{"id":5771,"date":"2021-08-07T16:42:20","date_gmt":"2021-08-07T19:42:20","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5771"},"modified":"2023-01-11T17:44:58","modified_gmt":"2023-01-11T20:44:58","slug":"voto-impresso-e-crise-de-legitimacao-2-de-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5771","title":{"rendered":"VOTO IMPRESSO E CRISE DE LEGITIMA\u00c7\u00c3O \u2014 2 DE 2"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Em 10\/08\/2021, \u00e0s 19:00 &#8212; O TIRO SAIU PELA CULATRA<\/strong> &#8212; No desfile militar com as tr\u00eas for\u00e7as militares do pa\u00eds, Bolsonaro consumou o blefe cl\u00e1ssico, aquele que desmoraliza o blefador e tamb\u00e9m o jogo. De tanto blefar, teve de mostrar o jogo real, e exp\u00f4s os militares ao rid\u00edculo: em sua obedi\u00eancia ao entulho autorit\u00e1rio, as FFAA acabaram por terem de aparecer de p\u00fablico como sucata. Aos que ainda temiam um golpe militar de Bolsonaro: agora j\u00e1 n\u00e3o pode haver d\u00favida de que o dispositivo militar do besta \u00e9 t\u00e3o real quanto o era o <a href=\"http:\/\/almanaque.folha.uol.com.br\/ditadura_27mar1994_janio_de_freitas.htm\" data-type=\"URL\" data-id=\"http:\/\/almanaque.folha.uol.com.br\/ditadura_27mar1994_janio_de_freitas.htm\">dispositivo militar do Jango<\/a>, em 1964&#8230; Felizmente, dessa vez o rid\u00edculo est\u00e1 do outro lado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><strong>VOTO IMPRESSO E CRISE DE LEGITIMA\u00c7\u00c3O \u2014 2 DE 2<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Carlos Novaes, 07 de agosto de 2021<\/p>\n\n\n\n<p>Se, como vimos no <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5762\" data-type=\"post\" data-id=\"5762\">artigo anterior<\/a>, a maioria da sociedade brasileira lutou por democracia, prefere a democracia, vota democraticamente e ainda assim se v\u00ea contrariada pela pr\u00e1tica do Estado de Direito Autorit\u00e1rio, fica evidente que a <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3017\" data-type=\"post\" data-id=\"3017\">contrariedade \u00e9 com o Estado, n\u00e3o com a democracia<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=3737\" data-type=\"post\" data-id=\"3737\">Separar a no\u00e7\u00e3o<\/a> de <em>\u201cEstado de direito\u201d<\/em>, das no\u00e7\u00f5es de <em>\u201cautoritarismo\u201d<\/em> e de <em>\u201cdemocracia\u201d<\/em> \u00e9 fundamental para entendermos o que se passa. Ao arremedar o que seria o Estado de Direito Democr\u00e1tico almejado pela maioria da sociedade brasileira, as for\u00e7as pol\u00edticas que hegemonizaram a constru\u00e7\u00e3o do Estado de Direito Autorit\u00e1rio foram levadas a construir la\u00e7os com as aspira\u00e7\u00f5es dessa maioria, pois, se n\u00e3o o fizessem, o <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=2761\" data-type=\"post\" data-id=\"2761\">Estado de Direito Autorit\u00e1rio<\/a> seria invi\u00e1vel de sa\u00edda. O desafio foi engendrar la\u00e7os que pudessem ser postos a servi\u00e7o dos seus pr\u00f3prios interesses facciosos. Como se trata de uma din\u00e2mica social, n\u00e3o de uma conspira\u00e7\u00e3o, as acomoda\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias levaram tempo (j\u00e1 l\u00e1 se v\u00e3o mais de 30 anos!!) para irem logrando seus \u00eaxitos e, ent\u00e3o, uma a uma (Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma) foram encontrando seus pr\u00f3prios limites, at\u00e9 o conjunto entrar em desarranjo, como estamos a ver na forma dessa crise de legitima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quer dizer: o jogo entre as fac\u00e7\u00f5es estatais que se constitu\u00edram (e est\u00e3o em movimento) nesse processo de transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica truncada (sem ruptura com o Estado ditatorial anterior) n\u00e3o p\u00f4de e n\u00e3o pode afrontar de maneira vis\u00edvel <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=4159\" data-type=\"post\" data-id=\"4159\">o desejo fundamental da maioria<\/a>: a consolida\u00e7\u00e3o de uma democracia. Por isso, as fac\u00e7\u00f5es foram levadas a fazer da <strong>engenharia eleitoral<\/strong> (via <em>\u201cEstado de direito\u201d<\/em>) o ponto de encontro (no <em>&#8220;de direito&#8221;<\/em>) entre aquele desejo da maioria (<em>\u201cdemocracia\u201d<\/em>) e a sua pr\u00f3pria din\u00e2mica facciosa (o <em>\u201cautoritarismo\u201d<\/em>, que trai aquele desejo): a realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es honestas tem permitido contemplar o desejo da maioria e, ao mesmo tempo, oferece um solo firme (a regra) para que as fac\u00e7\u00f5es afiram seu pr\u00f3prio tamanho na hora de fraudar tudo o mais que se segue \u00e0 elei\u00e7\u00e3o &#8212; eis uma forma elaborad\u00edssima de cinismo pol\u00edtico-social.<\/p>\n\n\n\n<p>A urna eletr\u00f4nica \u00e9 confi\u00e1vel porque ela \u00e9 o <strong>mecanismo tecnol\u00f3gico<\/strong> da franquia democr\u00e1tica que traduz todo o arranjo legal entre a aspira\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica da maioria da sociedade e os interesses facciosos daqueles que que se dedicam ao <em>exerc\u00edcio faccioso dos poderes institucionais<\/em> no Estado de Direito Autorit\u00e1rio. A urna eletr\u00f4nica tem de ser confi\u00e1vel porque essa confiabilidade favorece a cegueira dos eleitores para as fraudes que se d\u00e3o <em>antes<\/em> das elei\u00e7\u00f5es (nas promessas das campanhas eleitorais) e, sobretudo, \u00e9 essa confiabilidade da urna que amarra o eleitor \u00e0 din\u00e2mica institucional das fraudes que se d\u00e3o <em>depois <\/em>da proclama\u00e7\u00e3o dos resultados eleitorais, pelos quais a urna afere e atesta as for\u00e7as dispon\u00edveis para o jogo das fac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A veracidade da urna eletr\u00f4nica est\u00e1 a servi\u00e7o da ilegitimidade da pr\u00e1tica pol\u00edtica real. Evidentemente, a solu\u00e7\u00e3o do paradoxo n\u00e3o est\u00e1 em tornar a urna eletr\u00f4nica inconfi\u00e1vel, como querem os que prop\u00f5em o voto impresso.<\/p>\n\n\n\n<p>Conhecer essa ordem de raz\u00f5es \u00e9 fundamental para entender o alcance do que se passa quando o presidente da C\u00e2mara e maioral do Centr\u00e3o, Arthur Lira, se apresenta seguro ao enviar ao plen\u00e1rio a PEC do voto impresso, derrotada na comiss\u00e3o especial que a analisou, dizendo:<\/p>\n\n\n\n<p><em><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-58124209\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-58124209\">\u201cvamos levar sim a quest\u00e3o do voto impresso para o plen\u00e1rio, onde todos os parlamentares eleitos legitimamente pela urna eletr\u00f4nica v\u00e3o decidir. E eu friso: foram eleitos todos pela urna eletr\u00f4nica&#8221;.<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Lira sabe do que, e de onde, fala. Sob o argumento de que pretende \u201cpacificar\u201d a quest\u00e3o, ele tomou uma iniciativa que s\u00f3 os ing\u00eanuos ou ideologicamente cegos podem interpretar como favor\u00e1vel a Bolsonaro; pelo contr\u00e1rio, assim como no caso do <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5423\" data-type=\"post\" data-id=\"5423\">ot\u00e1rio Daniel Silveira<\/a>, Lira est\u00e1 a criar condi\u00e7\u00f5es para tornar ainda mais dif\u00edcil a vida do presidente <a href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=5352\" data-type=\"post\" data-id=\"5352\">a quem tem na