{"id":258,"date":"2013-09-29T21:02:06","date_gmt":"2013-09-29T21:02:06","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=258"},"modified":"2016-04-09T18:50:06","modified_gmt":"2016-04-09T21:50:06","slug":"nao-me-perguntaram-mas-3-slavoj-zizek","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=258","title":{"rendered":"N\u00c3O ME PERGUNTARAM, MAS&#8230; 3 &#8211; SLAVOJ ZIZEK"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">Carlos Novaes, setembro de 2013<\/span><\/p>\n<p><b>ENTREVISTA &#8211; SLAVOJ ZIZEK &#8211; Folha de S\u00e3o Paulo, 29 de setembro de 2013.<\/b><\/p>\n<p><b>&#8220;Eu n\u00e3o sou um daqueles esquerdistas loucos&#8221;<\/b><\/p>\n<p><i>O fil\u00f3sofo contra o relativismo cultural<\/i><\/p>\n<p><i><\/i><b style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">Folha &#8211; O senhor faz uma cr\u00edtica muito forte \u00e0 democracia liberal. Diz, no novo livro, que os partidos de esquerda erraram ao aceit\u00e1-la e que n\u00e3o tem medo de ser visto como antidemocr\u00e1tico ou totalit\u00e1rio?<\/b><\/p>\n<p><b>Slavoj Zizek<\/b>\u00a0&#8211; Veja bem, n\u00e3o estou dizendo que a democracia liberal seja algo ruim. Claro que eu prefiro isso a uma ditadura aberta. Mas a democracia liberal tem as suas limita\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEm primeiro lugar, seus mecanismos tradicionais n\u00e3o s\u00e3o fortes o suficiente para controlar problemas ecol\u00f3gicos e econ\u00f4micos.<br \/>\nEm segundo, veja o que as revela\u00e7\u00f5es recentes sobre espionagem nos dizem. \u00c9 f\u00e1cil ver o jeito como somos oprimidos e controlados em um Estado abertamente autorit\u00e1rio, como a R\u00fassia ou a China. Se algu\u00e9m diz &#8220;na China, nossa liberdade \u00e9 limitada&#8221;, meu Deus, voc\u00ea est\u00e1 falando o \u00f3bvio!<br \/>\nMas o fato \u00e9 que, na democracia liberal, tamb\u00e9m somos muito controlados e oprimidos, embora a maioria das pessoas tenha a sensa\u00e7\u00e3o de que suas vidas s\u00e3o livres.<br \/>\nIsso n\u00e3o quer dizer que todo controle seja igual. Claro que, nesse sentido, prefiro os EUA \u00e0 China. O que teria acontecido com Bradley Manning [soldado do Ex\u00e9rcito americano condenado por vazar documentos ao Wikileaks] se ele fosse chin\u00eas ou russo? Na China, teriam prendido at\u00e9 a sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p><b>Novaes<\/b> &#8211; Para n\u00e3o cair na irrelev\u00e2ncia pr\u00e1tica, toda cr\u00edtica \u00e0 democracia liberal deve partir de que esse modelo de arranjo pol\u00edtico \u00e9 um ganho, ainda que n\u00e3o seja o melhor. Reconhecer isso exige abandonar a conduta revolucionarista, valorizar o estado democr\u00e1tico de direito e buscar nele, em suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es, uma mudan\u00e7a de paradigma que nos conduza a uma arranjo democr\u00e1tico superior, que reconfigure a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o direito de propriedade e a no\u00e7\u00e3o de conforto. Nessa ordem de id\u00e9ias, revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o eventos limite, que n\u00e3o devem, e nem precisam, ser buscados &#8211; revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o