{"id":5178,"date":"2020-04-25T01:42:34","date_gmt":"2020-04-25T04:42:34","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5178"},"modified":"2020-06-06T21:55:08","modified_gmt":"2020-06-07T00:55:08","slug":"o-brasil-em-seu-labirinto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5178","title":{"rendered":"O BRASIL EM SEU LABIRINTO"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Carlos Novaes, 25 de abril de 2020<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Uma tentativa (longa&#8230;) de entender o que se passa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Defini\u00e7\u00f5es preliminares:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211; SISTEMA = <\/strong>modo faccioso\nde atender aos interesses dos altos hierarcas do Estado combinado \u00e0 defesa dos interesses\ndos muito ricos. Ele gera e garante a desigualdade, uma desigualdade t\u00e3o\nacentuada que esmaga os pobres e bloqueia o avan\u00e7o das classes m\u00e9dias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211; Faccioso =<\/strong> diz-se do modo\nde operar atrav\u00e9s de fac\u00e7\u00f5es, que se formam e reformam segundo as\ncircunst\u00e2ncias. O Centr\u00e3o \u00e9 o exemplo perfeito de uma fac\u00e7\u00e3o do Estado de\nDireito Autorit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211; Altos hierarcas do Estado =<\/strong>\naltos hierarcas eleitos pelo voto (pol\u00edticos profissionais) <strong>+<\/strong> altos hierarcas de carreira\n(funcion\u00e1rios p\u00fablicos de alto escal\u00e3o nos tr\u00eas poderes e nos tr\u00eas n\u00edveis da\nfedera\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211; Muito ricos = <\/strong>5% mais\nricos em renda e riqueza.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211; Sistema pol\u00edtico =<\/strong> onde\nse d\u00e1 o jogo faccioso entre os altos hierarcas do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211; Bra\u00e7o pol\u00edtico-profissional =<\/strong>\nsegmento eleito do sistema pol\u00edtico <\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211; Jogo faccioso =<\/strong> o\nexerc\u00edcio faccioso dos poderes institucionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, o SISTEMA \u00e9 formado por quem certamente vai perder se houver\navan\u00e7o na luta contra a desigualdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>O BRASIL EM SEU LABIRINTO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>A <\/em>forma <em>antiga foi reciclada e nos atirou num labirinto<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para que o Brasil deixasse o <strong>Estado\nDitatorial paisano-militar<\/strong> para tr\u00e1s, o primeiro passo foi alcan\u00e7ar que a\nilegitimidade dele se tornasse um sentimento da maioria da sociedade\nbrasileira. Para isso foram necess\u00e1rias pr\u00e1ticas democr\u00e1ticas da sociedade\ninteressada na democracia contra o Estado que negava a democracia: primeiro,\nconversas privadas; depois, interven\u00e7\u00f5es p\u00fablicas espor\u00e1dicas; mais adiante, publica\u00e7\u00e3o\nde estudos e an\u00e1lises, seguidas de pequenas idas \u00e0s ruas, que foram ficando\nmais e mais cheias, coroando as primeiras caminhadas contra a carestia (1974)\ncom as grandes manifesta\u00e7\u00f5es pelas diretas-j\u00e1 (1984).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de todo esse percurso de atividade democr\u00e1tica proibida, mas exercida na marra, a meta da sociedade brasileira em movimento foi fazer a democracia transitar da sociedade para o Estado, para torn\u00e1-lo democr\u00e1tico como ela j\u00e1 vinha sendo \u2013 da\u00ed o nome: <strong><em>transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica<\/em><\/strong><em>, pois quem devia transitar era a democracia<\/em>, da sociedade para o Estado. Enquanto isso, a maioria dos pol\u00edticos profissionais, ent\u00e3o concentrados nos dois partidos da ditadura, o MDB e a ARENA (hoje, DEM), manobravam para que essa transi\u00e7\u00e3o da democracia da sociedade para o Estado n\u00e3o amea\u00e7asse os interesses dos muito ricos, financiadores das pr\u00e1ticas pol\u00edticas que permitiam (e permitem!) a esses pol\u00edticos profissionais <em>reunir poder para fazer dinheiro<\/em>. Essa <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1260\">cautela temerosa<\/a> levou ao que se chamou de <em>abertura lenta, gradual e segura<\/em>. A manuten\u00e7\u00e3o dos mecanismos de concentra\u00e7\u00e3o de renda e riqueza (desigualdade) determinou que a democracia praticada pela sociedade transitasse de maneira truncada e incompleta da sociedade para o Estado. O sistema pol\u00edtico se empenhou para que o novo se adequasse ao m\u00e1ximo \u00e0 <em>forma<\/em> antiga, como detalhei <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4689\">aqui<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa assimetria entre o que aspirava a maioria da sociedade e o que interessava \u00e0 maioria dos pol\u00edticos fez o Brasil entrar no labirinto em que se encontra: a cada tentativa de abrir a porta de sa\u00edda, os pol\u00edticos profissionais manobravam, e o resultado sempre foi um arremedo do que se almejava \u2013 ou seja, a porta que se imaginara aberta nunca estava l\u00e1. Exemplos: a carestia (infla\u00e7\u00e3o) n\u00e3o era enfrentada para n\u00e3o contrariar quem ganhava com ela; a anistia incluiu torturadores para n\u00e3o punir os respons\u00e1veis pelo que houve de mais abjeto na ditadura; as diretas-j\u00e1 foram derrotadas para que o movimento das ruas n\u00e3o fosse coroado por uma elei\u00e7\u00e3o que o sistema n\u00e3o controlaria, pois embora a sociedade estivesse pronta para o exerc\u00edcio democr\u00e1tico do voto presidencial, o sistema ainda n\u00e3o havia encontrado uma f\u00f3rmula de submeter a novidade de um presidente eleito aos seus interesses.