{"id":559,"date":"2014-09-07T18:58:44","date_gmt":"2014-09-07T21:58:44","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=559"},"modified":"2014-09-11T18:39:57","modified_gmt":"2014-09-11T21:39:57","slug":"o-fim-do-que-nunca-existiu-o-lulismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=559","title":{"rendered":"O FIM DO QUE NUNCA EXISTIU &#8211; o lulismo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Carlos Novaes, 7 de setembro de 2014<\/p>\n<p>N\u00e3o faz muito tempo que, com o brilho f\u00e1tuo dos <em>pseudo<\/em> conceitos, um espectro emergiu da manjedoura da nossa estrebaria acad\u00eamica: o <i>lulismo<\/i>. Protegido pela benevol\u00eancia amiga dos mais velhos, poupado pela covardia corporativa de comensais contempor\u00e2neos e louvado pela adula\u00e7\u00e3o carreirista dos disc\u00edpulos, esse gasparzinho da cr\u00edtica camarada enfunou-se, e rapidamente se espraiou pelas reda\u00e7\u00f5es do jornalismo pol\u00edtico. Pairando desajeitado sobre as elei\u00e7\u00f5es municipais de 2012, ele imaginou ver confirma\u00e7\u00e3o da sua exist\u00eancia na vit\u00f3ria de Fernando Haddad para prefeito de S\u00e3o Paulo, ainda que para lograr essa encarna\u00e7\u00e3o tenha precisado comportar-se como um zumbi: aboliu a mem\u00f3ria eleitoral da mais populosa cidade do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Qualquer um que tenha se debru\u00e7ado sobre a <a title=\"A geografia do Voto em SP\" href=\"http:\/\/www.google.com.br\/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=1&amp;cad=rja&amp;uact=8&amp;ved=0CB0QFjAA&amp;url=http%3A%2F%2Fnovosestudos.uol.com.br%2Fv1%2Ffiles%2Fuploads%2Fcontents%2F79%2F20080626_a_geografia_do_voto.pdf&amp;ei=m8oMVMvtDsK1yAT-9oLQDQ&amp;usg=AFQjCNEwDoWcLUTRiHVQcS8VbbipuZM7DA&amp;bvm=bv.74649129,d.cWc\">hist\u00f3ria eleitoral da cidade<\/a> desde que as elei\u00e7\u00f5es diretas foram reintroduzidas, em 1988, quando Luiza Erundina se saiu vitoriosa, sabe que a periferia tem preferido o PT (padr\u00e3o que pode mudar nesta elei\u00e7\u00e3o de 2014) e as \u00e1reas centrais votam ora \u00e0 direita, ora ao centro. Uma camada endinheirada e mais escolarizada das \u00e1reas centrais da cidade tamb\u00e9m pode <a title=\"Elei\u00e7\u00e3o para prefeito de SP em 1996\" href=\"http:\/\/www.google.com.br\/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=9&amp;cad=rja&amp;uact=8&amp;ved=0CE4QFjAI&amp;url=http%3A%2F%2Fwww.novosestudos.org.br%2Fv1%2Ffiles%2Fuploads%2Fcontents%2F80%2F20080626_o_primeiro_turno.pdf&amp;ei=m8oMVMvtDsK1yAT-9oLQDQ&amp;usg=AFQjCNGP9iP0UXV6g4TUp5CLWkjzPo-QTg&amp;bvm=bv.74649129,d.cWc\">votar PT<\/a> em pleitos municipais, desde que diante da combina\u00e7\u00e3o de duas circunst\u00e2ncias: o candidato anti-PT seja inaceit\u00e1vel e o candidato do PT ilumine essa inaceitabilidade com um perfil social em que aquela camada se reconhe\u00e7a. Foi assim que depois da ado\u00e7\u00e3o dos dois turnos o PT venceu a disputa para a prefeitura de SP duas vezes: a primeira com Marta Suplicy, em 2000, e a segunda com Haddad, em 2012.