{"id":5331,"date":"2020-06-15T16:47:00","date_gmt":"2020-06-15T19:47:00","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5331"},"modified":"2020-06-16T16:51:34","modified_gmt":"2020-06-16T19:51:34","slug":"o-blefe-da-besta-como-espantalho-comodo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5331","title":{"rendered":"O BLEFE DA BESTA \u00c9 ESPANTALHO C\u00d4MODO"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Carlos Novaes, 15 de junho de 2020<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 cerca de dois meses, <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5178\">retomei <\/a>este blog com o prop\u00f3sito de contribuir para a compreens\u00e3o da conjuntura pol\u00edtica brasileira. Recuperando minha an\u00e1lise de anos anteriores sobre a <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3622\">crise de legitima\u00e7\u00e3o<\/a> em que est\u00e1 imerso o <a href=\"http:\/\/tiros\">Estado de Direito Autorit\u00e1rio<\/a> brasileiro, tenho buscado fazer a rela\u00e7\u00e3o entre essa crise de legitima\u00e7\u00e3o e a conjuntura pol\u00edtica de que Bolsonaro \u00e9 o centro. Cabe ao leitor dizer o quanto acertei e errei at\u00e9 aqui ao expor uma an\u00e1lise totalmente diferente e, frequentemente, oposta \u00e0s an\u00e1lises que vieram aparecendo na m\u00eddia nesse per\u00edodo &#8212; embora j\u00e1 exista muita gente revendo o que vinha dizendo, geralmente sem nenhum aviso, como se n\u00e3o houvesse um contraste abissal entre o alarmismo de antes e a percep\u00e7\u00e3o atual de que n\u00e3o era bem assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora v\u00e1 deixar margem a algum mal entendido, o empenho por tornar claro o contraste entre a minha posi\u00e7\u00e3o, francamente minorit\u00e1ria, e a dos demais, me leva aos pontos abaixo que, a meu ju\u00edzo, resumem o essencial:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><li>Enquanto todos estavam empenhados em mostrar o quanto Bolsonaro \u00e9 o avesso de um suposto Estado democr\u00e1tico de direito (a que se apegam); sustentei que o besta \u00e9 o resultado final e direto desse Estado de Direito Autorit\u00e1rio;<\/li><li>Enquanto todos escreviam varia\u00e7\u00f5es mais ou menos elaboradas de seus temores de uma queda do Estado de direito em dire\u00e7\u00e3o a um Estado ditatorial, sustentei que Bolsonaro estava <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5203\">atolado<\/a>;<\/li><li>Enquanto todos viam o besta em marcha ascensional na dire\u00e7\u00e3o de seus objetivos ditatoriais, sustentei que tudo n\u00e3o passava de <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5231\">alarido de campanha<\/a> fora de hora;<\/li><li>Enquanto todos enxergavam como sinal de for\u00e7a a soma de alarido nas ruas com acertos com o Centr\u00e3o; sustentei que Bolsonaro perdera a condi\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5240\">(falsa) express\u00e3o do sentimento<\/a> antissistema da maioria da sociedade e deca\u00edra a mera pe\u00e7a do jogo entre fac\u00e7\u00f5es estatais em busca de poder para fazer dinheiro;<\/li><li>Enquanto todos colocavam no centro das suas aten\u00e7\u00f5es a amea\u00e7a das hordas fascistas da besta; sustentei que essa base dura de Bolsonaro iria refluir, pois se daria conta de que o besta passara a ser <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5231\">marionete do Centr\u00e3o<\/a>;<\/li><li>Enquanto todos davam alguma vers\u00e3o para os riscos de ruptura da ordem com apoio ou indiferen\u00e7a da maioria da sociedade; sustentei (antes do surgimento do movimento <em>\u201csomos 70%\u201d<\/em>) que <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5240\">80% s\u00f3 se mostravam<\/a> mais fracos do que 20% em raz\u00e3o da falta de rumo a seguir na luta contra a desigualdade e pelo Estado de Direito Democr\u00e1tico;<\/li><li>Enquanto todos de um modo ou outro tratavam como real a amea\u00e7a das FFAA virem a dar apoio a uma aventura golpista de Bolsonaro; sustentei que as FFAA n\u00e3o entrariam em aventura para serem lideradas pelo pior da PM (mil\u00edcias);<\/li><li>Enquanto todos conjeturavam (e conjeturam!) sobre a melhor maneira de levar adiante o impeachment da besta; sustentei que o impeachment \u00e9 a proposta errada, pois entregar\u00e1 o poder ao <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5262\">general Mour\u00e3o<\/a>, mais capaz do que o besta para dar coes\u00e3o \u00e0s for\u00e7as reacion\u00e1rias;<\/li><li>Enquanto todos e cada um dos analistas, solitariamente ou em grupo, escreviam e escrevem sobre a <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5314\">urg\u00eancia de uma frente<\/a> para enfrentar a besta; sustentei e sustento que tudo o que n\u00e3o precisamos \u00e9 diluir nosso \u00edmpeto transformador em mais uma frente \u201cdemocr\u00e1tica\u201d;<\/li><li>Enquanto todos e cada um sustentam que a tarefa que une os democratas \u00e9 a defesa deste Estado de direito que est\u00e1 a\u00ed; venho h\u00e1 anos sustentando que este Estado de Direito Autorit\u00e1rio tem de ser deixado para tr\u00e1s;<\/li><li>Enquanto todos defendem esse Estado de direito que nos infelicita, a sociedade continua sem rumo em seu pendor democr\u00e1tico antissistema. Sustento que:    <\/li><\/ol>\n\n\n\n<p><strong>A. Esse Estado de direito est\u00e1 em crise de legitima\u00e7\u00e3o<\/strong>;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>B. Essa <em>crise de legitima\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong> \u00e9 vivida pela maioria da sociedade brasileira em graus variados de consci\u00eancia, clareza e disposi\u00e7\u00e3o de luta;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>C. Essas varia\u00e7\u00f5es decorrem<\/strong> das diferen\u00e7as existentes entre os sofrimentos que s\u00e3o impostos pelo Estado de Direito Autorit\u00e1rio \u00e0 maioria da sociedade brasileira: para uns \u00e9 o arb\u00edtrio da pol\u00edcia, um arb\u00edtrio que aparece como viol\u00eancia aberta, seletividade de rigor ou omiss\u00e3o calculada no combate ao crime; para outros \u00e9 a falta de correla\u00e7\u00e3o entre cobran\u00e7a de impostos e retornos recebidos; para alguns s\u00e3o as pol\u00edticas p\u00fablicas de atendimento direto (sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, infraestrutura); para outros, a ilegitimidade vem da corrup\u00e7\u00e3o, uma pr\u00e1tica generalizada nas esferas municipal, estadual e federal; para uns s\u00e3o as diferen\u00e7as de tratamento sa\u00eddas de privil\u00e9gios, centradas ora em renda, ora em cor da pele, ora em cumplicidades corporativas, ora em parentesco, ora em afinidades eletivas, tudo ileg\u00edtimo, pois nada est\u00e1 fundado em crit\u00e9rios realmente <strong>de direito<\/strong> e <strong>democr\u00e1ticos<\/strong>;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>D. Para serem unificadas de modo prof\u00edcuo<\/strong>, as revoltas contra essas mazelas precisam ser organizadas em duas urg\u00eancias: a <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4618\"><strong>urg\u00eancia por ordem<\/strong> e a <strong>urg\u00eancia social<\/strong><\/a>, articuladas na luta contra a desigualdade e tendo como perspectiva a constru\u00e7\u00e3o de um Estado de Direito Democr\u00e1tico;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E. Enfim, a t\u00eanue legitimidade<\/strong> que o Estado de Direito Autorit\u00e1rio brasileiro havia filtrado da luta da maioria da sociedade na <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4689\">transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica<\/a> foi corro\u00edda no curso dos 30 anos em que se realizou essa obra macabra, sa\u00edda da abertura <em>lenta, gradual e segura<\/em> e da trai\u00e7\u00e3o liderada por PSDB e PT, com seus sat\u00e9lites: Bolsonaro \u00e9 o espectro n\u00e3o apenas do que n\u00e3o foi enterrado por eles, mas tamb\u00e9m do que <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=2954\">eles nutriram<\/a>, e \u00e9 por isso que esse espantalho danoso tanto os assusta \u2013 os danos provocados por Bolsonaro n\u00e3o podem e n\u00e3o devem ser subestimados; mas n\u00e3o faz sentido algum superestimar a for\u00e7a dele como est\u00e3o fazendo aqueles que conservadoramente querem voltar atr\u00e1s, ao inv\u00e9s de ousar ir adiante.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de nos terem trazido a esse pantanal, fingem que nada t\u00eam com isso, assustam a mais n\u00e3o poder a maioria da sociedade com uma besta que j\u00e1 se tornou um espantalho c\u00f4modo, coisa f\u00e1cil de ver quando se assiste a essa inumer\u00e1vel prolifera\u00e7\u00e3o de manifestos e frentes enquanto Bolsonaro, de blefe em blefe, n\u00e3o para de recuar para o miolo da luta entre fac\u00e7\u00f5es estatais, abandonando seus incautos seguidores, literalmente, no meio da rua.