{"id":835,"date":"2014-10-06T15:36:29","date_gmt":"2014-10-06T18:36:29","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=835"},"modified":"2014-10-07T21:09:15","modified_gmt":"2014-10-08T00:09:15","slug":"carisma-mudanca-e-conservacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=835","title":{"rendered":"CARISMA, MUDAN\u00c7A E CONSERVA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p align=\"right\">Carlos Novaes, ABRIL\u00a0<b>de 1994<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>APRESENTA\u00c7\u00c3O &#8212; 6 de outubro de 2014<\/b><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">O texto a seguir foi escrito pelo autor h\u00e1 mais de 20 anos e enviado \u00e0 Folha de S. Paulo, que n\u00e3o o publicou. Sua circula\u00e7\u00e3o ficou restrita ao CEBRAP, onde o autor trabalhava na \u00e9poca, e a c\u00f3pias impressas enviadas a alguns amigos. Publicado agora neste blog, ele me ajuda a deixar mais claro o apanhado hist\u00f3rico sum\u00e1rio que fa\u00e7o neste outro texto <a title=\"QUANDO A MEM\u00d3RIA MAIS CONSTRANGE DO QUE INFORMA O FLUXO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=837\">aqui<\/a>, que \u00e9 atual, de hoje.<\/span><\/p>\n<p>Na altura em que o texto abaixo foi escrito, Lula era o l\u00edder disparado nas pesquisas, mas havia uma fragilidade \u00f3bvia na candidatura, fragilidade que era refor\u00e7ada pela luta interna do PT, que levara uma ala da Articula\u00e7\u00e3o, corrente interna ent\u00e3o majorit\u00e1ria no partido, a simular esquerdismo (at\u00e9 hoje \u00e9 assim!) para assumir a dire\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria com apoio da ultra-esquerda petista, o que resultou num arranjo eleitoralmente contraproducente, pois o problema de Lula n\u00e3o era o de hoje, depois que ele se rendeu ao pacto conservador que FHC justamente logrou por de p\u00e9 depois da vit\u00f3ria naquela elei\u00e7\u00e3o de 1994. N\u00e3o. Naquela \u00e9poca Lula ainda aparecia como um reformista pr\u00e1 valer e, assim, tinha dificuldades para ultrapassar certas barreiras \u00e0 mudan\u00e7a no Brasil, como, de fato, acabou por ent\u00e3o n\u00e3o conseguir e, depois, por desistir. O texto abaixo reproduz exatamente o que escrevi, a quente, como resposta a um artigo de Jos\u00e9 Arthur Giannotti, que defendia a candidatura de FHC.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0CARISMA, MUDAN\u00c7A E CONSERVA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>No processo de impeachment, na CPI do Or\u00e7amento e no malogro da Revis\u00e3o Constitucional se deram sinais eloquentes de que os padr\u00f5es estruturais da pol\u00edtica brasileira se alteram em benef\u00edcio do avan\u00e7o pol\u00edtico dos progressistas e agu\u00e7ando as dificuldades vividas pelos conservadores para traduzirem no plano da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-institucional a hegemonia que conservam na ordem social geral. A CPI mostrou, de um lado, que os progressistas tem capacidade de iniciativa valendo-se dos mecanismos legados pelo processo constituinte e, de outro, que embora os conservadores possam resistir protegendo indiv\u00edduos, j\u00e1\u00a0n\u00e3o podem preservar pr\u00e1ticas institucionais anacr\u00f4nicas. Na mesma linha, a Revis\u00e3o mostrou conservadores sem capacidade de iniciativa coletiva e progressistas com capacidade de opor resist\u00eancia institucionalmente eficaz. Em suma, desde a Constituinte se pode observar que a trama interna das nossas institui\u00e7\u00f5es funciona segundo uma estrat\u00e9gia sem estrategista, mas de sentido inequ\u00edvoco: um patamar superior de gest\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o da coisa p\u00fablica. Condutas recentes do Minist\u00e9rio P\u00fablico, do Judici\u00e1rio e da Receita Federal oferecem evid\u00eancias adicionais desse processo.