{"id":31,"date":"2013-10-06T05:07:41","date_gmt":"2013-10-06T08:07:41","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=31"},"modified":"2023-02-11T15:45:44","modified_gmt":"2023-02-11T18:45:44","slug":"lugar-e-oportunidade-da-opcao-marina-silva-para-presidente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=31","title":{"rendered":"LUGAR E OPORTUNIDADE DA OP\u00c7\u00c3O MARINA SILVA PARA PRESIDENTE"},"content":{"rendered":"<p align=\"right\">Carlos Novaes,\u00a0setembro de <em><strong>2009<\/strong><\/em><\/p>\n<p>I. APRESENTA\u00c7\u00c3O &#8211; (de 2013)<\/p>\n<p>Entre julho e agosto de 2009, no lufa-lufa dos esfor\u00e7os para colocar de p\u00e9 uma candidatura presidencial de Marina Silva em 2010, a ent\u00e3o senadora solicitou ao autor um texto em que amarrasse as interven\u00e7\u00f5es verbais que ele vinha apresentando sobre o processo transcorrido at\u00e9 ent\u00e3o. Reuni, ent\u00e3o, reflex\u00f5es antigas sobre o esgotamento de certos projetos pol\u00edticos para o Brasil com id\u00e9ias sobre como iniciar uma nova era para o pa\u00eds. H\u00e1 anos aquelas reflex\u00f5es vinham me conduzindo a entender que a chamada quest\u00e3o ambiental passaria a ter lugar decisivo nas busca de novas alternativas de desenvolvimento. A partir de 2006 ficou claro o papel de protagonista eleitoral que Marina Silva poderia ocupar no cen\u00e1rio nacional e, por isso, passei a tratar do tema em meus c\u00edrculos pr\u00f3ximos e, mais adiante, foi natural que me engajasse na articula\u00e7\u00e3o de uma poss\u00edvel candidatura de Marina \u00e0 presid\u00eancia.<\/p>\n<p>Embora hoje, em 2013, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica apresente mudan\u00e7as significativas, parece oportuno manter sob ju\u00edzo dos leitores aquela maneira de abordar as quest\u00f5es envolvidas. Cada um dir\u00e1 qu\u00e3o atuais podem ser aquelas linhas, que se seguem tal como foram apresentadas em 2009.<\/p>\n<p>II. UM PROJETO ESGOTADO<\/p>\n<p>Por mais ruidosa que se fa\u00e7a a refrega PT-PSDB, ela se d\u00e1 fundamentalmente em raz\u00e3o da troca de turma na gest\u00e3o do estado brasileiro. A chegada de Lula \u00e0 presid\u00eancia interrompeu uma pr\u00e1tica acomodat\u00edcia na ocupa\u00e7\u00e3o dos chamados cargos de confian\u00e7a: pela primeira vez houve uma substitui\u00e7\u00e3o em massa de seus ocupantes, o que rendeu o alarido em torno de um suposto aparelhamento do estado pelo PT, como se n\u00e3o fosse de esperar que os postos de mando fossem ocupados pelos representantes de uma vitoriosa burocracia organizada e treinada precisamente para exercer o mando. Essa troca de turma causou ru\u00eddo menos pelo impacto que teve sobre o resultado da a\u00e7\u00e3o governativa e mais pelo fato de ter escangalhado um arranjo de compadrio que vinha desde o fim do regime militar \u2013 em alguns casos, at\u00e9 de antes.<\/p>\n<p>Ainda que seja dif\u00edcil a uns e outros admitirem, para al\u00e9m da troca da guarda, os per\u00edodos de governo de FHC e de Lula foram modos de realiza\u00e7\u00e3o de um mesmo projeto para o pa\u00eds, projeto este que vem desde Vargas e f\u00f4ra interrompido com o golpe militar e a ditadura que a ele se seguiu. Quando deu ao seu principal programa de a\u00e7\u00e3o governamental o nome de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento, a equipe de Lula deixou claro que se tratava n\u00e3o de inventar um novo modelo, mas de acelerar o ve\u00edculo do crescimento que j\u00e1 estava em marcha, endossando o crescimentismo herdado do passado, embora melhorando o estado dos assentos destinados \u00e0 acomoda\u00e7\u00e3o dos segmentos populares nesse m\u00f3bile movido a petr\u00f3leo em via pavimentada pela desigualdade. O PAC desautorizou qualquer verossimilhan\u00e7a para o car\u00e1ter t\u00e1tico que algu\u00e9m ainda pudesse atribuir \u00e0 promessa de continu\u00edsmo expressa na Carta aos Brasileiros. A Carta foi pra valer e vem sendo cumprida, para alegria dos donos do dinheiro.<\/p>\n<p>Vivendo de forma insciente a conclus\u00e3o popular\u00edssima de um projeto que soube representar e para o qual ainda n\u00e3o h\u00e1 alternativa clara, o presidente <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=21\">Lula foi levado a acreditar<\/a> que poder\u00e1 ditar em termos precisos a pr\u00f3pria sucess\u00e3o (a tal ponto que se autoatribuiu a pot\u00eancia para redesenhar o perfil da pr\u00f3xima composi\u00e7\u00e3o do Senado), encarada superficialmente por ele como uma escolha entre o que seu governo realizou e o que o anterior fez de errado ou deixou de fazer. N\u00e3o ocorre ao presidente e aos seus que as balizas dessa disjuntiva possam ser vic\u00e1rias (afinal, FHC e Lula se tornaram protagonistas do mesmo projeto) e, muito menos, que o pa\u00eds est\u00e1 desafiado a formular e estabelecer <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=34\">os termos para uma nova era de desenvolvimento<\/a>. Para destravar o debate e poder iniciar esta nova era, o pa\u00eds precisa se livrar da improdutiva pseudo-oposi\u00e7\u00e3o entre o PT e o PSDB, verdadeiro teatro do absurdo, que requer o cinismo por figurino e a corrup\u00e7\u00e3o por ambiente cenogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>G\u00eameos bivitelinos herdeiros do projeto de soerguimento nacional do per\u00edodo Vargas-JK (PTB-PSD), PT e PSDB cresceram separados como os irm\u00e3os corsos: embora a inser\u00e7\u00e3o social e cultural de cada um tenha feito diferen\u00e7a, n\u00e3o degeneraram e, na maturidade, se reencontram com mais semelhan\u00e7as do que est\u00e3o dispostos a