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da derrota das diretas-j\u00e1 veio o Col\u00e9gio Eleitoral, com a morte\nde Tancredo, Sarney virou presidente, fizemos a Constituinte e Sarney ainda obteve\nmais 1 ano de mandato&#8230; S\u00f3 ent\u00e3o fizeram uma elei\u00e7\u00e3o solteira para presidente.\nCollor, Lula, Brizola e Covas foram os mais votados no primeiro turno, e Collor\nganhou o segundo turno.<\/p>\n\n\n\n<p>Desses quatro nomes, nenhum deles podia ser associado pela massa de\neleitores aos entraves \u00e0 transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica que a sociedade vinha tentando\nimpor ao Estado, contra a <em>forma<\/em>\nherdada da ditadura paisano-militar. Ou seja, os candidatos presidenciais das\nfor\u00e7as que travaram a transi\u00e7\u00e3o (MDB e ARENA-PDS-PFL) n\u00e3o receberam apoio\neleitoral expressivo da sociedade \u2013 mais uma vez, a maioria da sociedade\nperseverava em sua busca por fazer transitar a democracia da sociedade para o\nEstado e demonstrou que identificara seus inimigos. Assimilando suas derrotas\n(frequentemente celebradas como vit\u00f3rias pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massas),\na sociedade n\u00e3o desistia e ia construindo alternativas. Desses esfor\u00e7os \u00e9 que sa\u00edram\na vit\u00f3ria de Collor (gostemos ou n\u00e3o), a boa vota\u00e7\u00e3o de Brizola (que\nrepresentava um projeto antigo, outrora interrompido pela ditadura\npaisano-militar) e a emerg\u00eancia eleitoral dos dois partidos pol\u00edticos novos que\nse tornaram expressivos porque identificados como aliados da transi\u00e7\u00e3o\ndemocr\u00e1tica almejada pela maioria da sociedade: o PSDB (Covas) e o PT (Lula).<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez na presid\u00eancia, Collor acreditou que podia manter o Estado da desigualdade e, ao mesmo tempo, afrontar os interesses mais imediatos do sistema pol\u00edtico estatal, cuja <em>forma<\/em>, como vimos, era definida pelas for\u00e7as que a transi\u00e7\u00e3o truncada preservara: MDB e ARENA (PDS-PFL). O resultado foi o impeachment, processo que selou o modo de operar do <strong><a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=2761\">Estado de Direito Autorit\u00e1rio<\/a> <\/strong>que estava a se consolidar com o m\u00e1ximo da <em>forma<\/em> antiga: se o presidente da Rep\u00fablica n\u00e3o se afina com os interesses do SISTEMA, o impeachment \u00e9 o modo de desviar a insatisfa\u00e7\u00e3o popular contra ele, fazendo-o culpado das mazelas sa\u00eddas da desigualdade mantida pelo pr\u00f3prio SISTEMA. Se o presidente n\u00e3o mexe com a desigualdade e n\u00e3o afronta interesses de rotina do sistema pol\u00edtico, a vida segue at\u00e9 a pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o, na qual os trouxas (n\u00f3s, a maioria da sociedade brasileira) somos chamados a definir o tamanho dos hierarcas cuja for\u00e7a depende do voto popular, os pol\u00edticos profissionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Finda a elei\u00e7\u00e3o, eles nos d\u00e3o as costas e definem uma nova rodada com\nbase na for\u00e7a que o seu, o meu, o nosso voto lhes deu&#8230; Quando digo que eles \u201cnos\nd\u00e3o as costas\u201d, refiro-me n\u00e3o apenas ao fato sabido de que a maioria dos\npol\u00edticos profissionais pouco se interessa pelos sofrimentos e\/ou demandas da\nmaioria da sociedade; quero tamb\u00e9m apontar que eles d\u00e3o as costas para aquela\nque deveria ser a a\u00e7\u00e3o permanente deles: o empenho na constru\u00e7\u00e3o de um Estado\nde Direito Democr\u00e1tico. Ao inv\u00e9s disso, a neglig\u00eancia deles (quando n\u00e3o a a\u00e7\u00e3o\ndireta) contribui para que continuem como rotina as pr\u00e1ticas que definem como <em>autorit\u00e1rio<\/em> o nosso Estado de direito.\nVoltemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Veja bem, leitor, como esse modo de operar, o impeachment, cuja estr\u00e9ia foi contra o nefasto Collor, \u00e9 a cara da transi\u00e7\u00e3o truncada. A ditadura manteve o Congresso funcionando segundo elei\u00e7\u00f5es. Foi nessa <em>forma<\/em> de a\u00e7\u00e3o congressual sem elei\u00e7\u00e3o presidencial que os pol\u00edticos do MDB e da ARENA foram treinados. Foi nesse mesmo Congresso que eles constru\u00edram a <em>abertura lenta gradual e segura<\/em>. Foi para este Congresso que eles desviaram a escolha do presidente depois das diretas-j\u00e1: ao divulgarem a vit\u00f3ria de Tancredo (uma vit\u00f3ria deles!), como uma vit\u00f3ria da sociedade, eles fizeram o primeiro contrabando de legitimidade para a <em>forma<\/em> antiga que queriam preservar.