{"id":4463,"date":"2018-09-06T15:04:09","date_gmt":"2018-09-06T18:04:09","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4463"},"modified":"2018-09-24T00:22:35","modified_gmt":"2018-09-24T03:22:35","slug":"o-religioso-fardado-em-traje-civil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4463","title":{"rendered":"O RELIGIOSO FARDADO EM TRAJE CIVIL"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Carlos Novaes, 06 de setembro de 2018<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>[com acr\u00e9scimo \u00e0s 17:55h, em <\/strong>Fica o Registro<strong>]<\/strong><\/p>\n<p>Geraldo Alckmin \u00e9 o <em>mais consistente<\/em> dos candidatos, e o <em>mais daninho<\/em>, quando se tem em mente o combate \u00e0 desigualdade na perspectiva de alcan\u00e7armos um Estado de Direito Democr\u00e1tico no Brasil.<\/p>\n<p>Desses \u00faltimos trinta anos em que a <em>forma<\/em> pol\u00edtica paisana que nos foi legada pela ditadura promoveu essa longa jornada da democracia para dentro da noite, Alckmin emerge como o candidato\u00a0<em>mais consistente<\/em> porque concatena os elementos conservadores da cena pol\u00edtica num projeto de governo antidemocr\u00e1tico que, sem precisar recorrer aos disparates e vulgaridades eleitoreiras de um Bolsonaro, d\u00e1 sobrevida ao Estado de Direito Autorit\u00e1rio &#8212; fiz <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3017\">aqui<\/a> a conex\u00e3o entre o perigo de Alckmin assumir a presid\u00eancia da Rep\u00fablica (<em>gest\u00e3o<\/em>) e a perniciosa reelei\u00e7\u00e3o infinita para o Legislativo (<em>representa\u00e7\u00e3o<\/em>).<\/p>\n<p>E \u00e9 o <em>mais daninho<\/em> porque deu \u00e0s fac\u00e7\u00f5es estatais mais reacion\u00e1rias, sa\u00eddas dos dispositivos <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=2764\"><em>paisano<\/em> e <em>militar<\/em><\/a> da ditadura, uma perspectiva de poder desde antes da elei\u00e7\u00e3o, sendo que o apoio antecipado do chamado Centr\u00e3o faz de Alckmin o Cunha que pode dar certo. Alckmin \u00e9 de sa\u00edda um projeto <em>presidencial<\/em> para o <em>exerc\u00edcio faccioso dos poderes institucionais <\/em>acoplado ao Congresso (privil\u00e9gios, abusos e <strong><em>mais<\/em> <\/strong>repress\u00e3o), e com o objetivo de sempre: manter a desigualdade para benef\u00edcio dos neg\u00f3cios dos muito ricos e daqueles que os servem via manejo da coisa p\u00fablica.<\/p>\n<p>O fato de ter sido com a plumagem de tucano que Alckmin chegou aonde est\u00e1 n\u00e3o \u00e9 desprovido de sentido profundo: como ala dissidente do paisano dispositivo oposicionista da ditadura (o <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1260\">p-MDB<\/a>), o PSDB n\u00e3o deixou de trazer, misturado \u00e0 carga de bons tijolos que reuniu para participar da constru\u00e7\u00e3o da democracia reclamada pela maioria da sociedade, um tanto do barro de que fora feito. O tenaz e paulatino \u00eaxito de Alckmin na luta entre os tucanos paulistas e, depois, com a desgra\u00e7a de A\u00e9cio, sua ascens\u00e3o \u00e0 presid\u00eancia do PSDB, d\u00e3o a medida e permitem ver a trajet\u00f3ria do velho que se revitaliza por dentro do que em dia long\u00ednquo p\u00f4de parecer ser o novo.<\/p>\n<p>No manejo dos imensos recursos de poder dispon\u00edveis ao governador do mais rico estado da federa\u00e7\u00e3o por longos 15 anos, Alckmin reuniu uma experi\u00eancia perniciosa no favorecimento dos grandes neg\u00f3cios pelo trato combinado dos dispositivos paisano e militar que a ditadura nos legou: pelo lado paisano, manteve sob restrito controle a Assembl\u00e9ia Legislativa de S\u00e3o Paulo e a politicagem interiorana municipal, de onde ele provem; pelo lado militar, concedeu \u00e0 PM uma lealdade de mafioso: s\u00f3 dan\u00e7a quem for flagrado de maneira inacobert\u00e1vel, do contr\u00e1rio, p\u00e9 na t\u00e1bua que serve de porta e bala para frente, pois S\u00e3o Paulo n\u00e3o pode parar.