<\/p>\n<p>Esses epis\u00f3dios mostram o funcionamento da gram\u00e1tica pol\u00edtica de que fala Giannotti em artigo publicado na Folha (caderno Mais!, 10\/04\/94). Embora de sentido nem sempre evidente, o jogo da representa\u00e7\u00e3o vai progressivamente consolidando pr\u00e1ticas institucionais que seriam imposs\u00edveis se a representa\u00e7\u00e3o fosse o decalque dos interesses presentes na sociedade. A CPI do or\u00e7amento exibe isso \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o: embora os culpados mais not\u00f3rios venham escapulindo de reproches mais duros &#8212; visto que a gram\u00e1tica n\u00e3o suportaria cortes muito fundos, pois ela \u00e9 um jogo de pol\u00edticos entre pol\u00edticos &#8211;, t\u00e3o cedo n\u00e3o se ter\u00e1\u00a0um or\u00e7amento emendado daquela maneira. No caso da revis\u00e3o constitucional, s\u00f3 o del\u00edrio poderia presumir que ela gorou em fun\u00e7\u00e3o dos vetos da ortodoxia do PT, que pretendeu grandes mobiliza\u00e7\u00f5es de massa e n\u00e3o realizou nenhuma. A revis\u00e3o n\u00e3o foi adiante porque a complexidade de articula\u00e7\u00e3o dos interesses que a patrocinavam no Legislativo n\u00e3o encontrou denominador comum e esbarrou na a\u00e7\u00e3o <i>intra muros<\/i> dos que a ela se opunham.<\/p>\n<p>O Brasil de 1994 assiste, estampado na disputa presidencial, ao esgotamento do modo de operar do sistema pol\u00edtico que j\u00e1\u00a0 em 1989 claudicara. Ainda que se conserve uma opini\u00e3o p\u00fablica pol\u00edtica eminentemente populista &#8212; isto \u00e9, que desdenha partidos e outras formas de media\u00e7\u00e3o representativa e d\u00ea prefer\u00eancia \u00e0 atua\u00e7\u00e3o de l\u00edderes fortes &#8211;, o sentido dessa percep\u00e7\u00e3o populista da pol\u00edtica se inverteu. A diferen\u00e7a est\u00e1\u00a0em que pela primeira vez quem mobiliza as esperan\u00e7as do fundo do tacho n\u00e3o \u00e9 o candidato do capital, mas o candidato das for\u00e7as progressistas das grandes cidades. Trata-se de uma solda in\u00e9dita na pol\u00edtica brasileira: o candidato que dialoga com as expectativas neo-messi\u00e2nicas do grosso da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 produto (e agente) da moderniza\u00e7\u00e3o institucional engendrada no pa\u00eds nos \u00faltimos vinte anos.<\/p>\n<p>A desorienta\u00e7\u00e3o provocada por esse novo modo de apresenta\u00e7\u00e3o da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica brasileira explica tanto a atarantada busca de um anti-Lula pelos conservadores, quanto o frasismo pseudo-radical da ortodoxia presente na dire\u00e7\u00e3o do PT. No primeiro caso, o problema n\u00e3o estava exatamente na falta de um nome. Buscou-se em v\u00e3o a pe\u00e7a de um jogo que j\u00e1 n\u00e3o pode ser jogado porque falta o tabuleiro. Habituado a uma receita infal\u00edvel, o campo conservador se viu desprovido de um ingrediente fundamental, o carisma. Ao lado do poder do dinheiro, o carisma permitia o controle dos mecanismos fisiol\u00f3gicos de reposi\u00e7\u00e3o diuturna do sistema pol\u00edtico. Na aus\u00eancia dele, perdido para o outro lado, buscou-se, depois de muitas cabe\u00e7adas, precisamente trazer desse outro lado a compensa\u00e7\u00e3o: a respeitabilidade (e a modernidade) das media\u00e7\u00f5es negociadas. Da\u00ed a intermedia\u00e7\u00e3o entre Fernando Henrique Cardoso e as for\u00e7as conservadoras, via PFL.