<\/p>\n\n\n\n<p>Com todo esse treino e bem estruturados em seus mesmos velhos postos de poder, eles logo perceberam a fragilidade que havia na novidade da presid\u00eancia da Rep\u00fablica por via direta. Desde ent\u00e3o, cada vez que as contradi\u00e7\u00f5es da ordem da desigualdade imp\u00f5em mais uma rodada de crise aguda, eles acionam o bot\u00e3o do impeachment \u2013 \u00e9 que o impeachment permite desviar para um alvo \u00fanico a ira popular contra os sofrimentos que s\u00e3o, sempre, infligidos contra a maioria de n\u00f3s pela desigualdade (saibamos disso, ou n\u00e3o), desigualdade que o pr\u00f3prio Congresso cinicamente garante&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que o ardil do impeachment n\u00e3o tenha ficado claro para a maioria, logo depois dessa manobra dos pol\u00edticos que manejam o Estado de Direito Autorit\u00e1rio, a maioria da sociedade perseverou e novamente reagiu na dire\u00e7\u00e3o da meta de um <strong>Estado de Direito Democr\u00e1tico<\/strong>: na elei\u00e7\u00e3o presidencial de 1994, a maioria voltou a negar seu apoio eleitoral presidencial a candidatos sa\u00eddos da ditadura paisano-militar, e obrigou todo mundo a se abrigar sob as duas novas for\u00e7as que a luta democr\u00e1tica constru\u00edra: PSDB e PT. Para quem quisesse enxergar aparecera um caminho para a sa\u00edda do labirinto: bastava que o novo se unisse contra o velho. Infelizmente, por\u00e9m, <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=2954\">PSDB e PT<\/a>, eles pr\u00f3prios j\u00e1 voltados para seus pr\u00f3prios interesses, iniciaram ali uma polariza\u00e7\u00e3o fajuta, insensatez que abriu a porta para o mais negro corredor do labirinto em que j\u00e1 est\u00e1vamos.<\/p>\n\n\n\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o fajuta e t\u00e3o nociva que para se sustentar teve que contar com a volta da polariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o menos fajuta da ARENA e do MDB, agora coadjuvantes. Esse arranjo foi o coroamento da transi\u00e7\u00e3o truncada, pois os dois partidos sa\u00eddos da luta democr\u00e1tica da sociedade, ao se dividirem para disputar o poder do Estado, criaram as condi\u00e7\u00f5es para que os velhos partidos do Estado ditatorial continuassem suas pr\u00e1ticas pol\u00edticas nefastas atrav\u00e9s da <em>forma<\/em> antiga. Ou seja, PSDB e PT se tornaram freios \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o do Estado, determinando o fim da transi\u00e7\u00e3o da democracia da sociedade para o Estado e consolidando o <strong>Estado de Direito Autorit\u00e1rio<\/strong> que nos infelicita. Essa trai\u00e7\u00e3o foi (e \u00e9) alardeada como a <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3737\">suposta conquista<\/a> de um Estado democr\u00e1tico de direito.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>A <\/em>forma<em> antiga ganha\nor\u00e7amento, se empanturra e entra em crise<\/em><\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As pr\u00e1ticas de PSDB e PT consolidaram o Estado de Direito Autorit\u00e1rio com a <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4159\">marca fantasia<\/a> de <em>Estado democr\u00e1tico de direito<\/em>, o que desviou a energia da maioria da sociedade para longe da luta por um Estado de Direito Democr\u00e1tico \u2013 mantida a <em>forma<\/em>, diante de mais uma derrota se imp\u00f4s uma nova ilus\u00e3o de conquista.<\/p>\n\n\n\n<p>Para sustentar suas rotinas de poder baseadas na <em>forma<\/em> antiga, PSDB e PT, ao chegarem \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica, se\nconformaram ao seguinte esquema geral:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211;<\/strong> <strong>N\u00e3o mexer com a desigualdade que sustenta o SISTEMA.<\/strong> Assim, as\nsimplistas pol\u00edticas sociais compensat\u00f3rias desses partidos, embora ben\u00e9ficas\naos mais sofridos, n\u00e3o alteraram a dist\u00e2ncia entre os muito ricos e os muito\npobres. Al\u00e9m disso, essas pol\u00edticas n\u00e3o foram acompanhadas de nenhuma medida\npara dotar o setor p\u00fablico (infra-estrutura, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o) de melhorias que\natra\u00edssem as classes m\u00e9dias para a luta contra a desigualdade, que tamb\u00e9m as\natinge, pois o que fica estocado em cima deixa de irrigar toda a atividade\nsocial, o que torna desnecessariamente dif\u00edcil a vida de quem a duras penas\nconseguiu fazer a vida um pouco organizada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211;<\/strong> <strong>N\u00e3o privar os hierarcas do setor p\u00fablico dos seus privil\u00e9gios.