{"id":4618,"date":"2018-09-23T16:22:26","date_gmt":"2018-09-23T19:22:26","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4618"},"modified":"2018-09-28T15:31:24","modified_gmt":"2018-09-28T18:31:24","slug":"duas-farsas-nos-puseram-entre-a-tragedia-e-o-drama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4618","title":{"rendered":"DUAS FARSAS NOS PUSERAM ENTRE A TRAG\u00c9DIA E O DRAMA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Carlos Novaes, 23 de setembro de 2018<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">[com acr\u00e9scimos em 25\/09, em <strong>Fica o Registro<\/strong>]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1988, depois de uma intensa luta, de cujos enganos j\u00e1 tratei em <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3172\">texto<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=q5cOG9d-MJQ\">v\u00eddeo<\/a>, foi promulgada essa Constitui\u00e7\u00e3o que muitos supunham nos garantir um <em>Estado democr\u00e1tico de direito<\/em>.<\/p>\n<p>No rastro dessa esperan\u00e7a, em <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3998\">1989<\/a> a maioria da sociedade viveu a alegria de votar para escolher o presidente da Rep\u00fablica, imaginando que estava a tornar coisa do passado\u00a0a ditadura paisano-militar &#8212; come\u00e7ava ali a produ\u00e7\u00e3o de uma farsa parcialmente lastreada nas express\u00f5es mais vis\u00edveis do que hav\u00edamos alcan\u00e7ado de melhor na nova din\u00e2mica pol\u00edtica: o <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=2922\">PSDB e o PT<\/a>. Em movimenta\u00e7\u00e3o que parecia paralela, mas que iria se mostrar convergente, j\u00e1 no ano seguinte, na elei\u00e7\u00e3o de 1990 para o Congresso, os votos de uma minoria ressentida elegeram Jair Bolsonaro deputado federal &#8212; come\u00e7ava ali a produ\u00e7\u00e3o de uma farsa inteiramente gerada nas dobras mais profundas do que hav\u00edamos conservado de pior da velha cultura pol\u00edtica: <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=2761\">os dispositivos<\/a> militar e paisano da ditadura.<\/p>\n<p>Entre 1988 e 2018 temos os trinta anos em que <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4159\">criamos as condi\u00e7\u00f5es<\/a> para que essas farsas &#8212; contorcendo-se como duas serpentes entre oportunidades oferecidas pela rotina eleitoral a que a imensa maioria de n\u00f3s se abandonou &#8212; ganhassem for\u00e7a, se entrela\u00e7assem e acabassem por se colocar cara a cara, prestes a nos engolfar num espet\u00e1culo in\u00e9dito: a dan\u00e7a macabra entre duas farsas vai produzir ou um drama, ou uma trag\u00e9dia.<\/p>\n<p><strong>A primeira farsa<\/strong> consistiu numa polariza\u00e7\u00e3o fajuta, <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1340\">PSDBxPT<\/a>, que arregimentou e nutriu for\u00e7as que deveriam ter sido vencidas (<a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1260\">p-MDB<\/a> e ARENA\/PDS\/PFL\/DEM), trazendo o pa\u00eds a uma situa\u00e7\u00e3o pior do que a existente nos dias do golpe de 1964 contra a democracia; <strong>a segunda farsa<\/strong> vem costurando a mortalha da democracia que parecia recuperada retorcendo os fios da hist\u00f3ria deixados pelos primeiros farsantes, que renunciaram ao trabalho de levar a luta contra o legado de 1964 at\u00e9 o fim; <strong>o drama<\/strong> ser\u00e1 o aprofundamento da <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3622\"><em>crise de legitima\u00e7\u00e3o<\/em><\/a> desse Estado de Direito Autorit\u00e1rio em que a primeira farsa fez seu ninho manipulando a palha fr\u00e1gil da democracia eleitoral; <strong>a trag\u00e9dia <\/strong>ser\u00e1\u00a0o retorno do pa\u00eds, via democracia eleitoral, \u00e0 situa\u00e7\u00e3o brutal em que a desigualdade \u00e9 incrementada com o arb\u00edtrio, que sufoca at\u00e9 a liberdade de nos dizermos contra ela.