<\/p>\n\n\n\n<p>O que os frentistas pretendem \u00e9 atrair a aten\u00e7\u00e3o e conquistar a ades\u00e3o de quem, acertadamente, j\u00e1 lhes deu as costas (embora sem fartura de lucidez ao faz\u00ea-lo). Propagam um apocalipse que n\u00e3o ir\u00e1 ocorrer, sobretudo porque esta mesma maioria n\u00e3o o quer, e tudo isso para figurarem de l\u00edderes de uma sa\u00edda do labirinto em que eles pr\u00f3prios se perderam e do qual, sem atinar com a sa\u00edda, pretendem fazer um castelo de normalidade democr\u00e1tica desej\u00e1vel, quando n\u00e3o passa de uma masmorra de sonhos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fica o Registro:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste domingo que passou li na Folha de S. Paulo o artigo de um grupo de intelectuais da USP sobre a reemerg\u00eancia do <em>\u201cfascismo \u00e0 brasileira\u201d<\/em>. Para quem n\u00e3o leu, o artigo segue mais abaixo. Fa\u00e7o seis observa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas sobre ele:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><li>O artigo \u00e9 muito bom como resumo das conex\u00f5es que existem entre o ide\u00e1rio fascista do integralismo liderado por Pl\u00ednio Salgado e aspectos do que sustenta Bolsonaro e seu projeto ditatorial;<\/li><li>Os autores do artigo acreditam que <em>\u201c\u00c9 no v\u00e1cuo deixado pelas for\u00e7as tradicionais de direita que se compreende a poss\u00edvel retomada do fascismo \u00e0 brasileira\u201d<\/em>; ou seja: sequer citam, e isentam completamente PSDB e PT de responsabilidades pela <em>\u201cretomada do fascismo \u00e0 brasileira\u201d<\/em>;<\/li><li>Para os autores,  <em>&#8220;em 2015-2016, as elites tradicionais voltaram a se unir para derrubar o lulismo&#8221;<\/em>, deixando de lado que no in\u00edcio do processo o chamado Mercado era contra a queda de Dilma, pois o <em>lulopetismo <\/em>havia servido muito bem aos seus interesses &#8212; quem se rebelou contra Dilma foi o baixo-clero congressual, precisamente em raz\u00e3o da luta de fac\u00e7\u00f5es e n\u00e3o de um suposto &#8220;socialismo&#8221; do PT &#8212; a ades\u00e3o dos maiorais veio depois;  <\/li><li>&nbsp;Nessa linha, afirmam que o bolsonarismo <em>\u201ccapitalizou para si, pelo menos em parte, a gradual corros\u00e3o da legitimidade dos que ocupavam e ocupam as posi\u00e7\u00f5es altas do Estado e da sociedade\u201d<\/em> \u2013 veja, leitor, que o tema da legitima\u00e7\u00e3o vai aparecendo, mas note a sutileza: para os professores da USP n\u00e3o se trata de crise de legitima\u00e7\u00e3o do Estado, mas de mera corros\u00e3o da legitimidade dos seus ocupantes! Como se a revolta da maioria da sociedade fosse contra meros desvios de conduta e n\u00e3o contra todos os sofrimentos que lhe s\u00e3o impostos pelo Estado de Direito Autorit\u00e1rio \u2013 o que ser\u00e1 necess\u00e1rio para que, afinal, chamem o diabo pelo nome? Esperam que a sociedade mesma v\u00e1 \u00e0s ruas a recitar o conceito de <em>crise de legitima\u00e7\u00e3o<\/em>?!; <\/li><li>Segundo os autores, <em>\u201ca extrema direita soube se aproveitar do&nbsp;impulso anti-institucional desperto pelas manifesta\u00e7\u00f5es de 2013, com suas t\u00f3picas de antirrepresenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e refrat\u00e1ria aos modelos de governabilidade caracter\u00edsticos da democracia p\u00f3s-Constitui\u00e7\u00e3o de 1988\u201d<\/em>. Ou seja, para os autores, a revolta antissistema que Bolsonaro capturou se restringia, em 2013,  \u00e0 <em>\u201cantirrepresenta\u00e7\u00e3o\u201d<\/em> e &nbsp;a <em>\u201cmodelos de governabilidade\u201d<\/em>, como se naquela altura j\u00e1 n\u00e3o estivesse em quest\u00e3o todo o rol de mazelas do Estado de direito que eles querem preservar. &nbsp;Note o v\u00ednculo, leitor, entre <em>\u201cocupar posi\u00e7\u00f5es altas do Estado\u201d<\/em> e <em>\u201cmodelos de governabilidade\u201d<\/em>. Para eles, tudo \u00e9 uma quest\u00e3o de <em>governo<\/em>, n\u00e3o de <em>Estado<\/em>. Por isso, querem uma frente contra o governo Bolsonaro; n\u00e3o uma luta contra o Estado de Direito Autorit\u00e1rio, ao qual, no fundo, est\u00e3o agarrados;<\/li><li>Segundo os autores, <em>\u201ccavalgando, assim, o corcel antissist\u00eamico, Bolsonaro reatou o fio perdido do fascismo brasileiro com a energia que emergiu em junho de 2013, potencializada