<\/strong> No\ncaso dos pol\u00edticos, PT e PSDB n\u00e3o tiraram deles os mecanismos de reunir poder\npara fazer dinheiro. No caso da elite do funcionalismo p\u00fablico, n\u00e3o mexeram nem\ncom suas vantagens previdenci\u00e1rias, nem com suas vultosas remunera\u00e7\u00f5es\nindevidas. Nos dois casos, temos pr\u00e1ticas subalternas de manter a desigualdade\nem sua vers\u00e3o mi\u00fada, de varejo. Enfim, ao contr\u00e1rio do que seria de esperar de\npartidos orientados \u201c\u00e0 esquerda\u201d, os hierarcas do setor p\u00fablico fizeram da\npresid\u00eancia da Rep\u00fablica uma ponte para o acesso a fatias ainda maiores do\nor\u00e7amento, quando n\u00e3o ve\u00edculo para a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo como dantes, s\u00f3 que pior, pois fraudando esperan\u00e7as e dissipando\nenergias de mudan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma trai\u00e7\u00e3o desse tamanho, exatamente por ser enorme, leva tempo para aparecer. Afinal, o pa\u00eds avan\u00e7ou alguma coisa naqueles anos (nem tudo poderia ser perda, claro), eles distribuiram migalhas e a tudo embrulharam em mil celofanes ret\u00f3ricos, cobertos por camadas e camadas de lantejoulas de esperan\u00e7a. Para fazer essa opera\u00e7\u00e3o tra\u00edra, tanto o PSDB quanto o PT tiveram de mudar, perdendo gente decente e competente, que foi sendo lenta e continuamente substitu\u00edda por paus-mandados que pareciam sa\u00eddos do programa \u201ctopa tudo por dinheiro\u201d. Mesmo enfeitada, a <em>forma<\/em> antiga come\u00e7ou a ruir quando houve a reuni\u00e3o circunstancial de tr\u00eas fatores, ligados, cada um ao seu modo, ao problema central da desigualdade:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=21\">A prepot\u00eancia de Lula<\/a> ao indicar a incompetente e ne\u00f3fita Dilma para sucessora;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; A fragilidade de Dilma <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=34\">ati\u00e7ou a avidez<\/a> sem limites do baixo-clero congressual, que se rebelou contra a acomoda\u00e7\u00e3o das suas pr\u00f3prias lideran\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; A opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, que embora tenha se revelado uma <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=2976\">a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e nefastamente orientada ideologicamente<\/a>, ainda fez mais bem do que mal, pois escancarou a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob a ordem da desigualdade (sempre ela), a jun\u00e7\u00e3o desses tr\u00eas fatores revelou-se explosiva e levou \u00e0 farsa da reencena\u00e7\u00e3o do ritual do impeachment, dessa vez contra a petista \u2013 <strong><em>sem o saber<\/em><\/strong>, as classes m\u00e9dias foram para a rua porque s\u00e3o v\u00edtimas da desigualdade; <strong><em>enganadas<\/em><\/strong>, despejaram suas raivas, frustra\u00e7\u00f5es e rancores <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1679\">contra Dilma<\/a>. Mais uma vez, a ira sem rumo da sociedade, uma ira que resulta da desigualdade, que massacra os pobres e bloqueia a vida das classes m\u00e9dias, foi desviada contra a presid\u00eancia da Rep\u00fablica com motiva\u00e7\u00e3o anti-pobre, quando deveria ser dirigida contra o Congresso e a alta hierarquia do Estado de Direito Autorit\u00e1rio, como analisei em muitos posts deste blog.<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente, tirar Dilma nada resolveu e os corredores do labirinto se estreitaram. Como n\u00e3o poderia deixar de ser, pela raz\u00e3o mesma de que a desigualdade n\u00e3o foi enfrentada, era s\u00f3 uma quest\u00e3o de tempo para o problema reaparecer, e a solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica voltaria a ser invocada, fosse quem fosse o presidente da Rep\u00fablica (antecipe-se de passagem: como j\u00e1 estamos vendo&#8230;). Entrementes, como a emerg\u00eancia da Lava-Jato arrastara todo o sistema pol\u00edtico para uma <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3843\">luta entre fac\u00e7\u00f5es<\/a> pr\u00f3pria do salve-se quem puder que se instalou, ficou escancarado que a <em>forma<\/em> antiga enfeitada estava alicer\u00e7ada na corrup\u00e7\u00e3o generalizada que cimenta com massa podre o Estado de Direito Autorit\u00e1rio, ainda que os protagonistas da Lava-Jato n\u00e3o tenham almejado esse desfecho.<\/p>\n\n\n\n<p>O desencanto foi total e deu in\u00edcio a uma <em><a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3622\">crise de legitima\u00e7\u00e3o<\/a> do Estado de Direito Autorit\u00e1rio<\/em>. No que se refere \u00e0 manobra do impeachment, essa crise de legitima\u00e7\u00e3o trouxe uma situa\u00e7\u00e3o nova j\u00e1 no governo Temer: o recurso ao impeachment <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3376\">se esgotara<\/a>, pois um Congresso t\u00e3o desmoralizado, onde se aboletam os bar\u00f5es da corrup\u00e7\u00e3o que barram a luta contra a desigualdade, j\u00e1 n\u00e3o tem legitimidade para propor o impeachment de um presidente da Rep\u00fablica, como analisei detalhadamente aqui faz quase quatro anos \u2013 foi a\u00ed que o Temer se sustentou.