{"id":4371,"date":"2018-09-02T00:32:41","date_gmt":"2018-09-02T03:32:41","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4371"},"modified":"2018-09-10T12:18:47","modified_gmt":"2018-09-10T15:18:47","slug":"transferencia-de-votos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4371","title":{"rendered":"TRANSFER\u00caNCIA DE VOTOS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Carlos Novaes, 02 de setembro de 2018<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>[Com acr\u00e9scimos em <\/strong><em>Fica o Registro<\/em><strong>, em 03\/09]<\/strong><\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de Lula p\u00f5e o tema da &#8220;transfer\u00eancia de votos&#8221; no centro da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2018. O tema \u00e9 interessante porque, al\u00e9m dos contornos circunstanciais do caso, se trata de uma situa\u00e7\u00e3o, em si mesma, banal: quando algu\u00e9m, <strong>A<\/strong>, pretende transferir uma intens\u00e3o de voto em si para determinada outra pessoa, <strong>B<\/strong>, o que A pretende \u00e9 influir decididamente no percurso do eleitor que vai desde um desejo seu (votar em A), passa pela frustra\u00e7\u00e3o desse desejo (n\u00e3o poder votar em A) e, dela, chega a um novo desejo (votar em B). Grosso modo, trata-se de uma situa\u00e7\u00e3o social que todos, mesmo uma crian\u00e7a ao tentar levar outra a trocar de brinquedo, j\u00e1 vivemos.<\/p>\n<p>Para entender os par\u00e2metros que regem esse mecanismo complexo no ato de trocar o candidato em quem votar, \u00e9 necess\u00e1rio explorar, antes da &#8220;transfer\u00eancia&#8221; do voto para <strong>B<\/strong>, a <em>motiva\u00e7\u00e3o<\/em> para o voto em <strong>A<\/strong>.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos anos <a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Novaes\/AppData\/Local\/Temp\/Temp1_05_o_primeiro_turno.pdf.zip\/05_o_primeiro_turno.pdf\">desenvolvi<\/a> um metodologia de pesquisa para explorar a <em>motiva\u00e7\u00e3o para o voto<\/em>. Para abreviar a exposi\u00e7\u00e3o, vou explicar essa metodologia\u00a0 t\u00e3o esquematicamente quanto poss\u00edvel, deixando de lado certos refinamentos.<\/p>\n<p><strong>COMO \u00c9 FEITA E PROCESSADA A PESQUISA ELEITORAL<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li>Logo depois da <em>pergunta estimulada<\/em> sobre em quem o pesquisado votaria se elei\u00e7\u00e3o fosse hoje, vem a pergunta <strong>aberta<\/strong>: <em>&#8220;por que voc\u00ea d\u00e1 seu voto a fulano?&#8221;<\/em> (pergunta <em>aberta<\/em> \u00e9 aquela em que o entrevistador deve anotar <em>exatamente<\/em>\u00a0as palavras do entrevistado, inclusive com eventuais erros de portugu\u00eas e incoer\u00eancias manifestas).<\/li>\n<li>Depois, todas as respostas \u00e0 pergunta aberta s\u00e3o transcritas\u00a0num programa de computador.<\/li>\n<li>Em seguida, tendo em m\u00e3os todas as respostas, o especialista passa a buscar agrupa-las em tipos, de modo a obter uma classifica\u00e7\u00e3o nova que permita reduzir o leque de <em>motiva\u00e7\u00f5es para o voto<\/em> o mais poss\u00edvel e de um modo analiticamente prof\u00edcuo.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Com base na repeti\u00e7\u00e3o desses tr\u00eas passos acima sobre o resultado de muitas pesquisas eleitorais, desenvolvi uma grade de motiva\u00e7\u00f5es que est\u00e1 dividida em quatro hemisf\u00e9rios, cada um deles subdividido em rubricas, como a seguir.<\/p>\n<p><strong>COMO \u00c9 FEITA A CLASSIFICA\u00c7\u00c3O DAS RESPOSTAS \u00c0 PERGUNTA ABERTA<\/strong><\/p>\n<p><strong>Hemisf\u00e9rio_1: Emocional\/moral\/afetivo<\/strong><\/p>\n<p>Aqui s\u00e3o reunidas todas as respostas em que os entrevistados disserem votar no seu candidato segundo emo\u00e7\u00f5es, valores e\/ou afetos que n\u00e3o vierem acompanhados de qualquer c\u00e1lculo custo-benef\u00edcio imediato ou distante; por exemplo:<\/p>\n<p>1.1. Men\u00e7\u00f5es \u00e0 honestidade, coragem, autenticidade do candidato.