<\/p>\n<p>No caso do frasismo petista, a vantagem de Lula nas pesquisas vinha sendo festejada n\u00e3o como o resultado ainda fr\u00e1gil de um cont\u00ednuo processo de transforma\u00e7\u00f5es, mas como a possibilidade de uma ruptura completa com a ordem institucional que, afinal, garante a disputa. Essas expectativas desprezam tr\u00eas coisas fundamentais: 1. o carisma de Lula tem uma dimens\u00e3o populista, embora n\u00e3o seja ele um populista; 2. a presen\u00e7a do petismo na esfera institucional faz do PT express\u00e3o importante dessa ordem que se quer transformar; 3. por essas e outras raz\u00f5es, um almejado governo Lula n\u00e3o \u00e9 o limiar da supera\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<p>O carisma de Lula \u00e9 um fen\u00f4meno social cuja imensa complexidade s\u00f3 posso indicar. H\u00e1\u00a0 nele um tra\u00e7o muito n\u00edtido: \u00e9 um carisma que se expandiu atrav\u00e9s de media\u00e7\u00f5es e de institui\u00e7\u00f5es. O magnetismo da lideran\u00e7a de Lula cresceu alimentando-se da din\u00e2mica virtuosa da moderniza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds e jamais dependeu de formas diretas de marketing operadas em apari\u00e7\u00f5es de m\u00eddia, salvo aquelas que derivam do pr\u00f3prio fato de ele ter estado no centro dos acontecimentos mais importantes de nossa vida pol\u00edtica recente. Os contingentes esfarrapados que acorrem \u00e0s caravanas de Lula n\u00e3o est\u00e3o sendo manipulados por algu\u00e9m que simula o empenho pela mudan\u00e7a a servi\u00e7o de uma ordem cuja conserva\u00e7\u00e3o secretamente urde. N\u00e3o est\u00e3o tendo suas fantasias aumentadas com promessas absurdas. A ilus\u00e3o n\u00e3o vem por ai. A ilus\u00e3o aparece na aus\u00eancia de medida para calibrar as expectativas da mudan\u00e7a almejada. A marca do carisma de Lula n\u00e3o \u00e9 a conserva\u00e7\u00e3o, mas a incerteza.<\/p>\n<p>Como o conservadorismo n\u00e3o conta com o carisma populista, recorre a um tipo de negocia\u00e7\u00e3o que ganha a descompromissada forma da conversa. Fernando Henrique tem dado a impress\u00e3o de que negocia, quando na verdade abafa o horror a um projeto reformista que amea\u00e7a um modelo de gest\u00e3o da riqueza t\u00e3o confort\u00e1vel quanto injusto. Nossas elites s\u00f3 ir\u00e3o negociar quando o Estado estiver sob a coordena\u00e7\u00e3o in\u00e9dita de for\u00e7as hostis ao seu desfrute de mando pol\u00edtico combinado com poderio econ\u00f4mico. Essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da negocia\u00e7\u00e3o, pois negociar implica fazer um movimento na dire\u00e7\u00e3o de quem tem poder para agir diferente. E \u00e9 s\u00f3 por isso que Giannotti tem raz\u00e3o ao dizer que para governar Lula ter\u00e1\u00a0de ir para a direita. Mas se \u00e9 assim, o apego de Fernando Henrique \u00e0 coer\u00eancia n\u00e3o oferece garantia correspondente do outro lado, como pretende Giannotti ao igualar indevidamente em for\u00e7a um movimento objetivo, pr\u00f3prio dos constrangimentos da representa\u00e7\u00e3o, e um movimento subjetivo, que mesmo um Goethe n\u00e3o poderia garantir. Uma vez na presid\u00eancia, a coer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 dada pelas veleidades subjetivas do titular, por mais intelectualmente fundamentadas que sejam, mas pela tessitura social e pol\u00edtica que consubstanciou a investidura no cargo, configurada em uma gram\u00e1tica pol\u00edtica que se n\u00e3o \u00e9 o decalque dos interesses, tampouco conforma uma arena isolada da dimens\u00e3o substantiva da atividade dos interessados.<\/p>\n<p>A disposi\u00e7\u00e3o &#8212; ou a percep\u00e7\u00e3o da necessidade &#8212; de negociar que Lula exibe junto com setores hoje minorit\u00e1rios na dire\u00e7\u00e3o do PT, simbolizados por Erundina, Geno\u00edno e Mercadante, que s\u00e3o amplamente majorit\u00e1rios na sociedade civil petista, n\u00e3o \u00e9 \u00a0acompanhada pela maioria ortodoxa da dire\u00e7\u00e3o do partido. A incerteza embutida no sucesso de Lula atinge os frasistas do PT em justaposi\u00e7\u00e3o \u00e0 maneira como intranquiliza o capital: imagina-se que ela significa uma revolu\u00e7\u00e3o, subestimando-se os elementos de continuidade que a constrangem, para bem e para mal. Como quer que seja, Lula e seus aliados internos sabem que o que est\u00e1\u00a0 em jogo n\u00e3o \u00e9 a continuidade da ordem do capital no pa\u00eds, mas o seu padr\u00e3o de