{"id":77,"date":"2013-08-21T18:32:46","date_gmt":"2013-08-21T18:32:46","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=77"},"modified":"2013-09-04T18:20:38","modified_gmt":"2013-09-04T18:20:38","slug":"bicicleta-na-malha-metropolitana-de-sp-problema-nao-solucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=77","title":{"rendered":"BICICLETA NA MALHA METROPOLITANA DE SP:  PROBLEMA, N\u00c3O SOLU\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\" align=\"center\"><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">\u00a0<\/span><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">Carlos Novaes, junho de 2011<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">(Em raz\u00e3o de debate no Jornal da Cultura &#8211; TV Cultura de SP)<\/p>\n<p>Neste texto quero ponderar o seguinte:<\/p>\n<p>I. O uso que <b><span style=\"text-decoration: underline;\">J\u00c1<\/span><\/b> se faz da <b><span style=\"text-decoration: underline;\">bicicleta<\/span><\/b> como <b><span style=\"text-decoration: underline;\">meio de transporte<\/span><\/b> na RMSP n\u00e3o chega a ser relevante para entender, dimensionar e conceber alternativas para o problema de ganhar fluxo e conforto no transporte metropolitano \u2013 \u00e9 relativamente irris\u00f3rio o uso da bicicleta como meio de transporte entre n\u00f3s;<\/p>\n<p>II. A explica\u00e7\u00e3o para essa irrelev\u00e2ncia na RMSP n\u00e3o \u00e9 a falta de ciclovias, mas a pr\u00f3pria bicicleta, o que ela exige do usu\u00e1rio;<\/p>\n<p>III. Alterar essa situa\u00e7\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o de aumentar a presen\u00e7a da <b><span style=\"text-decoration: underline;\">bicicleta<\/span><\/b> na cena urbana como <b><span style=\"text-decoration: underline;\">meio de transporte<\/span><\/b> n\u00e3o \u00e9 adequado quando se tem em mente tornar menos atravancado e sofrido o deslocamento di\u00e1rio de milh\u00f5es de pessoas <b><span style=\"text-decoration: underline;\">na RMSP<\/span><\/b>;<\/p>\n<p>IV. O uso da bicicleta nas vias de tr\u00e1fego principais, destinadas aos ve\u00edculos automotores, \u00e9 parte do problema, n\u00e3o da solu\u00e7\u00e3o para a falta de fluxo e conforto no deslocamento di\u00e1rio de milh\u00f5es de pessoas pela RMSP;<\/p>\n<p>V. Toda essa irrelev\u00e2ncia cicl\u00edstica ganhou destaque desproporcional no debate p\u00fablico em raz\u00e3o da afei\u00e7\u00e3o de parte consider\u00e1vel da classe m\u00e9dia por sa\u00eddas fantasiosas dos problemas.<\/p>\n<p>I. O uso atual, que J\u00c1 se faz, da <b><span style=\"text-decoration: underline;\">bicicleta<\/span><\/b> como <b><span style=\"text-decoration: underline;\">meio de transporte<\/span><\/b> na RMSP \u00e9 irrelevante para pens\u00e1-la como alternativa p\u00fablica<\/p>\n<ol>\n<li>Os usu\u00e1rios de bicicleta representam <b><span style=\"text-decoration: underline;\">apenas<\/span><\/b> 0,8% das viagens di\u00e1rias realizadas pela popula\u00e7\u00e3o da RMSP;<\/li>\n<li>Al\u00e9m de pouco significativas como alternativa de transporte, essas <b><span style=\"text-decoration: underline;\">poucas<\/span><\/b> viagens est\u00e3o concentradas em \u00e1reas da periferia, principalmente em idas para o trabalho em trajetos curtos, sem o emprego da indument\u00e1ria e dos equipamentos adequados. Um exemplo entre outros s\u00e3o os empregados em atividades industriais, pois as ind\u00fastrias (diferentemente dos servi\u00e7os) n\u00e3o foram instaladas nos centros