<\/p>\n\n\n\n<p>Tornada uma arma na luta entre as fac\u00e7\u00f5es estatais conflagradas, divorciada de qualquer compromisso real com um futuro democr\u00e1tico para a sociedade brasileira, a Lava-Jato arrastou a opini\u00e3o p\u00fablica para um desvio perigoso: ao inv\u00e9s de reconhecer no SISTEMA nutrido pela desigualdade a origem da crise de legitima\u00e7\u00e3o, a sociedade foi arrastada a limitar sua ira ao sistema pol\u00edtico, especialmente contra o bra\u00e7o pol\u00edtico-profissional dele. Mais uma vez, a desigualdade n\u00e3o foi encarada como problema estrutural e foi deixada de lado, como \u201cproblema de pobre\u201d. A classe m\u00e9dia resolveu cobrar a conta no guich\u00ea errado. N\u00e3o tinha como dar certo, mas algu\u00e9m poderia dizer: pelo menos, meio caminho foi andando.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o foi.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Crise de legitima\u00e7\u00e3o encruada: emerg\u00eancia e vit\u00f3ria eleitoral de\nBolsonaro<\/em><\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com a crise de legitima\u00e7\u00e3o do Estado de Direito Autorit\u00e1rio, a maioria da sociedade voltou as costas para as for\u00e7as que a haviam tra\u00eddo. No PSDB, quem podia ser identificado de pronto com a velha pol\u00edtica <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4463\">foi varrido<\/a> e o PT teve de se refugiar, de um lado, no afeto daqueles a quem distribu\u00edra benef\u00edcios diretos (embora sem alterar-lhes as perspectivas de uma vida sob desigualdade) e, de outro lado, nas ilus\u00f5es interessadas da nossa autointitulada esquerda de boteco, conjunto que ainda confere \u00e0 fac\u00e7\u00e3o lulopetista um forte <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3361\">poder de arrasto<\/a> sobre oportunistas e incautos de todo g\u00eanero. Esses dois partidos chegaram sob rev\u00e9s \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2018, sendo que, no caso do PT, houve uma \u00f3bvia <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3510\">chicana jur\u00eddica<\/a>, t\u00edpica da luta de fac\u00e7\u00f5es que se instalara, para tirar Lula da elei\u00e7\u00e3o \u2013 ainda que a repulsa pol\u00edtica dirigida contra o ex-metal\u00fargico fosse (e seja) merecida, o processo contra ele foi conduzido por um grupamento faccioso que reuniu Moro &amp; Cia.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a maioria da sociedade tinha se voltado contra as duas for\u00e7as mais importantes que haviam sa\u00eddo da luta pela transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, a aus\u00eancia de alternativa e lideran\u00e7a era t\u00e3o natural e \u00f3bvia quanto terr\u00edvel, pois abria espa\u00e7o para desfecho perverso: est\u00e1vamos (como ainda estamos) em uma crise de legitima\u00e7\u00e3o do Estado de Direito Autorit\u00e1rio sem lideran\u00e7a e <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4889\">sem alternativa<\/a> que nos apontasse algum caminho para um Estado de Direito Democr\u00e1tico. Pelo contr\u00e1rio, desorientado no labirinto que construiu, o sistema pol\u00edtico inteiro, com todas as suas fac\u00e7\u00f5es sob cr\u00edtica, infenso a qualquer inventividade institucional, passou a defender o <em>status quo<\/em>, fechando-se no conservadorismo e na mentira de que devemos defender um inexistente Estado democr\u00e1tico de direito. Com isso, abriu-se uma avenida para quem se posicionasse contra o \u201csistema\u201d, ou seja, contra o sistema pol\u00edtico e, ainda mais restritamente, contra o seu bra\u00e7o pol\u00edtico-profissional. A raiva insciente sa\u00edda da desigualdade foi, mais uma vez, sendo tangida para longe do cora\u00e7\u00e3o e do c\u00e9rebro do SISTEMA.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o foi apenas a desmoraliza\u00e7\u00e3o devida \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o que facilitou as coisas para esse desvio. A prega\u00e7\u00e3o contra a desigualdade tamb\u00e9m tem o seu papel, pois a desigualdade foi transformada pelo PSDB e <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=478\">pelo PT<\/a> num mero problema moral, amputando-se dela o fundamental: o papel estruturante que ela tem no entrave ao desenvolvimento do pa\u00eds. Como problema moral, as v\u00edtimas dela parecem ser apenas os muito pobres; como problema estrutural, as v\u00edtimas s\u00e3o todos aqueles que n\u00e3o est\u00e3o entre os muito ricos. Pegou-se uma das formas de medir a desigualdade, a dist\u00e2ncia entre os muito ricos e os muito pobres, para criar argumentos em favor de pol\u00edticas sociais compensat\u00f3rias. Tudo se passa como se combater a desigualdade fosse tirar dinheiro dos muito ricos para distribuir aos muito pobres. Uma pol\u00edtica dessas levar\u00e1 o Brasil a lugar nenhum, pois ir\u00e1 no m\u00e1ximo incrementar o consumo em per\u00edodos de bonan\u00e7a, com inevit\u00e1veis retra\u00e7\u00f5es e perdas quando as coisas apertam, como agora.