<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 o n\u00f3 de amarra\u00e7\u00e3o dessa disjuntiva amarga?<\/p>\n<p><strong>A DESORIENTADORA CENTRALIDADE DA DESIGUALDADE<\/strong><\/p>\n<p>A desigualdade \u00e9 a chave para entendermos esses trinta anos, pois foi em torno dela que mobilizaram o engano, o erro e a mentira contra o potencial transformador da verdade. A <em>verdade<\/em> \u00e9 que o Brasil tem uma desigualdade cruel, sem paralelo no mundo, que condena ao sofrimento a maioria da sociedade; o <em>engano<\/em> est\u00e1 em supor que o <i>fundamental\u00a0<\/i>nessa desigualdade seja o fato (indiscut\u00edvel) de os interesses dos muito ricos provocarem o sofrimento extremo dos muito pobres; o <em>erro<\/em>, sa\u00eddo desse engano, foi rebaixar a luta contra a &#8220;desigualdade&#8221; \u00e0 busca da compaix\u00e3o daqueles que foram levados a supor que n\u00e3o sofrem com a desigualdade; a <em>mentira<\/em> est\u00e1 em difundir que essa &#8220;desigualdade&#8221; tem sido combatida com esses programas sociais que agradam aos pobres, s\u00e3o tolerados pelos ricos e vividos como perda pelas camadas m\u00e9dias.<\/p>\n<p>Os sabich\u00f5es da nossa autointitulada esquerda contribu\u00edram decisivamente para esse estado de coisas. Vejamos como eles t\u00eam interpretado os n\u00fameros e desenhado os gr\u00e1ficos com que pretendem ilustrar a nossa desigualdade. \u00c9 sempre a mesma ladainha, com tr\u00eas invoca\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas:<\/p>\n<ol>\n<li>Mostram os grandes contrastes de renda e riqueza entre, de um lado, os muito ricos (variando entre os 1%, os 5% e os 10% mais ricos) e, de outro lado, a imensa maioria mais pobre (geralmente os 50% mais pobres);<\/li>\n<li>Comparam a situa\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses, falando da injusti\u00e7a de uma situa\u00e7\u00e3o assim \u00fanica no mundo;<\/li>\n<li>Pretendem levar a plat\u00e9ia a achar que a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 tirar dos ricos para distribuir aos pobres, n\u00e3o sem ressaltar que n\u00e3o se trata de caridade, embora toda a argumenta\u00e7\u00e3o tenha por base despertar a ades\u00e3o <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=2954\">inerte<\/a> dos pobres e a compaix\u00e3o\/solidariedade das camadas m\u00e9dias.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Toda essa arenga deixa de fora o essencial: os 49%, 45% ou 40% que n\u00e3o est\u00e3o em nenhum dos dois blocos polarizados acima: as camadas m\u00e9dias. Por que isso \u00e9 <em>essencial<\/em>?<\/p>\n<ol>\n<li>Desde logo porque se trata de quase metade da popula\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li>Como a desigualdade \u00e9 brutal, ela distribui sofrimentos palp\u00e1veis por todas as camadas da pir\u00e2mide social que est\u00e3o abaixo dos ricos. As camadas m\u00e9dias sofrem a desigualdade na m\u00e1 qualidade da vida que levam, um sofrimento desnecess\u00e1rio quando se considera o que o pa\u00eds poderia oferecer: vias de transporte prec\u00e1rias, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o ruins (quando p\u00fablicas) ou caras (quando privadas), transportes coletivos caros e sucateados (trens e \u00f4nibus) ou caros e aqu\u00e9m da demanda (metr\u00f4), viol\u00eancia crescente, seguran\u00e7a cara e inconfi\u00e1vel (quando privada) ou ruim e arbitr\u00e1ria (quando p\u00fablica);<\/li>\n<li>N\u00e3o h\u00e1 como sair disso pela repara\u00e7\u00e3o aos mais pobres, porque repara\u00e7\u00e3o n\u00e3o move as estruturas pesadas que t\u00eam de ser transformadas. Focar nos mais pobres excluindo as camadas m\u00e9dias permite proteger os ricos, pois o que tem sido distribu\u00eddo aos mais pobres \u00e9 pouco, embora os contente, e pesa muito, por via direta e indireta, nas costas das camadas m\u00e9dias.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Foi uma arranjo bom para cativar eleitores, mas p\u00e9ssimo para o pa\u00eds: cativou eleitores porque os pobres ficaram gratos e parte das camadas m\u00e9dias n\u00e3o protestou porque aderiu ao chamado \u00e0 compaix\u00e3o e\/ou preservou seus privil\u00e9gios corporativos no servi\u00e7o p\u00fablico; foi p\u00e9ssimo para o pa\u00eds porque armou esse desastre que \u00e9 a ressaca decorrente da uni\u00e3o da frustra\u00e7\u00e3o dos pobres com a raiva aberta dos segmentos de classe m\u00e9dia que nunca aderiram \u00e0 compaix\u00e3o e estavam contidos em sua contrariedade.<\/p>\n<p>Veja bem, leitor: a raiva que hoje vemos nessa classe m\u00e9dia contrariada foi nutrida por dois pratos indigestos: primeiro, ela foi levada ao caminho mais f\u00e1cil de acreditar que seus sofrimentos devem-se ao que foi dado aos pobres; segundo, e mais importante, depois de ser confrontada por anos com o discurso hegem\u00f4nico da compaix\u00e3o, um discurso que a incomodava tamb\u00e9m por explicitar o conflito entre a sua mesquinhez real e os seus alegados valores crist\u00e3os, deixando-a em desconforto moral consigo mesma, essa classe m\u00e9dia recebeu como um b\u00e1lsamo legitimador do pior de si a descoberta de que os pregadores da compaix\u00e3o pelos pobres, que tanto a espezinhavam, tinham feito da corrup\u00e7\u00e3o um meio de enriquecimento pessoal, pelo qual tra\u00edam a boa f\u00e9 dos pobres a quem cativavam \u00e0s custas dela!<\/p>\n<p>Essa \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a explica\u00e7\u00e3o para o fato de nesta elei\u00e7\u00e3o a sociedade estar improdutivamente polarizada entre as suas duas urg\u00eancias fundamentais: a <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4344\"><em>urg\u00eancia social<\/em> e a <em>urg\u00eancia por ordem<\/em><\/a>.<\/p>\n<p><strong>RES\u00cdDUOS NEFASTOS DESSE MALOGRO HIST\u00d3RICO<\/strong><\/p>\n<p>O que resta da primeira farsa, protagonizada por PT e PSDB, s\u00e3o, enquanto candidaturas que importam, Haddad e Alckmin. A segunda farsa emerge com a for\u00e7a de Bolsonaro, que se fez vetor dessa ampla revolta cujas bases tentei apresentar acima. Haddad e Alckmin resistem porque a crise de legitima\u00e7\u00e3o do Estado de Direito Autorit\u00e1rio <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4237\">n\u00e3o encontrou<\/a> sa\u00edda transformadora; Bolsonaro emerge precisamente porque, n\u00e3o havendo alternativa transformadora, a volta ao passado, para antes dos 30 anos da farsa, aparece para os mais conservadores como a sa\u00edda mais vi\u00e1vel &#8212; da\u00ed a mistifica\u00e7\u00e3o sobre a ditadura ter sido uma \u00e9poca de progresso e seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Ambas as farsas