e9 a pol\u00edtica!<\/span><\/p>\n<p>A desigualdade persiste porque, em \u00faltima inst\u00e2ncia, aqueles que a sofrem, a aceitam &#8212; o desafio \u00e9 encontrar um modo de romper essa liga da aceita\u00e7\u00e3o. A for\u00e7a pol\u00edtica necess\u00e1ria ao enfrentamento da desigualdade no Brasil n\u00e3o poder\u00e1 ser reunida segundo qualquer das tr\u00eas op\u00e7\u00f5es usualmente tentadas: o <i>reformismo gradualista <\/i>dentro<i> dessa <\/i>ordem; a organiza\u00e7\u00e3o de for\u00e7as anti-establishment orientadas para alterar a ordem <i>j\u00e1 no sentido \u00faltimo da distribui\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria da riqueza e da renda<\/i>; e o espontane\u00edsmo da a\u00e7\u00e3o direta <i>participacionista<\/i>. Os limites insuper\u00e1veis da primeira via est\u00e3o claros no pacto incrementalista em curso e as limita\u00e7\u00f5es da segunda via aparecem j\u00e1 na forma da capitula\u00e7\u00e3o \u00e0 primeira (a exemplo do PT), ou na forma do isolamento que serve, no m\u00e1ximo, para garantir mandatos parlamentares a uns e outros, dando a eles e a seus eleitores &#8220;ultra conscientes&#8221; a saciedade t\u00edpica da acomoda\u00e7\u00e3o radical: &#8220;fa\u00e7o o que posso&#8221; (como o PSOL) &#8212; serve para eleger (e reeleger) pessoas de bem, mas n\u00e3o faz a transforma\u00e7\u00e3o. Trafegando s\u00f3 aparentemente na contra-m\u00e3o dessas duas vias, os participacionistas sonham que as pessoas se convertam e, ent\u00e3o, operem o milagre, ou seja, uma transforma\u00e7\u00e3o individual em massa e relativamente simult\u00e2nea que levaria cada um a tratar como sua a tarefa coletiva &#8212; a alimentar essa <a title=\"NEM DELEGAT\u00c1RIOS, NEM ABNEGADOS\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=125\">esperan\u00e7a idealista<\/a> est\u00e1 o suposi\u00e7\u00e3o equivocada de que h\u00e1 um imenso desejo de participa\u00e7\u00e3o represado, como se a atarefada forma de vida contempor\u00e2nea fosse s\u00f3 um detalhe do todo infeliz e, por isso, tamb\u00e9m se sup\u00f5e que o insucesso da chamada esquerda radical se deva ao fato de ela ter se acomodado \u00e0 a\u00e7\u00e3o partidariamente organizada, com o que se dobra a aposta num sentido ainda mais inveross\u00edmil: as pessoas n\u00e3o apenas ir\u00e3o se converter, como perseverar\u00e3o na <a title=\"PARTIDOS E PROFISSIONAIS DA REPRESENTA\u00c7\u00c3O\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=159\">a\u00e7\u00e3o direta<\/a> de modo totalmente espont\u00e2neo e horizontal (o <i>15M<\/i> espanhol e o <i>Occupy<\/i> norte-americano deixaram bem claras as limita\u00e7\u00f5es dessa pr\u00e1tica).<\/p>\n<p>Antes de escolher uma forma de luta \u00e9 indispens\u00e1vel compreender as raz\u00f5es da aceita\u00e7\u00e3o da desigualdade por aqueles que a sofrem. A desigualdade tem duas dimens\u00f5es principais: a do capital e a do trabalho. A do capital prov\u00e9m da riqueza acumulada e da receita gerada por ela; a do trabalho prov\u00e9m basicamente das grandes diferen\u00e7as salariais entre os indiv\u00edduos. A riqueza acumulada \u00e9 transmitida por heran\u00e7a, o que provoca uma reitera\u00e7\u00e3o permanente da desigualdade, marcando os indiv\u00edduos desde o ber\u00e7o; a do trabalho prov\u00e9m fundamentalmente do exerc\u00edcio direto de atividades profissionais pelos indiv\u00edduos, ainda que bens patrimoniais de ordem pessoal obtidos pelos sal\u00e1rios sejam transmitidos de uma gera\u00e7\u00e3o para outra. Correndo por fora dessas modalidades de desigualdade &#8220;cl\u00e1ssica&#8221;, h\u00e1 a desigualdade de capital cultural, que tamb\u00e9m de sa\u00edda imp\u00f5e diferen\u00e7as de ponto de partida entre os indiv\u00edduos: algu\u00e9m educado por pais instru\u00eddos tem, em princ\u00edpio, uma largada mais favor\u00e1vel na luta pela vida, mesmo que os pais n\u00e3o disponham de legado material para transmitir &#8212; essa \u00faltima modalidade de desigualdade n\u00e3o ser\u00e1 discutida neste texto.