um modo de sofrimento adicional que irrompe ali onde o sofrimento se tornou insuport\u00e1vel e, por isso mesmo, devem ser apoiadas. Como ainda est\u00e1 preso a uma cr\u00edtica revolucionarista do <i>status quo<\/i> pol\u00edtico em sociedades de mercado, \u00a0Zizek faz aquele reconhecimento a contragosto e, por isso mesmo, sua cr\u00edtica vai girar como parafuso sem rosca. Em outras palavras, o dial\u00e9tico esloveno n\u00e3o apresenta compreens\u00e3o dial\u00e9tica do problema, n\u00e3o retira das contradi\u00e7\u00f5es da pr\u00f3pria democracia liberal uma alternativa &#8211; no fundo, fica preso ao dil\u00favio.<\/p>\n<p><b>Qual seria a alternativa \u00e0s democracias liberais?<\/b><br \/>\n<b>Zizek<\/b> &#8211; Bom, n\u00e3o \u00e9 um problema simples. N\u00e3o concordo com quem diz que bastaria que um Hugo Ch\u00e1vez assumisse o comando e tudo se resolveria&#8230; N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de imperialismo americano ou algo assim, \u00e9 toda nossa organiza\u00e7\u00e3o social, tecnol\u00f3gica.<br \/>\nVoc\u00ea vai se surpreender, mas sou contra ficar esperando uma revolu\u00e7\u00e3o. O Brasil, apesar de todas as limita\u00e7\u00f5es, mostra que \u00e9 poss\u00edvel melhorar as coisas. Se os pobres est\u00e3o melhor, se a classe m\u00e9dia se fortaleceu, \u00e9 c\u00ednico dizer: &#8220;Ah, mas s\u00e3o as mesmas velhas rela\u00e7\u00f5es capitalistas&#8221;.<br \/>\nEu discordo daquela esquerda que nega isso, para quem a social-democracia \u00e9 um compromisso com a burguesia que s\u00f3 atrapalha a revolu\u00e7\u00e3o aut\u00eantica. Mas isso n\u00e3o significa que n\u00e3o exista uma problem\u00e1tica tend\u00eancia neutralizante da democracia liberal.<\/p>\n<p><b>Novaes<\/b> &#8211;\u00a0 A alternativa \u00e0 democracia liberal \u00e9 mais democracia e menos liberalismo. Ou seja, a solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 em redefinir a assimetria entre os termos. Para obter <b>mais democracia<\/b> temos de alcan\u00e7ar um novo paradigma de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica democr\u00e1tica. Para um novo paradigma \u00e9 necess\u00e1rio encontrar o n\u00f3 de amarra\u00e7\u00e3o dos problemas. Para nossa sorte, ele est\u00e1 claro: \u00e9 a <a title=\"Mudan\u00e7a mundial\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=121\">representa\u00e7\u00e3o como profiss\u00e3o<\/a> &#8211; acabemos com ela. Impedir a reelei\u00e7\u00e3o de representantes legislativos provocar\u00e1 uma reconfigura\u00e7\u00e3o geral da democracia, pois esse terreno contaminado da <a title=\"S\u00f3 4 anos - J\u00e1\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=115\">reelei\u00e7\u00e3o legislativa<\/a> \u00e9 a base para o surgimento da rotina daninha de artimanhas dos profissionais de carreira, cujas pr\u00e1ticas ileg\u00edtimas e poderes viciosos s\u00e3o respons\u00e1veis pela n\u00e3o-democracia de todo o sistema, incluindo indiv\u00edduos, partidos, empresas, sindicatos, ONGs e institui\u00e7\u00f5es do estado. Para obter <b>menos liberalismo <\/b>temos de reconfigurar democraticamente <i>tanto<\/i> o direito de propriedade, notadamente o direito de heran\u00e7a, n\u00facleo a partir do qual