admitir. Em seus prim\u00f3rdios, o PSDB se apresentou como uma variante da social democracia europeia, s\u00f3 que aclimatada nos tr\u00f3picos: desprovida de bra\u00e7o sindical e centrada na opini\u00e3o p\u00fablica universit\u00e1ria. Quanto ao PT, iniciou sua trajet\u00f3ria sob di\u00e1fana inspira\u00e7\u00e3o socialista, j\u00e1 aguada pela inflex\u00e3o nacional e vertida na forma de um trabalhadorismo sem fundamento que, por isso mesmo, virou lulismo. Assim, embora embalados em ber\u00e7os distantes e educados em escolas diferentes, a can\u00e7\u00e3o de ninar e o hin\u00e1rio edificante foram os mesmos: o cantoch\u00e3o do Brasil crescimentista. Os caprichos da pr\u00e1tica pol\u00edtica em um pa\u00eds muito desigual \u2013 onde as ambi\u00e7\u00f5es, recobertas de diverg\u00eancias ideol\u00f3gicas na maior parte das vezes infundadas, cavam fossos onde seria mais rent\u00e1vel elevar pontes \u2013 levaram estes dois partidos a se posicionarem de um modo que o eleitor est\u00e1 impedido de reuni-los: em campanha, apresentam-se sempre como alternativas inconcili\u00e1veis; no exerc\u00edcio do mando, desorientam pela semelhan\u00e7a que n\u00e3o chega a ser de todo encoberta pela poeira da porfia que cava diverg\u00eancias v\u00e3s. D\u00e1-se o paradoxo: metade do que de melhor o pa\u00eds logrou produzir para o exerc\u00edcio do poder pol\u00edtico tem sempre de se juntar ao que h\u00e1 de pior para derrotar a sua metade mais semelhante. N\u00e3o por acaso, as for\u00e7as do atraso nas quais os g\u00eameos se ap\u00f3iam s\u00e3o precisamente aquelas que deram materialidade parlamentar \u00e0 vida pol\u00edtica sob a ditadura. Cada um arregimenta e passa a cevar um peda\u00e7o do nefasto passado recente no fito de conduzir como protagonista imperfeito a tardia realiza\u00e7\u00e3o de um projeto inatual, que poderia ter sido levado a cabo com maior proveito se ambos tivessem reunido o que t\u00eam de melhor, ao inv\u00e9s de robustecer, com as m\u00e1s companhias, o que t\u00eam de pior em suas pr\u00f3prias fileiras .<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o conforma provavelmente o exemplo mais cabal da autonomia da pol\u00edtica entre n\u00f3s. E ela se autonomizou a este grau porque nossa institucionalidade estatal e corporativa, nas tr\u00eas esferas (federal, estadual e municipal), desde sempre faculta a quem \u201cchega l\u00e1\u201d acesso a recursos que podem ser alocados sem uma vigil\u00e2ncia efetiva por parte da sociedade. Com base neles, nossos quadros politicamente mais ativos s\u00e3o selecionados e cooptados por uma l\u00f3gica espiralada que lhes permite contornar as dificuldades mais salientes antepostas pela desigualdade (sempre ela), levando-os ao sucesso pessoal que alimenta, com seu engajamento remunerado, uma m\u00e1quina pol\u00edtica oligarquizada j\u00e1 descolada do pa\u00eds real, cujos arranjos asseguram aos mandat\u00e1rios, a cada volta, que o velho n\u00e3o tenha termo e o novo n\u00e3o possa se desatar. A situa\u00e7\u00e3o que os aninha \u00e9 t\u00e3o hostil \u00e0 mudan\u00e7a que as novidades institucionais que lhes ocorrem como solu\u00e7\u00e3o para os problemas t\u00eam sempre duas preliminares defeituosas: dependem do comportamento virtuoso dos protagonistas cuja condu\u00e7\u00e3o se questiona e\/ou refor\u00e7am o poder de quem j\u00e1 o tem (financiamento p\u00fablico de campanhas; voto em listas fechadas; cerceamento da liberdade de opini\u00e3o, etc).<\/p>\n<p>Al\u00e9m de exemplo de autonomia pol\u00edtica indesej\u00e1vel, esse estado de coisas, ante os olhos mais e mais incr\u00e9dulos e desesperan\u00e7ados da popula\u00e7\u00e3o, tornou-se produtor de pantomimas de legitima\u00e7\u00e3o, pr\u00f3prias de quando n\u00e3o se quer reconhecer filia\u00e7\u00e3o comum evidente: de um lado, impedido de se opor a si mesmo, o PSDB acusa o PT ora de pl\u00e1gio de suas bandeiras, ora de ser mero continuador de suas pol\u00edticas; de outro, Lula n\u00e3o pode reconhecer os benef\u00edcios da heran\u00e7a recebida, nem a bonan\u00e7a internacional que favoreceu grande parte do seu per\u00edodo de protagonista do projeto comum, uma vez que presume indispens\u00e1vel apresentar como obra sua resultados sa\u00eddos de uma concatena\u00e7\u00e3o de circunst\u00e2ncias inabarc\u00e1vel aqui, da qual ele e seu PT tomaram parte, mas n\u00e3o s\u00e3o autores. Mesmo a assimila\u00e7\u00e3o acomodada dos grandes preju\u00edzos locais procedentes da crise internacional em curso (a tal marolinha), mesmo ela deveria ser reconhecida como tribut\u00e1ria do que ambos v\u00eam fazendo h\u00e1 15 anos: seguran\u00e7a patrimonial, estabilidade monet\u00e1ria, sa\u00fade financeira, assist\u00eancia social, domestica\u00e7\u00e3o popular e retomada dos investimentos.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m conhecer, que apresente ao pa\u00eds figura\u00e7\u00e3o mais acabada dessa confus\u00e3o c\u00ednica do que o espet\u00e1culo em que a auto-intitulada oposi\u00e7\u00e3o recebe como vantajosas as confiss\u00f5es de irresponsabilidade do ex-oposicionista Lula, sem se dar conta de que o presidente, ao vilipendiar a sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria de opositor, est\u00e1 macunaimicamente a desqualificar a condi\u00e7\u00e3o de oposicionista enquanto tal, numa pirueta obnubiladora que torna aceit\u00e1vel a transgress\u00e3o da regra e in\u00f3cua toda cr\u00edtica que aceite como par\u00e2metro a r\u00e9gua que os g\u00eameos compartilham: se o projeto \u00e9 o mesmo, se se trata apenas de disputar o reles mando pol\u00edtico de sua realiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 mal em desqualificar o mandat\u00e1rio de turno para, na curva seguinte, \u00e0 sorrelfa, espertamente dar ao eleitor o mesmo que o outro j\u00e1 vinha oferecendo (para bem e para mal), e ainda fazer piada de tudo, refor\u00e7ando a id\u00e9ia de que os pol\u00edticos s\u00e3o todos iguais &#8212; nivelamento que n\u00e3o seria de todo impr\u00f3prio se ficasse restrito aos pol\u00edticos profissionais.