urbanos, mas nas periferias, em raz\u00e3o dos custos das grandes \u00e1reas que suas plantas ocupam;<\/li>\n<li>N\u00e3o \u00e9 de surpreender que 27% dos usu\u00e1rios de bicicleta digam: o que os leva \u00e0 pr\u00e1tica \u00e9 o fato de o transporte p\u00fablico ser caro, passar lotado e\/ou estar mal planejado onde moram. Vale dizer: trocariam de bom grado a bicicleta pelo \u00f4nibus, se tivessem mais dinheiro ou se ele fosse menos desconfort\u00e1vel;<\/li>\n<li><i>Outros<\/i> 57%, <b><span style=\"text-decoration: underline;\">desses<\/span><\/b> que fazem <b><i><span style=\"text-decoration: underline;\">menos de 1%<\/span><\/i><\/b> das viagens di\u00e1rias na RMSP, justificam o uso da bicicleta pelo trajeto curto \u2013 logo, se fosse mais longo, tamb\u00e9m optariam (<b>27+57=84%!<\/b>) pelo ve\u00edculo automotor, conclus\u00e3o nada trabalhosa de tirar, <b><i><span style=\"text-decoration: underline;\">pois \u00a0 \u00a0<\/span><\/i><\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p>II. Da perspectiva<b>\u00a0individual\u00a0<\/b>do trafegante na<b>\u00a0RMSP<\/b>, esse uso irris\u00f3rio da\u00a0<b>bicicleta<\/b>\u00a0como\u00a0<b>meio de transporte<\/b>\u00a0est\u00e1 ligado aos seguintes aspectos:<\/p>\n<p>5. Bicicleta \u00e9 um meio de transporte MUITO <b><span style=\"text-decoration: underline;\">cansativo<\/span><\/b> na RMSP: relevo (aclives de todo g\u00eanero), clima e grandes dist\u00e2ncias entre trabalho e casa. Antes de mais nada, essas caracter\u00edsticas exigem um preparo f\u00edsico que a maioria das pessoas n\u00e3o t\u00eam. Mesmo se fossem oportunas, ciclovias n\u00e3o mudariam esses fatos.<\/p>\n<p>5.1.\u00a0\u00a0 <b><span style=\"text-decoration: underline;\">O cansa\u00e7o<\/span><\/b> fica mais relevante se levarmos em conta que:<\/p>\n<p>a. \u00e9 necess\u00e1rio <b><span style=\"text-decoration: underline;\">voltar<\/span><\/b> para casa depois de um dia inteiro de trabalho;<\/p>\n<p>b. na bicicleta, a responsabilidade pelo bom transcurso \u00e9 do usu\u00e1rio (stress, concentra\u00e7\u00e3o ao longo de todo o trajeto, etc);<\/p>\n<p>c. a <b><i><span style=\"text-decoration: underline;\">volta<\/span><\/i><\/b> para casa se d\u00e1 ao crep\u00fasculo, ou mesmo quando j\u00e1 \u00e9 noite fechada, o que p\u00f5e exig\u00eancias adicionais de aten\u00e7\u00e3o, implica em far\u00f3is na cara e traz ainda mais riscos, mesmo se houvessem ciclovias, que s\u00e3o impr\u00f3prias por outras raz\u00f5es, como veremos.<\/p>\n<p>5.2.\u00a0\u00a0 As pessoas <b><span style=\"text-decoration: underline;\">n\u00e3o usam bicicleta como meio de transporte<\/span><\/b> porque para a maioria de milh\u00f5es esse m\u00e9todo de transporte \u00e9 desproporcionalmente trabalhoso, muito diferente de quando o objetivo do ciclista <i>n\u00e3o \u00e9 o transporte<\/i>, mas o pr\u00f3prio pedalar (lazer, esporte), eis porque:<\/p>\n<p>d. o ciclista deve fazer uso de equipamentos especiais: prote\u00e7\u00f5es de articula\u00e7\u00f5es, capacete, \u00f3culos, al\u00e9m de roupa e cal\u00e7ado adequados ao pedalar, mormente para grandes dist\u00e2ncias. Quando a id\u00e9ia \u00e9 pedalar por pedalar, tudo bem, pois o destino final ser\u00e1, quase sempre, o mesmo do in\u00edcio, e o ciclista n\u00e3o precisar\u00e1 RETIRAR seus equipamentos e roupas no meio do trajeto. Ora, quem se dirigir ao trabalho de bicicleta ter\u00e1 de RETIRAR e GUARDAR seus equipamentos, e ao final de um dia de faina, se remontar para