gest\u00e3o p\u00fablica. N\u00e3o estamos vivendo uma Revolu\u00e7\u00e3o, evento que destr\u00f3i as media\u00e7\u00f5es institucionais conhecidas, altera vertiginosamente as identidades coletivas, desarranja o processo de produ\u00e7\u00e3o e desestrutura a auto-imagem dos indiv\u00edduos. O Brasil vive uma agud\u00edssima crise pol\u00edtica, acompanhada de forte turbul\u00eancia institucional, mas n\u00e3o h\u00e1\u00a0crise de hegemonia. Nenhuma for\u00e7a pol\u00edtica relevante questiona, por exemplo, a exist\u00eancia ou a disposi\u00e7\u00e3o atual dos tr\u00eas poderes da Rep\u00fablica; o princ\u00edpio da propriedade privada n\u00e3o est\u00e1\u00a0em cheque; a busca do lucro n\u00e3o perdeu legitimidade etc.<\/p>\n<p>As for\u00e7as que instrumentalizam no PT os res\u00edduos confusos de uma ideologia inatual tornaram-se maioria beneficiando-se tamb\u00e9m do populismo presente no carisma de Lula, que jamais disputou abertamente esta ou aquela opini\u00e3o nos debates internos. Vivendo a ilus\u00e3o de ser a express\u00e3o depurada da luta interna do PT, Lula n\u00e3o fez caso de que a m\u00e1quina do partido vinha sendo engessada por uma oligarquia avessa aos compromissos que sua inser\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica brasileira imp\u00f5e. O risco mais dram\u00e1tico dessa omiss\u00e3o, cujos danos foram refor\u00e7ados pelo elitismo de outras lideran\u00e7as petistas, que subestimaram o poder intrigante dos mercadores ideol\u00f3gicos, \u00e9 o descredenciamento do PT como institui\u00e7\u00e3o de media\u00e7\u00e3o entre Lula e os interlocutores do centro.\u00a0 A continuidade da trajet\u00f3ria virtuosa do PT na sociedade brasileira requer que o partido multiplique a capacidade de negocia\u00e7\u00e3o do candidato. Mas para isso \u00e9 necess\u00e1rio que os mandarins da m\u00e1quina petista percebam que o sonho de escapar do segundo turno n\u00e3o pode velar a exist\u00eancia do terceiro: a forma\u00e7\u00e3o de um governo vi\u00e1vel, o que inclui o centro.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que, apesar de tudo, Lula avan\u00e7a, a dire\u00e7\u00e3o do PT vai ficando para tr\u00e1s. Se o candidato for bem-sucedido apesar da dire\u00e7\u00e3o do partido, o risco \u00e9 o refor\u00e7o da dimens\u00e3o populista do seu carisma. Ao n\u00e3o se apresentar como complemento \u00e0 expans\u00e3o do magnetismo do candidato, essa dire\u00e7\u00e3o mostra n\u00e3o se dar conta de que quanto mais eleitores se voltam para Lula, mais aumenta a superf\u00edcie de contato dele com a cultura pol\u00edtica com que ele est\u00e1\u00a0em permanente tens\u00e3o. Naturalmente n\u00e3o \u00e9 o caso de rejeitar esses votos, mas \u00e9 indispens\u00e1vel levar em conta as expectativas desmedidas que uma tal ades\u00e3o gera. Mas como a aposta de fundo \u00e9 numa ruptura, essa efervesc\u00eancia \u00e9 vista como benfazeja, negligenciando-se a matriz populista que tamb\u00e9m a alimenta. Na &#8220;participa\u00e7\u00e3o popular&#8221; idealizada no programa petista, em si mesma positiva, o exerc\u00edcio da cidadania \u00e9 imaginado como se fosse uma grande aspira\u00e7\u00e3o latente nas massas, por\u00e9m represada, bastando criar os canais para que o fluxo jorre. N\u00e3o \u00e9 assim. As pessoas ter\u00e3o que descobrir a cidadania, aprender a interessar-se pela coisa p\u00fablica, e isso requer tempo, muito tempo. Al\u00e9m disso, e a partir disso, imagina-se uma polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica cujo grau de enfrentamento \u00e9 muito alto se considerarmos a disposi\u00e7\u00e3o conservadora do eleitorado. Ainda que a maioria dele visse em Lula, j\u00e1 no primeiro turno (como sonhavam alguns), a materializa\u00e7\u00e3o de suas expectativas de mudan\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 prov\u00e1vel que o voto indicasse, na maioria dos casos, mais do que a escolha daquele que vai resolver para o povo os seus problemas.