pela&nbsp;Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato\u201d<\/em>. Falta dizer que esse fio foi reatado desse modo precisamente porque nossa autointitulada esquerda estava <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=2777\">t\u00e3o comprometida<\/a> com as mazelas do Estado de Direito Autorit\u00e1rio que <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3361\">n\u00e3o p\u00f4de disputar<\/a> nem o <em>sentido<\/em>, nem a <em>dire\u00e7\u00e3o<\/em> da energia que emergiu de junho de 2013. At\u00e9 hoje essa energia est\u00e1 em disputa, e esse pessoal continua desequipado para disput\u00e1-la. \u00c9 por isso que est\u00e3o sendo deixados para tr\u00e1s at\u00e9 pelas <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5290\">torcidas<\/a> de <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5304\">futebol<\/a>, cujo foco \u00e9 o entretenimento, n\u00e3o a pol\u00edtica. [Sobre o sentido da in\u00e9rcia, ver este artigo <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4120\">aqui<\/a>, especialmente o final].<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Abaixo,\na \u00edntegra do artigo que acabo de resumir e criticar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por que assistimos a uma volta do fascismo \u00e0\nbrasileira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Intelectuais da USP comparam\nbolsonarismo ao movimento integralista da d\u00e9cada de 1930<\/p>\n\n\n\n<p>Andr\u00e9 Singer, Christian Dunker, Cicero Ara\u00fajo,\nFelipe Loureiro, Laura Carvalho, Leda Paulani, Ruy Braga, Vladimir Safatle.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>V\u00c1RIOS AUTORES<\/strong>&nbsp;(nomes ao final do texto)<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se pretende enfrentar aqui a complicada e necess\u00e1ria discuss\u00e3o acad\u00eamica\nsobre o car\u00e1ter do fascismo em geral, que foge ao escopo de um artigo voltado\npara os temas urgentes da conjuntura brasileira. Deseja-se, antes, lembrar que<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2018\/10\/afinal-jair-bolsonaro-e-ou-nao-e-fascista.shtml\">&nbsp;o bolsonarismo ressoa discursos e estrat\u00e9gias de\numa velha tradi\u00e7\u00e3o fascista local,<\/a>&nbsp;cuja atualiza\u00e7\u00e3o, nos\nparece, ajuda a explicar o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2018\/12\/movimento-integralista-resiste-e-ve-bom-momento-para-difusao-de-suas-ideias.shtml\">AIB (A\u00e7\u00e3o Integralista Brasileira)<\/a>, liderada\npor Pl\u00ednio Salgado, formada em 1932, no contexto dos efeitos da&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/10\/reacao-a-crise-de-29-ainda-estimula-debate-sobre-intervencao-estatal.shtml\">Grande Depress\u00e3o<\/a>, constituiu uma importante\niniciativa fascista. No seu auge, chegou a ter ao redor de um milh\u00e3o de\naderentes. Em 1938, ap\u00f3s um fracassado golpe armado contra o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2013\/08\/1327487-o-lado-escuro-de-getulio-vargas.shtml\">Estado Novo varguista<\/a>, a AIB se desintegraria,\nlevando Pl\u00ednio Salgado para o ex\u00edlio em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>O l\u00edder integralista voltaria ao Brasil em 1946 para assumir a presid\u00eancia\ndo PRP (Partido de Representa\u00e7\u00e3o Popular), agremia\u00e7\u00e3o que daria roupagem\npseudodemocr\u00e1tica ao integralismo no contexto da democracia do p\u00f3s-guerra. Ap\u00f3s\no&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/03\/historiador-rebate-mitos-sobre-o-golpe-de-1964.shtml\">golpe militar de 1964<\/a>, o PRP seria extinto,\ndessa vez com a decreta\u00e7\u00e3o do AI-2 por Castelo Branco.<\/p>\n\n\n\n<p>A filia\u00e7\u00e3o de Pl\u00ednio Salgado e de seus seguidores mais fi\u00e9is ao partido\npr\u00f3-ditadura (Arena) acabaria por dispersar os herdeiros da AIB, tend\u00eancia\nrefor\u00e7ada pela morte do l\u00edder integralista em 1975.