<\/p>\n<p>Chegamos a um limite perigoso, que arma situa\u00e7\u00f5es perigosas, pois atingimos a \u00faltima fronteira n\u00e3o ditatorial no prolongar artificialmente uma era que j\u00e1 terminou, um projeto que j\u00e1 se esgotou. N\u00e3o \u00e9 ditatorial, mas \u00e9 sufocante. E a \u00fanica forma de sair do sufocamento \u00e9 fazer o que a vida reclama: construir uma alternativa fora da estufa que prepara o plebiscito fajuto entre dois prepostos do mesmo. Um pa\u00eds desigual que re\u00fane portentosos recursos naturais num territ\u00f3rio continental, que deu \u00e0 luz uma popula\u00e7\u00e3o miscigenada de 180 milh\u00f5es de pessoas, e que est\u00e1 desafiado pela descoberta dolorosa de que o planeta \u00e9 finito, j\u00e1 n\u00e3o pode se abandonar \u00e0 cren\u00e7a em valores e c\u00e1lculos remanescentes de um projeto de crescimento nacional orientado pelo mero desejo arrivista de substituir importa\u00e7\u00f5es pela internaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, mormente quando esta \u00e9 vista como destinada a fomentar um mercado interno de massas orientadas para o consumo de bens a serem produzidos em abund\u00e2ncia e indefinidamente, e com base na extra\u00e7\u00e3o pura e simples de riquezas naturais tidas por inesgot\u00e1veis.<\/p>\n<p>Essa \u00e9poca se foi. E o que ela deu de melhor foi a id\u00e9ia generosa, mas equ\u00edvoca, de inclus\u00e3o (a tradu\u00e7\u00e3o petista da bel\u00edndia formulada pelos tucanos), como se houvesse um pa\u00eds que funciona, ao qual se devesse incluir um contingente que est\u00e1 em outro lugar, como que fora, apartado do que funciona e n\u00e3o fosse, ele pr\u00f3prio, vari\u00e1vel intr\u00ednseca e fiadora do funcionamento inaceit\u00e1vel vigente. N\u00e3o poderia haver maior contraste entre o que \u00e9 necess\u00e1rio e o que fazem e pregam nessa \u00e1rea o governo e sua auto-intitulada oposi\u00e7\u00e3o: enquanto o PT n\u00e3o tira de seus programas sociais nenhuma resultante pol\u00edtica inovadora, a oposi\u00e7\u00e3o se alterna entre atribuir a si mesma o in\u00edcio dessas compensa\u00e7\u00f5es \u00e0 pobreza e a den\u00fancia do uso eleitoreiro do seu sucesso.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que a era Lula (nela inclu\u00edda a oposi\u00e7\u00e3o) n\u00e3o venha a oferecer emblema mais acabado de seu ocaso inventivo, do que o estardalha\u00e7o patrioteiro em torno do Pr\u00e9-sal, verdadeira apoteose da campanha varguista de h\u00e1 50 anos, O Petr\u00f3leo \u00e9 Nosso, num tempo em que os esfor\u00e7os da ci\u00eancia internacional est\u00e3o voltados n\u00e3o para a extra\u00e7\u00e3o de combust\u00edvel de origem f\u00f3ssil (por mais complicada e rent\u00e1vel que se apresente a mon\u00f3tona tarefa), mas para a produ\u00e7\u00e3o de energias de origem renov\u00e1vel que ajudem a conter a mudan\u00e7a clim\u00e1tica oriunda fundamentalmente da emiss\u00e3o de carbono. Se O Petr\u00f3leo \u00e9 Nosso, Nosso CO2 \u00e9 de Todos. Embora o petr\u00f3leo venha a ter lugar central num projeto que busque um novo modelo de desenvolvimento &#8212; pois temos de tirar proveito do nosso atraso relativo &#8211;, n\u00e3o ser\u00e1 o caso nem de celebr\u00e1-lo cegamente em suas aplica\u00e7\u00f5es como combust\u00edvel, nem de deixar de incluir nos custos e benef\u00edcios da sua extra\u00e7\u00e3o garantias e projetos de orienta\u00e7\u00e3o socioambiental que permitam, no longo prazo, a transi\u00e7\u00e3o eficaz do modelo do ouro negro para a economia verde.<\/p>\n<p>Para completar o quadro acabrunhador, e como n\u00e3o poderia deixar de ser, a auto-intitulada oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se peja de gastar suas energias a bramir sua revolta contra o uso eleitoral do Pr\u00e9-sal. Faz sentido: se o projeto \u00e9 o mesmo, tudo que se pode fazer \u00e9 espernear contra os benef\u00edcios eleitorais que adv\u00e9m para o realizador de turno de mais uma conquista do projeto comum, da qual, por um \u201cazar do destino\u201d, se est\u00e1 momentaneamente apartado e, portanto, impedido de comemorar.<\/p>\n<p>Essa escolha do PSDB \u00e9 muito ilustrativa de suas limita\u00e7\u00f5es de formula\u00e7\u00e3o acerca do que realmente interessa, pois despreza o fato de que a Petrobr\u00e1s \u00e9 o exemplo mais acabado dessa longa jornada do <i>crescimentismo<\/i>, agora hegemonizado pelo <i>trabalhadorismo<\/i>: uma empresa petrol\u00edfera de economia mista sob controle estatal em que pela primeira vez na hist\u00f3ria desse pa\u00eds o poder empresarial e o poder sindical se sobrep\u00f5em, situa\u00e7\u00e3o cujos resultados mais pestilentos ainda est\u00e3o por vir \u00e0 tona.<\/p>\n<p>Em suma (1) \u2013 Se o projeto se concluiu, a alternativa \u00e9 mostrar ao Brasil a necessidade de um novo projeto, que se ap\u00f3ie nos resultados do anterior para subverte-lo, impedindo que sua vig\u00eancia anacr\u00f4nica nos empurre para tr\u00e1s. A plausibilidade desse entendimento est\u00e1 dada, de um lado, pelo aspecto desinteressante que marcava a arma\u00e7\u00e3o da disputa eleitoral vindoura na forma de um plebiscito; de outro lado, ela se ap\u00f3ia na fal\u00eancia de nossas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, marcadas pelas conseq\u00fc\u00eancias de uma autonomiza\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica.<\/p>\n<p>III. PRIMEIROS PASSOS DE UMA ALTERNATIVA<\/p>\n<p>Ao observarem o car\u00e1ter infecundo dessa pseudopolariza\u00e7\u00e3o entre o PT e o PSDB e inconformados com o contraste entre a sua quase irrelev\u00e2ncia na cena pol\u00edtica brasileira [<i>nota de 2012: irrelev\u00e2ncia para onde voltaram depois que Marina deixou o PV<\/i>] e o papel de destaque que as credenciais do Brasil podem lev\u00e1-lo a desempenhar num mundo que veem, cada vez mais, compartilhar com eles a preocupa\u00e7\u00e3o com a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e a esperan\u00e7a nas amplas possibilidades que ensejam o uso sustent\u00e1vel do esfor\u00e7o humano, da terra, do sol, da \u00e1gua e dos ventos, dirigentes do Partido Verde decidiram renovar seu projeto e reestruturar o partido no rumo da constru\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de uma economia verde.<\/p>\n<p>Ao darem not\u00edcia da primeira reuni\u00e3o que tiveram com Marina, esses mesmos dirigentes do PV abriram para a imprensa o fato pol\u00edtico do ano at\u00e9 aqui e, talvez, de todo ele. Desde aquele 29 de julho de 2009 os desdobramentos pol\u00edticos se sucederam com rapidez e intensidade nada surpreendentes, mas dignos de registro porque servem tanto de confirma\u00e7\u00e3o encorajadora para a percep\u00e7\u00e3o dos que entendem que a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 madura, quanto de elemento de persuas\u00e3o para os que ainda duvidam. Essa not\u00e1vel aceita\u00e7\u00e3o preliminar do nome de Marina no PV deve-se, de um lado, \u00e0s ineg\u00e1veis qualidades da senadora e, de outro, ao fato de que essas qualidades v\u00e3o ao encontro de anseios que repelem as resultantes infecundas da situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica mais acima descrita. Uma das evid\u00eancias mais salientes dessa naturalidade entre situa\u00e7\u00e3o e personagem se apresenta no fato de que h\u00e1 por todo o pa\u00eds quem atribua a si mesmo a id\u00e9ia de juntar Marina e PV numa campanha presidencial. Todos t\u00eam raz\u00e3o, pois tal como na boa carpintaria romanesca, em pol\u00edtica os resultados s\u00f3lidos est\u00e3o presentes, <i>in nuc<\/i>, desde o in\u00edcio da caminhada \u2013 e por toda parte.<\/p>\n<p>O processo se apresentou em etapas que se desdobraram com a sucess\u00e3o pr\u00f3pria do que \u00e9 natural, sendo assim compreendidas pela m\u00eddia (e, portanto, pela opini\u00e3o p\u00fablica interessada), logrando-se \u00eaxitos, a saber:<\/p>\n<p>1. deu-se um per\u00edodo de especula\u00e7\u00f5es iniciais via m\u00eddia, preparadoras do que viria;<br \/>\n2. a protagonista deixou claro seu \u201cintervalo de reflex\u00e3o\u201d e, como seria de esperar, n\u00e3o foi desmentida nem pela a\u00e7\u00e3o de outros agentes pol\u00edticos, nem por qualquer descren\u00e7a da m\u00eddia;<br \/>\n3. ao abrir interlocu\u00e7\u00e3o com o PT, iniciou-a pelo Acre, cepa original de tudo, cen\u00e1rio em que confluem a vida familiar-privada e a vida societal-p\u00fablica, gesto que reuniu, muito a prop\u00f3sito, afeto e raz\u00e3o pol\u00edtica, moral-\u00e9tica e estrat\u00e9gia;<\/p>\n<p>4. logo a seguir, as conversas da protagonista com as \u201cautoridades petistas\u201d se deram entre exclama\u00e7\u00f5es de pesar e perda, atmosfera em tudo favor\u00e1vel a um desfecho auspicioso, que culminou com as declara\u00e7\u00f5es de que o mandato da senadora era intoc\u00e1vel;<br \/>\n5. a conclus\u00e3o da primeira fase ocorreu com a desfilia\u00e7\u00e3o do PT, desfecho que se deu sem atritos com a base do partido e que n\u00e3o agradou as autoridades petistas por raz\u00f5es que n\u00e3o recomendariam a perman\u00eancia da protagonista naquele partido;<\/p>\n<p>6. iniciou-se uma segunda fase, em que a protagonista se viu \u00e0 vontade para explicitar tanto as motiva\u00e7\u00f5es para a mudan\u00e7a, quanto as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que a mudan\u00e7a se desse na dire\u00e7\u00e3o do PV, sempre dialogando com o legado petista, que n\u00e3o repudiou;<\/p>\n<p>7. tal como no \u201cintervalo de reflex\u00e3o\u201d, os agentes pol\u00edticos e a m\u00eddia se comportaram como seria de esperar: se colocaram na posi\u00e7\u00e3o de quem espera uma decis\u00e3o, sem dar como certa esta ou aquela op\u00e7\u00e3o, configurando-se uma expectativa p\u00fablica t\u00e3o aut\u00eantica quanto ben\u00e9fica;<br \/>\n8. beneficiada pela credibilidade que justificadamente suscita, a protagonista p\u00f4de construir sua ades\u00e3o ao PV [bem como a daqueles que a acompanhavam] com base em duas condi\u00e7\u00f5es tornadas p\u00fablicas: reorienta\u00e7\u00e3o program\u00e1tica e reestrutura\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica da agremia\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria [<i>nota de 2012: meses depois, em desgastes crescentes, essas pr\u00e9-condi\u00e7\u00f5es \u00e0 candidatura foram abandonadas, provocando fratura no grupo antes reunido<\/i>];<br \/>\n9. encontrando-se o PV j\u00e1 em movimenta\u00e7\u00e3o interna pr\u00f3pria <b>aparentemente<\/b> afinada com as motiva\u00e7\u00f5es da protagonista, n\u00e3o se encontrou obst\u00e1culos de monta para que fossem estabelecidos os termos do acordo que, se entendia, favorecia a vig\u00eancia daquelas condi\u00e7\u00f5es;<br \/>\n10. a segunda fase se concluiu no dia 30 de agosto de 2009 com a filia\u00e7\u00e3o da Senadora Marina Silva ao Partido Verde.