<\/p>\n<p>Embora a desigualdade que prov\u00e9m do capital seja, de longe, a mais importante quantitativamente, \u00e9 a segunda, a do trabalho, que se faz mais vis\u00edvel no dia-a-dia, o que n\u00e3o apenas ajuda a encobrir a agudeza do problema, como contribui muito para naturaliz\u00e1-lo via formas de atenua\u00e7\u00e3o legitimadora, em que a televis\u00e3o joga um papel fundamental. Os altos sal\u00e1rios das chamadas celebridades &#8212; notadamente artistas, apresentadores, diretores de TV, de um lado; e, de outro, jogadores de futebol e outros desportistas &#8212; s\u00e3o alardeados como a contrapartida do <i>talento<\/i>, atributo por assim dizer natural, com o que se confere uma certa legitima\u00e7\u00e3o \u00e0 absurda escala de valores que orienta essas e outras remunera\u00e7\u00f5es, pois se faz uma liga\u00e7\u00e3o direta indevida entre talento natural e remunera\u00e7\u00e3o &#8220;natural&#8221; dele, como se o desabrochar e o adequar talentos \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o n\u00e3o fossem eminentemente sociais. Como, dessa perspectiva, talento \u00e9 algo que se pode ter ou n\u00e3o, descoberta que tamb\u00e9m requer tempo, d\u00e1-se a jun\u00e7\u00e3o da aceita\u00e7\u00e3o com procrastina\u00e7\u00e3o, ideal para que nada mude, pois ao final todos os mal-sucedidos s\u00e3o levados a considerar que a car\u00eancia material de cada um \u00e9 resultado da falta de talento respectiva&#8230;<\/p>\n<p>Pelo lado da desigualdade do capital, a din\u00e2mica da naturaliza\u00e7\u00e3o das discrep\u00e2ncias de ponto de partida se instala pela via da no\u00e7\u00e3o de heran\u00e7a. Fortemente atada \u00e0 rela\u00e7\u00e3o inescap\u00e1vel que h\u00e1 entre a gen\u00e9tica de uma gera\u00e7\u00e3o e a que lhe \u00e9 posterior, a no\u00e7\u00e3o de heran\u00e7a (n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que se fala em &#8220;<i>heran\u00e7a<\/i> gen\u00e9tica&#8221;, &#8220;DNA&#8221;, etc) como que torna natural a transmiss\u00e3o integral aos descendentes do capital acumulado pelos antecedentes, \u00e0s vezes com algum imposto, que no Brasil \u00e9 irris\u00f3rio e, ademais, sonegado. A legitima\u00e7\u00e3o por naturaliza\u00e7\u00e3o da desigualdade do trabalho contribui para a aceita\u00e7\u00e3o da desigualdade do capital porque se faz uma correspond\u00eancia entre, de um lado, nascer com talento ou sem ele; e, de outro lado, nascer rico ou desprovido de riqueza &#8212; ambos s\u00e3o resultado do acaso, o indiv\u00edduo n\u00e3o tem culpa (ainda que certamente caberia discutir se ele tem algum m\u00e9rito para fazer jus \u00e0s vantagens advindas de ter sido premiado assim pelo acaso). Oportuno observar que, na cultura brasileira, a din\u00e2mica dessa naturaliza\u00e7\u00e3o indevida da desigualdade recebe uma cobertura adicional encobridora na exig\u00eancia &#8220;compensat\u00f3ria&#8221; da chamada &#8220;humildade&#8221;, atrav\u00e9s da qual os muito ricos s\u00e3o avaliados pelos pobres segundo exibam, ou n\u00e3o, um comportamento humilde, isto \u00e9, n\u00e3o importa o qu\u00e3o rico seja o indiv\u00edduo, o que importa \u00e9 a disposi\u00e7\u00e3o para se desembara\u00e7ar como &#8220;igual&#8221; dos encontros midi\u00e1ticos ou diretos com o pobre &#8212; ao repetir a frase &#8220;nunca afrontei ningu\u00e9m com a minha riqueza&#8221; Ant\u00f4nio Erm\u00edrio dialogava com essa ideologia, refor\u00e7ando-a. Num mundo de faz de conta o que importa s\u00e3o as apar\u00eancias.