compartilham o fundamental, ainda que divirjam no m\u00e9todo:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Compartilham<\/strong> o empenho em mostrar credenciais de governan\u00e7a aos ricos (simbolizados no tal Mercado), deixando claro que continuar\u00e3o a servi-los, sem mexer na desigualdade;<\/li>\n<li><strong>Divergem<\/strong> na forma de fazer o\u00a0<em>exerc\u00edcio faccioso dos poderes institucionais: <\/em>\u00a0os primeiros pretendem, sem saber bem como, estender a crise de legitima\u00e7\u00e3o do Estado de Direito Autorit\u00e1rio, isto \u00e9, insistem em manter uma <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3188\">equa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o fecha<\/a>: desigualdade extrema com democracia eleitoral; o segundo prop\u00f5e o fim da crise de legitima\u00e7\u00e3o pela pura e simples entroniza\u00e7\u00e3o da ilegitimidade, com o fim da democracia.<\/li>\n<\/ul>\n<p><a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4463\">Alckmin<\/a> est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil porque, embora tenha a confian\u00e7a do Mercado e seja seu preferido, quando se passa \u00e0s massas eleitorais, incontorn\u00e1veis numa democracia eleitoral, sua candidatura est\u00e1 espremida entre as <em>duas urg\u00eancias<\/em>: perdeu o <em>social<\/em> para a Haddad e perdeu a <em>ordem<\/em> para Bolsonaro.<\/p>\n<p>Alckmin perdeu o <em>social<\/em>\u00a0para Haddad em raz\u00e3o do fator Lula, sobre o qual j\u00e1 <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4249\">falei<\/a> bastante <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4371\">nesse<\/a> blog &#8212; em resumo: entre os pobres, Lula se beneficia de ressentimentos e esperan\u00e7as cativas, obtidos com o logro do assistencialismo e a manipula\u00e7\u00e3o de um ineg\u00e1vel la\u00e7o simb\u00f3lico, que ele traiu; nas camadas m\u00e9dias, quando n\u00e3o \u00e9 visto como o caminho para se dar bem, Lula oferece apoio ao escapismo ideol\u00f3gico de quem n\u00e3o quer encarar a pr\u00f3pria derrota, que est\u00e1 patente, entre outras coisas, nesse \u00eaxito de Lula entre os pobres.<\/p>\n<p>Alckmin perdeu a <em>ordem<\/em> para Bolsonaro precisamente porque o div\u00f3rcio entre o social e a ordem, que o PSDB ajudou a promover junto com o PT, abriu a brecha para que o ex-capit\u00e3o explicitasse, tornasse motiva\u00e7\u00e3o de massa, aquilo que Alckmin j\u00e1 fazia, farsescamente, na encolha: o uso arbitr\u00e1rio da for\u00e7a contra os pobres, feito espet\u00e1culo di\u00e1rio em programas de televis\u00e3o &#8212; Alckmin providenciou os pregos e o martelo com que est\u00e3o a pregar a tampa do seu caix\u00e3o. Tanto \u00e9 assim que Bolsonaro est\u00e1 muito na frente de Alckmin no Estado de S\u00e3o Paulo. Boa parte disso se explica pela transforma\u00e7\u00e3o em for\u00e7a eleitoral do que havia de simpatia entre os paulistas pelos m\u00e9todos do dispositivo militar que nos foi legado pela ditadura, a PM.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de estar em lugar de destaque nas principais campanhas para governador e ter v\u00e1rios candidatos fortes para o Legislativo, a PM paulista aderiu, em peso, \u00e0 candidatura de Bolsonaro, numa a\u00e7\u00e3o concatenada que mostra a exist\u00eancia de um projeto de militariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica que sempre esteve al\u00e9m de um Alckmin &#8212; viram no ex-capit\u00e3o uma oportunidade de deixar para tr\u00e1s o &#8220;legalismo&#8221; dosado dos tucanos, que vinham tendo que tolerar.