<\/p>\n<p>Em suma (2) \u2013 Como n\u00e3o poderia deixar de ser, a variada e auspiciosa recep\u00e7\u00e3o ao nome de Marina como candidata \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica n\u00e3o eleva ningu\u00e9m \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de grande estrategista ou vision\u00e1rio, pois de realidades maduras, engendradas pela pr\u00f3pria din\u00e2mica do beco quase sem sa\u00edda em que estamos, n\u00e3o se pode esperar sen\u00e3o a apresenta\u00e7\u00e3o de caminho que de pronto \u00e9 reconhecido como natural.<\/p>\n<p>IV. IMPACTO NA, E OPORTUNIDADES DA, CENA POL\u00cdTICA<\/p>\n<p>A \u00fanica for\u00e7a pol\u00edtica que pode livrar o pa\u00eds dos erros dessa armadilha improdutiva em que se comprazem a situa\u00e7\u00e3o e sua auto-intitulada oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 aquela que propuser um projeto alternativo inovador e aposte no discernimento do eleitor, que vive como impasse simb\u00f3lico aporias que nascem das agruras da vida material e n\u00e3o est\u00e1 disposto a se deixar embalar no sono proposto pelos realistas com a can\u00e7\u00e3o de ninar dos pragm\u00e1ticos, mesmo que a monotonia da aus\u00eancia de sonhos seja supostamente compensada pela quase aus\u00eancia dos pesadelos outrora recorrentes: a infla\u00e7\u00e3o e a mis\u00e9ria desvalida. A juventude brasileira quer um projeto pelo qual lutar, quer metas pelas quais sonhar, ocupando-se de dar origem \u00e0s suas pr\u00f3prias alternativas, assim como a inescap\u00e1veis novas deforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A entrada de Marina Silva-PV nesse tabuleiro pr\u00e9-sucess\u00e3o presidencial promoveu uma troca de jogo: vinha-se jogando damas e passou-se a jogar xadrez. Houve uma diferencia\u00e7\u00e3o no movimento das pe\u00e7as e o jogo ganhou complexidade. Como se sabia, cogitar Marina-PV na sucess\u00e3o leva ao fim, por revelar a sua irrelev\u00e2ncia, o plebiscito Lula-FHC e favorece a multiplica\u00e7\u00e3o das op\u00e7\u00f5es, pelas seguintes raz\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8211; aparece um terceiro cuja viabilidade, por si s\u00f3, deve ser considerada;<br \/>\n&#8211; o terceiro \u00e9 egresso do projeto superado e dinamiza a problematiza\u00e7\u00e3o das escolhas feitas por este, mormente nas \u00e1reas em que o governo foi mais atrasado;<\/p>\n<p>&#8211; a presen\u00e7a de terceiro torna in\u00f3cuo o sacrif\u00edcio de outros pretendentes, que se haviam retirado da disputa sob press\u00e3o, para configurar o plebiscito;<\/p>\n<p>&#8211; j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o caso de considerar apenas a escolha de \u201cmais do mesmo\u201d, abrindo-se o leque de alternativas \u00e0 prefer\u00eancia do eleitor.<\/p>\n<p>A viabilidade de Marina-PV nasce da converg\u00eancia entre os novos desafios mundiais acerca da viabilidade do planeta como plataforma para o conforto humano, por um lado, e o impasse da vida pol\u00edtica nacional antes descrito, por outro. Gigante pela pr\u00f3pria natureza, o Brasil \u00e9 visto de fora, e olha a si mesmo, como um viveiro de alternativas socioambientais e de energias limpas com que se pode enfrentar as dificuldades do nosso tempo. Marina \u00e9 a lideran\u00e7a brasileira mais sintonizada com esse novo lugar do Brasil na cena mundial. Ao mesmo tempo, esse pa\u00eds para o qual todos olham como uma esperan\u00e7a de futuro \u00e9 o mesmo do desarranjo antigo mais acima descrito, que s\u00f3 se resolver\u00e1 pela reuni\u00e3o, em torno de um novo projeto liderado pela mesma Marina, do que de melhor h\u00e1 no PT e no PSDB, conjunto que poder\u00e1 atrair para uma nova din\u00e2mica pol\u00edtica os melhores quadros de outros partidos, com destaque para PSB e PDT. Como j\u00e1 disse em outro lugar, n\u00e3o por acaso Marina \u00e9 aquela cuja atua\u00e7\u00e3o demarcou os limites da era Lula, cuja trajet\u00f3ria simboliza o que deve haver de continuidade com o car\u00e1ter popular dessa mesma era e cuja vis\u00e3o de mundo est\u00e1 em conson\u00e2ncia an\u00edmica com a perspectiva transformadora que nos remete para al\u00e9m dessa era.<\/p>\n<p>Ao ter o governo Lula como \u201cponto de partida\u201d para o que prop\u00f5e, Ciro Gomes (a quem s\u00f3 o gesto de Marina recolocou no campo de jogo \u2013 ou seja, ele n\u00e3o era, e n\u00e3o \u00e9, alternativa aut\u00eantica, que pudesse se apresentar de moto pr\u00f3prio, sem pedir licen\u00e7a, como Marina) faz de si mesmo uma op\u00e7\u00e3o a mais para a continua\u00e7\u00e3o do esgotado projeto lulista. Como sua menoridade pol\u00edtica o impede de criticar o governo Lula enquanto tal, Ciro se refugia no questionamento do arranjo pol\u00edtico em torno de Dilma, como a dizer que se trata de continuar, mas com outro tipo de coaliz\u00e3o. A formula\u00e7\u00e3o \u00e9 imaginosa, pois se ap\u00f3ia num temor real do eleitor: Lula n\u00e3o estar\u00e1 l\u00e1 para conter os apetites. Ali\u00e1s, o cerne do que h\u00e1 de aventureiro na alternativa Dilma est\u00e1 nisso: ela n\u00e3o tem recursos pr\u00f3prios (at\u00e9 os votos receber\u00e1 por empr\u00e9stimo, com car\u00eancia de quatro anos) para conter a avidez das m\u00e1quinas do PT e do PMDB.