{"id":21,"date":"2013-08-19T18:11:11","date_gmt":"2013-08-19T18:11:11","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=21"},"modified":"2015-10-08T19:24:34","modified_gmt":"2015-10-08T22:24:34","slug":"improviso-autoritario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=21","title":{"rendered":"IMPROVISO AUTORIT\u00c1RIO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\"><strong>ATEN\u00c7\u00c3O:<\/strong>\u00a0 Carlos Novaes,<em><strong>\u00a0junho de 2009<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">O texto abaixo deve ser lido junto com este <a title=\"2014 precede 2010\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=34\">aqui<\/a>, da mesma \u00e9poca. As primeiras vers\u00f5es destes dois textos foram escritas entre o final de 2008 e o in\u00edcio de 2009. Em meados de 2009 eles foram modificados, enviados a v\u00e1rios interlocutores e publicados no site do ent\u00e3o Movimento Marina Silva. O compromisso <\/span><\/strong><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">explicativo <\/span><strong><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">deste blog (cabe ao leitor avaliar se proveitoso ou n\u00e3o) me leva a indicar a leitura deles, pois minha maneira de avaliar a conjuntura atual segue par\u00e2metros que v\u00eam de longe, o que me d\u00e1 um conforto duplo: me protege de ter surpresas infundadas e facilita o coment\u00e1rio dos fatos.<\/span><\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ao longo dos 13 anos em que fez a disputa para levar Lula \u00e0 presid\u00eancia (1989-2002), o PT sempre se empenhou em oferecer \u00e0 sociedade brasileira o que de melhor p\u00f4de produzir como projeto, seja no diagn\u00f3stico, seja nas propostas de mudan\u00e7a. Mas, j\u00e1 na reelei\u00e7\u00e3o de 2006, embora fosse natural que a l\u00f3gica de governo tivesse peso importante na discuss\u00e3o sobre como prosseguir, afinal buscava-se reconduzir Lula, um partido fragilizado pelos acontecimentos de 2005 acabou por n\u00e3o desempenhar o papel que outrora desempenhara no desenho de um projeto inovador, que contribu\u00edsse para liberar o segundo mandato de certas amarras do primeiro. Deu-se o contr\u00e1rio, ganhou for\u00e7a, ao inv\u00e9s de perde-la, uma dimens\u00e3o do passado que n\u00e3o quer passar e que se infiltra n\u00e3o apenas ali onde a podemos identificar como m\u00e1, mas tamb\u00e9m na forma como se passou a conceber o que deve ser celebrado como bom.<\/p>\n<p>Deixemos aos estudiosos buscar se h\u00e1 preced\u00eancia e, em havendo, se o que veio primeiro foi o abandono do projeto ou a nega\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas inovadoras. Seja como for, faz 20 anos o PT escolheu pela primeira vez um candidato para represent\u00e1-lo na disputa pela presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Naquela, como em todas as elei\u00e7\u00f5es presidenciais seguintes, quem era do PT decidiu pelo nome de Lula com o entusiasmo de quem foi chamado a participar. Mesmo quando foi o caso de escolher entre a amplamente majorit\u00e1ria op\u00e7\u00e3o Lula e o senador Suplicy, cada um dos petistas, tivesse a prefer\u00eancia que tivesse, se sentiu respeitado e contemplado tanto no m\u00e9todo empregado para a escolha quanto na decis\u00e3o final pelo nome de Lula, pois ela se deu reafirmando a tradi\u00e7\u00e3o de consulta \u00e0s bases.