<\/p>\n<p>1.2. Men\u00e7\u00f5es \u00e0 rela\u00e7\u00e3o do candidato com aspectos afetivos, tais como: &#8220;\u00e9 da minha terra&#8221;, &#8220;\u00e9 da minha ra\u00e7a\/cor&#8221;, &#8220;\u00e9 do meu g\u00eanero&#8221;<\/p>\n<p>1.3. Outras men\u00e7\u00f5es emocionais partilh\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>Hemisf\u00e9rio_2: Racional\/instrumental<\/strong><\/p>\n<p>Aqui s\u00e3o agrupadas todas as respostas que indicam um c\u00e1lculo custo-benef\u00edcio, imediato ou distante; por exemplo:<\/p>\n<p>2.1. Men\u00e7\u00f5es ao programa e\/ou a propostas do candidato<\/p>\n<p>2.2. Men\u00e7\u00f5es ao preparo t\u00e9cnico do candidato<\/p>\n<p>2.3. Men\u00e7\u00f5es a benef\u00edcio recebido do candidato em troca do voto (um saco de cimento, uma consulta m\u00e9dica)<\/p>\n<p>2.4. Men\u00e7\u00f5es \u00e0s realiza\u00e7\u00f5es passadas do candidato (foi um bom prefeito\/deputado; fez uma ponte no meu bairro,\u00a0 etc)<\/p>\n<p><strong>Hemisf\u00e9rio_3: A inser\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do candidato<\/strong><\/p>\n<p>Aqui s\u00e3o agregadas todas as refer\u00eancias feitas ao partido do candidato (ou a partido ao qual ele se contraponha), a seus aliados\/desafetos e\/ou \u00e0 sua hist\u00f3ria pol\u00edtica em geral; por exemplo:<\/p>\n<p>3.1. &#8220;\u00c9 do partido tal, que eu apoio&#8221; &#8212; ou &#8220;\u00e9 contra o partido tal, que eu detesto&#8221;<\/p>\n<p>3.2. &#8220;\u00c9 aliado\/parente\/advers\u00e1rio do pol\u00edtico tal, a quem admiro\/rejeito&#8221;<\/p>\n<p>3.3. &#8220;Troca sempre de partido, n\u00e3o tem rabo preso&#8221; ou &#8220;\u00e9 fiel, nunca trocou de partido&#8221;<\/p>\n<p><strong>Hemisf\u00e9rio_4: Motiva\u00e7\u00f5es Idiossincr\u00e1ticas<\/strong><\/p>\n<p>Aqui s\u00e3o reunidas respostas t\u00e3o pessoais que o eleitor n\u00e3o teria como, dentro do razo\u00e1vel, pretender convencer outra pessoa a acompanhar seu voto com base no mesmo motivo; por exemplo:<\/p>\n<p>4.1. &#8220;Voto nele porque sou chegada num coroa&#8221;; &#8220;porque se parece com a minha m\u00e3e&#8221;, &#8220;porque soube que ele mora numa casa amarela como a minha&#8221; e por a\u00ed vai&#8230;<\/p>\n<p>Note-se, de antem\u00e3o, duas coisas: primeiro, que n\u00e3o se perca de vista que essa separa\u00e7\u00e3o raz\u00e3o-emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o pretende que haja uma raz\u00e3o pura, sem emo\u00e7\u00e3o, ou vice-versa (uma complexidade que n\u00e3o \u00e9 o caso enfrentar aqui); segundo, nessa variada classifica\u00e7\u00e3o acima eu n\u00e3o fa\u00e7o diferen\u00e7a entre quem escolheu o candidato dizendo que <em>&#8220;gosto muito da proposta dele para enfrentar o problema do d\u00e9ficit\u00a0fiscal&#8221;<\/em>, e quem o fez dizendo que <em>&#8220;voto porque ele me deu 300 tijolos&#8221;<\/em>. Muito pelo contr\u00e1rio, para mim essas duas respostas t\u00eam o mesmo valor, ou seja, ambos os eleitores tem uma motiva\u00e7\u00e3o muito clara, fundamentada num c\u00e1lculo custo-benef\u00edcio inequ\u00edvoco. Ambas as respostas s\u00e3o classificadas por mim como &#8220;racional\/instrumental&#8221;.<\/p>\n<p>Na mesma linha, s\u00e3o classificadas como &#8220;moral\/afetiva&#8221; tanto aquela resposta que deu como motiva\u00e7\u00e3o para o voto a <em>&#8220;honestidade&#8221;<\/em> de um candidato, quanto a que partiu da considera\u00e7\u00e3o de que ambos t\u00eam a <em>&#8220;mesma cor da pele&#8221;<\/em>. Procedimento que se repete quando num outro hemisf\u00e9rio algu\u00e9m diz que vota porque o candidato \u00e9 do partido tal, ou, pelo contr\u00e1rio, porque ele combate o partido tal: o importante, aqui, \u00e9 o fator partido.