{"id":3826,"date":"2018-03-20T00:07:07","date_gmt":"2018-03-20T03:07:07","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3826"},"modified":"2018-03-20T21:51:33","modified_gmt":"2018-03-21T00:51:33","slug":"marielle-como-memoria-e-esperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3826","title":{"rendered":"MARIELLE COMO MEM\u00d3RIA E ESPERAN\u00c7A"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Carlos Novaes, 20 de mar\u00e7o de 2018<\/p>\n<p>Sendo ela um dispositivo do c\u00e9rebro, a mem\u00f3ria, como sabemos, \u00e9 pl\u00e1stica como ele: ela assume formas e contornos variados no transcurso do tempo de nossas vidas, essa vida que cada um de n\u00f3s luta para preservar, enriquecer, atribuir sentido. Essa plasticidade da forma n\u00e3o se d\u00e1 apenas no espa\u00e7o, portanto, ela se d\u00e1 sobretudo no tempo. Resumindo muito: nossa mem\u00f3ria retroage e d\u00e1 significados novos ao passado &#8212; recorrer \u00e0 mem\u00f3ria j\u00e1 \u00e9, por assim dizer, alterar o passado. E n\u00f3s o alteramos para ter esperan\u00e7a, que \u00e9 o vest\u00edbulo para um futuro que nas\u00e7a da escolha, n\u00e3o da <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3578\">in\u00e9rcia<\/a>.<\/p>\n<p>A leitura quase ininterrupta de tudo o que tem sa\u00eddo sobre a execu\u00e7\u00e3o de Marielle e o assassinato de Anderson tem tido sobre mim o efeito de reavivar esperan\u00e7as que estavam quase mortas. E veja bem, leitor: embora as mat\u00e9rias e o os artigos de opini\u00e3o venham sendo fundamentais, n\u00e3o \u00e9 exatamente sobre o conte\u00fado deles que se erguem minhas esperan\u00e7as novas, ainda que seja maravilhoso ver tanta gente, com prefer\u00eancias t\u00e3o diferentes, se ocupar do que \u00e9 valioso para o bem comum \u2013 minhas esperan\u00e7as est\u00e3o a ser nutridas gra\u00e7as \u00e0s rea\u00e7\u00f5es indecentes, na forma de coment\u00e1rios raivosos e da mentira pura e simples, que os fatos em si e aquele volumoso material decente vem suscitando em certos segmentos. E isso por quatro raz\u00f5es principais:<\/p>\n<p><strong>Em primeiro lugar,<\/strong> o contraste entre as mentiras atiradas \u00e0s redes sociais e a diligente a\u00e7\u00e3o da m\u00eddia convencional no sentido de preservar um solo m\u00ednimo para a constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria n\u00e3o facciosa acerca da execu\u00e7\u00e3o de Marielle e do assassinato de Anderson abre uma oportunidade valiosa para que se entenda a diferen\u00e7a que h\u00e1 entre se informar pelas redes sociais e pela chamada grande imprensa, em favor desta \u00faltima. Assim, todos est\u00e3o tendo a oportunidade de aprender que se a m\u00eddia convencional nunca \u00e9, de fato, neutra ou mesmo imparcial como pretende nos fazer acreditar, ela certamente sobrevive da verossimilhan\u00e7a do que publica, e isso \u00e9 meio caminho andando na dire\u00e7\u00e3o da verdade, embora n\u00e3o a garanta (quem acha poss\u00edvel alcan\u00e7ar essa garantia acaba propondo o controle da m\u00eddia&#8230;). Por outro lado, est\u00e1 a ficar claro para qualquer um que n\u00e3o seja um completo idiota que as redes sociais est\u00e3o infestadas de raiva e de mentira elaborada. Os raivosos est\u00e3o a tentar abafar para si mesmos a tremenda complexidade da realidade em que supunham ter aninhado suas limitad\u00edssimas expectativas de acomoda\u00e7\u00e3o; os mentirosos est\u00e3o a reagir ao fato de que o que se move sob seus p\u00e9s n\u00e3o \u00e9 a prancha com que sonhavam surfar a onda reacion\u00e1ria que parecia estar ao seu dispor.<\/p>\n<p>O material publicado na m\u00eddia convencional, provida de media\u00e7\u00f5es, \u00e9 totalmente diferente do material publicado numa m\u00eddia sem media\u00e7\u00f5es como as redes sociais. Na m\u00eddia com media\u00e7\u00f5es temos o Sujeito que tem de informar; na m\u00eddia sem media\u00e7\u00f5es temos o EU que pode inventar. Na primeira, o indiv\u00edduo est\u00e1 contido pelas media\u00e7\u00f5es e n\u00e3o pode simplesmente mentir; na segunda, o indiv\u00edduo est\u00e1 livre de media\u00e7\u00f5es e pode mentir \u00e0 vontade. E mais: a natureza do comportamento daqueles que mentem na m\u00eddia sem media\u00e7\u00e3o diz muito da natureza do apego deles pelo homem de Estado que tamb\u00e9m despreza as media\u00e7\u00f5es, que, como eles, fa\u00e7a e aconte\u00e7a sozinho, sem freios.