<\/p>\n<p>Mais recentemente, com a emerg\u00eancia da guerra entre <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3751\">fac\u00e7\u00f5es estatais<\/a>, Alckmin vem tendo oportunidade de mostrar suas habilidades no trato com fac\u00e7\u00f5es e vem singrando o mar revolto mobilizando aliados no Judici\u00e1rio e recolhendo o que pode da carga de pol\u00edticos processada pela Lava Jato que ainda boia (segundo ele, os melhores) e assegurando resoluta lealdade aos subordinados ca\u00eddos, como fez na entrevista que deu ao Jornal Nacional (dias depois, Gilmar Mendes agraciou o subordinado mencionado na entrevista com mais um dos seus\u00a0<em>habeas corpus a jato<\/em>).<\/p>\n<p>A devo\u00e7\u00e3o ao conservadorismo religioso arruma o perfil de um modo especialmente consistente com os tempos de treva que se anunciam e que os bolsonaristas tanto anseiam, jun\u00e7\u00e3o que pode ser resumida numa frase de Alckmin, &#8212; <em>&#8220;quem n\u00e3o reagiu, t\u00e1 vivo&#8221;<\/em> &#8212; proferida para revestir com a legitima\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria do mandat\u00e1rio mais uma a\u00e7\u00e3o em que a trucul\u00eancia da PM poderia ter sido evitada se os policiais n\u00e3o viessem sendo treinados para a morte (do outro e deles pr\u00f3prios, v\u00edtimas inscientes que tamb\u00e9m s\u00e3o &#8212; exemplo dessa conex\u00e3o macabra s\u00e3o as simetrias entre o assassinato b\u00e1rbaro da PM Juliane dos Santos Duarte, em SP, e a execu\u00e7\u00e3o n\u00e3o menos b\u00e1rbara da l\u00edder Marielle Franco, no Rio).<\/p>\n<p>Aquela frase de Alckmin repisa o que sabemos desde Abra\u00e3o, o patriarca primordial dos implac\u00e1veis: os inocentes s\u00e3o sacrificados exatamente para que os algozes possam se exibir como implac\u00e1veis. O ex-governador de SP faz da religi\u00e3o lastro para uma implacabilidade que, justamente por ser religiosa, nada tem de republicana e, por isso mesmo, s\u00f3 pode se exibir assim serena porque, facciosamente, \u00e9 exercida apenas contra os mais fracos &#8212; no manejo com os fortes, s\u00f3 mesuras de interiorano devoto.<\/p>\n<p>N\u00e3o fossem essas pr\u00e1ticas t\u00e3o vis\u00edveis, e mesmo que n\u00e3o se soubesse de seu apoio \u00e0s mais &#8220;impopulares&#8221; reformas de Temer, a trucul\u00eancia por traz da presumida\u00a0 serenidade de Alckmin seria tra\u00edda at\u00e9 pelo seu modo de falar: sua mania de expor uma ideia batendo o indicador nos dedos trai a convic\u00e7\u00e3o religiosa de quem tem como certo o que \u00e9 melhor para o interlocutor; um interlocutor a quem ele se dirige n\u00e3o para convencer, muito menos para persuadir, mas para submeter &#8212; Alckmin fala como se mastigasse os pr\u00f3prios dentes, como se quisesse triturar o interlocutor.<\/p>\n<p>A jun\u00e7\u00e3o de religi\u00e3o, trucul\u00eancia policial e grandes neg\u00f3cios faz de Alckmin o presidente dos sonhos da bancada BBB (b\u00edblia+bala+boi), cujos interesses requerem da maioria da sociedade uma submiss\u00e3o bovina aos preceitos reificados da tradi\u00e7\u00e3o e da ordem &#8212; Alckmin prop\u00f5e um lograr sereno do que Bolsonaro quer arrancar no berro.\u00a0Uma vit\u00f3ria de Alckmin seria o triunfo da abertura <em>lenta <\/em>(durou 40 anos)<em>, gradual <\/em>(sempre simulou dar dois passos \u00e0 frente <em>para<\/em> dar um atr\u00e1s)\u00a0<em>e segura <\/em>(assegurou que os ricos e seus servi\u00e7ais n\u00e3o perderiam).<\/p>\n<p>Para azar de Alckmin e, talvez, sorte da maioria de n\u00f3s, os tempos s\u00e3o de emo\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de raz\u00e3o &#8212; a maioria das pessoas quer expor afetos, n\u00e3o argumentos. N\u00e3o falo de uma poss\u00edvel &#8220;sorte&#8221; porque prefira a contraposi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>afetiva<\/em>\u00a0(a <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4371\"><em>motiva\u00e7\u00e3o fraca<\/em><\/a>) ao racionalismo enganador de Alckmin, que \u00e9 Bolsonaro. N\u00e3o. A sorte pode estar em que ao ter de jogar seu imenso tempo de TV\u00a0 num apelo \u00e0 raz\u00e3o contra seu advers\u00e1rio siam\u00eas, pois no segundo turno n\u00e3o h\u00e1 lugar para os dois, Alckmin pode acabar por ajudar a criar condi\u00e7\u00f5es de <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3188\">conversa<\/a> que levem a maioria do eleitorado a ponderar motivos para jogar fora a ambos.