<\/p>\n<p><strong>A VARIA\u00c7\u00c3O DAS MOTIVA\u00c7\u00d5ES NO CURSO DA CAMPANHA<\/strong><\/p>\n<p>Minha experi\u00eancia com pesquisas mostra que as motiva\u00e7\u00f5es acima variam no curso de uma elei\u00e7\u00e3o: no princ\u00edpio, quando ainda n\u00e3o h\u00e1 propriamente campanha na rua, as motiva\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais epid\u00e9rmicas e, com isso, prevalecem as respostas dos hemisf\u00e9rios 1 e 4, especialmente o 1. Mais adiante, quando passa a haver campanha e o eleitor passa a se interessar e, principalmente, a falar da elei\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um movimento que chamo de &#8220;troca de motiva\u00e7\u00e3o&#8221;, e os eleitores motivados pelos hemisf\u00e9rios 2 e 3 passam a predominar nas pesquisas, especialmente o 2.<\/p>\n<p>Por isso, as motiva\u00e7\u00f5es do primeiro e do quarto hemisf\u00e9rios s\u00e3o chamadas de <em>fracas<\/em>; e as do segundo e do terceiro s\u00e3o chamadas de <em>fortes<\/em>. Isso quer dizer que quando motivado por 2 e\/ou 3 o eleitor tem uma prefer\u00eancia mais s\u00f3lida, mais dif\u00edcil de mudar &#8212; j\u00e1 quando motivado por 1 e\/ou 4 o eleitor pode mais facilmente ser levado a trocar de motiva\u00e7\u00e3o e, no embalo dessa troca, pode tamb\u00e9m ser levado a trocar de candidato, descartando a prefer\u00eancia a que fora levado pela motiva\u00e7\u00e3o (<em>fraca<\/em>) anterior.<\/p>\n<p><strong>O CASO DE LULA NO PRIMEIRO TURNO DE 2018<\/strong><\/p>\n<p>Embora n\u00e3o disponha de nenhuma pesquisa atual com dados sobre motiva\u00e7\u00e3o para o voto, vou tentar, com base na experi\u00eancia pregressa, oferecer elementos para que voc\u00ea, leitor, possa fazer um ju\u00edzo melhor acerca das chances da manobra de Lula.<\/p>\n<p>Em 2010 Lula n\u00e3o fez propriamente uma &#8220;transfer\u00eancia de votos&#8221; para Dilma, pelo menos n\u00e3o como tenta agora, pois naquela elei\u00e7\u00e3o Lula n\u00e3o poderia mesmo ser candidato. Ou seja, o eleitor n\u00e3o foi levado a uma motiva\u00e7\u00e3o para votar em Lula e, depois, a teve frustrada. Dilma n\u00e3o foi beneficiada por uma transfer\u00eancia de votos, mas por uma transfer\u00eancia de <em>prest\u00edgio.<\/em><\/p>\n<p>Em 2018 \u00e9 bem diferente, pois h\u00e1 dois tipos b\u00e1sicos de eleitores com motiva\u00e7\u00e3o para votar em Lula: primeiro, aquele eleitor que prefere mesmo Lula, e tendo desenvolvido uma motiva\u00e7\u00e3o de votar nele descobre, agora, que n\u00e3o poder\u00e1 faz\u00ea-lo; segundo, aquele eleitor que desenvolveu a motiva\u00e7\u00e3o para declarar voto em Lula exatamente porque antecipou que o ex-presidente teria sua candidatura barrada. Embora o primeiro contingente deva ser significativamente superior ao segundo, este n\u00e3o deve ser desprez\u00edvel, como o crescimento recente nas pesquisas parece mostrar.<\/p>\n<p><strong>PROBLEMAS PARA TRANSFERIR O VOTO DO ELEITOR QUE PREFERE LULA<\/strong><\/p>\n<p>Dos que desenvolveram a vontade original de votar em Lula, certamente h\u00e1 motiva\u00e7\u00f5es em todos os hemisf\u00e9rios apresentados acima. Por exemplo: seus governos o credenciam no grupo 2; sua trajet\u00f3ria e seu partido o credenciam no 3; sua condi\u00e7\u00e3o de ex-oper\u00e1rio e nordestino o credencia no 1 e sua figura controversa e amplamente conhecida deve suscitar apoios pela motiva\u00e7\u00e3o 4.<\/p>\n<p>Em raz\u00e3o dessa s\u00f3lida distribui\u00e7\u00e3o das motiva\u00e7\u00f5es tanto pelo grupo das <em>fortes<\/em> (2 e 3), quanto pelo das <em>fracas<\/em> (1 e 4), Lula deveria ter constru\u00eddo um processo de transfer\u00eancia negociada com o seu eleitor, uma negocia\u00e7\u00e3o que respeitaria o fato de que o que predomina no final s\u00e3o as escolhas racionais, n\u00e3o as emocionais.