<\/p>\n<p>Os ricos pensam que Bolsonaro poder\u00e1 organizar a Casa Grande e p\u00f4r ordem na senzala (a essa altura, v\u00e3o ter de matar bem mais de 30 mil&#8230;); as camadas m\u00e9dias em que a raiva tomou o lugar dos dilemas da compaix\u00e3o, e os pobres nos quais o ressentimento \u00e9 maior do que a esperan\u00e7a, t\u00eam em Bolsonaro o portador de uma vingan\u00e7a (cada um sup\u00f5e saber de quem est\u00e1 a se vingar e r\u00f3i l\u00e1 no \u00edntimo o p\u00e3o sovado da vingan\u00e7a) &#8212; esse processo, que \u00e9 irracional, acaba por fazer a converg\u00eancia eleitoral entre segmentos de perdedores que, n\u00e3o obstante partilhem a condi\u00e7\u00e3o de <em>perdedor<\/em>, se odeiam, \u00f3dio rec\u00edproco que, por sua vez, \u00e9 um equ\u00edvoco, pois ambos s\u00e3o v\u00edtimas dos ricos aos quais se uniram em busca de uma ordem que acabar\u00e1 por garantir a perman\u00eancia do pior do <em>status quo <\/em>que os infelicita!<\/p>\n<p><strong>A ALTERNATIVA<\/strong><\/p>\n<p>A desigualdade brasileira \u00e9 de tal magnitude, ela amarra o pa\u00eds de tal forma ao atraso, que ela \u00e9 sim um jogo de soma zero: o pa\u00eds s\u00f3 pode ganhar se os ricos perderem, ainda que o que iremos ganhar n\u00e3o se resuma ao que os ricos perder\u00e3o, pois a perda deles \u00e9 apenas parte do esfor\u00e7o para desatar for\u00e7as produtoras de riqueza social.<\/p>\n<p>Temos que tirar dos ricos, deix\u00e1-los menos ricos, n\u00e3o exatamente para distribuir aos pobres, mas principalmente para alterar estruturas e incrementar as condi\u00e7\u00f5es que permitam tirar o pa\u00eds do atraso e, assim, mais adiante, alavancar milh\u00f5es do fundo da pobreza.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 bala de prata distributiva contra a desigualdade. S\u00e3o mudan\u00e7as tribut\u00e1rias, previdenci\u00e1rias, salariais e em servi\u00e7os sociais. Por um lado, temos de redistribuir o \u00f4nus da obten\u00e7\u00e3o da receita p\u00fablica, cobrando mais de quem tem mais, mas cobrando, sim, de quem tem menos; por outro, melhorar a qualidade do gasto p\u00fablico, redefinindo prioridades de modo a que os 40% que n\u00e3o s\u00e3o ricos sem serem pobres tamb\u00e9m constatem que haver\u00e1 melhora para si.<\/p>\n<p>O \u00f4nus da obten\u00e7\u00e3o da receita se redistribui via reforma tribut\u00e1ria, menos para aliviar os pobres ou as camadas m\u00e9dias, e mais para agravar os ricos. Do lado do gasto, fazer uma reforma da previd\u00eancia partindo de que todos os diretamente implicados perder\u00e3o alguma coisa, sendo que alguns perder\u00e3o mais do que outros, sempre em benef\u00edcio do bem comum no futuro. Esse bem comum deveria aparecer na forma de projetos claros de incremento do gasto p\u00fablico em Educa\u00e7\u00e3o, Sa\u00fade, Seguran\u00e7a e Infraestrutura. Seria necess\u00e1rio propor um projeto que abarcasse com detalhes todas essas vari\u00e1veis ao mesmo tempo, de modo a que os n\u00fameros das perdas e dos ganhos ficassem claros para todos os interessados, mostrando, na linha do tempo, para onde ir\u00e3o as receitas sa\u00eddas da tributa\u00e7\u00e3o dos mais ricos e economizadas com as concess\u00f5es inescap\u00e1veis que todos teremos de fazer na Previd\u00eancia.