se reitera e propaga a desigualdade, cuja origem n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a diferen\u00e7a de &#8220;ponto de partida&#8221;, <i>quanto<\/i> a nossa rela\u00e7\u00e3o com a ci\u00eancia orientada para o conforto, uma orienta\u00e7\u00e3o condenada a gerar desperd\u00edcios crescentes: <em>heran\u00e7a<\/em> e <em>conforto<\/em> s\u00e3o centrais na solda perversa do liberalismo e sua centralidade decorre de que praticamente todos defendem a, e pretendem desfrutar de,\u00a0<em>ambos<\/em>, n\u00e3o apenas os ricos.<\/p>\n<p><b>Mas o sr., como intelectual e escritor, n\u00e3o utiliza justamente a liberdade da democracia para expor suas ideias e convencer as pessoas?<\/b><\/p>\n<p><b>Zizek<\/b> &#8211; Veja, n\u00e3o sou daqueles que dizem &#8220;nossa liberdade \u00e9 ilus\u00e3o, vamos jog\u00e1-la fora&#8221;. A liberdade \u00e9 muito preciosa.<br \/>\nMas voc\u00ea pergunta sobre a minha condi\u00e7\u00e3o pessoal. N\u00e3o \u00e9 que eu possa publicar tudo que eu queira. Recentemente recebi muitos ataques. Na &#8220;New Republic&#8221;, no &#8220;New York Times&#8221;. O &#8220;The Telegraph&#8221;, na Inglaterra, disse que eu era um fascista de esquerda. Fui acusado at\u00e9 de defender um novo holocausto. E o espa\u00e7o para responder, quando existe, \u00e9 m\u00ednimo.<\/p>\n<p><b>Novaes<\/b> &#8211; Essa \u00e9 a vantagem da democracia liberal, em sua vers\u00e3o <i>estado democr\u00e1tico de direito<\/i>, sobre todos os outros arranjos existentes: pode-se discuti-la, ainda que com limita\u00e7\u00f5es. Mas suas m\u00faltiplas mazelas deixam claro que esse arranjo n\u00e3o \u00e9 o desej\u00e1vel e, menos ainda, que seja o limite a que podemos chegar.<\/p>\n<p><b>A liberdade deles de criticar n\u00e3o \u00e9 a mesma que o sr. tem para opinar?<\/b><\/p>\n<p><b>Zizek<\/b> &#8211; Mas h\u00e1 a propor\u00e7\u00e3o, \u00e9 diferente. Publicar na m\u00eddia marginal, em pequenas editoras, \u00e9 f\u00e1cil, mas a grande m\u00eddia \u00e9 muito fechada.<br \/>\nN\u00e3o sou s\u00f3 eu. Veja Noam Chomsky. \u00c9 um intelectual extremamente conhecido, mas voc\u00ea nunca o viu na grande m\u00eddia americana. E n\u00e3o estou falando da Fox News. Voc\u00ea nunca viu Chomsky ser convidado a falar na CNN, mesmo no &#8220;New York Times&#8221; ele \u00e9 boicotado. Claro que voc\u00ea pode falar que Chomsky \u00e9 livre para fazer o que quiser, mas h\u00e1 essa exclus\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p><b>Novaes<\/b> &#8211; Reclamar das limita\u00e7\u00f5es existentes \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o da palavra divergente \u00e9 quase uma tolice. Digo <i>quase<\/i> porque talvez tenha algum valor como propaganda. Afinal, a tarefa \u00e9 mesmo essa: perseverar \u00e0 espera de que mais e mais gente reconhe\u00e7a os problemas, se interesse pela sua discuss\u00e3o e, ent\u00e3o, convirja para uma mudan\u00e7a virtuosa. Os inimigos da mudan\u00e7a, incluindo os propriet\u00e1rios dos grandes meios de divulga\u00e7\u00e3o, por defini\u00e7\u00e3o mais poderosos, n\u00e3o ir\u00e3o mesmo facilitar as coisas.