<\/p>\n<p>Mas Lula fez a op\u00e7\u00e3o oposta: ele pretende que tudo isso seja dirigido para Haddad de \u00faltima hora, sob um registro quase puramente emocional, como <em>repara\u00e7\u00e3o<\/em> pelo impedimento da sua candidatura; o que p\u00f5e problemas s\u00e9rios.<\/p>\n<p>Primeiro, Lula j\u00e1 n\u00e3o desfruta do prest\u00edgio que transferiu para Dilma em 2010 e para o pr\u00f3prio Haddad em 2012. Pelo contr\u00e1rio, Lula est\u00e1 sob o ju\u00edzo desfavor\u00e1vel da corrup\u00e7\u00e3o havida em seus governos, sendo poucos, muito poucos, os que acreditam que ele &#8220;n\u00e3o sabia&#8221;. Como a pecha de corrupto \u00e9 t\u00edpica do hemisf\u00e9rio emocional (1), Lula candidato poderia suplanta-la com as suas realiza\u00e7\u00f5es governamentais (2), tal como Maluf j\u00e1 fez. Entretanto, n\u00e3o \u00e9 ele o candidato e a tarefa de vincular Haddad ao prest\u00edgio dos seus governos a ponto de neutralizar os danos da Lava Jato no hemisf\u00e9rio 1 n\u00e3o \u00e9 simples, porque depende de que se acredite que Lula \u00e9 inocente e de que seus governos justificam o voto em quem ele apontar.<\/p>\n<p>Segundo, Lula n\u00e3o pode simplesmente pretender que o fracasso do governo Dilma (2) n\u00e3o lhe diga respeito. Por isso mesmo, para Lula o melhor \u00e9 que a discuss\u00e3o propriamente racional n\u00e3o se fa\u00e7a, mas da qual Haddad n\u00e3o poder\u00e1 escapar, por mais tarde que comece sua participa\u00e7\u00e3o na campanha.<\/p>\n<p>Terceiro, o pr\u00f3prio Haddad tem um passivo s\u00e9rio no hemisf\u00e9rio 2, pois seu controverso governo na cidade de SP, junto com os desdobramentos da Lava Jato, levou-o a uma derrota em primeiro turno na sua tentativa de reelei\u00e7\u00e3o, quando contou com o engajamento de Lula, que agora aparece tentando repetir a manobra&#8230; \u00c9 bem verdade que agora h\u00e1 uma diferen\u00e7a: naquela altura Lula n\u00e3o estava como v\u00edtima. Mas, de novo, se trata de um movimento contr\u00e1rio \u00e0 experi\u00eancia comprovada: o emocional favor\u00e1vel (Lula) pretendendo suplantar o racional desfavor\u00e1vel (Haddad). E mais: o emocional favor\u00e1vel, mais fraco, vem daquele que transfere, e o racional desfavor\u00e1vel, mais forte, est\u00e1 com aquele que recebe a transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>Quarto, o PT, embora conserve 24% das prefer\u00eancias partid\u00e1rias, n\u00e3o conta com outros 76% de indiferentes, indecisos ou distra\u00eddos diante da quest\u00e3o partid\u00e1ria. N\u00e3o. A Lava Jato motivou na maioria uma rejei\u00e7\u00e3o pelo PT, na qual est\u00e3o eleitores que poderiam votar em Lula, dado o lugar \u00fanico ocupado por ele na opini\u00e3o p\u00fablica. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para supor, entretanto, que boa parte desses eleitores v\u00e1 simplesmente transferir para o <em>petista<\/em> Haddad um voto que estiveram dispostos a dar ao Lula.\u00a0(Por isso, l\u00e1 atr\u00e1s (bem entendido), me parecia <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4010\">mais racional<\/a> para ele <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4068\">apoiar Ciro<\/a>. Lula sente a dificuldade e est\u00e1 tentando transp\u00f4-la fazendo um arremedo de di\u00e1logo racional, dizendo que Haddad foi seu melhor ministro etc).