<\/p>\n<p><strong style=\"font-size: 1rem;\">Fica o Registro:<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><strong>Diante dos salamaleques de Haddad ao p-MDB, Boulos<\/strong> <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2018\/09\/boulos-critica-beija-mao-de-haddad-a-caciques-do-mdb-e-diz-que-e-quase-masoquismo.shtml\">declarou<\/a> ao UOL que <em>&#8220;parece que a rela\u00e7\u00e3o PT e MDB virou caso de div\u00e3, caso de\u00a0masoquismo. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, depois de ser golpeado, depois de tudo isso, recompor com essa turma e estar no mesmo palanque&#8221;<\/em>. Diante de uma evid\u00eancia t\u00e3o escancarada da vig\u00eancia profunda do facciosismo que articula o PT com o sistema pol\u00edtico velho, a \u00fanica coisa que resta a Boulos \u00e9 improvisar uma psican\u00e1lise de botequim. \u00c9 que se ele, para fazer a cr\u00edtica dessa cena velha, invocasse mesmo que s\u00f3 o marxismo vulgar que costuma manejar, n\u00e3o poderia deixar de escancarar o oportunismo que o levou a <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3343\">alisar<\/a> o <em>lulopetismo<\/em> at\u00e9 poucos dias atr\u00e1s. O eleitorado que mais cresce na campanha do PSOL \u00e9 o dos que t\u00eam saudades da Luciana Genro.<\/li>\n<li><strong>Embora todos os partidos falem em mudan\u00e7a,<\/strong> o que prevalece mesmo \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o do que j\u00e1 est\u00e1 a\u00ed, como fica claro quando se observa o uso que os velhos pol\u00edticos fazem do novo fundo eleitoral, desde o PSOL at\u00e9 o p-MDB, passando pelo Centr\u00e3o e adjac\u00eancias: o grosso do nosso dinheiro est\u00e1 sendo distribu\u00eddo aos que <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/eleicoes\/2018\/noticias\/2018\/09\/06\/partidos-favorecem-candidatos-a-reeleicao-no-uso-do-fundo-publico-eleitoral.htm\">j\u00e1 t\u00eam mandato<\/a> e querem se reeleger. Tudo ao contr\u00e1rio da indispens\u00e1vel renova\u00e7\u00e3o do Congresso, como j\u00e1 tratei <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=115\">aqui<\/a>, <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1601\">aqui<\/a>, <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=2794\">aqui<\/a> e em <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4270\">outros<\/a> <em>posts<\/em> deste blog.<\/li>\n<li><strong>[17:55h] O esfaqueamento de Bolsonaro no meio da rua<\/strong>, em meio a multid\u00e3o de apoiadores, \u00e9 uma barbaridade que de imediato intensifica o emocionalismo da campanha, mas, com o passar dos dias, a depender tamb\u00e9m das consequ\u00eancias do ferimento e de uma criteriosa apura\u00e7\u00e3o dos fatos, pode fazer pensar, at\u00e9 mesmo ao pr\u00f3prio Bolsonaro, que no passado defendeu <em>&#8220;matar uns 30 mil&#8221;\u00a0<\/em>\u00a0e outro dia atualizava esse \u00e2nimo belicoso falando em <em>&#8220;metralhar petralhas&#8221;, <\/em>al\u00e9m de defender a pr\u00e1tica da tortura, que atinge a integridade f\u00edsica e ps\u00edquica de pessoas j\u00e1 despojadas de meios de se defender.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Novaes, 06 de setembro de 2018 [com acr\u00e9scimo \u00e0s 17:55h, em Fica o Registro] Geraldo Alckmin \u00e9 o mais consistente dos candidatos, e o mais daninho, quando se tem em mente o combate \u00e0 desigualdade na perspectiva de alcan\u00e7armos um Estado de Direito Democr\u00e1tico no Brasil. 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