{"id":6782,"date":"2022-03-04T22:21:10","date_gmt":"2022-03-05T01:21:10","guid":{"rendered":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=6782"},"modified":"2022-07-31T14:35:57","modified_gmt":"2022-07-31T17:35:57","slug":"guerra-mundial-como-alibi-para-sacrificar-a-ucrania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=6782","title":{"rendered":"GUERRA MUNDIAL COMO \u00c1LIBI PARA SACRIFICAR A UCR\u00c2NIA"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Carlos Novaes, 04 de mar\u00e7o de 2022<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra na Ucr\u00e2nia pode levar a uma nova guerra mundial? Evidentemente, ningu\u00e9m s\u00e9rio pode pretender dar resposta cabal a essa pergunta. O que se pode fazer \u00e9 us\u00e1-la como provoca\u00e7\u00e3o para interpretar a situa\u00e7\u00e3o. Proponho tr\u00eas passos: 1. rememorar os fatos do per\u00edodo imediatamente anterior \u00e0 invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia; 2. analisar as rea\u00e7\u00f5es \u00e0 guerra de Putin dentro e fora da Ucr\u00e2nia; 3. observar os movimentos de Putin e dos outros diante dessas rea\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Antes de invadir a Ucr\u00e2nia, Putin submeteu o pa\u00eds e a OTAN a uma guerra de nervos, na qual os lances principais foram o deslocamento massivo de tropas e equipamentos para a fronteira do pa\u00eds vizinho e a apresenta\u00e7\u00e3o de sua exig\u00eancia descabida de que a OTAN e a Ucr\u00e2nia deveriam dar garantias formais de que jamais se uniriam (essa exig\u00eancia \u00e9 descabida porque nenhum pa\u00eds pode pretender impor ao vizinho rol e modelo de la\u00e7os de amizade &#8212; do contr\u00e1rio, at\u00e9 o criminoso embargo dos EUA contra Cuba passaria a ser aceit\u00e1vel).<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desses fatos e, provavelmente, detendo outras informa\u00e7\u00f5es, os <a href=\"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=6766\" data-type=\"post\" data-id=\"6766\">EUA passaram a advertir<\/a> a opini\u00e3o p\u00fablica mundial de que Putin planejava invadir a Ucr\u00e2nia. Putin negava a invas\u00e3o, insistia em dizer que se tratavam de exerc\u00edcios militares e at\u00e9 o governo da Ucr\u00e2nia declarava que os avisos dos EUA configuravam alarmismo. Embora sem repetirem o comportamento dos EUA, outros governos europeus demonstravam receios de uma invas\u00e3o e trataram com Putin sobre ela, sempre sob negativas do russo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois bem: Putin estendeu essa situa\u00e7\u00e3o por meses porque vinha sondando o terreno. Estava medindo o tamanho da rea\u00e7\u00e3o que viria se ele levasse a invas\u00e3o a cabo. No curso das tens\u00f5es que cresciam do lado advers\u00e1rio, ele, paradoxalmente, foi recebendo elementos que o tranquilizavam, afinal, todos os pa\u00edses importantes, a come\u00e7ar pelos EUA, deixaram claro que n\u00e3o enviariam tropas, nem fariam a\u00e7\u00f5es de defesa militar em favor da Ucr\u00e2nia. Ademais, ele deve ter interpretado a insist\u00eancia do presidente ucraniano por calma como evid\u00eancia de que ele nem tinha disposi\u00e7\u00e3o de luta, nem contava com apoio interno para tal.