<\/p>\n\n\n\n<p>Os integralistas enxergavam a na\u00e7\u00e3o como um organismo em estado de\nprofunda crise, amea\u00e7ada em sua unidade e ferida de morte pela corrup\u00e7\u00e3o\nolig\u00e1rquica e por graves conflitos estaduais. Para os seguidores de Pl\u00ednio\nSalgado, a na\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m sangrava em fun\u00e7\u00e3o do materialismo e da insensibilidade\ndos liberais. Se ideologias radicais ateias e internacionalistas vingassem,\nalertavam os membros da AIB, isso representaria a pr\u00f3pria morte do corpo\nsocial: a escraviza\u00e7\u00e3o do Brasil frente ao movimento comunista planet\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Para salvar a na\u00e7\u00e3o, os integralistas defendiam o desmantelamento da\ndemocracia liberal e a constru\u00e7\u00e3o de um \u201cEstado org\u00e2nico\u201d, baseado em\nrepresenta\u00e7\u00f5es corporativas (classes e grupos de interesse) e intermediadas por\numa lideran\u00e7a incontest\u00e1vel \u2014o \u201cchefe nacional\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica, o separatismo, o materialismo burgu\u00eas, a\ndesordem e os conflitos de classe representariam um rep\u00fadio profundo aos\nvalores fundamentais e imut\u00e1veis da \u201calma brasileira\u201d, entre os quais \u201cos\nprinc\u00edpios eternos da religi\u00e3o do povo\u201d e o \u201csentimento da fam\u00edlia e dos\ndeveres para com ela\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Como se v\u00ea, a religi\u00e3o crist\u00e3 e a fam\u00edlia constitu\u00edam os pilares do\nprojeto fascista brasileiro nos anos 1930. A partir da fam\u00edlia patriarcal se\nergueriam as bases da \u201cfam\u00edlia brasileira\u201d, imersa nos princ\u00edpios atemporais do\ncristianismo. N\u00e3o \u00e0 toa, o lema integralista era \u201cDeus, P\u00e1tria, Fam\u00edlia\u201d.\nColocava-se a p\u00e1tria no meio dos dois sustent\u00e1culos da alma nacional \u2014Deus e\nfam\u00edlia\u2014 exatamente porque ela constitu\u00eda, nos termos de Pl\u00ednio Salgado, a\n\u201cs\u00edntese do Estado e da na\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 paralelismos na ret\u00f3rica de integralistas e bolsonaristas. A retomada\nda religi\u00e3o crist\u00e3 \u2014agora em vers\u00e3o neopentecostal\u2014, da fam\u00edlia e da p\u00e1tria\nparece servir para rearticular um n\u00facleo fascistizante de longa data na\nsociedade brasileira. \u00c9 not\u00f3ria a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2019\/08\/em-almoco-com-bolsonaro-evangelicos-defendem-pacote-tributario-para-igrejas.shtml\">rela\u00e7\u00e3o existente entre Bolsonaro e parte dos l\u00edderes\nevang\u00e9licos<\/a>. Uma alian\u00e7a que repercute na popularidade de Bolsonaro\nentre os fi\u00e9is, assim como na ades\u00e3o da chamada bancada da B\u00edblia aos projetos\ndo governo federal.<\/p>\n\n\n\n<p>A proximidade de Bolsonaro com um tipo de fundamentalismo religioso\npermite sublinhar a contraposi\u00e7\u00e3o, t\u00e3o cara \u00e0s mil\u00edcias virtuais alinhadas ao\npresidente, entre o \u201cvagabundo\u201d e o \u201cpai de fam\u00edlia\u201d. Essa polaridade revela a\ninten\u00e7\u00e3o das hostes bolsonaristas de purificar violentamente a na\u00e7\u00e3o de seus\n\u201cinimigos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal como o bord\u00e3o deixa claro (\u201cBrasil acima de tudo, Deus acima de\ntodos\u201d), a sa\u00edda para acabar com a sangria do pa\u00eds, causada pela corrup\u00e7\u00e3o,\ncrise na seguran\u00e7a p\u00fablica e avan\u00e7o do globalismo comunista, envolve colocar\numa suposta homogeneidade nacional acima de quaisquer outras identidades e\ncompromissos, respeitando seu pilar fundamental \u2014a religi\u00e3o crist\u00e3\u2014, algo que\nvai ao encontro das tradi\u00e7\u00f5es do fascismo \u00e0 brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2019\/11\/em-manifesto-partido-de-bolsonaro-diz-querer-livrar-pais-de-larapios-e-traidores.shtml\">manifesto da Alian\u00e7a pelo Brasil<\/a>, partido em\nconstru\u00e7\u00e3o por Bolsonaro, afirma que o primeiro e mais importante objetivo da\nnova agremia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ser\u00e1 o de \u201crespeitar Deus e a religi\u00e3o\u201d, reconhecendo\n\u201co lugar de Deus na vida, na hist\u00f3ria e na alma do povo brasileiro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o manifesto, o brasileiro\ncaracteriza-se por ser um povo \u201creligioso e solidamente educado nas bases do\ncristianismo\u201d. Mais do que isso: haveria no Brasil um verdadeiro am\u00e1lgama entre\nDeus e na\u00e7\u00e3o, uma vez que esta \u00faltima teria sido fundada sob a cruz (\u201cTerra de\nSanta Cruz\u201d), portanto alfabetizada e educada desde o in\u00edcio segundo o primado\nda religi\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo manifesto da Alian\u00e7a pelo Brasil caracteriza a fam\u00edlia como\n\u201cn\u00facleo natural e fundamental da