<\/p>\n\n\n\n<p>O erro de apequenar assim a luta contra a desigualdade levou a que a\nmaioria das classes m\u00e9dias se sentisse abandonada no enfrentamento do que\nembarga a sua prosperidade \u2013 e com raz\u00e3o! Ela foi levada a ver o apoio\nnecess\u00e1rio aos muito pobres como uma pol\u00edtica social contra si, pois os\npaladinos da luta contra a desigualdade preferiram \u2013 ao inv\u00e9s de enfrentar a\npedreira de explicar a todos que, por exemplo, fam\u00edlias com casa pr\u00f3pria,\nautom\u00f3vel e casa na praia n\u00e3o s\u00e3o ricas quando comparadas aos que est\u00e3o no alto\nda pir\u00e2mide da desigualdade \u2013 preferiram o caminho mais c\u00f4modo, e\neleitoralmente mais rent\u00e1vel, de adular os mais pobres repetindo cr\u00edticas\nsuperficiais aos \u201cricos\u201d, covardia que cindiu a maioria da sociedade no ponto\nerrado: de um lado ficaram os pobres; de outro, os demais, a quem os pobres\nenxergam como ricos, erro que mant\u00e9m as classes m\u00e9dias desinteressadas da luta\ncontra a desigualdade e faz delas uma s\u00f3lida parede de prote\u00e7\u00e3o para o SISTEMA.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez em campanha eleitoral, os candidatos presidenciais dos\nchamados centro-direita, centro, centro-esquerda e da auto-intitulada esquerda\nficaram a repetir sua velha pol\u00edtica de procurar apoios intramuros, negociando\nentre si ora numa dire\u00e7\u00e3o do espectro, ora na outra, como verdadeiras fac\u00e7\u00f5es \u00e0\nbusca de oportunidades onde quer que estejam, num reiterado show de aliena\u00e7\u00e3o\nante a revolta da maioria da sociedade contra eles e essas suas pr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Veja bem, leitor:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; A crise de legitima\u00e7\u00e3o do Estado de Direito Autorit\u00e1rio estava em\ncurso;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; As for\u00e7as respons\u00e1veis por este Estado eram os paisanos sa\u00eddos da\nditadura (hoje distribu\u00eddos por MDB, DEM, Centr\u00e3o e sat\u00e9lites) e os pol\u00edticos\ndos partidos da luta pela transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica truncada (PSDB e PT);<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e3o havia (como ainda n\u00e3o h\u00e1) NENHUMA for\u00e7a pol\u00edtica propondo algo\nque n\u00e3o fosse a defesa do <em>status quo<\/em> acertadamente\nrepudiado pela maioria, ainda que desorientada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Bolsonaro se imp\u00f4s como a alternativa criada como contra-exemplo sa\u00eddo\ndo sumariado nos tr\u00eas itens anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Ou seja: Bolsonaro, a encarna\u00e7\u00e3o do chorume autorit\u00e1rio, emergiu porque PSDB e PT mantiveram vivo o entulho autorit\u00e1rio na sobrevida que deram ao MDB e \u00e0 ARENA-PFL-DEM.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, Bolsonaro s\u00f3 precisou perseverar em sua t\u00e1tica de recusa encenada a qualquer acerto com o sistema pol\u00edtico, jogando todas as suas fichas na ira da maioria da sociedade. A <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4508\">facada <\/a>inaceit\u00e1vel deu a ele o que a pris\u00e3o inaceit\u00e1vel j\u00e1 dera a Lula: uma blindagem contra a controv\u00e9rsia, e a condi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p>O que restou para o debate p\u00fablico foram seus posicionamentos autorit\u00e1rios,\norientados pela quimera de que haveria um Brasil ao qual dever\u00edamos voltar, um\nsuposto eldorado do per\u00edodo ditatorial. Ora, se h\u00e1 um aprendizado na hist\u00f3ria\nbrasileira \u00e9 o de que n\u00f3s n\u00e3o temos um passado para o qual dirigir esperan\u00e7as\nnost\u00e1lgicas. A mem\u00f3ria da escravid\u00e3o longeva, recente, cruenta,\ndemograficamente expressiva, terminada sem a supera\u00e7\u00e3o de suas mazelas, vacina,\ndiariamente, cada um de n\u00f3s contra orgulhos retroativos \u2013 \u00e9 nesse sentido que\nestamos condenados a ser o pa\u00eds do futuro, isto \u00e9, que s\u00f3 podemos esperar\nmudan\u00e7a indo adiante, sempre motivados a deixar o passado para tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed que apenas uma minoria dos apoiadores de Bolsonaro levava a s\u00e9rio (e almejava) a volta \u00e0 ditadura que ele insinuava defender. <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4933\">A maioria votou nele porque<\/a> ele representava o rep\u00fadio ao \u201csistema\u201d, motiva\u00e7\u00e3o que incorporou inercialmente esta ou aquela narrativa da moda, que foi convocada como <em>refor\u00e7o contingencial<\/em>: anti-cientificismo, anti-comunismo, defesa do Estado m\u00ednimo e do puro livre mercado, celebra\u00e7\u00e3o tacanha da fam\u00edlia, religiosidade sect\u00e1ria e outras besteiras. <em>Mas, aten\u00e7\u00e3o: esses \u201crefor\u00e7os contingenciais\u201d n\u00e3o definem essas pessoas, afinal, boa parte delas votara, com as melhores motiva\u00e7\u00f5es, em FHC e em Lula no passado recente. Na verdade, esses \u201crefor\u00e7os