<\/p>\n<p>S\u00f3 que n\u00e3o. Os pol\u00edticos profissionais preferiram o atalho do engano, do erro e da mentira. Separaram as urg\u00eancias, quando a sa\u00edda exige junt\u00e1-las. Se as tiv\u00e9ssemos juntado, os ricos teriam ficado isolados, e as camadas m\u00e9dias, ainda que com defec\u00e7\u00f5es importantes, claro, poderiam se unir aos pobres para fazer <em>maioria social<\/em> pela transforma\u00e7\u00e3o, uma transforma\u00e7\u00e3o cujos rumos seriam (e ser\u00e3o, um dia) disputados entre idas e vindas de\u00a0<em>maiorias eleitorais<\/em> que a ningu\u00e9m \u00e9 dado prever.<\/p>\n<p>No momento, a sociedade brasileira v\u00ea o Brasil em crise sem enxergar que ele est\u00e1 como uma caravela montada dentro de uma garrafa: o gargalo oferecido por\u00a0<em>esta<\/em> elei\u00e7\u00e3o \u00e9 estreito demais para que a caravela possa enfunar velas e ganhar alto-mar &#8212; h\u00e1 que quebrar a garrafa, mas sem arrebentar o barco.<\/p>\n<p><strong>[em 25\/09] &#8211; Fica o Registro:<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><strong>A Pol\u00edcia Federal anunciou<\/strong> que ir\u00e1 abrir outro inqu\u00e9rito sobre o agressor de Bolsonaro, agora para &#8220;devassar&#8221; os dois anos mais recentes da vida de Adelio Bispo. O inqu\u00e9rito atual, j\u00e1 conclu\u00eddo, indica que Adelio vagava pelo pa\u00eds &#8220;ostentando&#8221; quatro celulares e um laptop &#8212; os restos de uma &#8220;inclus\u00e3o&#8221; vic\u00e1ria, realizada via aquisi\u00e7\u00e3o de bens de consumo j\u00e1 inserv\u00edveis, pois quebrados h\u00e1 tempos. Esse novo inqu\u00e9rito ser\u00e1 uma oportunidade \u00fanica para conhecermos em detalhes dois anos inteiros da vida de um brasileiro pobre em meio \u00e0 crise e \u00e0 viol\u00eancia, bem como as conex\u00f5es dessas circunst\u00e2ncias com o desenvolvimento dos problemas mentais do agressor. Essa recupera\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica sobre o legado da primeira farsa ser\u00e1 valiosa para compreendermos os <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4508\">fundamentos sociais<\/a>\u00a0da atra\u00e7\u00e3o perversa que a segunda farsa, o\u00a0<em>cabo de alta-tens\u00e3o da viol\u00eancia<\/em> (Bolsonaro), exerceu sobre o <em>fio desencapado da loucura<\/em> (Bispo) at\u00e9 o desenlace no curto-circuito da facada.<\/li>\n<li><strong>O lugar da mentira nessa campanha eleitoral<\/strong> \u00e9 proporcional \u00e0 verdade (desigualdade) que ela busca soterrar. A campanha de Bolsonaro \u00e9 a campe\u00e3 da mentira, apropriando-se at\u00e9 de imagens que n\u00e3o s\u00e3o suas para simular manifesta\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis ao candidato. O pr\u00f3prio candidato se atrapalha em sua \u00e2nsia por confundir os outros: na primeira entrevista depois da facada, sustenta que Bispo n\u00e3o agiu sozinho, que s\u00f3 se arriscou porque contaria com ajuda para n\u00e3o ser linchado e, ao mesmo tempo, diz que Bispo forjou um \u00e1libi para si, como se o agressor, ao mesmo tempo em que tinha como certo que seria apanhado, tivesse julgado ser poss\u00edvel escapar inc\u00f3gnito da cena do crime. E o candidato da mentira diz pretender trazer de volta o ensino de <em>moral e c\u00edvica<\/em> (bem, faz sentido&#8230;).<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Novaes, 23 de setembro de 2018 [com acr\u00e9scimos em 25\/09, em Fica o Registro] &nbsp; Em 1988, depois de uma intensa luta, de cujos enganos j\u00e1 tratei em texto e v\u00eddeo, foi promulgada essa Constitui\u00e7\u00e3o que muitos supunham nos garantir um Estado democr\u00e1tico de direito. 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