<\/p>\n<p>Preocupado em n\u00e3o criticar o que parece estar dando certo, Ciro n\u00e3o compreendeu que Lula \u00e9 ponto de chegada, n\u00e3o de partida. Com Lula se encerra um projeto, que ter\u00e1 de receber cr\u00edticas; com Marina \u00e9 que se abre um projeto novo. Lula do ABC, que deixou a sua terra e se tornou importante, Lula das montadoras, Lula que se orgulha de ter sido o primeiro dos irm\u00e3os a comprar geladeira e carro, Lula, filho e homem de sua \u00e9poca, Lula, o metal\u00fargico resistente aos desafios socioambientais, encerra tardiamente um projeto antigo (e n\u00e3o por culpa sua, afinal, fez o que p\u00f4de e foi al\u00e9m do que seria de exigir), cuja heran\u00e7a teremos de trabalhar. Para suced\u00ea-lo, Marina, que saiu da floresta para se engajar lucidamente na luta brava da cidade, Marina, a que fez importante para o mundo a luta da sua terra, Marina, a filha de seringueiro que se orgulha de ter estudado, Marina, a professora que compreendeu e ensina que n\u00e3o h\u00e1 desenvolvimento sem respeito \u00e0s fontes da vida.<\/p>\n<p>A humanidade experimenta uma converg\u00eancia in\u00e9dita: os interesses da ci\u00eancia de ponta com os desejos da juventude. Em geral avessos \u00e0s limita\u00e7\u00f5es do aprendizado de rotinas, base de todo conhecimento, contrapondo a elas a vigorosa experimenta\u00e7\u00e3o dos corpos, os jovens enquanto massa est\u00e3o pressionados pelos limites socioambientais \u00e0 expans\u00e3o dos modos de vida ultrapassados em que se acham semiperdidos, a alternar sentimentos de repulsa, engajamento e abandono, e se v\u00eaem desafiados a ampliar seus conhecimentos sobre, afinal, o que se passa com o planeta . Mas esse interesse n\u00e3o \u00e9 mera reposi\u00e7\u00e3o juvenil da tens\u00e3o velha de mil\u00eanios entre Homem e Natureza, uma vez que aquilo que est\u00e1 sob investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o do homem, que reconfigurou aquela dicotomia primeira na forma atual de Natureza-Homem-Natureza\u2019 (N-H-N\u2019). Esse processo reflexionante cria novas possibilidades para a legitima\u00e7\u00e3o racional do revigoramento de energias ut\u00f3picas, que se esvaeceram ao longo do penoso percurso em que o trabalho perdeu a centralidade que permitira prefigurar-se, na segunda metade do s\u00e9culo XIX, um datado sujeito hist\u00f3rico da transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A terceira fase da entrada de Marina em cena termina em 30 de setembro de 2009, quando se encerra o prazo para as filia\u00e7\u00f5es propriamente eleitorais. Em outubro inicia-se a pr\u00e9-campanha, cuja primeira fase se encerrar\u00e1 em fevereiro de 2010. De mar\u00e7o a junho teremos a segunda fase da pr\u00e9-campanha. De julho a outubro dar-se-\u00e1 a campanha propriamente dita.<\/p>\n<p>Em suma (3) \u2013 Quando o fim do apelo motivacional do socialismo internacional e a rotiniza\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica da pol\u00edtica nacional pareciam ter nos conduzido a um inescap\u00e1vel marasmo pol\u00edtico, as urg\u00eancias socioambientais do crescimentismo incauto e o descalabro pol\u00edtico emergem como desafio emblem\u00e1tico de velhos problemas em busca de lideran\u00e7a unificadora para alternativas novas. Marina \u00e9 a pessoa certa, no lugar certo e no tempo certo.<\/p>\n<p>V. DESAFIOS PRELIMINARES<\/p>\n<p>H\u00e1 que ultrapassar o ambientalismo. Marina \u00e9 candidata a presidenta do Brasil, n\u00e3o a s\u00edmbolo internacional com prest\u00edgio local. N\u00e3o se deve desconsiderar que a aceita\u00e7\u00e3o preliminar do nome de Marina deriva tamb\u00e9m da jun\u00e7\u00e3o perigosa de suas credenciais de lideran\u00e7a com a comodidade de receb\u00ea-la como alerta, n\u00e3o como alternativa. D\u00e1-se com o Meio Ambiente algo semelhante ao que sucede com a Reforma Agr\u00e1ria: ningu\u00e9m \u00e9 contra porque parece n\u00e3o haver custo em ser a favor \u2013 o tranco vai se dar alhures e em terras alheias. \u00c9 nessa recep\u00e7\u00e3o naife da sustentabilidade que v\u00eam surfando as candidaturas concorrentes, que ao inclu\u00edrem a sustentabilidade em seus projetos, matam tr\u00eas coelhos com uma s\u00f3 cajadada: mostram-se atualizados, reafirmam o car\u00e1ter de ap\u00eandice complementar da quest\u00e3o ambiental e refor\u00e7am o confinamento de Marina na posi\u00e7\u00e3o respeit\u00e1vel, mas atenuada, de portadora de um alerta.<\/p>\n<p>Mas o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel cont\u00e9m um alerta ambiental e uma proposi\u00e7\u00e3o desenvolvimentista. O alerta j\u00e1 foi dado, falta consolidar a proposi\u00e7\u00e3o desenvolvimentista, fazer as propostas para que o pa\u00eds conhe\u00e7a um novo ciclo de desenvolvimento, que gere riqueza de um modo diferente, e que essa diferen\u00e7a, orientada pelo respeito ao car\u00e1ter finito e ao equil\u00edbrio delicado da natureza, seja agregadora de valor e mais eficaz para gerar solu\u00e7\u00f5es para os problemas vividos pela popula\u00e7\u00e3o. O mais alto requisito moral desse novo padr\u00e3o de efic\u00e1cia \u00e9 o respeito ao direito \u00e0 vida das gera\u00e7\u00f5es futuras; a viabilidade de sua aceita\u00e7\u00e3o depende de ele n\u00e3o ser recebido como um obst\u00e1culo \u00e0 frui\u00e7\u00e3o da vida pelos que labutam no presente.<\/p>\n<p>Nessa mesma ordem de id\u00e9ias, a difus\u00e3o repetida da not\u00edcia de que os prazos para que apare\u00e7am os resultados das medidas de conten\u00e7\u00e3o da emiss\u00e3o de gazes provocadores do efeito estufa s\u00e3o contados em per\u00edodos que ultrapassam mais de uma gera\u00e7\u00e3o gera um tipo novo de c\u00e1lculo social, pelo qual aquele que se ocupa da tarefa entende de antem\u00e3o que n\u00e3o se beneficiar\u00e1 do resultado. Esse entendimento \u00e9 fundamental para que o eleitor se abra \u00e0s formula\u00e7\u00f5es acerca da sustentabilidade. Na contram\u00e3o, outro desafio da campanha de Marina ser\u00e1 n\u00e3o cair na armadilha de pretender relacionar explicitamente toda e qualquer pol\u00edtica a ser proposta com a quest\u00e3o socioambiental. Al\u00e9m de sugerir unilateralismo, a onipresen\u00e7a do socioambientalismo conferiria a tudo um ar de invencionice. Em muitos temas, a associa\u00e7\u00e3o, se ocorrer, dever\u00e1 ser deixada a cargo do eleitor, sendo de preferir que a aceita\u00e7\u00e3o se d\u00ea pelas vantagens materiais que ele antecipe no projeto, do que pelo valor moral contido nele.