<\/p>\n<p><b>Vejo seu nome na grande m\u00eddia&#8230;<\/b><\/p>\n<p><b>Zizek<\/b> &#8211; Sim e n\u00e3o. H\u00e1 tr\u00eas ou quatro anos, publicaram aqui e ali sobre mim no &#8220;New York Times&#8221;. Agora n\u00e3o mais. Na Fran\u00e7a, h\u00e1 dois ou tr\u00eas anos, escrevia regularmente para o &#8220;Le Monde&#8221;. Agora estou fora, fui considerado radical demais. Na Alemanha foi parecido.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 paranoia minha. N\u00e3o estou dizendo que haja conspira\u00e7\u00e3o, mas que, se voc\u00ea passa de determinado um ponto, decidem que isso \u00e9 demais. Eu fico me perguntando que limite \u00e9 esse. Sempre fui muito cr\u00edtico \u00e0 esquerda, escrevo muitas cr\u00edticas a St\u00e1lin.<\/p>\n<p><b>Novaes &#8211; <\/b>As respostas dele levaram a essa esgrima rasteira das tr\u00eas \u00faltimas perguntas. Pouca importa o quanto se apare\u00e7a na grande m\u00eddia. Importa fazer um diagn\u00f3stico t\u00e3o fecundo na dire\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a que possa, inclusive, prescindir dos &#8220;favores&#8221; do inimigo &#8220;dono&#8221; da m\u00eddia para ser aceito de modo generalizado.<\/p>\n<p><b>Sobre St\u00e1lin, o senhor defende que n\u00e3o h\u00e1 como comparar a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica de St\u00e1lin com a Alemanha nazista de Hitler.<\/b><\/p>\n<p><b>Zizek<\/b> &#8211; Veja, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica stalinista foi horr\u00edvel. A quantidade de assassinatos, o sofrimento.<br \/>\nO que eu digo \u00e9 que St\u00e1lin e Hitler n\u00e3o foram iguais. A prova, para mim, \u00e9 a exist\u00eancia de dissidentes. St\u00e1lin teve a todo tempo de lutar contra quem o questionava. Muita gente dizia que St\u00e1lin tinha tra\u00eddo o comunismo aut\u00eantico, Tr\u00f3tski \u00e9 um exemplo. Desculpe, mas n\u00e3o havia ningu\u00e9m assim no nazismo, nenhum grupo questionando Hitler, dizendo que ele era um traidor do nazismo aut\u00eantico.<br \/>\nNa Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, algo que originalmente era para dar na liberta\u00e7\u00e3o do povo &#8211;a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro&#8211; terminou em um pesadelo. Mas o objetivo inicial era outro. O nazismo era diferente. Os nazistas conseguiram exatamente o que eles queriam.<\/p>\n<p><b>Novaes<\/b> &#8211; A tema est\u00e1 mal e confusamente colocado. Mal colocado porque conduz o debate para as inten\u00e7\u00f5es (disfar\u00e7adas de objetivos iniciais); confusamente colocado porque desemboca numa compara\u00e7\u00e3o entre pessoas, Stalin e Hitler, coisa que, quando muito, deve interessar a leitores de biografias. Findas as duas experi\u00eancias, sempre que se pensa em compar\u00e1-las a primeira coisa que nos vem \u00e0 mente \u00e9 a ideia de horror, sinapse que j\u00e1 diz quase tudo. \u00c0 partir da ideia do horror se imp\u00f5e o invent\u00e1rio das mortes brutais de inocentes e engajados, da tortura, das priva\u00e7\u00f5es materiais, das mutila\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas, das chacinas de ordens simb\u00f3licas, sendo as v\u00edtimas sempre contadas na casa dos milh\u00f5es. Em suma, qualquer compara\u00e7\u00e3o bem feita entre as duas experi\u00eancias impedir\u00e1 o comparador de escolher uma como melhor. \u00c9 o que basta. Outra coisa bem diferente \u00e9 discutir as situa\u00e7\u00f5es alem\u00e3 e russa antes das respectivas rupturas, que conduziram aos eventos, conflitos e contradi\u00e7\u00f5es \u00a0que romperam a ordem mals\u00e3 e resultaram em escolhas cujos desdobramentos perversos foram a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o Estado Nazista.