{"id":5532,"date":"2021-03-14T17:28:20","date_gmt":"2021-03-14T20:28:20","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5532"},"modified":"2021-03-16T19:56:05","modified_gmt":"2021-03-16T22:56:05","slug":"para-nao-dizer-que-nao-ha-boas-noticias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5532","title":{"rendered":"PARA N\u00c3O DIZER QUE N\u00c3O H\u00c1 BOAS NOT\u00cdCIAS"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Carlos Novaes, 14 de mar\u00e7o de 2021<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Com acr\u00e9scimo de par\u00e1grafos antes do final, em 16\/03, \u00e0s 20:00h<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O chiste de que o Brasil \u00e9, mesmo, o pa\u00eds do futuro, j\u00e1 que o futuro do mundo vai se parecendo cada vez mais com a indig\u00eancia brasileira, esconde um vi\u00e9s pseudo-cr\u00edtico, conformista e despontecializador. A ideia de que o mundo vai virando Brasil, no sentido de que todo o planeta vai ficando mais desigual e cada vez mais vive da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, e deixa viger a unilateralidade na aplica\u00e7\u00e3o da lei, \u00e9 interessante especialmente se valorizarmos o papel da sociabilidade brasileira nesse novo modo de arranjar o mundo. Valorizar o Brasil n\u00e3o de uma perspectiva nacionalista, por certo, mas, ao contr\u00e1rio, o Brasil como exerc\u00edcio de explora\u00e7\u00e3o de muitos por poucos, numa sequ\u00eancia de arranjos hist\u00f3ricos que sempre apontou o futuro do mundo precisamente porque sempre foi o teatro em que o capitalismo experimentou suas determina\u00e7\u00f5es em estado mais puro e em suas grandes linhas tendenciais. E o Brasil foi esse teatro porque seus potentados, possuidores e propriet\u00e1rios combinaram a predat\u00f3ria, populosa, cruenta, longeva e recente escravid\u00e3o com uma viva conex\u00e3o ao circuito mundial de mercadorias, dotando o pa\u00eds de uma experi\u00eancia radical de conviv\u00eancia de estabilidade tradicional com mobilidade moderna, e sem arremate propriamente nacional.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Predat\u00f3ria<\/strong> porque o escravo era predado na \u00c1frica, o que resultava numa desterritorializa\u00e7\u00e3o cuja implica\u00e7\u00e3o mais not\u00e1vel para o que se discute aqui era a destrui\u00e7\u00e3o no universo simb\u00f3lico da pessoa escravizada, pois al\u00e9m de n\u00e3o poder contar com o ambiente natural onde crescera, o escravo perdia todos os la\u00e7os familiares, deixava para tr\u00e1s todas as suas posses, mesmo a vestimenta, era apartado dos seus h\u00e1bitos alimentares, tinha destru\u00eddos seus ritos sociais e proibidos seus rituais religiosos, e, para c\u00famulo, via sem utilidade sua pr\u00f3pria l\u00edngua, misturado que era com outras etnias africanas (at\u00e9 rivais) e obrigado que era a obedecer ordens em l\u00edngua que n\u00e3o era a sua e \u00e0 qual n\u00e3o conhecia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<pre class=\"wp-block-verse\">Detalhe: por essa raz\u00e3o foi imposs\u00edvel escravizar a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena local em larga escala e com proveito no engate ao circuito mundial das mercadorias, afinal, a popula\u00e7\u00e3o amer\u00edndia conhecia como ningu\u00e9m o territ\u00f3rio e contrap\u00f4s ao invasor o seu universo simb\u00f3lico. Em linha com isso, oportuno observar que a escravid\u00e3o russa teve nesse aspecto uma diferen\u00e7a fundamental com o Brasil, o que determinou muitas outras diferen\u00e7as, a come\u00e7ar pelo nacionalismo, fraqu\u00edssimo aqui, fort\u00edssimo l\u00e1: \u00e9 que na R\u00fassia o escravo era o pr\u00f3prio nacional, falante da mesma l\u00edngua, crente das mesmas cren\u00e7as e, sobretudo, portador comum de todas as outras mem\u00f3rias, desde tempos imemoriais. Voltemos.<\/pre>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><em><strong>Populosa<\/strong> porque entraram no Brasil cerca de 5 milh\u00f5es de escravos vindos de \u00c1frica, contingente que gerou descend\u00eancia numerosa, que faz com que mais da metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira atual seja, em alguma medida, composta por descendentes de descendentes de africanos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Cruenta<\/strong> porque no Brasil foi tremendo o massacre do escravo pelo castigo e pelos maus tratos, quando n\u00e3o pelo assassinato sem \u00f3bice legal e totalmente legitimado pelo costume, tudo isso em raz\u00e3o, inclusive, das dificuldades para manter a ordem desigual sobre uma grande popula\u00e7\u00e3o escrava.