m\u00e3o<\/a>. \u00c9 que depois de recuar dos arroubos ditatoriais se rendendo ao Centr\u00e3o, rendi\u00e7\u00e3o essa que foi acompanhada da entrega do butim na forma de verbas e cargos (extra\u00eddos sobretudo da fac\u00e7\u00e3o militar), Bolsonaro \u2013 que n\u00e3o entende o jogo das fac\u00e7\u00f5es mesmo estando no n\u00facleo duro dele \u2013 n\u00e3o obteve a paz que ingenuamente imaginara que alcan\u00e7aria. Ele simplesmente n\u00e3o se d\u00e1 conta de que governar um Estado de Direito Autorit\u00e1rio requer que o presidente se torne ele pr\u00f3prio um agente faccioso para arbitrar a guerra incessante entre as fac\u00e7\u00f5es, sendo vedado a ele se colocar contra esse Estado, como faz ao insistir no voto impresso.<\/p>\n\n\n\n<p>A estupidez e o pendor ditatorial que constituem a natureza bruta de Bolsonaro o tornaram incapaz de exercer a presid\u00eancia da Rep\u00fablica no Estado de Direito Autorit\u00e1rio: a estupidez o leva a desprezar a complexidade do jogo das fac\u00e7\u00f5es, em tudo enxergando conspira\u00e7\u00f5es contra si e os seus; o pendor ditatorial, al\u00e9m de aparta-lo do desejo por democracia da maioria da sociedade, ainda o empurra a querer resolver na marra a guerra das fac\u00e7\u00f5es \u2013 em ambos os casos, ele se p\u00f5e como advers\u00e1rio ditatorial do Estado de Direito Autorit\u00e1rio, o que realimenta a auto ilus\u00e3o de enxergar a si mesmo como um vetor antissistema, justamente o sistema do qual proveio e ao qual, pela outra ponta, voltou a integrar quando se rendeu ao Centr\u00e3o retirando cargos dados \u00e0 fac\u00e7\u00e3o militar com a qual delirava poder dar um golpe, golpe este com o qual, n\u00e3o obstante a falta de lastro, ele ainda blefa nesse vaiv\u00e9m de barata tonta entre suas duas origens, a militar (do Estado ditatorial), e a paisano-congressual (desde o seu primeiro mandato no Congresso do Estado de Direito Autorit\u00e1rio). N\u00e3o tem escapat\u00f3ria, e tampouco tem como dar certo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FICA O REGISTRO:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Aos interessados no realismo liter\u00e1rio na R\u00fassia do s\u00e9culo XIX, informo que no curso deste m\u00eas de julho conclu\u00ed a vers\u00e3o final do meu livro sobre as rela\u00e7\u00f5es que julgo ter descoberto entre obras dos escritores russos Ivan Turgu\u00eaniev e Aleksandr P\u00fachkin. A mera leitura dos \u00edndices do meu trabalho mostra que o estudo do material liter\u00e1rio me levou a interpretar de maneira nova passagens decisivas de&nbsp;<em><strong>Eug\u00eanio Oneguin<\/strong><\/em>&nbsp;e de&nbsp;<strong><em>Notas de um ca\u00e7ador<\/em><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis o link para a vers\u00e3o integral do livro, em formato&nbsp;<strong>.pdf<\/strong>:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><a href=\"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/LITERATURA-CONTRA-IMOBILISMO-NA-RUSSIA-DO-SECULO-XIX_Carlos-NOVAES_VERSAO_FINAL.pdf\">LITERATURA CONTRA IMOBILISMO NA R\u00daSSIA DO S\u00c9CULO XIX<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em><a href=\"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/LITERATURA-CONTRA-IMOBILISMO-NA-RUSSIA-DO-SECULO-XIX_Carlos-NOVAES_VERSAO_FINAL.pdf\">Realismo liter\u00e1rio como cr\u00edtica em obras-primas de Aleksandr P\u00fachkin e Ivan Turgu\u00eaniev<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 10\/08\/2021, \u00e0s 19:00 &#8212; O TIRO SAIU PELA CULATRA &#8212; No desfile militar com as tr\u00eas for\u00e7as militares do pa\u00eds, Bolsonaro consumou o blefe cl\u00e1ssico, aquele que desmoraliza o blefador e tamb\u00e9m o jogo. 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