enfrentar o trajeto de volta \u2013 simples, n\u00e3o?;<\/p>\n<p>e. para pedalar at\u00e9 o trabalho, muitos ciclistas precisariam levar seu cal\u00e7ado e uma muda de roupa, pois n\u00e3o poderia trabalhar com a indument\u00e1ria de ciclista, pelo menos na imensa maioria dos casos. Mesmo que usasse bicicleta com bagageiro (em desuso) e acomodasse ali, diariamente, uma bolsa adequada, onde passaria a roupa a ferro? \u2013 Naturalmente, o ciclista de lazer e esporte n\u00e3o tem esse problema, pois s\u00f3 vai tirar a roupa na volta \u2013 e ainda h\u00e1 a chuva, reinante na RMSP;<\/p>\n<p>f. pedalar longas dist\u00e2ncias (mormente com subidas e descidas) n\u00e3o apenas cansa, mas leva o ciclista a suar. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil constatar a diferen\u00e7a entre <i>pedalar para se exercitar<\/i> e <b><span style=\"text-decoration: underline;\">pedalar como transporte<\/span><\/b>: no primeiro caso o destino do pedalante \u00e9 o chuveiro e um merecido descanso; no segundo caso, o destino do pedalante \u00e9 o ambiente de trabalho, onde ele ter\u00e1 de trabalhar por 08 horas (ou mais!) e onde n\u00e3o h\u00e1 chuveiro;<\/p>\n<p>g. seja ou n\u00e3o o leitor sens\u00edvel \u00e0 realidade feminina, concorde ou n\u00e3o com certos tra\u00e7os dela, temos todos de reconhecer que fazer uso de <b><span style=\"text-decoration: underline;\">bicicleta<\/span><\/b> como <b><span style=\"text-decoration: underline;\">meio de transporte<\/span><\/b> \u00e9 especialmente complicado para a maioria das mulheres. Elas n\u00e3o v\u00e3o de bicicleta em raz\u00e3o de: maquiagem, roupa, sapato, cabelo, higiene, bagageiro limitado, aus\u00eancia de infra-estrutura decente no local de trabalho, etc (a menos que o leitor tenha em mente alterar h\u00e1bitos e prefer\u00eancias culturais arraigadas com base na <i>propaganda<\/i> do uso ben\u00e9fico da bicicleta&#8230;);<\/p>\n<p>h. ou seja, essas dificuldades (e os 84% mais acima) explicam porque n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel supor que haja uma demanda reprimida consider\u00e1vel por melhores condi\u00e7\u00f5es para o uso da <b><span style=\"text-decoration: underline;\">bicicleta<\/span><\/b> como <b><span style=\"text-decoration: underline;\">meio de transporte<\/span><\/b> na RMSP;<\/p>\n<p><b><i><span style=\"text-decoration: underline;\">i. em suma, nada do que se disse <\/span><\/i><\/b>at\u00e9 aqui<b><i><span style=\"text-decoration: underline;\"> mudaria se houvesse as indevidamente reclamadas ciclovias nas grandes vias da RMSP<\/span><\/i><\/b>. Ou seja, os custos dessas ciclovias n\u00e3o se justificam quando se tem em mente essa demanda pequena para o transporte cotidiano por bicicleta.<\/p>\n<p><b>6. Bicicleta \u00e9 um meio de transporte<\/b>\u00a0MUITO\u00a0<b>perigoso<\/b>\u00a0na RMSP, perigo que resulta tamb\u00e9m da conduta criminosa, imprudente e, especialmente, imperita e distra\u00edda dos motoristas de ve\u00edculos automotores, somada \u00e0 condi\u00e7\u00e3o particularmente fr\u00e1gil do ciclista, que n\u00e3o passa de um pedestre ainda mais tolhido em suas possibilidades de autodefesa. Esmiucemos isso.