<\/p>\n<p><strong>\u00a0A INJUSTI\u00c7A CONTRA LULA COMO ATMOSFERA DA ELEI\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 explorei em textos <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4184\">recentes<\/a> a condi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima em que Lula est\u00e1 eleitoralmente envelopado. Al\u00e9m do que j\u00e1 foi dito em <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4249\">uns<\/a> e <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4306\">outros<\/a> desses textos, parece oportuno analisar a contribui\u00e7\u00e3o que essa circunst\u00e2ncia d\u00e1 ao prolongamento da fase propriamente emocional da campanha, um prolongamento que ao adiar o ajuizamento racional, pelo eleitor, do que est\u00e1 em jogo, veio beneficiando a <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4314\">polariza\u00e7\u00e3o fajuta<\/a> entre Lula e Bolsonaro.<\/p>\n<p>Se Lula n\u00e3o tivesse sido preso com base num julgamento sem provas, h\u00e1 muito ele seria um candidato sob severo escrut\u00ednio. A pris\u00e3o arbitr\u00e1ria dele e o impedimento da sua candidatura levaram a que se instalasse e perdurasse um ambiente predominantemente emocional, que recebe a ajuda da, e se coaduna muito bem com a, desorienta\u00e7\u00e3o mais geral que caracteriza a maioria da sociedade brasileira diante da <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3622\">crise de legitima\u00e7\u00e3o<\/a> do <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3631\">Estado de Direito Autorit\u00e1rio<\/a>: a desorienta\u00e7\u00e3o \u00e9 um desvio da raz\u00e3o e favorece o emocionalismo. H\u00e1 como que uma trava emocional a impedir que a campanha passe da fase emocional (hemisf\u00e9rio_1, <em>fraca<\/em>), para a fase racional (hemisf\u00e9rio_2, <em>forte<\/em>), situa\u00e7\u00e3o para a qual o despreparo dos outros candidatos contribui muito.<\/p>\n<p>Essa atmosfera emocional engoliu at\u00e9 os que se julgam &#8220;formadores de opini\u00e3o&#8221; e tem beneficiado n\u00e3o apenas Lula, mas, eu diria, <em>sobretudo<\/em>, Bolsonaro que, apoiado em Lula, tem sido o grande\u00a0campe\u00e3o das motiva\u00e7\u00f5es emocionais para o voto. A dificuldade para o limitado ex-capit\u00e3o deveria ser conservar esse eleitor ao ser confrontado com os desafios da governan\u00e7a. Entretanto, diante do despreparo dos jornalistas (vide, por exemplo, o <em>Roda Viva<\/em> e o <em>Jornal Nacional), <\/em>que t\u00eam se concentrado em discutir com o candidato temas que lhes parecem espinhosos, mas nos quais Bolsonaro n\u00e3o poderia deixar de se sentir \u00e0 vontade, ele tem n\u00e3o s\u00f3 confirmado e motivado seus eleitores, mas tamb\u00e9m conseguido parecer melhor do que os outros &#8212; se bem que dada a fragilidade deles&#8230; Bolsonaro est\u00e1 conseguindo levar adiante uma candidatura presidencial que s\u00f3 tem perna emocional, o que \u00e9 um caso \u00fanico na hist\u00f3ria da redemocratiza\u00e7\u00e3o eleitoral brasileira.<\/p>\n<p>De modo que Lula e Bolsonaro t\u00eam alimentado um ao outro com emo\u00e7\u00f5es contrapostas, sendo a maior evid\u00eancia de desraz\u00e3o o fato de nessa polariza\u00e7\u00e3o a <em>urg\u00eancia social<\/em> estar do <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4344\">lado oposto<\/a> ao da <em>urg\u00eancia por ordem<\/em>, quando as duas deveriam estar juntas, pois os recursos para financiar o social s\u00f3 poder\u00e3o vir de uma nova ordem, que golpeie essa ordem desordeira que t\u00e3o bem faz aos ricos e na qual as <em>fac\u00e7\u00f5es estatais<\/em> envolvidas na corrup\u00e7\u00e3o; na manuten\u00e7\u00e3o do arb\u00edtrio e dos abusos funcionais, salariais e previdenci\u00e1rios do setor p\u00fablico; e na bandidagem penitenci\u00e1ria n\u00e3o cessam de favorecer o <em>exerc\u00edcio faccioso dos poderes institucionais<\/em>.