<\/p>\n<p>No Brasil, em raz\u00e3o de nossa longeva, cruenta, populosa e recente escravid\u00e3o, os apelos a valores elevados s\u00e3o sempre recebidos com desconfian\u00e7a nos agrupamentos populares: afinal, a hipocrisia moral atingiu por aqui n\u00edveis desumanos. A audi\u00eancia que prestamos individualmente \u00e0 pr\u00e9dica edificante, quando prestamos, n\u00e3o fala ao que somos (e, muito menos, ao que fomos), mas ao que supomos que deve ser tido como bom. Esse v\u00ednculo fr\u00e1gil com o elevado n\u00e3o resiste ao l\u00e1tego das urg\u00eancias materiais, mormente quando os indiv\u00edduos edificados t\u00eam de confabular uns com os outros. No curso da interlocu\u00e7\u00e3o, as boas inten\u00e7\u00f5es s\u00e3o escrutinadas e trituradas sob a m\u00f3 dos interesses, ocultos ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Pesquisas realizadas pelo autor mostram que o voto entre n\u00f3s, brasileiros, conhece duas motiva\u00e7\u00f5es. A motiva\u00e7\u00e3o moral\/afetiva, chamada de fraca, e a motiva\u00e7\u00e3o racional\/instrumental, chamada de forte. Embora coexistam no eleitor, em geral essas motiva\u00e7\u00f5es afloram \u00e0 predomin\u00e2ncia em momentos diferentes da campanha. A primeira motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 chamada de fraca porque se d\u00e1 a conhecer na fase da campanha em que os eleitores ainda n\u00e3o est\u00e3o voltados para a elei\u00e7\u00e3o. \u00c9 um per\u00edodo em que o eleitor experimenta como extempor\u00e2nea a solicita\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o acerca do tema, ocupado que est\u00e1 com as lides cotidianas. Provocado, ele at\u00e9 fala do assunto, mas o faz a partir de repert\u00f3rio muito pessoal, imediato, mobilizado \u00e0 for\u00e7a, que ainda n\u00e3o recebeu os influxos das trocas interpares. Por isso mesmo, externa suas prefer\u00eancias com base em valores que s\u00e3o pronta, f\u00e1cil e epidermicamente mobiliz\u00e1veis, mormente quando h\u00e1 escassa mem\u00f3ria acerca das \u201crealiza\u00e7\u00f5es\u201d do candidato.<\/p>\n<p>A segunda motiva\u00e7\u00e3o, a racional\/intrumental, \u00e9 chamada de forte porque resulta da forma\u00e7\u00e3o coletiva da prefer\u00eancia. Ela entra em cena depois que a campanha seguiu seu curso e j\u00e1 se presta ao escrut\u00ednio coletivo. Desvinculada da vida cotidiana pela via da especializa\u00e7\u00e3o profissional, a pol\u00edtica s\u00f3 ocupa o eleitor m\u00e9dio quando ele sente que est\u00e1 muito pr\u00f3ximo do dia em que ter\u00e1 de fazer a sua escolha. \u00c9 quando a campanha vira assunto p\u00fablico e as pessoas se v\u00eaem exigidas a terem opini\u00e3o. D\u00e3o-se as conversas no trabalho, nos \u00f4nibus, em casa, na escola e tem-se a forma\u00e7\u00e3o compartilhada da prefer\u00eancia. Nessa fase, v\u00eam \u00e0 tona as car\u00eancias e necessidades materiais, faz-se o c\u00e1lculo do que est\u00e1 em jogo e, ent\u00e3o, a motiva\u00e7\u00e3o para o voto muda e, no embalo dela, muitas vezes muda tamb\u00e9m a prefer\u00eancia, que passa de um para outro candidato, segundo ele tenha propostas claras e persuasivas.<\/p>\n<p>Em suma (4) \u2013 Diante da conclus\u00e3o de um projeto bem sucedido, n\u00e3o obstante critic\u00e1vel em suas limita\u00e7\u00f5es, \u00e9 necess\u00e1rio contrapor um modelo novo em que os elementos de descontinuidade possam aparecer como plaus\u00edveis e rent\u00e1veis. O melhor \u00e9 que eles surjam nas \u00e1reas mais cr\u00edticas: sa\u00fade, viol\u00eancia\/seguran\u00e7a, educa\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o e energia poluente (termoel\u00e9tricas).<\/p>\n<p>VI. O SOBREVALORIZADO PAR\u00c2METRO OBAMA<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es presidenciais americanas de 2008 se deram no contexto originado do 11 de setembro de 2001, dia a partir do qual os EUA vieram dando cabe\u00e7adas. A pretexto de dar resposta \u00e0 ferida inesperada, foram arrastados a uma guerra cruenta e prolongada, cuja aprova\u00e7\u00e3o foi obtida com base numa mentira presidencial internacionalmente divulgada e desmascarada: as armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa do Iraque. Seguiu-se um per\u00edodo em que o antiamericanismo conheceu um alastramento e intensidade nunca imaginados (que dir\u00e1 vividos), sentimento hostil que se somou \u00e0 crise econ\u00f4mico-financeira, carga penosa que jogou no ch\u00e3o a auto-imagem do americano m\u00e9dio que, at\u00e9 ent\u00e3o, se sentira poderoso e inexpugn\u00e1vel. O presidente George W. Bush passou a simbolizar esse fracasso e n\u00e3o foi necess\u00e1rio muito trabalho para transform\u00e1-lo no espantalho a ser batido: mentiroso, belicista e incompetente.