<\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">Para o que nos ocupa aqui, parece produtivo classificar a conduta indevida dos motoristas de ve\u00edculos automotores em: criminosa, imprudente, imperita e distra\u00edda. A a\u00e7\u00e3o da imensa maioria de n\u00f3s, que dirigimos, pode ser descrita por alguma dessas rubricas:<\/span><\/p>\n<p>a. criminosos: s\u00e3o os motoristas que assumem o risco de danos graves a outrem para obter fluxo indevido \u2013 avan\u00e7am sinais, invadem faixas de pedestres, trafegam em velocidade superior \u00e0 permitida;<\/p>\n<p>b. imprudentes: s\u00e3o os motoristas que andam no limite, em busca de ganhos permanentes de fluxo: colam na traseira de quem vai \u00e0 frente, mudam de faixa repentinamente (achando que basta dar seta);<\/p>\n<p>c. imperitos: s\u00e3o os motoristas desprovidos da per\u00edcia necess\u00e1ria \u00e0 condu\u00e7\u00e3o de um ve\u00edculo automotor, ainda que munidos da CNH;<\/p>\n<p>d. distra\u00eddos: s\u00e3o os motoristas que n\u00e3o alocam ao ato de dirigir a concentra\u00e7\u00e3o devida.<\/p>\n<p>Pois bem, empregar <b><span style=\"text-decoration: underline;\">bicicleta como meio de transporte<\/span><\/b> na RMSP faz do ciclista v\u00edtima potencial de TODOS esses tipos de motoristas, e n\u00e3o apenas dos dois primeiros tipos. Dizendo de outro modo: diariamente ocorrem na RMSP centenas de acidentes entre motoristas dos dois \u00faltimos tipos e n\u00f3s nem ficamos sabendo, a imprensa n\u00e3o chega a noticiar, pois as coisas se resolvem no local e\/ou segundo entendimentos entre os motoristas imperitos\/distra\u00eddos. E por que n\u00e3o noticia, se s\u00e3o, de longe, os acidentes de tipo mais numeroso? Pela simples raz\u00e3o de que lata batendo em lata, de leve, amassa, mas n\u00e3o faz v\u00edtima. \u00c9 um aborrecimento, mas a vida segue. TUDO muda de figura se a batida de leve se d\u00e1 n\u00e3o contra a lata de outro, mas contra o corpo de outro. Ou seja, a multiplica\u00e7\u00e3o dos ciclistas levaria necessariamente \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o das trag\u00e9dias, pois n\u00e3o se trata apenas (nem principalmente) de crime e imprud\u00eancia, mas de imper\u00edcia e distra\u00e7\u00e3o, muito mais frequentes e muito mais dif\u00edceis de coibir e educar. \u00c9 nesse contexto que afirmo: o ciclista que se p\u00f5e a andar em meio aos ve\u00edculos automotores, nas grandes vias da RMSP, apoiado na id\u00e9ia de que <i>tem um direito<\/i>, \u00e9 um insensato, pois est\u00e1 voluntariamente arriscando a pr\u00f3pria vida. \u00c9 mais uma forma est\u00fapida de exercer um direito. Outros exemplos dessa mesma estupidez com base num <i>direito que torna v\u00edtima o pr\u00f3prio interessado<\/i>:<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 comprar uma arma<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 fumar<b><\/b><\/p>\n<p>&#8211;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 entrar no mar em ressaca<\/p>\n<p>No caso da arma, o dano a si mesmo s\u00f3 aparece se e quando a arma for utilizada, sem que possa haver d\u00favidas de que quanto mais as pessoas se armarem, mais tiros e viol\u00eancia vai haver.<\/p>\n<p>No caso do ato de fumar, finalmente se entendeu que o dano a terceiro coincidia, em geral, com o dano a si mesmo e, assim, vem havendo restri\u00e7\u00e3o progressiva ao exerc\u00edcio do suic\u00eddio com cigarro \u2013 ainda que n\u00e3o se possa, nem deva, proibir o uso privado isolado do cigarro.