<\/p>\n<p>Em 2010, em raz\u00e3o das regras do jogo democr\u00e1tico brasileiro, o petista n\u00e3o poder\u00e1 contar com uma candidatura Lula \u00e0 presid\u00eancia &#8212; \u00e9 imperativo mudar. Mas a exig\u00eancia era para que se mudasse de candidato, n\u00e3o de m\u00e9todo. Para os petistas tratava-se, agora, da experi\u00eancia in\u00e9dita de escolher um nome entre v\u00e1rios poss\u00edveis. Em pol\u00edtica, cada um de n\u00f3s tem a sua prefer\u00eancia pessoal e ela n\u00e3o vale mais do que a de qualquer outro. S\u00f3 se sabe o quanto nossa vontade coincide com a do companheiro do lado ou distante quando h\u00e1 um movimento aberto de debate, consulta, p a r t i c i p a \u00e7 \u00e3 o, reafirmando um padr\u00e3o democr\u00e1tico que lan\u00e7a um facho de luz contra a pr\u00e1tica dos coron\u00e9is dos partidos convencionais.<\/p>\n<p>Mesmo diante da not\u00f3ria, ainda que calada, insatisfa\u00e7\u00e3o de grande parte de seus militantes, filiados e simpatizantes, a dire\u00e7\u00e3o do PT se rendeu a um outro m\u00e9todo de escolha: a chancela pura e simples de uma vontade pessoal, com as mesuras c\u00eanicas, e at\u00e9 c\u00ednicas, que v\u00e3o se tornando praxe no arremedar a participa\u00e7\u00e3o que ontem fez grande aquele que hoje faz uso da for\u00e7a a si confiada para impor. A canga imobilizadora em que obsequiosamente a dire\u00e7\u00e3o do PT acomodou sua vontade repele o entusiasmo daqueles que driblam as rotinas cotidianas abrindo espa\u00e7os para lutar, precisamente porque jamais aceitaram delegar aos profissionais da pol\u00edtica a decis\u00e3o sobre os nossos destinos naquilo que t\u00eam de comum, de p\u00fablico. Se os petistas deixarem, essa dire\u00e7\u00e3o os aquartelar\u00e1 no quintal da obedi\u00eancia, em tudo desfavor\u00e1vel \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da democracia ampla pela qual se tem lutado, pautados por valorizar em cada um a vontade pessoal e intransfer\u00edvel de fazer as escolhas que resultam em mudan\u00e7as, deitando fora m\u00e9todos sa\u00eddos do populismo, express\u00e3o de massas da dimens\u00e3o autorit\u00e1ria da nossa cultura pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Mas, afinal, por que o presidente Lula escolheu uma neo-petista ne\u00f3fita em urnas como sua preferida para a sucess\u00e3o presidencial e recebeu a aceita\u00e7\u00e3o do PT e do petismo para a imposi\u00e7\u00e3o da ministra Dilma Roussef como candidata?<\/p>\n<p>A prefer\u00eancia de Lula decorre de duas limita\u00e7\u00f5es: da natureza instrumental do seu v\u00ednculo com o PT e, dela, de sua inclina\u00e7\u00e3o por substituir o petismo pelo lulismo; e da tend\u00eancia, pode-se dizer natural, de ver a si mesmo como o limite a que a esquerda brasileira pode atingir.<\/p>\n<p>A rendi\u00e7\u00e3o do PT se d\u00e1 pela natureza de seu v\u00ednculo com o Estado, que se baseia, antes de tudo, na busca pela primazia de nomear ou se fazer nomear.<br \/>\nQuanto ao petismo \u2013 desapetrechado de imagin\u00e1rio que revigore energias ut\u00f3picas, distra\u00eddo de propostas institucionais inovadoras, n\u00e3o obstante abrigue quem as fa\u00e7a \u2013, vem se deixando reduzir \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de drag\u00e3o produtor de fuma\u00e7a para encobrir o castelo em ru\u00ednas at\u00e9 que se resolva o clinch entre o carisma e a burocracia interessada.<\/p>\n<p>Desde muito cedo Lula compreendeu que o PT era uma ferramenta necess\u00e1ria, mas n\u00e3o suficientemente manej\u00e1vel. Como j\u00e1 tive oportunidade de dizer em outro texto \u2013 na linha weberiana de que l\u00edderes carism\u00e1ticos querem liberdade para agir e burocracias querem rotinas para controlar \u2013, como resultado dos aprendizados da disputa de 1989, Lula montou o Governo Paralelo como uma burocracia a servi\u00e7o do carisma, paralela n\u00e3o a Collor, mas ao PT, que crescia longe do seu controle. Tanto que jamais participou sen\u00e3o ritualmente (discursos de abertura e encerramento) dos Encontros e Congressos do partido, embora tenha dado detida aten\u00e7\u00e3o ao seu Instituto Cidadania, sa\u00eddo do Governo Paralelo.