<\/p>\n<p>Diminuir a desigualdade, portanto, depende de enfrentar a discuss\u00e3o espinhosa a respeito precisamente de que a riqueza acumulada \u00e9 social, n\u00e3o havendo m\u00e9rito nenhum no indiv\u00edduo que nasceu talentoso ou em ber\u00e7o de ouro, cabendo \u00e0 sociedade encontrar modos de justamente atenuar as diferen\u00e7as de largada que essa arbitrariedade do &#8220;destino&#8221; imp\u00f5e segundo as mem\u00f3rias que carrega do, velho de s\u00e9culos, exerc\u00edcio continuado do &#8220;livre mercado&#8221; &#8212; o m\u00e9rito advindo do esfor\u00e7o respectivo de cada um \u00e9 que justificaria a perman\u00eancia de alguma desigualdade, que n\u00e3o ser\u00e1 grande se todos desfrutarem de um ponto de partida semelhante, afinal, temos todos mais ou menos a mesma capacidade de fazer esfor\u00e7o e o denodo em faz\u00ea-lo para acumular provavelmente diminuiria no indiv\u00edduo sabedor de que n\u00e3o poder\u00e1 legar aos seus todo o acumulado. Impostos sobre patrim\u00f4nio, heran\u00e7a e grandes sal\u00e1rios visam corrigir distor\u00e7\u00f5es que repousam sobre rotinas: valores rotinizados, pr\u00e1ticas rotinizadas &#8212; s\u00e3o parte da mem\u00f3ria nefasta que precisa ser deixada para tr\u00e1s, tal como a pol\u00edtica rotineira. Ora, um problema que se rotinizou construindo uma cultura legitimadora t\u00e3o enraizada n\u00e3o poder\u00e1 ser enfrentado com pr\u00e9dica. Ou as pessoas decifram por si mesmas o enigma ou ele permanecer\u00e1 oculto e elas n\u00e3o atinar\u00e3o com a causa maior dos seus sofrimentos, raz\u00e3o pela qual est\u00e3o condenadas ao insucesso todas as for\u00e7as pol\u00edticas que se inscrevem na rotina para nela pregar o combate \u00e0 desigualdade rotinizada, por mais sinceros e perseverantes que sejam os indiv\u00edduos engajados.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que as duas invariantes da ordem econ\u00f4mico-social e pol\u00edtica das democracias desigualit\u00e1rias sejam a <i>desigualdade<\/i> e a <i>reelei\u00e7\u00e3o infinita para o legislativo<\/i>, ordem essa que o Brasil arranjou ao seu modo quando emergiu de modo &#8220;lento, gradual e seguro&#8221; da ditadura paisano-militar para a democracia peculiar que o caracteriza. Dessas duas rotinas nefastas, a mais clara \u00e9 sem d\u00favida a da representa\u00e7\u00e3o profissional, justamente a que vem acirrando os \u00e2nimos em face de um sofrimento que as pessoas n\u00e3o atribuem diretamente \u00e0 desigualdade e, por isso mesmo, a imensa maioria n\u00e3o atina que, como foi dito no <a title=\"DESIGUALDADE, MUDANCISMO E VOTO \u2014 1 de 4\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1260\">\u00faltimo par\u00e1grafo<\/a> do primeiro artigo desta s\u00e9rie, <i>centrismo, demismo, pemedebismo, tucanismo, lulismo e lulopetismo <\/i>s\u00e3o meras proje\u00e7\u00f5es prism\u00e1ticas na ordem pol\u00edtica local de uma mesma interdi\u00e7\u00e3o imposta aqui pela ordem do capital: o enfrentamento da desigualdade.