<\/p>\n<p>Veja bem o que quero agarrar, leitor: na m\u00eddia convencional, uma informa\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 transmitida depois de passar por media\u00e7\u00f5es, pois h\u00e1 o rep\u00f3rter, o redator, o editor, o chefe dos editores, o chefe geral da reda\u00e7\u00e3o e, no limite, o dono do ve\u00edculo, os quais, juntos, formam o Sujeito da informa\u00e7\u00e3o; j\u00e1 nas redes sociais, pelo contr\u00e1rio, pode haver apenas o EU superlativo do perdedor isolado, que s\u00f3 presta contas \u00e0 sua pr\u00f3pria raiva. Essas duas formas t\u00eam tudo a ver com as formas de exerc\u00edcio do poder pol\u00edtico que lhes correspondem: \u00e0 m\u00eddia convencional, cujas informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o submetidas a media\u00e7\u00f5es, corresponde um poder de Estado sujeito ele tamb\u00e9m a media\u00e7\u00f5es; j\u00e1 ao abutre solit\u00e1rio que faz das redes sociais plataforma para simplesmente mentir como bem entender, s\u00f3 pode corresponder a prefer\u00eancia simplista por um poder de Estado igualmente arbitr\u00e1rio, liberto de qualquer media\u00e7\u00e3o. Eles preferem o Bolsonaro pela mesma raz\u00e3o que os faz preferir mentir: a ilus\u00e3o de que a sociedade pode ser submetida ao que EU quero.<\/p>\n<p><strong>Em segundo lugar,<\/strong> a marca da invencionice nessas cal\u00fanias contra Marielle \u00e9 t\u00e3o evidente, seu car\u00e1ter forjado \u00e9 t\u00e3o \u00f3bvio, que fica estampada a sua infantilidade conspirat\u00f3ria, rid\u00edculo que, a contrapelo, permite que nos libertemos da mem\u00f3ria de que o que est\u00e1 em marcha contra a maioria de n\u00f3s seja uma grande <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3102\">conspira\u00e7\u00e3o<\/a> (chamo a ideia de conspira\u00e7\u00e3o de <em>mem\u00f3ria<\/em> porque essa ideia est\u00e1 t\u00e3o arraigada que funciona como um verdadeiro pano de fundo para o que pensamos). N\u00e3o h\u00e1 conspira\u00e7\u00e3o totalizante alguma. O que h\u00e1 \u00e9 a reuni\u00e3o de fac\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito do Estado, que se fazem e refazem em meio a conspira\u00e7\u00f5es, \u00e9 certo, mas conspira\u00e7\u00f5es rivais umas \u00e0s outras; e <em>tamb\u00e9m<\/em> por serem rivais n\u00e3o t\u00eam o poder de ditar o resultado final do processo \u2013 ainda bem. O \u201ctamb\u00e9m\u201d grifado antes se explica assim: o final do processo n\u00e3o pode ser antecipado por conspira\u00e7\u00e3o alguma porque al\u00e9m da rivalidade entre as fac\u00e7\u00f5es do Estado em crise de legitima\u00e7\u00e3o, h\u00e1, do outro lado, ainda de forma in<b><u>s<\/u><\/b>ipiente, \u00e9 verdade, a movimenta\u00e7\u00e3o imprevis\u00edvel da sociedade, especialmente daqueles segmentos que atuam de forma totalmente independente das fac\u00e7\u00f5es conflagradas nessa luta pelo controle do Estado de Direito Autorit\u00e1rio <em>ileg\u00edtimo (embora seja legal<\/em> \u2013 ele est\u00e1 cheio de leis e conta com o Judici\u00e1rio respectivo!). Quem teria previsto uma movimenta\u00e7\u00e3o como a que est\u00e1 havendo em nome de Marielle e de Anderson?<\/p>\n<p>Por in<b><u>c<\/u><\/b>ipiente que ainda seja, a movimenta\u00e7\u00e3o da sociedade vai ajudando a dificultar acordos entre as fac\u00e7\u00f5es (ainda n\u00e3o conseguiram abafar a Lava Jato, por exemplo), pois at\u00e9 mesmo os acertos muito bem escondidos entre governadores de Estado e l\u00edderes de fac\u00e7\u00f5es nas penitenci\u00e1rias v\u00e3o ficando claros para a opini\u00e3o p\u00fablica. E note bem, leitor: esses acertos, e sua divulga\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m s\u00e3o express\u00e3o da crise de legitima\u00e7\u00e3o do Estado, pois desafiados pelas cada vez mais desagregadoras consequ\u00eancias sociais e pol\u00edticas da desigualdade, os governadores, que devem suas elei\u00e7\u00f5es (em \u00faltima inst\u00e2ncia&#8230;) ao compromisso com a manuten\u00e7\u00e3o da mesma desigualdade, precisam se acertar com as fac\u00e7\u00f5es penitenci\u00e1rias para tentar