<\/p>\n<p>Como a primeira dessas duas vit\u00f3rias em tudo assemelhadas se deu dois anos antes de Lula chegar \u00e0 presid\u00eancia em 2002 (quando, embora tenha ganho a elei\u00e7\u00e3o, Lula perdeu para o candidato de FHC entre os pobres assistidos pelo <i>governo<\/i> federal), pretender creditar a um suposto <i>lulismo<\/i> a vit\u00f3ria de Haddad \u00e9 tomar um lulismo por outro. O lulismo que operou em favor de Haddad foi a for\u00e7a de Lula <i>dentro<\/i> do PT, adquirida depois que ele escapou do <i>mensal\u00e3o<\/i> enquanto viu queimar ali o \u00fanico quadro que fazia o contraponto ao seu <a title=\"A burocratiza\u00e7\u00e3o e a oligarquiza\u00e7\u00e3o do PT\" href=\"http:\/\/www.google.com.br\/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=1&amp;cad=rja&amp;uact=8&amp;ved=0CB0QFjAA&amp;url=http%3A%2F%2Fnovosestudos.org.br%2Fv1%2Ffiles%2Fuploads%2Fcontents%2F69%2F20080625_pt_dilemas.pdf&amp;ei=Z8oMVJL2GM2ZyATGo4D4Aw&amp;usg=AFQjCNER7RA1KBpTULVN6uia8eHz4K_kzQ&amp;bvm=bv.74649129,d.cWc\">mando carism\u00e1tico sobre a burocracia partid\u00e1ria<\/a>, o Z\u00e9 Dirceu. Tendo imposto Haddad como candidato, o lulismo de partido concluiu sua tarefa &#8211; o resto foi feito pelo petismo e pelo eleitorado paulistano, que assim como entendeu o esgotamento de Maluf em 2000, constatou o de Serra em 2012, em ambos os casos favorecendo a candidatura petista de perfil conciliador, sem que haja dados que justifiquem dizer que nesse \u00faltimo pleito teria havido um &#8220;realinhamento&#8221; eleitoral na cidade.<\/p>\n<p>Mas o espectro n\u00e3o se d\u00e1 por achado e volta a ulular em 2014, agora buscando ref\u00fagio num suposto n\u00facleo duro do <i>lulismo<\/i>, massa densa de pobres assistidos por programas sociais federais que, depois de exibir um t\u00e3o in\u00e9dito quanto fantasioso realinhamento de prefer\u00eancias, apresentaria, agora, uma inclina\u00e7\u00e3o especial por &#8220;candidatos lulistas&#8221;, sintagma j\u00e1 de si esquisito, pois n\u00e3o sabemos se estes tais candidatos s\u00e3o &#8220;lulistas&#8221; porque Lula os ap\u00f3ia, se porque eles se dizem &#8220;lulistas&#8221;, ou porque defendem o que seria identificado pelo eleitor como um ide\u00e1rio &#8220;lulista&#8221; , ou ainda porque se poderia defini-los como &#8220;lulistas&#8221; segundo um bem assentado conceito de <em>lulismo &#8211;<\/em>&#8211;\u00a0provavelmente \u00e9 um pouco de cada coisa&#8230; Seja como for, o tal realinhamento definido como\u00a0<i>lulismo<\/i> seria a explica\u00e7\u00e3o para os mais pobres preferirem Dilma.<\/p>\n<p>Permitam-me transigir com o implaus\u00edvel apenas no intuito de melhor demonstrar sua imperspicuidade: esque\u00e7amos que o que explica o voto dos mais pobres em Dilma \u00e9 n\u00e3o esse fen\u00f4meno recent\u00edssimo, o <i>lulismo<\/i>, mas o velho de s\u00e9culos <i>governismo<\/i>. Esque\u00e7amos isso e aceitemos a tese novidadeira &#8212; que, diga-se de passagem, j\u00e1 vem sendo aliviada de suas pretens\u00f5es explicativas, escolhendo acomodar-se numa fenomenologia eleitoral de baixa intensidade &#8211;, esque\u00e7amos o velho para observar o que se passa com os dois candidatos mais vistosa e inapelavelmente lulistas desta elei\u00e7\u00e3o: Alexandre Padilha, em SP; e Lindenbergh Faria, no Rio.