<\/p>\n<p>Agora, pretender oferecer a exist\u00eancia aguerrida (e ef\u00eamera) de um Trotsky como benef\u00edcio \u00e0 compara\u00e7\u00e3o de Stalin com Hitler \u00a0n\u00e3o presta nem como piada macabra. Afinal, os trotskys existiram gra\u00e7as \u00e0 vitalidade da sociedade russa, e Stalin n\u00e3o se cansou de mat\u00e1-los. Ele s\u00f3 parou quando a sociedade, exausta, deixou de produzi-los. Putin \u00e9 o vigoroso filho dessa exaust\u00e3o m\u00f3rbida.<\/p>\n<p><b>Mas o sr. escreve que n\u00e3o v\u00ea contradi\u00e7\u00e3o entre viol\u00eancia e pol\u00edtica.<\/b><\/p>\n<p><b>Zizek<\/b> &#8211; Esse \u00e9 um ponto importante a esclarecer. H\u00e1 uma viol\u00eancia no mundo para permitir que as coisas continuem como s\u00e3o. Viol\u00eancia para mim n\u00e3o envolve s\u00f3 armas, pol\u00edcia, gangues.<br \/>\nH\u00e1, por exemplo, a viol\u00eancia social, a viol\u00eancia econ\u00f4mica &#8211;uma crise financeira brutal que acaba com empregos e economias de milh\u00f5es n\u00e3o \u00e9 uma viol\u00eancia?<br \/>\nPara entender o terrorismo, por exemplo, voc\u00ea tem de entender esse tipo de viol\u00eancia. N\u00e3o estou dizendo que uma coisa justifica a outra. Mas a viol\u00eancia econ\u00f4mica ou social tem consequ\u00eancias.<\/p>\n<p><b>Novaes<\/b> &#8211; A viol\u00eancia sempre emana do exerc\u00edcio da for\u00e7a, por mais t\u00eanue que ele seja &#8211; a pol\u00edtica sempre emana da busca da persuas\u00e3o, por mais incisiva que ela seja. O estado de direito \u00e9 a conviv\u00eancia tensa, disputada, da viol\u00eancia e da pol\u00edtica. Quando nessa tens\u00e3o o predom\u00ednio \u00e9 da pol\u00edtica, temos o Estado de Direito Democr\u00e1tico. Quando a conviv\u00eancia se d\u00e1 em desfavor da pol\u00edtica e sob o predom\u00ednio da viol\u00eancia, temos o Estado de Direito Autorit\u00e1rio. Fora do Estado de Direito, nas ditaduras, n\u00e3o h\u00e1 propriamente tens\u00e3o ou disputa, pois a pol\u00edtica \u00e9 apenas um sobrevivente mutilado sob o mando da viol\u00eancia. Quando a viol\u00eancia \u00e9 absoluta, temos o totalitarismo, onde n\u00e3o h\u00e1 pol\u00edtica.<\/p>\n<p><b>Que rela\u00e7\u00e3o h\u00e1 entre essa forma de ver a viol\u00eancia e a cr\u00edtica que o sr. faz \u00e0 no\u00e7\u00e3o de direitos humanos?<\/b><\/p>\n<p><b>Zizek<\/b> &#8211; Eu n\u00e3o sou um daqueles esquerdistas loucos, que acham que os direitos humanos s\u00e3o apenas uma ideologia do imperialismo. Eu concordo que, em algumas situa\u00e7\u00f5es, direitos humanos podem ser importantes.<br \/>\nEu n\u00e3o compro o relativismo de esquerda que diz que n\u00f3s n\u00e3o dever\u00edamos impor uma no\u00e7\u00e3o ocidental de direitos humanos. Isso justifica qualquer coisa. Se est\u00e3o arrancando os clit\u00f3ris das mulheres, dizem &#8220;\u00e9 a cultura deles, n\u00e3o dever\u00edamos intervir&#8221;. \u00c9 nesse sentido que critico a toler\u00e2ncia.