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o entre o carisma e a burocracia partid\u00e1ria encontrava express\u00e3o pl\u00e1stica cabal no tabuleiro armado ao longo dos anos em que Lula (o carisma) se candidatava a presidente em campanhas organizadas por Dirceu (a m\u00e1quina). Esse arranjo continha um tenso dispositivo de amarra\u00e7\u00e3o de interesses: a candidatura do pr\u00f3prio Dirceu \u00e0 sucess\u00e3o da almejada presid\u00eancia Lula. O carisma abriria caminho para o nome da m\u00e1quina desprovido de apelo eleitoral amplo, e s\u00f3 um acontecimento externo alteraria o curso arquitetado por Dirceu e vivido com desconforto por Lula \u2013 salvaguardada a estatura de cada personagem, foi mais ou menos o que Ruy Falc\u00e3o tentou arrancar como vice de Marta na disputa para a prefeitura de SP em 2004: o desprezo insciente pela natureza n\u00e3o-petista do \u00eaxito de Marta em 2000, somado \u00e0 precipita\u00e7\u00e3o de ambi\u00e7\u00f5es em que a prefeita se deixou arrastar (Lula sempre soube que a vit\u00f3ria dele n\u00e3o foi petista e jamais teria aceitado Dirceu como seu vice) levaram \u00e0 derrocada previs\u00edvel, evidente para alguns s\u00f3 quando da tentativa atabalhoada de voltar atr\u00e1s em 2008, quando Marta buscou, em v\u00e3o, atrair o Qu\u00e9rcia preterido na disputa de quatro anos antes por um Falc\u00e3o agora em submers\u00e3o t\u00e1tica. O alijamento do grupo de Marta do governo Lula prov\u00e9m dessas escolhas e dos erros conexos. Agora, no a\u00e7odamento imprudente (e impudente) de mais uma vez cortar caminho, os parceiros de Marta a empurraram em sua ruidosa, e com ares de primeiros da fila, ades\u00e3o \u00e0 op\u00e7\u00e3o Dilma. Voltemos.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio do mensal\u00e3o deu a Lula ocasi\u00e3o para um passo largo na solu\u00e7\u00e3o de um problema antigo: submeter o PT. A demiss\u00e3o com cassa\u00e7\u00e3o que fez de Jos\u00e9 Dirceu uma assombra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica abriu um horizonte novo para Lula, que passou a dispor de uma liberdade de movimentos in\u00e9dita, pois, de um s\u00f3 golpe, removera-se Dirceu do governo, da dire\u00e7\u00e3o do partido e do calend\u00e1rio eleitoral. Nessa ordem de id\u00e9ias, o epis\u00f3dio de Belo Horizonte em 2008 (alian\u00e7a entre Pimentel-PT e A\u00e9cio-PSDB), foi ilustrativo de como, desde a derrocada de Dirceu, o carisma se sobrep\u00f4s \u00e0 din\u00e2mica partid\u00e1ria institucional: Lula se posicionou ao lado da solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o-partid\u00e1ria, o partido esperneou dando sinais, pela primeira vez desde 2005, de que pretendia preservar uma zona de autonomia na rela\u00e7\u00e3o com o carisma, mas acabou cedendo. Da\u00ed para impor Dilma foi um pulo nos gr\u00e1ficos das pesquisas de avalia\u00e7\u00e3o do governo. Para Lula, a ministra se encaixa \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o como silhueta exclusiva de seu facho de luz: o carisma abrindo caminho para uma candidatura lunar, sem apelo eleitoral pr\u00f3prio, desamarrada da m\u00e1quina partid\u00e1ria e sem afinidades com o petismo (o carism\u00e1tico Vargas fez parecido quando escolheu eleger o an\u00f3dino general Eurico Dutra em 1946, para acabar voltando em 1950&#8230;).<\/p>\n<p>Mas, se estavam claras a falta de tr\u00e2nsito de Dilma na m\u00e1quina partid\u00e1ria, sua condi\u00e7\u00e3o de oferecer, no m\u00e1ximo, mais do mesmo e a fragilidade pol\u00edtica de sua investidura, o que teria impedido o PT de apresentar um ou mais nomes alternativos \u00e0 prefer\u00eancia pessoal do presidente?