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de sondar longamente o terreno das tergiversa\u00e7\u00f5es dos maiorais da OTAN, seus constantes sinais de que, afinal, nada de muito forte fariam em favor da Ucr\u00e2nia, al\u00e9m de observar a usual falta de unidade que transparecia na movimenta\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses advers\u00e1rios, e de ter obtido algum tipo de sinal verde da China, Putin acabou por entender que a invas\u00e3o que tinha em mente n\u00e3o lhe traria rev\u00e9s maior do que aquele que j\u00e1 enfrentara em 2014, quando arrebatou a Crim\u00e9ia e estimulou guerrilha separatista ao leste da mesma Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa perspectiva, Putin invadiu a Ucr\u00e2nia porque EUA e aliados, sem o querer, mas sob tremendo erro de avalia\u00e7\u00e3o acerca de suas pr\u00f3prias declara\u00e7\u00f5es e atitudes, acabaram por dar par\u00e2metros que levaram os estrategistas russos \u00e0 conclus\u00e3o de que os ganhos de uma invas\u00e3o militar superariam as perdas, at\u00e9 porque poderiam lidar com rea\u00e7\u00f5es diferentes entre os pa\u00edses advers\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Feita a invas\u00e3o, Putin descobriu que iniciara uma guerra: EUA e aliados responderam com uma unidade e ferocidade de prop\u00f3sitos que contrastam muito com o que haviam feito no curso dos meses em que Putin foi tomando coragem. Mais uma vez, nada se aprende da hist\u00f3ria, verdade que se rep\u00f5e a cada vez que a hist\u00f3ria se repete! Mesmo sabendo que havia risco de Putin fazer besteira, os advers\u00e1rios n\u00e3o se uniram de modo a mostrar for\u00e7a dissuas\u00f3ria efetiva. Preferiam manter suas pol\u00edticas de rela\u00e7\u00f5es exteriores pr\u00f3prias, e s\u00f3 depois da guerra iniciada passaram realmente a girar numa conex\u00e3o que se tivesse aparecido antes teria levado Putin em outra dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No espa\u00e7o nacional ucraniano a rea\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a que Putin esperava, basta ver que al\u00e9m de n\u00e3o ter antecipado a ira popular ucraniana que sobreveio contra si, ele alimentava o c\u00e1lculo expl\u00edcito em uma deser\u00e7\u00e3o militar pr\u00f3 R\u00fassia nas FFAA da Ucr\u00e2nia, em ambos os casos deixando-se cegar pelo seu pr\u00f3prio nacionalismo eslav\u00f3filo e, como de praxe, desprezando o nacionalismo eslavo alheio &#8212; os russos n\u00e3o querem aceitar que s\u00e3o odiados pelos eslavos a quem sempre dominaram e\/ou maltrataram.  <\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, tal como Nicolau-I na guerra da Crim\u00e9ia<strong>*<\/strong>, toda essa rea\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria n\u00e3o antecipada est\u00e1 a mostrar a Putin que ele iniciou uma guerra que n\u00e3o lhe convinha&#8230; Mas agora \u00e9 tarde para recuar, e a situa\u00e7\u00e3o, que em guerras \u00e9 sempre incerta, est\u00e1 especialmente confusa: afinal, o que Putin vai fazer com a Ucr\u00e2nia, mesmo que a tome inteira para si?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A primeira rea\u00e7\u00e3o de Putin \u00e0 magnitude inesperada do rev\u00e9s foi voltar a se conduzir como nos meses pr\u00e9-invas\u00e3o: de um lado negou os efeitos sentidos (tal como negava a invas\u00e3o pretendida) e, de outro, fez amea\u00e7as de ainda mais belicismo, agora nuclear (tal como mostrava os dentes ao fazer suas exig\u00eancias descabidas na fase pr\u00e9-invas\u00e3o). Essa primeira rea\u00e7\u00e3o s\u00f3 piorou as coisas, pois \u00e0 encarni\u00e7ada resist\u00eancia ucraniana ele viu se somar