<br \/>\nO que me incomoda \u00e9 que as decis\u00f5es de interven\u00e7\u00e3o em nome dos direitos humanos s\u00e3o arbitr\u00e1rias. Agora se fala muito na S\u00edria. Mas, se voc\u00ea quiser ver sofrimento de verdade, v\u00e1 ao Congo.<br \/>\nEm dez anos, morreram 4 milh\u00f5es de pessoas. O Estado n\u00e3o funciona, os poderosos aterrorizam a popula\u00e7\u00e3o enquanto vendem minerais preciosos a empresas ocidentais. Esse \u00e9 o pesadelo verdadeiro sobre direitos humanos. Mas ningu\u00e9m se importa. Os pa\u00edses est\u00e3o fazendo neg\u00f3cios l\u00e1 &#8211;e n\u00e3o s\u00f3 os EUA mas tamb\u00e9m a China, v\u00e1rios outros&#8211;, ent\u00e3o ningu\u00e9m d\u00e1 bola.<br \/>\nEu fui a Ramallah, na Palestina, e falei: &#8220;Voc\u00eas sofrem com Israel, mas, para as pessoas do Congo, mudar para c\u00e1 seria um sonho&#8221;.<br \/>\nDecide-se fazer interven\u00e7\u00f5es por motiva\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas e econ\u00f4micas. A\u00ed, de repente, surgem milh\u00f5es de imagens terr\u00edveis do lugar. Agora lemos todos esses artigos sobre como o Ir\u00e3 \u00e9 opressivo para as mulheres. Mas o Ir\u00e3 \u00e9 um para\u00edso feminista perto da Ar\u00e1bia Saudita, e n\u00e3o se fala sobre isso.<\/p>\n<p><b>Novaes<\/b> &#8211; Todo direito \u00e9 a pseudo-consolida\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria, preservada para que a ela se possa recorrer no ajuizar com legitimidade situa\u00e7\u00f5es controversas. O problema \u00e9 que a mem\u00f3ria \u00e9 pl\u00e1stica, n\u00e3o sendo por outra raz\u00e3o que o passado n\u00e3o pode ser deixado em paz. Os direitos humanos, como toda mem\u00f3ria, s\u00e3o de aplica\u00e7\u00e3o controversa, especialmente porque sua aplica\u00e7\u00e3o se d\u00e1 no terreno em que disputam a viol\u00eancia e a pol\u00edtica. A cada configura\u00e7\u00e3o dessa disputa se tem uma vig\u00eancia e\/ou uma viola\u00e7\u00e3o particulares dos direitos humanos. A leitura do que s\u00e3o essas vig\u00eancias e viola\u00e7\u00f5es \u00e9 sempre interessada, e freq\u00fcentemente serve mais \u00e0 viol\u00eancia do que \u00e0 pol\u00edtica, o que, n\u00e3o obstante, n\u00e3o nos leva a negar que os direitos humanos s\u00e3o uma conquista.<\/p>\n<p><b>O sr. diz que o totalitarismo \u00e9 mal compreendido. Em que sentido?<\/b><\/p>\n<p><b>Zizek<\/b> &#8211; Eu n\u00e3o gosto do termo totalitarismo. Ele tem sido usado de maneira muito gen\u00e9rica. Do mesmo jeito que, nos anos 1960, manifestantes de esquerda diziam que os Estados Unidos eram fascistas.<br \/>\nMeu medo \u00e9 que o mesmo aconte\u00e7a com o termo &#8220;totalit\u00e1rio&#8221; e ele acabe sem sentido, banalizado. Veja como Hannah Arendt usava o termo. Ela \u00e9 muito espec\u00edfica: apenas nazistas e sovi\u00e9ticos &#8211;e estes somente por alguns anos&#8211; foram totalit\u00e1rios.<br \/>\nO que muda agora dizer que Assad \u00e9 totalit\u00e1rio? Claro que ele \u00e9 um cara mau. Mas totalit\u00e1rio? Ao falar isso, uma an\u00e1lise real de como funciona o regime, das suas particularidades, se torna dif\u00edcil.