<\/p>\n<p>Obama p\u00f4de dialogar com o conservadorismo norte americano porque soube mobilizar um passado m\u00edtico em prol de um renascimento, n\u00e3o de uma transforma\u00e7\u00e3o. Obama falou do futuro promissor tendo o cuidado de avisar que ele se distanciaria do presente ruim, mas para se assemelhar a um reconfortante passado idealizado. A invoca\u00e7\u00e3o de valores morais e a mobiliza\u00e7\u00e3o dos afetos vieram assentados na dimens\u00e3o material e palp\u00e1vel da crise, permitindo a Obama apresentar-se como l\u00edder de um projeto de mudan\u00e7a que foi habilmente encenado como um resgate de valores recorrentemente sobrevalorizados: o eldorado perdido que pode ser recuperado. Uma conservadora volta ao passado como credencial para um seguir adiante liberal. Essa equa\u00e7\u00e3o formid\u00e1vel s\u00f3 foi poss\u00edvel porque os norte-americanos h\u00e1 muito se habituaram a se sentirem superiores, vivenciaram um longo experimento hist\u00f3rico que lhes \u201cconfirmou\u201d essa superioridade e estavam em uma crise de auto-imagem sem precedentes em raz\u00e3o de reveses internos e externos. A essas circunst\u00e2ncias se somaram as qualidades pessoais de um homem cuja experi\u00eancia de vida p\u00f4de ser posta em harmonia com a propaganda\u00a0 de que os EUA s\u00e3o a terra das oportunidades para os diferentes: Obama apareceu como a pr\u00f3pria confirma\u00e7\u00e3o da possibilidade de vig\u00eancia do passado venturoso que moment\u00e2neos dias maus encobriram.<\/p>\n<p>Para os prop\u00f3sitos destas linhas, n\u00e3o chegam a fazer falta os conhecimentos de que o autor n\u00e3o disp\u00f5e acerca da realidade norte-americana. O quadro abaixo esquematiza a situa\u00e7\u00e3o que se pretende sintetizar, no singelo objetivo de relativizar a import\u00e2ncia da campanha eleitoral do fen\u00f4meno pol\u00edtico Obama para o planejamento da empreitada eleitoral de Marina.<\/p>\n<p>[ENTRA AQUI A FIGURA 1]<\/p>\n<p>O quadro acima deixa claro que a situa\u00e7\u00e3o dos EUA era prop\u00edcia a uma proposta de mudan\u00e7a centrada na propaganda de valores e afetos. Obama p\u00f4de falar tanto em valores porque havia base material para o c\u00e1lculo das perdas de uma classe m\u00e9dia empobrecida. Em outras palavras, se as chamadas materialidades e institucionalidades fossem positivas, n\u00e3o haveria nem lugar para um apelo ao passado redentor, nem toda aquela disposi\u00e7\u00e3o para ouvir a prega\u00e7\u00e3o de valores.<\/p>\n<p>Ora, no Brasil em que transcorre o per\u00edodo eleitoral, o quadro \u00e9 bem outro. N\u00e3o s\u00f3 Lula n\u00e3o \u00e9 visto como Bush, mas n\u00e3o o \u00e9 n\u00e3o por for\u00e7a de algum sortil\u00e9gio do marketing, sen\u00e3o porque, de fato, est\u00e1 associado a um efetivo, embora contradit\u00f3rio, renascimento do pa\u00eds.<br \/>\nTendo em mente o que se acaba de discutir, completemos o quadro acima incluindo uma coluna para a realidade do Brasil, fazendo a compara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[ENTRA AQUI A FIGURA 2]<\/p>\n<p>Assim classificadas e arrumadas, as realidades dos dois pa\u00edses n\u00e3o deixam muita margem a d\u00favidas sobre a impertin\u00eancia de uma campanha centrada em valores quando se est\u00e1, como n\u00f3s, diante de uma sociedade cujos pobres alegremente imaginam mover-se na dire\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia. Observe-se que as tr\u00eas c\u00e9lulas verdes da coluna dos EUA se harmonizam perfeitamente contra as mazelas das suas c\u00e9lulas vermelhas. No caso brasileiro, as qualidades da candidata ter\u00e3o de encontrar tradu\u00e7\u00e3o direta no combate aos problemas do plano material tendo que rediscutir o que se reivindica como \u00eaxito e, ainda por cima, sem poder invocar um passado sagrado que houvesse sido profanado. Muito pelo contr\u00e1rio, o nosso passado \u00e9 mais do que nunca repudiado, mormente ali onde se identifica que ele perdura, agarrado \u00e0s institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas (o que n\u00e3o deixa de ser um gancho).<\/p>\n<p>Em suma (5) \u2013 A inspiradora campanha de Obama n\u00e3o deve ser para n\u00f3s mais do que um exemplo de t\u00e9cnicas de arregimenta\u00e7\u00e3o e persuas\u00e3o. Seria um desastre se tent\u00e1ssemos realizar uma campanha centrada em valores de ordem moral e\/ou afetiva. Nosso desafio \u00e9 fazer da chancela moral de que desfruta a candidata uma janela aberta nas consci\u00eancias para a aceita\u00e7\u00e3o das nossas propostas, que devem estar voltadas \u00e0 solu\u00e7\u00e3o dos problemas materiais da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Novaes,\u00a0setembro de 2009 I. APRESENTA\u00c7\u00c3O &#8211; (de 2013) Entre julho e agosto de 2009, no lufa-lufa dos esfor\u00e7os para colocar de p\u00e9 uma candidatura presidencial de Marina Silva em 2010, a ent\u00e3o senadora solicitou ao autor um texto em que amarrasse as interven\u00e7\u00f5es verbais que ele vinha apresentando sobre o processo transcorrido at\u00e9 ent\u00e3o. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1338,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,14,2],"tags":[],"class_list":["post-31","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eleicoes-de-2014","category-pt-e-psdb-sao-a-mesma-coisa","category-textos-mais-antigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/31","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1338"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=31"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/31\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8238,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/31\/revisions\/8238"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=31"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=31"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=31"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}