<\/p>\n<p>Por tudo isso, s\u00f3 haver\u00e1 uma segundo turno entre Haddad e Bolsonaro, as duas marionetes, se a maioria da sociedade persistir no engajamento emocional para o voto, fazendo um primeiro turno in\u00e9dito, no qual, pela primeira vez, n\u00e3o ter\u00e1 havido a passagem da fase das motiva\u00e7\u00f5es chamadas <em>fracas<\/em> para as motiva\u00e7\u00f5es chamadas <em>fortes<\/em>. Se for assim, o segundo turno ser\u00e1 dram\u00e1tico, pois quando chegarmos l\u00e1 a ficha cair\u00e1 &#8212; ou n\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>[em 03\/09] Fica o Registro:<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><strong>A insist\u00eancia do PT na suposta candidatura de Lula<\/strong>, com anu\u00eancia de Haddad, mostra que eles n\u00e3o querem, mesmo, fazer qualquer gesto que quebre o elo emocional que parte do eleitorado mant\u00e9m com Lula at\u00e9 aqui. O problema \u00e9 que a hora H vai chegar,\u00a0 e a possibilidade de n\u00e3o haver a troca das <em>motiva\u00e7\u00f5es fracas<\/em> pelas <em>motiva\u00e7\u00f5es fortes<\/em> nada tem de garantida.<\/li>\n<li><strong>Ali\u00e1s, a imprensa traz hoje pesquisas que mostram<\/strong>\u00a0a campanha de Alckmin na TV j\u00e1 conseguindo abalar o emocionalismo em torno de Bolsonaro. Alckmin re\u00fane as <em>motiva\u00e7\u00f5es fortes<\/em> (racionais) do mesmo repert\u00f3rio de apelos conservadores do qual Bolsonaro \u00e9 o campe\u00e3o das <em>motiva\u00e7\u00f5es fracas<\/em> (emocionais). Se, como a experi\u00eancia mostra, o tucano corroer o limitado ex-capit\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para supor que Haddad v\u00e1 simplesmente surfar na onda emotiva gerada por Lula; afinal, Lula e Bolsonaro est\u00e3o polarizados com base <em><strong>na mesma fragilidade<\/strong>: o elo entre o <\/em>emocionalismo<em> e a <\/em>desorienta\u00e7\u00e3o<em> da maioria da sociedade diante da <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4159\">crise de legitima\u00e7\u00e3o<\/a><\/em>. O tempo \u00e9 curto, mas, ainda assim, n\u00e3o vou ter motivos para surpresa se nem Haddad, nem Bolsonaro estiverem no segundo turno.<\/li>\n<li><strong>O desafio anal\u00edtico dessa reta final de campanha<\/strong> \u00e9 entender como a maioria da sociedade vai preferir iniciar a constru\u00e7\u00e3o de uma sa\u00edda para uma crise de legitima\u00e7\u00e3o que ela <em>n\u00e3o enxerga<\/em> (n\u00e3o obstante sofra tremendamente por causa dela) em circunst\u00e2ncias em que ela pr\u00f3pria, por n\u00e3o enxergar a crise, n\u00e3o construiu alternativas transformadoras e, assim, disp\u00f5e de um leque de candidaturas presidenciais muito fr\u00e1geis, muito aqu\u00e9m da encrenca em que estamos metidos (o inc\u00eandio do Museu Nacional \u00e9 mais do que uma met\u00e1fora precisa).<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Novaes, 02 de setembro de 2018 [Com acr\u00e9scimos em Fica o Registro, em 03\/09] A situa\u00e7\u00e3o de Lula p\u00f5e o tema da &#8220;transfer\u00eancia de votos&#8221; no centro da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2018. O tema \u00e9 interessante porque, al\u00e9m dos contornos circunstanciais do caso, se trata de uma situa\u00e7\u00e3o, em si mesma, banal: quando algu\u00e9m, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1338,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4371","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eleicoes-de-2014"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4371","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1338"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4371"}],"version-history":[{"count":36,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4371\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4533,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4371\/revisions\/4533"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4371"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4371"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4371"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}