<\/p>\n<p><b>Novaes<\/b> &#8211; Salvo pela ressalva sovi\u00e9tica do &#8220;alguns anos&#8221; , concordo.<\/p>\n<p><b>O sr. defende muito a ordem, acha que o mundo \u00e9 melhor quando tudo est\u00e1 organizado. Seria, nesse sentido, um totalit\u00e1rio?<\/b><\/p>\n<p><b>Zizek<\/b> &#8211; Nesse sentido, sim. Esse \u00e9, ali\u00e1s, o meu problema com o Brasil. Rio, Carnaval, Bahia, eles dan\u00e7am muito, se divertem muito, por mim iriam a um gulag [risos].<br \/>\nA s\u00e9rio: eu n\u00e3o acho que desordem, Carnaval, seja liberta\u00e7\u00e3o. O problema das nossas sociedades \u00e9 que elas s\u00e3o muito ca\u00f3ticas.<br \/>\n\u00c9 isso que os americanos n\u00e3o entendem: se voc\u00ea quiser ser um ser humano verdadeiramente livre &#8211;ir aonde voc\u00ea quiser, encontrar quem voc\u00ea quiser&#8211;, voc\u00ea precisa de uma estrutura muito r\u00edgida de ordem p\u00fablica, de boas maneiras. Sem isso, nossa liberdade \u00e9 sem sentido. Liberdade e ordem andam juntas. Veja a economia sovi\u00e9tica. N\u00e3o \u00e9 que ela fosse superorganizada. \u00c9 o contr\u00e1rio. Por baixo da superf\u00edcie planejada, nada funcionava, um grande improviso. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica era autorit\u00e1ria, mas ela n\u00e3o era organizada. O que ela precisava n\u00e3o era de mais caos, mas de mais ordem.<br \/>\nPara isso, acho que precisamos de mais Estado, de poderes internacionais. Os problemas que confrontamos n\u00e3o ser\u00e3o resolvidos nesse n\u00edvel est\u00fapido de comunidades locais, democracia local.<\/p>\n<p><b>Novaes<\/b> &#8211;\u00a0A ordem totalit\u00e1ria \u00e9 uma ordem <b>s\u00f3-viol\u00eancia<\/b>, sem pol\u00edtica. Querer a ordem n\u00e3o implica totalitarismo em nenhum grau, pois a ordem \u00e9 compat\u00edvel com a pol\u00edtica e, num grau superior, com a democracia liberal e, num grau ainda mais refinado, com a democracia representativa n\u00e3o-profissional. Em outras palavras, a ordem desej\u00e1vel \u00e9 aquela em que haja um amplo predom\u00ednio da pol\u00edtica sobre a viol\u00eancia, \u00e9 aquela que propicie o m\u00e1ximo de democracia e o m\u00ednimo de liberalismo.<\/p>\n<p>Uma ordem assim abriga a <em>hierarquia<\/em> apenas em institui\u00e7\u00f5es muito espec\u00edficas e nunca abrangentes para a sua reprodu\u00e7\u00e3o e perman\u00eancia enquanto ordem mesma. Por outro lado, o benef\u00edcio da <em><a title=\"Nem abnegados, nem delegat\u00e1rios\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=125\">horizontalidade<\/a>\u00a0<\/em>que se deseja abundante n\u00e3o deve prescindir de sua contrapartida necess\u00e1ria, a <em>verticalidade<\/em>, que n\u00e3o deve ser confundida com hierarquia, como tem sido t\u00e3o comum em nossos freq\u00fcentemente est\u00e9reis e hist\u00e9ricos debates pol\u00edticos. A hierarquia subsiste em fun\u00e7\u00f5es, a verticalidade se efetiva em situa\u00e7\u00f5es. Aquela \u00e9 firme, essa \u00e9 transit\u00f3ria e, at\u00e9, vol\u00e1til. H\u00e1 verticalidade entre representante e representado, mas n\u00e3o deve haver hierarquia a\u00ed. Uma evid\u00eancia da <a title=\"Partidos dominados por profissionais\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=159\">deforma\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0da