<\/p>\n<p>Esse prisma \u00e9 desenhado pelo \u00edmpeto de luta de quem vive o arranjo da desigualdade como um sofrimento, \u00edmpeto esse que por sua vez depende da intensidade com que se vive o sofrimento. O tamanho e o posicionamento desse cristal de vontades variam segundo o contingente e o discernimento dos que v\u00e3o \u00e0 luta: quanto mais impetuosos, numerosos e l\u00facidos os que lutam, mais d\u00edspares s\u00e3o as proje\u00e7\u00f5es das for\u00e7as pol\u00edticas convencionais no cen\u00e1rio da disputa, cada uma aturdida a seu modo pela presen\u00e7a de um vetor novo, sa\u00eddo da lucidez combativa (a desorienta\u00e7\u00e3o dos figur\u00f5es <i>tucanos<\/i> e <i>lulopetistas<\/i> em junho de 2013 foi uma t\u00edmida demonstra\u00e7\u00e3o disso); em contrapartida, essas for\u00e7as j\u00e1 estabelecidas tendem ora \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o rotineira em pal\u00e1cio, quando a din\u00e2mica da rua inexiste ou arrefece (quase todo o per\u00edodo lulopetista), ora ao agrupamento em paralelismo eleitoreiro na disputa pelo pal\u00e1cio, quando, em mobiliza\u00e7\u00e3o pouco l\u00facida, a rua se faz apaixonar por ilus\u00f5es, como se deu nessa elei\u00e7\u00e3o de 2014, em que a confusa vontade de mudan\u00e7a aflorada naquele junho foi sequestrada pela falsa polariza\u00e7\u00e3o entre PT e PSDB, uma polariza\u00e7\u00e3o apoiada n\u00e3o na luta de classes, mas na dicotomia governo-oposi\u00e7\u00e3o, cuja altern\u00e2ncia s\u00f3 pode ser uma <a title=\"Leia, num texto de 2009, o item II: UM PROJETO ESGOTADO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=31\">mera troca da guarda<\/a>, por mais ruidosa que ela se fa\u00e7a &#8212; o barulho vem dos tiros de festim midi\u00e1ticos, pr\u00f3prios dessas efem\u00e9rides \u00e0 porta do pal\u00e1cio. Assim como na transi\u00e7\u00e3o e nas diretas-j\u00e1, a l\u00f3gica do pal\u00e1cio vai manobrando para <a title=\"O PAL\u00c1CIO E A RUA \u2014 3 de 4\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1111\">drenar para si<\/a>, no fito de que nada mude, o \u00edmpeto das ruas.<\/p>\n<p>A divis\u00e3o vertical entre as classes com que os institutos de pesquisa segmentam as amostras das suas pesquisas de prefer\u00eancia eleitoral n\u00e3o permite fundamentar a luta de classes, mas mostra com clareza que a desigualdade n\u00e3o orientou as prefer\u00eancias, afinal, segmentos situados em p\u00f3los opostos na balan\u00e7a da desigualdade votaram nos mesmos candidatos, o que mostrou, como j\u00e1 foi dito aqui, uma <a title=\"PA\u00cdS EMPATADO, N\u00c3O DIVIDIDO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=946\">pa\u00eds empatado<\/a>, n\u00e3o dividido. \u00c9 flagrante o contraste entre os &#8220;\u00f3dios&#8221; aflorados e a rigidez inabal\u00e1vel da desigualdade, que segue praticamente inalterada desde o Real, se \u00e9 que n\u00e3o houve um aumento dela. A \u00fanica chance de trazer a desigualdade para o centro do debate pol\u00edtico \u00e9 levar as pessoas ao debate e ao engajamento em uma <em>nova pol\u00edtica<\/em>, galo que Marina ouviu cantar, mas nunca soube exatamente onde e, por isso, prop\u00f4s como novidade uma reforma pol\u00edtica reacion\u00e1ria, que ornou bem com seu conservadorismo de conjunto, como j\u00e1 discuti\u00a0<a title=\"Uma REFORMA POL\u00cdTICA  r e a c i o n \u00e1 r i a\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=580\">aqui<\/a>. Nossa a\u00e7\u00e3o tem de tirar o foco da arena distributiva e se concentrar nas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. A quest\u00e3o primeira \u00e9 a pol\u00edtica, n\u00e3o a economia.