sociedade\u201d. Trata-se, logicamente, de um tipo\nparticular de fam\u00edlia: patriarcal, monog\u00e2mica, heteronormativa e baseada em\nr\u00edgidos estere\u00f3tipos de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>Comportamentos e rela\u00e7\u00f5es que se afastam desse padr\u00e3o \u2014de rela\u00e7\u00f5es\nhomoafetivas a estruturas familiares alternativas ao paradigma nuclear\u2014 n\u00e3o\nconstituem meras quest\u00f5es de pluralidade afetiva, mas temas de seguran\u00e7a\nnacional (\u201cchaga ideol\u00f3gica de nosso pa\u00eds\u201d, diz o manifesto), sobre os quais o\nEstado, principalmente por meio de pol\u00edticas educacionais e culturais, deve\ndedicar especial aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia tamb\u00e9m ocupa lugar decisivo no discurso de Bolsonaro, tanto\nporque se encontraria genericamente em perigo quanto pelo fato de que a sua\u201d\nfam\u00edlia constitui um valor t\u00e3o supremo que se imp\u00f5e ostensivamente a decis\u00f5es\npol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia crist\u00e3 \u00e9 ainda um espa\u00e7o pretensamente id\u00edlico, em que lugares\nde autoridade n\u00e3o estariam em conflito e divis\u00f5es sociais de g\u00eanero n\u00e3o seriam\nquestionadas. Em meio a uma sociedade antag\u00f4nica, espera-se que a fam\u00edlia\ncrist\u00e3 imponha a paz de uma ordem natural e, por isso, supostamente\ninquestion\u00e1vel do ponto de vista moral.<\/p>\n\n\n\n<p>Os deslizes de estilo, as altera\u00e7\u00f5es de tom, as inadequa\u00e7\u00f5es de\nvocabul\u00e1rio tornam-se, no interior do sistema de linguagem, a prova e a marca\nde autenticidade de Bolsonaro, criada pela dissolu\u00e7\u00e3o da fronteira entre\np\u00fablico e privado. \u00c9 a linguagem de um pai que fala com a sua fam\u00edlia, tomado\npela c\u00f3lera da impot\u00eancia, revertida em del\u00edrio de persegui\u00e7\u00e3o, cujo objeto\nflutuante vai da imprensa \u00e0s universidades e aos padr\u00f5es n\u00e3o heteronormativos,\ncalcado em neologismos como esquerdopata e gaysista.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0 p\u00e1tria, o assunto \u00e9 mais complicado. O integralismo n\u00e3o s\u00f3 era\ncr\u00edtico ao crescente controle da economia pelo \u201cestrangeiro\u201d \u2014subordinador da\np\u00e1tria \u201c\u00e0s oscila\u00e7\u00f5es caprichosas de Londres e depois de Nova York\u201d, nas\npalavras de Salgado\u2014, como defendia a necessidade de forte interven\u00e7\u00e3o do\nEstado na economia, coordenando a produ\u00e7\u00e3o aos objetivos nacionais e protegendo\nos mais fr\u00e1geis dos \u201cabusos do capitalismo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Como sabemos, o bolsonarismo defende o contr\u00e1rio: se apresenta&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2019\/07\/estou-cada-vez-mais-apaixonado-por-trump-diz-bolsonaro.shtml\">estranhamente submisso a outro pa\u00eds \u2014 no caso, aos Estados Unidos<\/a>. O&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2018\/11\/unica-coisa-rigorosa-no-discurso-de-olavo-sao-os-palavroes-diz-ruy-fausto.shtml\">ide\u00f3logo m\u00e1ximo do bolsonarismo, Olavo de Carvalho<\/a>, v\u00ea no trumpismo a trincheira final da defesa da na\u00e7\u00e3o contra as garras do globalismo comunista \u2014 justificando, assim, o apoio de Bolsonaro a Donald Trump. Ao mesmo tempo,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/12\/fundamentalismo-de-mercado-pode-ser-calcanhar-de-aquiles-de-bolsonaro.shtml\">Bolsonaro vem aprofundando a agenda neoliberal e desmontando o Estado<\/a>, o que deixa os mais vulner\u00e1veis crescentemente desamparados frente ao mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de invulgar quando considerado do ponto de vista hist\u00f3rico,\nporque inverte o sentimento de prote\u00e7\u00e3o que liga as massas ao l\u00edder nas\nexperi\u00eancias cl\u00e1ssicas, o script bolsonarista parecia caminhar relativamente\nbem at\u00e9 a eclos\u00e3o da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>As assim chamadas reformas estruturais, em sua maioria destinadas a\nflexibilizar o mercado, retirando direitos e garantias sociais consagrados na\nConstitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, iam sendo efetivadas e socialmente aceitas; at\u00e9\nporque faziam coro com a ideia da meritocracia, que j\u00e1 grassava h\u00e1 algum tempo\ndentre os setores m\u00e9dios, e que a ascens\u00e3o do pentecostalismo, com