neutralizar o potencial explosivo do conjunto ileg\u00edtimo, com o que formam um cipoal cada vez mais dif\u00edcil de esconder e pelo qual todas as <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3751\">fac\u00e7\u00f5es estatais<\/a> (penitenci\u00e1rias, policiais, institucionais e representacionais) tiram proveito <em>relativo<\/em> do sofrimento absoluto que imp\u00f5em \u00e0 maioria da sociedade atrav\u00e9s do poder de Estado, isto \u00e9, segundo o <em>exerc\u00edcio faccioso dos poderes institucionais<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Em terceiro lugar,<\/strong> as a\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es \u00e0 execu\u00e7\u00e3o de Marielle e ao assassinato de Anderson nos permitem abandonar a mem\u00f3ria de uma polariza\u00e7\u00e3o fajuta que aprisiona nosso potencial para a cria\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do novo. Esse crime medonho, nas circunst\u00e2ncias dessa crise de legitima\u00e7\u00e3o do Estado, suscitou realinhamentos pol\u00edticos que podem nos levar a procurar algo <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3188\">mais rico<\/a> do que a polariza\u00e7\u00e3o <em>esquerdaXdireita, <\/em>provid\u00eancia que daria uma chance para a reconfigura\u00e7\u00e3o das no\u00e7\u00f5es de \u201cn\u00f3s\u201d e \u201celes\u201d \u2013 veja bem, leitor: estou a sustentar que a polariza\u00e7\u00e3o <em>esquerdaXdireita<\/em> \u00e9 t\u00e3o sem sentido quanto uma outra que at\u00e9 muito pouco tempo apaixonou multid\u00f5es e, agora, vai sendo convenientemente esquecida, pois ficou nua em toda a sua fajutice, e sua vacuidade j\u00e1 n\u00e3o se presta \u00e0s ilus\u00f5es de ningu\u00e9m que tenha ju\u00edzo: <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1039\">PTxPSDB<\/a> (ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que como resultado da crise D\u00f3ria tenha se tornado o verdadeiro l\u00edder do PSDB e o PT n\u00e3o tenha para onde correr sem o Lula &#8212; e com a horda bo\u00e7alnara correndo por fora a vituperar que esses dois outros s\u00e3o iguais por serem ambos \u201ccomunistas\u201d!! kkkkkk).<\/p>\n<p><strong>Em quarto lugar,<\/strong> a insist\u00eancia dos mentirosos em vincular Marielle \u00e0s fac\u00e7\u00f5es do crime comum trouxe \u00e0 tona o debate sobre a quem interessaria a execu\u00e7\u00e3o dela. E o resultado \u00e9 que resta como plaus\u00edvel que Marielle tenha sido executada a mando do tr\u00e1fico, da mil\u00edcia, da banda podre da PM ou de alguma fac\u00e7\u00e3o paisana da pol\u00edtica carioca ou federal. E \u00e9 exatamente por ser plaus\u00edvel para qualquer um de n\u00f3s (esteja voc\u00ea de que \u201clado\u201d esteja) que a responsabilidade do ato possa ser de quaisquer das fac\u00e7\u00f5es mencionadas, \u00e9 exatamente por isso que j\u00e1 n\u00e3o se pode ter d\u00favidas acerca da <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3622\">crise de legitima\u00e7\u00e3o<\/a> do <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=2764\">Estado de Direito Autorit\u00e1rio<\/a> brasileiro: a luta pelo poder igualou a todos e se faz contra a, e \u00e0s custas da, maioria da sociedade. Essa evid\u00eancia exige reconfigurar a mem\u00f3ria que viemos reunindo sobre a crise em que o pa\u00eds se encontra, pois nos permite dar sentido novo aos acontecimentos e sofrimentos at\u00e9 aqui experimentados, e compreender de outra maneira as atitudes dos diferentes agentes implicados.<\/p>\n<p>Marielle vem sendo o que sempre foi: um ponto articulador para a usinagem mediada de mem\u00f3rias diferentes e, at\u00e9, conflitantes, mas sempre excluindo a mentira, pois uma mem\u00f3ria \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, o oposto da mentira &#8212; a mentira \u00e9 urdida naquilo que n\u00e3o foi, a mentira \u00e9 o nada da mem\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Novaes, 20 de mar\u00e7o de 2018 Sendo ela um dispositivo do c\u00e9rebro, a mem\u00f3ria, como sabemos, \u00e9 pl\u00e1stica como ele: ela assume formas e contornos variados no transcurso do tempo de nossas vidas, essa vida que cada um de n\u00f3s luta para preservar, enriquecer, atribuir sentido. 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