movimentos como os de Finl\u00e2ndia e Su\u00e9cia, que adotaram atitude in\u00e9dita contra ele. Como a rea\u00e7\u00e3o ucraniana passou a exigir \u00edmpeto b\u00e9lico, guerra aberta; e como a rea\u00e7\u00e3o externa se mostrou extremamente danosa e surpreendentemente unit\u00e1ria, Putin passou a se ver numa situa\u00e7\u00e3o especialmente dif\u00edcil: ter de fazer cruenta uma guerra que imaginara aceit\u00e1vel para seus principais advers\u00e1rios, pois esperara que  eles se limitariam ao esperneio impotente de praxe.<\/p>\n\n\n\n<p>Putin, ent\u00e3o, refreou o \u00edmpeto b\u00e9lico em solo ucraniano para, tal como na fase pr\u00e9-invas\u00e3o, ganhar tempo, sondar melhor o \u00e2nimo advers\u00e1rio dos aliados da Ucr\u00e2nia e sentir melhor o tamanho da resist\u00eancia interna. Ao mesmo tempo, faz pequenos blefes com ret\u00f3rica nuclear, enquanto acena com a normalidade nos compromissos de fornecimento de energia.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, os maiorais da OTAN continuam a dar o mesmo sinal de sempre: trouxeram exclusivamente para si a conduta respons\u00e1vel de evitar uma nova guerra na Europa (como se a R\u00fassia nada tivesse a perder com uma guerra ali), fazendo dessa possibilidade de conflito a antessala de uma nova guerra mundial, tudo como \u00e1libi para mais uma vez oferecer a Putin negativas expl\u00edcitas de maior ajuda militar \u00e0 Ucr\u00e2nia; com o que, uma vez mais, d\u00e3o-lhe tempo para refazer c\u00e1lculos na seguran\u00e7a de quem n\u00e3o vai ter de enfrentar mais dificuldades b\u00e9licas vindas dos &#8220;aliados&#8221; da Ucr\u00e2nia. Essa estrat\u00e9gia s\u00f3 ir\u00e1 funcionar no longo prazo (para que?!, perguntaria a Ucr\u00e2nia) e, mesmo assim, se todos os pa\u00edses se mantiverem firmes no bloqueio \u00e0 R\u00fassia pelos pr\u00f3ximos anos &#8212; ser\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, o presidente da Ucr\u00e2nia tem raz\u00e3o: a OTAN deu a Putin licen\u00e7a para matar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>* O escritor russo Ivan Turgu\u00eaniev<\/strong>\u00a0deu tratamento liter\u00e1rio a esses eventos em dois dos tr\u00eas contos cronol\u00f3gicos que incluiu tardiamente em seu cl\u00e1ssico\u00a0<em><strong>Notas de um ca\u00e7ador<\/strong><\/em>. Em um deles, intitulado\u00a0<em>O fim de Tchertopkh\u00e1nov<\/em>, ele trata metaforicamente da Guerra da Crim\u00e9ia e no outro,\u00a0<em>Rel\u00edquia viva<\/em>, ele faz o mesmo com as circunst\u00e2ncias do fim da servid\u00e3o na R\u00fassia. A an\u00e1lise que realizei para fazer aflorar o at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dito sentido oculto de cada uma dessas obras pode ser lida entre as p\u00e1ginas 180 e 213 do meu livro\u00a0<strong>LITERATURA CONTRA IMOBILISMO NA R\u00daSSIA DO S\u00c9CULO XIX<\/strong>, que pode ser encontrado em formato\u00a0<strong>.pdf<\/strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/LITERATURA-CONTRA-IMOBILISMO-NA-RUSSIA-DO-SECULO-XIX_Carlos-NOVAES_VERSAO_FINAL.pdf\">aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Novaes, 04 de mar\u00e7o de 2022 A guerra na Ucr\u00e2nia pode levar a uma nova guerra mundial? Evidentemente, ningu\u00e9m s\u00e9rio pode pretender dar resposta cabal a essa pergunta. O que se pode fazer \u00e9 us\u00e1-la como provoca\u00e7\u00e3o para interpretar a situa\u00e7\u00e3o. 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