sua teologia\nda prosperidade, ia ajudando a difundir junto aos pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que, aclimatada a um pa\u00eds perif\u00e9rico e em tempos ainda de\nhegemonia neoliberal, mesmo que decadente, a exorta\u00e7\u00e3o \u00e0 na\u00e7\u00e3o servia para\nconvalidar uma pol\u00edtica econ\u00f4mica ultraliberal e de destrui\u00e7\u00e3o planejada da\ncapacidade de interven\u00e7\u00e3o do Estado, o que claramente a contradiz. Como n\u00e3o\nfaria nenhum sentido o &#8220;make Brazil great again&#8221;, fica o \u201cBrasil\nacima de tudo\u201d, mas abaixo dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse tra\u00e7o n\u00e3o estava presente na experi\u00eancia pret\u00e9rita do integralismo,\nentre outras raz\u00f5es, porque o momento hist\u00f3rico era outro. Vivia-se um per\u00edodo\nem que n\u00e3o s\u00f3 as classes m\u00e9dias \u2014de onde provinham os quadros intelectuais mais\nimportantes do integralismo\u2014, mas parte significativa das pr\u00f3prias elites\necon\u00f4micas mostravam-se bem mais dispostas a apostar e agir pela constru\u00e7\u00e3o, no\nBrasil, de um Estado nacional com relativa for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Um fascismo ultraliberal como o de Bolsonaro seria vi\u00e1vel? At\u00e9 que ponto\num movimento com essas caracter\u00edsticas pode ser considerado fascista? \u00c9 verdade\nque a maior parte das experi\u00eancias historicamente identificadas como fascistas\nn\u00e3o foram economicamente liberais, bem ao contr\u00e1rio, mas isso n\u00e3o quer dizer\nque exista uma rela\u00e7\u00e3o un\u00edvoca entre fascismo e estatismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ludwig von Mises, no final dos anos 1920, exaltava as virtudes do l\u00edder\ndos camisas pretas italianos pelo resgate que este promovera do princ\u00edpio da\npropriedade privada. O pr\u00f3prio Mussolini iniciou seu governo nos anos 1920 com\no economista liberal Alberto De Stefani \u00e0 frente do Minist\u00e9rio da Fazenda,\nconcentrando-se inicialmente em realizar pol\u00edticas de livre-com\u00e9rcio, redu\u00e7\u00e3o\nde impostos, privatiza\u00e7\u00f5es e cortes de gastos e empregos p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi somente durante a Grande Depress\u00e3o dos anos 1930 que o governo\nfascista passou a investir em obras p\u00fablicas para a gera\u00e7\u00e3o de empregos e na\nsocializa\u00e7\u00e3o dos preju\u00edzos de setores industriais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que o ultraliberalismo econ\u00f4mico n\u00e3o sirva para descaracterizar o\nbolsonarismo como movimento fascista, \u00e9 indubit\u00e1vel que a ideologia do Estado\nm\u00ednimo de Paulo Guedes distingue substancialmente o atual momento do fascismo\nbrasileiro daquele dos anos 1930.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, mesmo considerando as diferen\u00e7as, o bolsonarismo est\u00e1 muito\nmais pr\u00f3ximo das marcas caracter\u00edsticas do integralismo do que da tradicional\ndireita conservadora brasileira, pela simples raz\u00e3o de que ambos, bolsonarismo\ne integralismo, representam um fen\u00f4meno mobilizador, que vem de baixo para\ncima.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos termos da historiadora Sandra Deutsch, os conservadores visam,\nsobretudo, manter uma ordem considerada em dissolu\u00e7\u00e3o; os reacion\u00e1rios v\u00e3o\nal\u00e9m, buscando conservar, mas tamb\u00e9m restaurar um passado m\u00edtico. Conservadores\ne reacion\u00e1rios podem at\u00e9 pregar vias autorit\u00e1rias para atingir seus objetivos,\nmas n\u00e3o h\u00e1 neles, como h\u00e1 no fascismo, a puls\u00e3o mobilizadora de massas e do\nculto \u00e0 viol\u00eancia, profundamente desumanizadora do \u201coutro\u201d configurado como uma\nm\u00e1cula de grupo, tornando-o alvo de exterm\u00ednio literal.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, em 2015-2016, as elites tradicionais\nvoltaram a se unir para derrubar o lulismo, fizeram-no de forma puramente\nrestritiva, com o intuito de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2018\/12\/espirito-da-constituicao-de-1988-esta-se-degradando-escreve-professor.shtml\">esvaziar o conte\u00fado social da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988<\/a>.