<\/p>\n<p>Note, leitor, que digo que o problema <b><span style=\"text-decoration: underline;\">\u00e9<\/span><\/b> a pol\u00edtica, n\u00e3o que o problema <b>est\u00e1<\/b> na pol\u00edtica. Isso porque, uma vez encarado desde a tarefa de enfrentar a desigualdade, o problema pol\u00edtico est\u00e1 al\u00e9m de uma reforma pol\u00edtica &#8212; ele requer uma transforma\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria maneira de fazer pol\u00edtica, pois a desigualdade n\u00e3o cede porque nosso modelo pol\u00edtico rotinizado est\u00e1 montado de modo a garanti-la. Dentro do atual modelo, tudo que podemos conseguir \u00e9 essa altern\u00e2ncia entre os protagonistas do pacto. O pacto sup\u00f5e o modelo da reelei\u00e7\u00e3o legislativa infinita, pois ele sup\u00f5e uma rotina \u00faltima, inexpugn\u00e1vel \u00e0s for\u00e7as transformadoras, que re\u00fane a rotina da in\u00e9rcia eleitoral \u00e0s rotinas palacianas de trafic\u00e2ncia e mando. Estamos travados porque as regras impedem a progress\u00e3o e, ao mesmo tempo, nosso desejo de mudan\u00e7a, de t\u00e3o amplo e profundo, parece requerer uma revolu\u00e7\u00e3o &#8212; essa \u00e9 a armadilha que precisamos desarmar. Na aus\u00eancia de uma revolu\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o pode ser provocada e que arrasta ao mesmo tempo a ordem pol\u00edtica e a ordem econ\u00f4mica, precisamos transformar o sistema pol\u00edtico dentro da ordem democr\u00e1tica. Ou seja, temos de alcan\u00e7ar uma nova ordem pol\u00edtica aberta \u00e0 mudan\u00e7a sem atrel\u00e1-la, de antem\u00e3o, a uma nova ordem econ\u00f4mica almejada.<\/p>\n<p>Uma vez alterado o marco arbitral para uma ordem pol\u00edtica mais democr\u00e1tica, abrir-se-\u00e1 espa\u00e7o para, numa a\u00e7\u00e3o de largo curso, discutir e, talvez, enfrentar a desigualdade. Temos de partir do que j\u00e1 \u00e9 comum, deixando para que as pr\u00f3prias pessoas fa\u00e7am depois as converg\u00eancias que julgarem interessantes. E o que j\u00e1 \u00e9 comum \u00e9 a recusa \u00e0 representa\u00e7\u00e3o oferecida pelos pol\u00edticos profissionais, pois a pr\u00e1tica deles \u00e9 t\u00e3o ruim que mesmo os eleitores submetidos aos valores que orientam a desigualdade podem adotar a ideia de dar <a title=\"REPRESENTA\u00c7\u00c3O E TRANSFORMA\u00c7\u00c3O\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1601\">cabo \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o para o legislativo<\/a>, uma meta que permite unir esfor\u00e7os os mais diferentes, tal como j\u00e1 discuti no quarto artigo da s\u00e9rie anterior, <a title=\"O PAL\u00c1CIO E A RUA \u2014 4 de 4\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1200\">O PAL\u00c1CIO E A RUA<\/a>, e em v\u00e1rios <a title=\"S\u00d3 4 J\u00c1 \u2013 representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 profiss\u00e3o\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=115\">outros textos<\/a> deste Blog.<\/p>\n<p>Vale salientar que n\u00e3o suponho qualquer encadeamento necess\u00e1rio entre os resultados do fim da reelei\u00e7\u00e3o legislativa e a constru\u00e7\u00e3o de uma maioria disposta a diminuir a desigualdade. Para mim, embora seja condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para destravar as rotinas que garantem a desigualdade, o fim da reelei\u00e7\u00e3o legislativa n\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o suficiente para a constru\u00e7\u00e3o de uma maioria contra a desigualdade em si mesma, como imagino ter deixado claro no \u00faltimo par\u00e1grafo do j\u00e1 mencionado <a title=\"O PAL\u00c1CIO E A RUA \u2014 4 de 4\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1200\">quarto texto<\/a> da s\u00e9rie anterior.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9\u00a0 a \u00a0P O L \u00cd T I C A ! Carlos Novaes, 05 de dezembro de 2014 &nbsp; Sob democracia, adotar e obter resultados de mudan\u00e7as econ\u00f4micas voltadas a alterar o modelo de acumula\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o da riqueza e da renda requer conhecimento, negocia\u00e7\u00e3o-press\u00e3o e tempo. 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