<\/p>\n<p>Parte da milit\u00e2ncia dirigente do PT ainda est\u00e1\u00a0prisioneira da velha ideia de que o objetivo da luta popular \u00e9 destruir o Estado burgu\u00eas, como se o receitu\u00e1rio v\u00e1lido para outros tempos, quando a presen\u00e7a organizada dos trabalhadores era irris\u00f3ria na sociedade burguesa, n\u00e3o tivesse se mostrado inadequado diante dos novos arranjos verificados com o advento das franquias democr\u00e1ticas. \u00c9 dessa dificuldade da dire\u00e7\u00e3o do PT para valorizar as media\u00e7\u00f5es institucionais que Giannotti parte para indigitar como anacr\u00f4nica a &#8220;participa\u00e7\u00e3o popular&#8221; prevista no Programa de Governo do PT. Documento que re\u00fane contribui\u00e7\u00f5es de origens as mais diferentes (e opostas), esse programa abriga par\u00e1grafos que se desmentem. Por isso, discordo igualmente do professor Paul Singer que, em artigo publicado tamb\u00e9m na Folha (caderno Mais!: 17\/04\/94), contrap\u00f5e aos argumentos unilaterais de Giannotti frases do Programa em que se valoriza a representa\u00e7\u00e3o institucional. O PT n\u00e3o \u00e9 nem s\u00f3 o que Singer elogia, nem s\u00f3 o que Giannotti critica. Documentos partid\u00e1rios n\u00e3o legislam sobre a pr\u00e1tica do partido; \u00e9 a pr\u00e1tica que confere sentido aos documentos. Por isso mesmo, ainda est\u00e1\u00a0 em disputa o sentido final das passagens que ambos citaram.<\/p>\n<p>Sejamos materialistas. Do final dos anos 70 para c\u00e1\u00a0 petistas de todos os matizes, ao lado de outras for\u00e7as democr\u00e1ticas, realizaram uma grande obra institucional, exercendo sua voca\u00e7\u00e3o para construir novas institui\u00e7\u00f5es. Formaram associa\u00e7\u00f5es populares e associa\u00e7\u00f5es sindicais, multiplicaram o sindicalismo rural, constru\u00edram a mais importante central sindical do pa\u00eds, deram passos importantes para estruturar uma central de Movimentos Populares e ergueram um partido pol\u00edtico digno de se chamar assim. Al\u00e9m disso, somaram esfor\u00e7os para a consolida\u00e7\u00e3o de outras formas de a\u00e7\u00e3o coletiva n\u00e3o clandestina, como o Movimento Negro, o Movimento das Mulheres e a Uni\u00e3o Nacional das Na\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas, e participaram com sucesso de muitos movimentos institucionais com dimens\u00e3o de massas, sendo as Diretas e o impeachment os maiores exemplos. Tudo somado, n\u00e3o h\u00e1\u00a0como fundamentar a id\u00e9ia surrada de que Lula simboliza uma utopia. Pode haver proposta que melhor articule realismo e criatividade do que as C\u00e2maras Setoriais?<\/p>\n<p>As cr\u00edticas que se tem feito ao PT omitem esse lado essencial da sua trajet\u00f3ria, tomam a nuvem por Juno. A fragilidade num\u00e9rica e a estreiteza te\u00f3rica da maioria dirigente atual n\u00e3o pode rivalizar com a riqueza dessa hist\u00f3ria. Al\u00e9m disso, essa maioria n\u00e3o conta sequer com unidade ideol\u00f3gica. Pelo contr\u00e1rio, ultimamente nomes proeminentes tem gasto boa parte do seu tempo buscando a f\u00f3rmula que lhes permita compor com Lula sem ca\u00edrem em descr\u00e9dito diante daqueles que os conduziram \u00e0 dire\u00e7\u00e3o exatamente porque defendiam posi\u00e7\u00f5es &#8220;duras&#8221;. Reveses recentes destes grupos &#8212; como na derrota de sua proposta de morat\u00f3ria da d\u00edvida externa e na tentativa malograda de excluir par\u00e1grafos que davam ao programa de governo do PT um car\u00e1ter reformista &#8212; deixam claro que a realidade vai agindo sobre o partido de modo a devolv\u00ea-lo ao leito de avan\u00e7os trilhado at\u00e9 bem recentemente por uma milit\u00e2ncia ciente de que a inspira\u00e7\u00e3o inicial do PT foi a inventividade pol\u00edtica a servi\u00e7o da amplia\u00e7\u00e3o da cidadania dos trabalhadores. Sua