ordem representacional \u00e9 precisamente ela ser vivida como hier\u00e1rquica. A resposta \u00e0 hierarquia indevida n\u00e3o \u00e9 a horizontalidade impotente, mas a justa combina\u00e7\u00e3o entre horizontalidade e verticalidade numa representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o-profissional. Nessa ordem de formula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o faz nenhum sentido opor local e internacional.<\/p>\n<p>Quanto ao Brasil, parece suficiente encaminhar Zizek \u00e0 leitura de Sergio Buarque e de toda a fortuna cr\u00edtica sobre sua f\u00e9rtil formula\u00e7\u00e3o acerca da<i> cordialidade brasileira<\/i> e suas limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><b>No livro, o sr. conta a hist\u00f3ria de um amigo americano que foi \u00e0 Rom\u00eania ap\u00f3s a democratiza\u00e7\u00e3o, nos anos 1990, quando a pol\u00edcia secreta local decidiu ser mais amig\u00e1vel. No hotel, ele ligou para a esposa e disse que o pa\u00eds era pobre, mas as pessoas muito agrad\u00e1veis. Ao desligar, o telefone toca: um oficial da pol\u00edcia secreta que ligava para agradecer as palavras gentis. O sr. dedica o livro a esse policial.<\/b><\/p>\n<p><b>Zizek<\/b> &#8211; Essas hist\u00f3rias sempre me fascinaram, hist\u00f3rias de como, na passagem de um sistema para o outro, a linguagem e algumas regras de comportamento se conservam e criam confus\u00e3o.<br \/>\nO sujeito da pol\u00edcia \u00e9 um caso. Na \u00e9poca da queda do comunismo na Iugosl\u00e1via, havia uma r\u00e1dio independente, de estudantes. Eles convidaram um antigo comunista, um &#8220;real&#8221; burocrata, para falar.<br \/>\nPerguntaram a ele sobre sexo, e ele queria agradar os jovens, mostrar que aceitava os novos tempos. Ent\u00e3o ele disse: &#8220;Eu concordo com voc\u00eas, sexo \u00e9 um instrumento muito importante na constru\u00e7\u00e3o do progresso social e pol\u00edtico da na\u00e7\u00e3o&#8221;. Todos ficaram sem rea\u00e7\u00e3o [risos]. Eu amo esses momentos.<\/p>\n<p><b>Novaes<\/b> &#8211; Em situa\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7a n\u00e3o-revolucion\u00e1ria e\/ou sem efetivo \u00edmpeto transformador, em que predomina a pacta\u00e7\u00e3o entre o velho e o novo, abrigam-se situa\u00e7\u00f5es como essa. Mas n\u00e3o creio que se deva sempre sabore\u00e1-las, afinal, o fim pactad\u00edssimo da nossa ditadura criou limita\u00e7\u00f5es que nos infelicitam at\u00e9 hoje &#8211; o exemplo mais presente s\u00e3o as restri\u00e7\u00f5es impostas \u00e0 a\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade, que investiga os crimes da <a title=\"Legitimidade no uso da for\u00e7a\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=70\"><b>ditadura paisano-militar<\/b><\/a> brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Novaes, setembro de 2013 ENTREVISTA &#8211; SLAVOJ ZIZEK &#8211; Folha de S\u00e3o Paulo, 29 de setembro de 2013. &#8220;Eu n\u00e3o sou um daqueles esquerdistas loucos&#8221; O fil\u00f3sofo contra o relativismo cultural Folha &#8211; O senhor faz uma cr\u00edtica muito forte \u00e0 democracia liberal. 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