contingenciais\u201d s\u00e3o uma manobra sa\u00edda da necessidade do nosso c\u00e9rebro de robustecer decis\u00f5es tomadas, especialmente quando h\u00e1 incerteza sobre elas&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro venceu a elei\u00e7\u00e3o, nomeou seu minist\u00e9rio de hosp\u00edcio e passou a tentar p\u00f4r em pr\u00e1tica seu programa, sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o com a desigualdade e sem acerto mais detido com o sistema pol\u00edtico, mas contemplando ampla e profundamente os muito ricos, no interesse dos quais veio propondo e realizando todas as suas chamadas reformas, com apoio inconsequente da maioria das classes m\u00e9dias rec\u00e9m-conquistadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed, do nada, disseminou-se o novo coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>A eros\u00e3o de Bolsonaro e uma sa\u00edda contraproducente<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Conduzindo-se de maneira desastrada e dirigindo o pa\u00eds de maneira\ndesastrosa, Bolsonaro j\u00e1 vinha com dificuldades crescentes para sustentar-se\npoliticamente. Embora isso n\u00e3o possa ser revertido em m\u00e9rito para ele, como j\u00e1\nveremos, \u00e9 importante destacar que parte dessas dificuldades se devem ao que h\u00e1\nno sistema pol\u00edtico de mais delet\u00e9rio quando se pensa na constru\u00e7\u00e3o de um\nEstado de Direito Democr\u00e1tico: a experi\u00eancia das fac\u00e7\u00f5es em chantagear a\npresid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro n\u00e3o pode receber cr\u00e9dito por isso por duas raz\u00f5es: uma\nestrutural, outra circunstancial.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A raz\u00e3o estrutural<\/strong> \u00e9 dupla. Bolsonaro se posicionou contra o \u201csistema\u201d muito parcialmente. Primeiro, porque, al\u00e9m de jamais sequer ter se ocupado da desigualdade, ele veio propondo e fazendo reformas que ir\u00e3o acentu\u00e1-la, tudo em benef\u00edcio do SISTEMA. Segundo, porque Bolsonaro se posicionou contra o \u201csistema\u201d propondo um aprofundamento do autoritarismo, n\u00e3o o fortalecimento da ordem legal democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A raz\u00e3o circunstancial<\/strong> \u00e9 que sua posi\u00e7\u00e3o contra o \u201csistema\u201d sempre foi para ingl\u00eas ver, pois ele nunca deixou de negociar no estilo da velha pol\u00edtica \u2013 at\u00e9 porque ele \u00e9 oriundo dali, tendo aprendido ali as manobras da sobreviv\u00eancia e do enriquecimento (que zelosamente transferiu aos filhos!).<\/p>\n\n\n\n<p>Ante esse posicionamento fajuto de Bolsonaro contra o \u201csistema\u201d, o SISTEMA respondeu de maneira n\u00e3o menos fajuta: PT, PSDB e seus sat\u00e9lites (PSOL e REDE s\u00e3o respectivamente exemplares), em conex\u00e3o com uma t\u00e3o repugnante quanto repentinamente celebrada majestade congressual dos hierarcas do DEM e do MDB (esses campe\u00f5es da &#8220;liturgia do cargo&#8221;!), com apoio da opini\u00e3o majorit\u00e1ria expressa na imprensa e nas redes sociais, inventaram contra Bolsonaro uma \u201cuni\u00e3o nacional\u201d em defesa do quim\u00e9rico <em>Estado democr\u00e1tico de direito<\/em>. Resultado: mais uma polariza\u00e7\u00e3o fajuta, e a pior delas, pois ela projeta na parede do labirinto imagens especulares da mesma desorienta\u00e7\u00e3o: no fundo, ambos sugerem a exist\u00eancia de um suposto \u201cinteresse nacional\u201d, comum a todos os brasileiros. Tratar-se-ia apenas de uma disputa para saber qual dos dois p\u00f3los representa o verdadeiro &#8220;interesse nacional&#8221;, o que rebaixa o debate pol\u00edtico aos par\u00e2metros impostos l\u00e1 atr\u00e1s pela ditadura paisano-militar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O primog\u00eanito dessa prom\u00edscua \u201cuni\u00e3o nacional\u201d \u00e9 um aleij\u00e3o: uma nova\nvers\u00e3o da desigualdade, feita sob medida para \u201cindignar\u201d gente como Luciano\nHuck, que agora faz palestras sobre o tema! Fique certo leitor: se acreditarmos\nque todos os brasileiros estamos contra a desigualdade, ela jamais ser\u00e1\nenfrentada, muito menos na dire\u00e7\u00e3o de um Estado de Direito Democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o coronav\u00edrus, a polariza\u00e7\u00e3o fajuta pendeu favoravelmente para um dos lados: para Bolsonaro, o flagelo criou problemas que se mostraram insuper\u00e1veis; em contrapartida, deu combust\u00edvel ao discurso de \u201cuni\u00e3o nacional\u201d, o que reanima o SISTEMA, como se o v\u00edrus atingisse a todos, como se enfrent\u00e1-lo nada tivesse a ver com a desigualdade.