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Longeva<\/strong> porque a escravid\u00e3o no Brasil durou 350 anos, e, mesmo assim (ou, at\u00e9 por isso), a aboli\u00e7\u00e3o tardia se deu de um modo que preservou praticamente todas as prerrogativas desiguais que condenaram a popula\u00e7\u00e3o escrava liberta aos sofrimentos que insistem em n\u00e3o se separar da mis\u00e9ria.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Recente<\/strong> porque tendo vindo at\u00e9 \u00e0s portas do s\u00e9culo XX, a escravid\u00e3o no Brasil estendeu longas e profundas ra\u00edzes, que nutrem toxicamente o \u201cdesenvolvimento nacional\u201d at\u00e9 hoje.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Como a estabilidade tradicional sempre foi obtida com acerba repress\u00e3o sobre os de baixo, opress\u00e3o cuja contrapartida \u00e9 a mobilidade moderna para os de cima, o Brasil jamais conseguiu a solda nacionalista, que sempre requer a ades\u00e3o insciente dos de baixo a um projeto que n\u00e3o \u00e9 seu, mas ao qual adere como se o fosse. No Brasil, n\u00e3o: com profunda sabedoria (oriunda tamb\u00e9m da destrui\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica mencionada acima), os de baixo sempre desdenharam dos vultos nacionais, deixados ao coc\u00f4 dos pombos de pra\u00e7a, e jamais se alienaram aos projetos nacionais edificantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, de tempos recentes para c\u00e1, propagados por ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o de massa, feitos esportivos vem contribuindo para delinear entre n\u00f3s um nacionalismo tardio, fraco, meio bo\u00e7al, ao qual, em sua antiga falta de fibra estrat\u00e9gica e em seu manjado oportunismo eleitoreiro, a nossa autointitulada esquerda vem aderindo, sem se dar conta de que assim vai legitimando o uso bo\u00e7al que os conservadores instilam na tend\u00eancia. O Brasil vem chegando ao nacionalismo justo na hora em que a mis\u00e9ria do mundo d\u00e1 raz\u00e3o ao que por aqui sempre houve de resist\u00eancia natural ao embuste do projeto nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa perspectiva, estamos mais uma vez na contram\u00e3o, e duplamente: deploramos que o mundo venha se assemelhando ao Brasil e damos como resposta insciente um nacionalismo anacr\u00f4nico ou um racialismo perigoso, mistureba que resulta numa autoafirma\u00e7\u00e3o despeitada e regressiva, calcada em motiva\u00e7\u00f5es conservadoras contraproducentes.<\/p>\n\n\n\n<p>O racialismo \u00e9 uma fuga regressiva pseudo internacionalista que contorna o problema mais dif\u00edcil: dizer do que \u00e9 ser brasileiro. As sa\u00eddas branquelas s\u00e3o nacionalistas exatamente por isso: se refugiam no anacronismo de um nacional n\u00e3o apenas tardio, mas impertinente em face da mem\u00f3ria brasileira, pois a grande vantagem da nossa sociedade foi ter se mostrado infensa aos nacionalismos justamente porque a escravid\u00e3o a vacinou contra orgulhos p\u00e1trios.<\/p>\n\n\n\n<p>Melhor seria valorizar o Brasil como exemplo negativo, quando visto em suas assimetrias, e como exemplo positivo, quando visto desde a resist\u00eancia n\u00e3o nacionalista do seu povo aos sofrimentos impostos por essas assimetrias, sa\u00eddas da desigualdade. De modo que o desafio \u00e9 orientar o Brasil num sentido emancipat\u00f3rio que prescinda de ra\u00e7a e de nacionalismo, o que seria uma orienta\u00e7\u00e3o realmente p\u00f3s-moderna. <\/p>\n\n\n\n<p>Se os pa\u00edses do mundo v\u00e3o ficando cada vez mais parecidos entre si, e se esse mundo mudado vem assumindo contornos de Brasil, \u00e9 sinal de que o capitalismo, enquanto fen\u00f4meno planet\u00e1rio, est\u00e1 a se aproximar daquele que sempre foi o seu padr\u00e3o n\u00e3o expl\u00edcito, jamais reconhecido, mas que sempre vigeu: o Brasil. Se h\u00e1 um povo treinado para resistir ao futuro do capitalismo, esse \u00e9 o povo brasileiro. Brasileiros de todos os pa\u00edses, uni-vos!<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Novaes, 14 de mar\u00e7o de 2021 Com acr\u00e9scimo de par\u00e1grafos antes do final, em 16\/03, \u00e0s 20:00h O chiste de que o Brasil \u00e9, mesmo, o pa\u00eds do futuro, j\u00e1 que o futuro do mundo vai se parecendo cada vez mais com a indig\u00eancia brasileira, esconde um vi\u00e9s pseudo-cr\u00edtico, conformista e despontecializador. 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