<\/p>\n<p>Se houvesse um <i>lulismo<\/i> realinhando prefer\u00eancias do eleitor mais pobre, Padilha e Lindenbergh deveriam estar colhendo esse realinhamento, e n\u00e3o est\u00e3o. O que as pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de voto vem mostrando \u00e9, a um s\u00f3 tempo, novo e velho: velho porque mostram em pleno vigor a gratid\u00e3o e o conservadorismo <i>governista<\/i> dos pobres, que votam preferencialmente em Dilma nesses estados; e novo porque esses mesmos pobres, vivendo nos dois mais din\u00e2micos estados da federa\u00e7\u00e3o, muito mais informados do que no passado, embora n\u00e3o tenham deixado de ser gratos e conservadores, n\u00e3o deixam de perceber que n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para misturar as coisas e atinam que seria indevido transferir seus sentimentos governistas <i>federais<\/i> para os lulistas <i>estaduais<\/i> &#8212; superam, assim, a confus\u00e3o desinformada que seria necess\u00e1ria para seguirem um n\u00e3o menos confuso <i>lulismo<\/i>, que nunca existiu, e preferem votar em candidatos a governador segundo crit\u00e9rios que n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o direta com os tais programas federais de assist\u00eancia e renda e, muito menos, se guiam por hemisf\u00e9rios liberais e n\u00e3o-liberais no cen\u00e1culo eleitoral (aqui as coisas j\u00e1 tomam contornos de del\u00edrio).<\/p>\n<p>Lula, que acreditou na lenda do <em>lulismo<\/em>, parece estar colhendo o resultado das escolhas reais que fez e sobre as quais tive oportunidade de <a title=\"Motiva\u00e7\u00f5es e consequ\u00eancias da defini\u00e7\u00e3o por Dilma\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=34\">escrever <\/a>na virada de 2008 para 2009, quando ele se fixava em Dilma como sua candidata \u00e0 sucess\u00e3o de 2010:<\/p>\n<blockquote><p>Esse arranjo, a um s\u00f3 tempo autorit\u00e1rio e popular, tem levado alguns cr\u00edticos a dizer que Lula repete Putin, o todo poderoso ex-presidente da R\u00fassia. Embora a hist\u00f3ria pol\u00edtica das duas sociedades se preste cada vez mais a compara\u00e7\u00f5es iluminadoras (escravid\u00e3o at\u00e9 a segunda metade do s\u00e9culo XIX, tentativa autocr\u00e1tica para sair do atraso, populismo presidencialista, oligarquiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica corrupta, etc), Putin imp\u00f4s Medvedev com duas diferen\u00e7as fundamentais: primeiro, a condi\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de que o pr\u00f3prio Putin continuaria em cena, e em primeiro plano, agora na figura de primeiro-ministro fortalecido com poderes subtra\u00eddos da presid\u00eancia; segundo, uma maioria governista quase p\u00e9trea, sem contraste, no legislativo russo. Ou seja, como j\u00e1 n\u00e3o vai estar l\u00e1, Lula arma para o Brasil experimento ainda mais prec\u00e1rio do ponto de vista da rotina institucional: se entregar a faixa presidencial a quem deseja, Lula abrir\u00e1 a caixa de Pandora onde espremeu o PMDB e a burocracia petista \u2013 que v\u00eam aceitando a compress\u00e3o da mola e a tudo suportam no antegozo de que o dia de amanh\u00e3 lhes pertence \u2013 mergulhando o pa\u00eds num v\u00f3rtice que engolir\u00e1 o pr\u00f3prio Lula.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Novaes, 7 de setembro de 2014 N\u00e3o faz muito tempo que, com o brilho f\u00e1tuo dos pseudo conceitos, um espectro emergiu da manjedoura da nossa estrebaria acad\u00eamica: o lulismo. 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