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3843\">Marionete das massas<\/a>, sem agilidade cognitiva, ao ver todas as suas toscas <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5170\">cren\u00e7as contrariadas<\/a> pela pandemia do novo coronav\u00edrus, Bolsonaro reagiu como sempre reage contra seus advers\u00e1rios: tentou desqualificar o oponente e disse-o uma \u201cgripezinha\u201d. N\u00e3o deu certo e ele cometeu o erro de se deixar empurrar para uma posi\u00e7\u00e3o ainda mais prec\u00e1ria: a nega\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos de combate social prescritos pela ci\u00eancia. Com o avan\u00e7o da doen\u00e7a, sem intelig\u00eancia para recuar do que j\u00e1 fizera, passou a agir como um apostador de cassino e arriscou tudo defendendo medica\u00e7\u00e3o sem comprova\u00e7\u00e3o avalizada pela medicina. A tal medica\u00e7\u00e3o n\u00e3o funcionou e ele se v\u00ea cada vez mais acuado \u2013 at\u00e9 os loucos v\u00e3o abandonando o hosp\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos termos em que se deu, a sa\u00edda estrepitosa de Moro tornou a queda de Bolsonaro uma certeza. \u00c9 uma quest\u00e3o de tempo, apenas. Os sinais mais claros s\u00e3o: (i) a inquieta\u00e7\u00e3o dos dispositivos militares; e (ii) a rendi\u00e7\u00e3o de Bolsonaro ao Centr\u00e3o. Veja bem, leitor: (i) as FFAA n\u00e3o t\u00eam nenhuma raz\u00e3o para embarcar numa aventura sangrenta para defender a vol\u00fapia de poder de um maluco, especialmente se o vice \u00e9 um general da reserva que at\u00e9 bem pouco tempo pregava o <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3897\">uso da for\u00e7a militar<\/a> para resolver a crise de legitima\u00e7\u00e3o; (ii) \u00e9 parte da rotina pol\u00edtica brasileira que o presidente da Rep\u00fablica negocie com o Centr\u00e3o, mas ningu\u00e9m se mant\u00e9m presidente da Rep\u00fablica se tiver ficado claro que tudo o que tem \u00e9 o Centr\u00e3o \u2013 o Centr\u00e3o \u00e9 o \u00faltimo balc\u00e3o, o dos restos a pagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Desgra\u00e7adamente, como \u00e9 pr\u00f3prio dessa situa\u00e7\u00e3o labir\u00edntica, os crimes de Bolsonaro s\u00e3o tais e t\u00e3o evidentes que, se ele n\u00e3o renunciar, seremos arrastados a mais um impeachment farsesco, com aquelas <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=2822\">pantomimas simiescas<\/a> no Congresso, como se ele fosse leg\u00edtimo, como se ali estivesse representada a maioria da sociedade brasileira. Mais uma vez, iremos emprestar ao Congresso a legitimidade que a ira popular confere e as esperan\u00e7as que ela embute, quando \u00e9 contra o Congresso que dever\u00edamos dirigir toda a nossa energia de inconformados. <\/p>\n\n\n\n<p>Embora mantendo suas desaven\u00e7as, as fac\u00e7\u00f5es do sistema pol\u00edtico continuar\u00e3o unidas em seu projeto conservador: <em>conservar<\/em> o Estado de Direito Autorit\u00e1rio, repetindo que ele \u00e9 uma conquista da sociedade. Ainda que nem todos os pol\u00edticos profissionais, autoridades e <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4873\">analistas<\/a> estejam cientes do que est\u00e3o a fazer, o fato \u00e9 que est\u00e3o a sufocar o \u00e2nimo pela transforma\u00e7\u00e3o que h\u00e1 na maioria da sociedade. Com isso, negam a crise de legitima\u00e7\u00e3o do Estado de Direito Autorit\u00e1rio, t\u00e3o sensivelmente detectada pela maioria da sociedade brasileira, ainda que essa maioria n\u00e3o possa se gabar de ter sido s\u00e1bia ao conduzir sua justa revolta.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa autointitulada esquerda, por sua vez, tampouco pode se gabar de\nsua lucidez e disposi\u00e7\u00e3o de luta: incapaz de se orientar no labirinto, perplexa\ncom o desastre a que nos levou o descaminho da op\u00e7\u00e3o por Bolsonaro, ela se\ndirige \u00e0 maioria que votou nesse maluco como se pudesse impor a ela uma\nrendi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o para dialogar com suas motiva\u00e7\u00f5es de fundo em busca do que\npoderia levar a mudan\u00e7as rec\u00edprocas de opini\u00e3o \u2013 esse \u00e9 um erro que vai nos\ncustar ainda mais caro do que a conta que Bolsonaro vai deixar.<\/p>\n\n\n\n<p>Se h\u00e1 algo de positivo que dever\u00edamos tirar do coronav\u00edrus, seria aproveitar a oportunidade para iniciarmos uma conversa decente sobre o papel do Estado em nossas vidas: ordem, seguran\u00e7a, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o. Devemos propor \u00e0s classes m\u00e9dias uma conversa sobre a converg\u00eancia que h\u00e1 entre o que ela est\u00e1 a sentir nesses dias e o que os mais pobres vivem desde sempre como destino di\u00e1rio. Afinal, as pessoas de classe m\u00e9dia est\u00e3o triplamente desafiadas: cada uma se sente t\u00e3o fr\u00e1gil quanto qualquer outro ser humano; cada uma \u00e9 levada a perceber que os planos de sa\u00fade privados s\u00e3o de pouca valia; cada uma se v\u00ea a torcer para que o SUS d\u00ea conta do recado. Eis um caminho para come\u00e7armos a falar da desigualdade em outros termos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Novaes, 25 de abril de 2020 Uma tentativa (longa&#8230;) de entender o que se passa. Defini\u00e7\u00f5es preliminares: &#8211; SISTEMA = modo faccioso de atender aos interesses dos altos hierarcas do Estado combinado \u00e0 defesa dos interesses dos muito ricos. 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