<\/p>\n<p>No caso do nadar no mar em ressaca, o dano a si mesmo s\u00f3 aparece quando se d\u00e1 o afogamento&#8230;ocasi\u00e3o em que se ir\u00e1 provocar, inclusive, indevidas despesas p\u00fablicas (fora desse cen\u00e1rio tr\u00e1gico, \u00e9 uma discut\u00edvel gl\u00f3ria&#8230;)<\/p>\n<p>Deixo ao leitor descrever a ramifica\u00e7\u00e3o dos custos no caso dos acidentes com bicicletas, que iriam se multiplicar na exata medida em que mais ciclistas exercerem o <i>seu<\/i> direito \u2013 sendo certo que um ciclista no leito carro\u00e7\u00e1vel de uma grande avenida \u00e9 t\u00e3o impr\u00f3prio quanto um pedestre que insistisse em andar entre os ve\u00edculos automotores (e o cicilista solit\u00e1rio em movimento ocupa mais espa\u00e7o do que um ve\u00edculo utilit\u00e1rio, pois todos devem guardar dele 1,5 metros nas quatro dire\u00e7\u00f5es. Ou seja, o ciclista em movimento no meio da via ocupa, no m\u00ednimo, 3,6mx4,8m da via p\u00fablica!). \u00c9 <i>dessa semelhan\u00e7a<\/i> que nasce a surpresa inconformada quando se v\u00ea um ciclista entre os carros (\u201co que ele faz aqui!!?\u201d), e n\u00e3o necessariamente de uma suposta intoler\u00e2ncia ou propens\u00e3o criminosa dos motoristas, n\u00e3o obstante existam.<\/p>\n<p>III. Da perspectiva do <b><span style=\"text-decoration: underline;\">interesse coletivo<\/span><\/b> dos que se deslocam na <b><span style=\"text-decoration: underline;\">RMSP<\/span><\/b>, o uso da <b><span style=\"text-decoration: underline;\">bicicleta<\/span><\/b> como <b><span style=\"text-decoration: underline;\">meio de transporte<\/span><\/b> \u00e9 contraproducente<\/p>\n<ol>\n<li>A falta de \u00e1reas laterais livres, que permitissem a expans\u00e3o do leito carro\u00e7\u00e1vel, na imensa maioria das vias da RMSP, exigiria ceder para as <b><span style=\"text-decoration: underline;\">ciclovias<\/span><\/b> \u00e1reas hoje destinadas aos ve\u00edculos automotores, medida contraproducente porque:<\/li>\n<\/ol>\n<p>1.1.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 imporia restri\u00e7\u00f5es ainda maiores ao fluxo dos ve\u00edculos automotores, sem ganho efetivo, pois n\u00e3o tiraria motores fumegantes das ruas (como vimos, n\u00e3o h\u00e1 porque ter a esperan\u00e7a tola de que milh\u00f5es de <b><i><span style=\"text-decoration: underline;\">indiv\u00edduos<\/span><\/i><\/b> ir\u00e3o optar pela <b><span style=\"text-decoration: underline;\">bicicleta<\/span><\/b> como meio de <b><span style=\"text-decoration: underline;\">transporte<\/span><\/b> na RMSP);<\/p>\n<p>1.2.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 anularia o esfor\u00e7o que se deve fazer para retirar das ruas ve\u00edculos automotores <i><span style=\"text-decoration: underline;\">individuais<\/span><\/i>. N\u00e3o devemos trocar 6 por meia d\u00fazia: tirar os carros, mas para p\u00f4r mais \u00f4nibus, n\u00e3o bicicletas. Ou seja, nas grandes vias, mais corredores para \u00f4nibus, n\u00e3o ciclovias;<\/p>\n<p>1.3.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 imporia penalidades sem oferecer alternativa para quem se desloca com ve\u00edculo individual automotor \u2013 criar ciclovia nas faixas em que hoje trafegam os carros \u00e9 como impor rod\u00edzio, ou seja, uma mera nega\u00e7\u00e3o \u2013 tiremos os carros, mas ofere\u00e7amos mais e melhores \u00f4nibus;<\/p>\n<p>2. A id\u00e9ia da <b><span style=\"text-decoration: underline;\">bicicleta<\/span><\/b> como <b><span style=\"text-decoration: underline;\">meio de transporte<\/span><\/b> <i>complementar<\/i> na <b><span style=\"text-decoration: underline;\">RMSP<\/span><\/b>, permitindo estacionamento para ela em esta\u00e7\u00f5es do metr\u00f4, n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel como solu\u00e7\u00e3o de massas porque:<\/p>\n<p>2.1. \u00a0nossa malha de metr\u00f4 \u00e9 pequena e pouco ramificada: a dist\u00e2ncia entre local de moradia e\/ou trabalho e uma esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4 \u00e9 sempre grande para a maioria, o que traz de volta as observa\u00e7\u00f5es sobre cansa\u00e7o e trabalheira vistas mais acima;<\/p>\n<p>2.2. \u00a0nossa malha de metr\u00f4 vem sendo constru\u00edda sob as grandes avenidas, ou seja, chegar \u00e0s esta\u00e7\u00f5es de bicicleta exigiria pedalar em grandes avenidas, em meio aos ve\u00edculos automotores.<\/p>\n<p>Construir dezenas de quil\u00f4metros de ciclovias nas grandes vias da RMSP imporia gastos contraproducentes porque elas nem aumentariam o fluxo, nem melhorariam o conforto dos milh\u00f5es de pessoas que se deslocam diariamente aqui.<\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline;\">IV. Bicicleta<\/span><\/b> nas grandes vias da RMSP \u00e9 parte do <b><span style=\"text-decoration: underline;\">problema<\/span><\/b>, n\u00e3o da solu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<ol>\n<li>A insist\u00eancia em trafegar em bicicleta nas grandes vias da RMSP \u00e9 insensata e gera problemas coletivos em nome de benef\u00edcios privados para poucos e, ademais, relativamente desconsider\u00e1veis;<\/li>\n<li>Exatamente por ser um pedestre ainda mais fr\u00e1gil, pois est\u00e1 limitado pela bicicleta (n\u00e3o pode saltar, recuar, etc) lugar de ciclista n\u00e3o \u00e9 entre os ve\u00edculos automotores;<\/li>\n<li>Para tentar dar alguma seguran\u00e7a ao ciclista, a lei adota medidas que o levam a ocupar mais espa\u00e7o nas vias do que um carro comum: 0,5m de dist\u00e2ncia para o meio fio + 0,5m da pr\u00f3pria bicicleta + 1,5m da exig\u00eancia legal para os ve\u00edculos automotores que passam pelo ciclista = 2,5 m.<i> A lei tem de mudar e proibir o tr\u00e1fego com bicicleta nas grandes vias metropolitanas, em SP.<\/i><\/li>\n<\/ol>\n<p>Alguns dados sobre a fragilidade do ciclista de classe m\u00e9dia padr\u00e3o, que sai de casa paramentado como se fosse entrar num vel\u00f3dromo, mas o que faz \u00e9 arriscar a vida nas grandes vias saturadas da RMSP, nas quais nenhum enfeite o levar\u00e1 a desenvolver uma velocidade m\u00e9dia de sequer 10 km\/h: com seu capacete vazado (ideal para a passagem do vento, mas que permite que uma ponta de vergalh\u00e3o, uma quina de meio-fio mal alinhado, atinjam seu cr\u00e2nio); com sua bermuda colada ao corpo (ideal para comprimir os m\u00fasculos do atleta e para facilitar a passagem do ar pelo velocista, mas in\u00f3cua em caso de impactos); com bra\u00e7os e pernas nus (ideal para o suor escorrer ao vento, mas desprovidos de qualquer prote\u00e7\u00e3o em queda no asfalto abrasivo); com suas sapatilhas (ideais para pedalar, mas impr\u00f3prias para proteger os p\u00e9s, t\u00e3o vulner\u00e1veis quanto os de um pedestre); com seus pneus sem p\u00e1ra-lamas (ideais para evitar o valor de arrasto, mas causa de trabalho redobrado para quem lava suas roupas). Assim fantasiado o ciclista de avenida \u00e9 o pr\u00f3prio retrato da aliena\u00e7\u00e3o: decorado para flanar, como se num vel\u00f3dromo sem competidores; mas recheado de apreens\u00e3o, a se arrastar mal humorado por vias enfuma\u00e7adas.