<br \/>\nO que tolheu a dire\u00e7\u00e3o do PT \u00e9 sua acomoda\u00e7\u00e3o ao retorno pol\u00edtico que proporciona a desigualdade brasileira, fundada na aus\u00eancia de habilita\u00e7\u00e3o educacional formal da imensa maioria do povo. Nessas condi\u00e7\u00f5es, toda a\u00e7\u00e3o coletiva institucionalizante via recrutamento dos de baixo acaba por se tornar ela pr\u00f3pria instrumento de ascens\u00e3o social. A m\u00e1quina vira instrumento para contornar as agruras impostas pela desigualdade. Fazer parte dela possibilita ganhos e sal\u00e1rios que a simples \u201cluta brava na cidade\u201d n\u00e3o ofereceria, pela raz\u00e3o tamb\u00e9m simples de que a \u201ccidade\u201d est\u00e1 organizada para manter embaixo os de baixo. Pela acomoda\u00e7\u00e3o, as possibilidades de avan\u00e7o social generalizado ficam t\u00e3o remotas, as perspectivas de transforma\u00e7\u00e3o assumem talhe t\u00e3o quim\u00e9rico, que as melhores e mais aguerridas inten\u00e7\u00f5es t\u00eam so\u00e7obrado no jogo mi\u00fado dos mandatos, contratos e nomea\u00e7\u00f5es que se teme perder ao enfrentar o dono da caneta respectiva. Como \u00e9 pr\u00f3prio dos que se d\u00e3o prazos largos para ocupa\u00e7\u00e3o do poder (os 20 anos de S\u00e9rgio Mota e de Z\u00e9 Dirceu), o PT vai se restringindo ao papel de instrumento a servi\u00e7o de uma, e apenas uma, gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dessa perspectiva, quando se olha n\u00e3o para as nomea\u00e7\u00f5es, mas para as pol\u00edticas p\u00fablicas em si, v\u00ea-se que o PT n\u00e3o est\u00e1 retirando dos programas sociais do governo, com relevo para o Bolsa-fam\u00edlia, as conclus\u00f5es pol\u00edticas mais prof\u00edcuas para uma esquerda que n\u00e3o abandonou pensar o longo prazo para al\u00e9m da biografia de quem pensa: esses programas sociais deveriam ser valorizados politicamente n\u00e3o s\u00f3, nem principalmente, pelo bem-estar que geram (e geram!), mas sobretudo por abrir a possibilidade de se passar a contar com uma nova e positiva figura de cidad\u00e3o insatisfeito.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m parece ter escapado que uma crise (d\u00ea-se a ela o nome de econ\u00f4mica, ou o nome Sarney) deveria ser uma oportunidade para o petismo voltar a influir no PT e restabelecer, num patamar pol\u00edtica, ideol\u00f3gica e programaticamente mais qualificado, a tens\u00e3o entre o carisma e o partido: no plano simb\u00f3lico, a crise permitiria resgatar o debate sobre mais ou menos estado nas rela\u00e7\u00f5es com o mercado; ou mais ou menos v\u00ednculo entre a \u00e9tica e a pol\u00edtica, temas emblem\u00e1ticos dos embates entre esquerda e direita que, repostos, abririam perspectivas novas de persuas\u00e3o e recrutamento, mormente se articulados a tem\u00e1rio de mudan\u00e7a institucional motivadora; no plano pol\u00edtico, uma crise em geral imp\u00f5e a distin\u00e7\u00e3o partido-governo, uma vez que o partido, ao contr\u00e1rio do governo, tem o direito, e o dever, de ver na crise uma oportunidade para se desfazer de amarras que o pr\u00f3pria crise tornou anacr\u00f4nicas ou simplesmente desmoralizou; no plano eleitoral ou de um futuro governo,<strong> a crise, seja a econ\u00f4mica, seja a pol\u00edtico-institucional, torna mais arriscada a aposta em um nome sem mem\u00f3ria eleitoral e, assim, desprovido de liames pr\u00f3prios com eleitores e for\u00e7as pol\u00edticas.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ATEN\u00c7\u00c3O:\u00a0 Carlos Novaes,\u00a0junho de 2009 O texto abaixo deve ser lido junto com este aqui, da mesma \u00e9poca. 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