motiva\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica tem sido a de construir, n\u00e3o a de destruir. Seu dia-a-dia tem sido lutar por novos direitos, por institui\u00e7\u00f5es renovadas e por novas institui\u00e7\u00f5es. O PT \u00e9 bom nisso e sabe que \u00e9 por a\u00ed que o partido tem dado certo. O perfil de um governo Lula resultar\u00e1\u00a0 dessa intui\u00e7\u00e3o construtiva ditada pela pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A aposta que se faz aqui, portanto, n\u00e3o depende da coer\u00eancia subjetiva de um intelectual respeit\u00e1vel que recebe o apoio preliminar dos conservadores, mas das for\u00e7as sociais que d\u00e3o carne ao partido e ao sucesso do candidato que ponteia as pesquisas. Defina-se como se definir o lado conservador, Lula \u00e9 o candidato da mudan\u00e7a, ainda mais nitidamente do que em 1989. Quem votou em Lula daquela vez teria que motivos para deixar de faz\u00ea-lo hoje? \u00a0Afinal, em que o Lula de 94 est\u00e1\u00a0 aqu\u00e9m do de 89? J\u00e1\u00a0no ano passado ele fora mais longe em conversas com outros setores do que o fez nos 40 dias que mediaram os dois turnos de 89. O PT daquela \u00e9poca era muito mais imperme\u00e1vel \u00e0s exig\u00eancias do exerc\u00edcio compartilhado do poder do que hoje, quando conta com n\u00famero maior de quadros com experi\u00eancia na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. A solu\u00e7\u00e3o encontrada para o caso Bisol mostrou Lula com capacidade de comando, sustentando como novo vice um nome n\u00e3o simp\u00e1tico \u00e0 ortodoxia petista, embora sem a rapidez que s\u00f3 o autoritarismo permitiria.<\/p>\n<p>A despeito da maioria atual na dire\u00e7\u00e3o do partido, a a\u00e7\u00e3o negociadora de Lula e a disposi\u00e7\u00e3o dos parlamentares e prefeitos petistas de jogarem o jogo da representa\u00e7\u00e3o &#8212; como quando derrotaram a dire\u00e7\u00e3o no embate da Revis\u00e3o constitucional, ou como fez a prefeita Luiza Erundina ao n\u00e3o aceitar o dirigismo destes mesmos setores &#8212; permitem antecipar para um almejado governo com Lula na presid\u00eancia da Rep\u00fablica um per\u00edodo de reformas profundas, baseado na negocia\u00e7\u00e3o e refor\u00e7ando a democracia. Propostas que provoquem disputas mais acirradas poder\u00e3o ser levadas \u00e0 consulta popular, empregando-se mecanismos democr\u00e1ticos como o plebiscito e o referendo. Se, aos olhos do leitor, a incerteza que permanece n\u00e3o se legitima como condi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria democracia, que ele n\u00e3o a tema mais do que as certezas que o outro lado oferece.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Novaes, ABRIL\u00a0de 1994 &nbsp; APRESENTA\u00c7\u00c3O &#8212; 6 de outubro de 2014 O texto a seguir foi escrito pelo autor h\u00e1 mais de 20 anos e enviado \u00e0 Folha de S. Paulo, que n\u00e3o o publicou. Sua circula\u00e7\u00e3o ficou restrita ao CEBRAP, onde o autor trabalhava na \u00e9poca, e a c\u00f3pias impressas enviadas a alguns [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1338,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,10,2],"tags":[],"class_list":["post-835","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eleicoes-de-2014","category-partidos-politicos","category-textos-mais-antigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/835","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1338"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=835"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/835\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":888,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/835\/revisions\/888"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=835"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=835"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=835"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}