<\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline;\">V. Bicicleta:<\/span><\/b> encanto e aliena\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A bicicleta encanta. A imensa maioria de n\u00f3s aprendeu a andar de bicicleta na inf\u00e2ncia. Quem esqueceu a emo\u00e7\u00e3o de receber a primeira bicicleta? E a alegria de andar nela, ent\u00e3o! A primeira sensa\u00e7\u00e3o de autonomia, de liberdade \u2013 depois das rodinhas laterais ficarem para tr\u00e1s, depois de nos livrarmos das m\u00e3os zelosas do adulto prestativo ou impaciente, era s\u00f3 o vento na cara e sua promessa de fluxo futuro pela vida aberta. Ah!, que imenso contraste com a vida adulta entulhada que levamos. Melhor era o mundo <b><i><span style=\"text-decoration: underline;\">da<\/span><\/i><\/b> bicicleta, claro! Da\u00ed para um mundo <b><i><span style=\"text-decoration: underline;\">de<\/span><\/i><\/b> bicicletas \u00e9 s\u00f3 uma pedalada no dispositivo da fuga regressiva, engatilhado em n\u00f3s qual um inseto, diria o poeta. Ainda mais se emprestarmos \u00e0 fantasia improvisados argumentos ambientalmente corretos, tendo o cuidado de deixar de lado o esfor\u00e7o enorme que o pedalar di\u00e1rio para o trabalho, e sobretudo na volta dele, exigiria ao homem comum, engajado nos pedais e j\u00e1 n\u00e3o contando sequer com o consolo casual (quando o tem!) de uma janela de \u00f4nibus para se perder na azul dist\u00e2ncia, numa fuga, essa sim, de consequ\u00eancias individuais benfazejas. A bicicleta \u00e9 l\u00fadica, sugere romanticamente a recupera\u00e7\u00e3o, na vida urbana insalubre, de um tempo em que o trabalho e o corpo saud\u00e1vel estavam integrados. Ah! O que j\u00e1 n\u00e3o devemos \u00e0 nostalgia insciente das durezas da vida rural.<\/p>\n<p>S\u00e3o essas saudades cruzadas trafegando em via congestionada por frustra\u00e7\u00f5es que induzem ativistas bem intencionados a celebrar o uso da bicicleta como meio de transporte na obliterada malha urbana da RMSP, a qual esfor\u00e7o nenhum, por herc\u00faleo que fosse, poder\u00e1 transformar na plana, amena, rica e relativamente espa\u00e7osa Amsterd\u00e3, onde a solu\u00e7\u00e3o antiga de outras interdi\u00e7\u00f5es \u00e0 alegria de viver livrou seu povo da infantilidade outra de encarar a posse de ve\u00edculo automotor individual como simulacro de integra\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma no fluxo da vida.<\/p>\n<p>Libertos dos impulsos alienantes que a dureza local instila, n\u00e3o podemos deixar de ver que a voca\u00e7\u00e3o da bicicleta entre n\u00f3s da RMSP \u00e9 o lazer, o aprimoramento f\u00edsico e a integra\u00e7\u00e3o das gera\u00e7\u00f5es, havendo muito por fazer, muito pelo que lutar, para que tenhamos espa\u00e7os adequados \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o m\u00ednima que seja dessa voca\u00e7\u00e3o. Em suma, para n\u00f3s da RMSP bicicleta \u00e9 principalmente brinquedo, e lugar de brinquedo \u00e9 no playground, por mais espa\u00e7oso que venhamos a conseguir que ele seja. Nas \u00e1reas onde realmente houver ganho em t\u00ea-las como meio de transporte perif\u00e9rico, nada a opor que se tenha pol\u00edticas para facilitar as coisas.<\/p>\n<p>Quanto ao transporte de massas, pelas grandes vias, e na integra\u00e7\u00e3o entre elas, gastemos nossas energias a lutar para que seja coletivo, confort\u00e1vel, farto e movido a eletricidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Carlos Novaes, junho de 2011 (Em raz\u00e3o de debate no Jornal da Cultura &#8211; TV Cultura de SP) Neste texto quero ponderar o seguinte: I. 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