\nPelejando para transformar a democracia em um mero arremedo olig\u00e1rquico sem\ndisfarce, o establishment social e econ\u00f4mico parecia ent\u00e3o ter desistido de\noferecer ao pa\u00eds uma alternativa cr\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 no v\u00e1cuo deixado pelas for\u00e7as tradicionais de direita que se\ncompreende a poss\u00edvel retomada do fascismo \u00e0 brasileira. Mesmo tendo sido\noportunisticamente ati\u00e7ado, no in\u00edcio, por uma oposi\u00e7\u00e3o sem for\u00e7a eleitoral\nsuficiente para derrotar a esquerda nas urnas, o bolsonarismo acabou\nlibertando-se da tutela conservadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis a novidade: pela primeira vez na hist\u00f3ria do Brasil republicano, um\nautoritarismo vindo de baixo para cima n\u00e3o teve seu voo interceptado no meio do\ncaminho por uma alternativa conjurada pelas elites, como se deu com Get\u00falio\nVargas nos anos 1930 e com o golpe de 1964.<\/p>\n\n\n\n<p>Na conjuntura 2015-2018, o bolsonarismo n\u00e3o apenas credenciou-se para\nexprimir, a seu modo, a raiva plebeia contra a destrutiva estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica,\ncomo tamb\u00e9m capitalizou para si, pelo menos em parte, a gradual corros\u00e3o da\nlegitimidade dos que ocupavam e ocupam as posi\u00e7\u00f5es altas do Estado e da sociedade,\nem sua patente incapacidade para estender, contra a pen\u00faria material e a\ninseguran\u00e7a crescente, o manto protetor das estruturas que comandam.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a extrema direita soube se aproveitar do<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2018\/06\/junho-de-13-foi-de-sonho-democratico-a-pesadelo-autoritario-diz-bosco.shtml\">&nbsp;impulso anti-institucional desperto pelas\nmanifesta\u00e7\u00f5es de 2013<\/a>, com suas t\u00f3picas de antirrepresenta\u00e7\u00e3o\npol\u00edtica e refrat\u00e1ria aos modelos de governabilidade caracter\u00edsticos da\ndemocracia p\u00f3s-Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. De modo an\u00e1logo \u00e0s experi\u00eancias cl\u00e1ssicas,\no fascismo \u00e0 brasileira surfou nessa onda, apresentando-se como uma for\u00e7a que\nrepudiava o jogo institucional predominante na vida pol\u00edtica do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Cavalgando, assim, o corcel antissist\u00eamico, Bolsonaro reatou o fio\nperdido do fascismo brasileiro com a energia que emergiu em junho de 2013,\npotencializada pela&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/12\/mensagens-vazadas-da-lava-jato-indicam-favorecimento-a-jornalistas-aliados.shtml\">Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato<\/a>. Depois de 40 anos de\nsil\u00eancio, o movimento bolsonarista resgatou grupos como TFP (Tradi\u00e7\u00e3o, Fam\u00edlia\ne Propriedade), as bases do janismo e do malufismo da d\u00e9cada de 1980,\ncaracterizadas pelo soci\u00f3logo Fl\u00e1vio Pierucci como protofascistas, e pol\u00edticos\ncomo En\u00e9as Carneiro, que no primeiro turno da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 1994\nchegou a ter 7,4% dos votos.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferentemente dos integralistas e seus camisas-verdes, os bolsonaristas\nainda n\u00e3o t\u00eam uma estrutura paramilitar organizada, mas conex\u00f5es com as\nmil\u00edcias policiais e a normaliza\u00e7\u00e3o de \u201ccamisas-pardas\u201d pr\u00f3-Bolsonaro em\nespa\u00e7os p\u00fablicos apontam para este caminho: a sedimenta\u00e7\u00e3o do apoio de massa a\numa ideologia e movimento fascista \u00e0 brasileira, com o cortejo de horrores que\nsempre traz consigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte da hist\u00f3ria moderna do pa\u00eds e um dos subprodutos de suas fundas\nmazelas, o fascismo \u00e0 brasileira sempre esteve por a\u00ed, com seu rosto e gestos\namea\u00e7adores, ainda que, em geral, perambulando nas margens da vida nacional.\n\nAgora,\ncontudo, galgou um dos centros decis\u00f3rios do Estado brasileiro, o que significa\nque a velha amea\u00e7a logrou dar um alarmante salto de qualidade. \u00c9 tarefa n\u00famero\num de todos os democratas n\u00e3o s\u00f3 impedir que ela se consume, mas faz\u00ea-la\nregredir ao espa\u00e7o marginal de onde nunca deveria ter sa\u00eddo.\n\n\n\n<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Novaes, 15 de junho de 2020 H\u00e1 cerca de dois meses, retomei este blog com o prop\u00f3sito de contribuir para a compreens\u00e3o da conjuntura pol\u00edtica brasileira. 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