{"id":837,"date":"2014-10-06T15:38:19","date_gmt":"2014-10-06T18:38:19","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=837"},"modified":"2015-05-23T15:47:30","modified_gmt":"2015-05-23T18:47:30","slug":"quando-a-memoria-mais-constrange-do-que-informa-o-fluxo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=837","title":{"rendered":"QUANDO A MEM\u00d3RIA MAIS ENTRAVA DO QUE INFORMA O FLUXO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\" align=\"center\"><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">Carlos Novaes, 06 de outubro de 2014<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Neste segundo turno teremos de vencer mais um trecho da mesma trilha que vimos abrindo e, por isso, n\u00e3o se trata de uma nova elei\u00e7\u00e3o. Tanto \u00e0 maioria de n\u00f3s, para quem tratar-se-\u00e1 de repetir a op\u00e7\u00e3o j\u00e1 registrada na urna, como aos que n\u00e3o se sentiram contemplados no resultado do primeiro turno, e se virem impelidos a uma outra escolha, num como noutro caso, a mem\u00f3ria do primeiro trecho trar\u00e1 n\u00e3o apenas candidatos j\u00e1 conhecidos, mas a mesma mob\u00edlia tem\u00e1tica de que nos ocupamos por todo o caminho. Se a mem\u00f3ria eleitoral se imp\u00f5e de uma elei\u00e7\u00e3o para outra mesmo nos pleitos para os legislativos, como j\u00e1 argumentei <a title=\"MEM\u00d3RIA POL\u00cdTICA, n\u00e3o SUPERMERCADO ELEITORAL\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=648\">aqui<\/a>, mais imediatamente n\u00edtida ela se p\u00f5e para o voto de quem escolhe uma alternativa para a presid\u00eancia da Rep\u00fablica entre dois turnos. Infelizmente, por\u00e9m, neste segundo turno, em que n\u00e3o chega a haver uma disputa de projetos, nossa <i>mem\u00f3ria<\/i> n\u00e3o ser\u00e1 desafiada a novos arranjos e, assim, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 qualquer possibilidade de um <i>fluxo<\/i> novo, na forma de uma transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Atendendo a pedidos, este texto \u00e9 uma tentativa de explicar melhor o entendimento acima. Embora v\u00e1 aqui a despretensiosa contribui\u00e7\u00e3o de um blogueiro, n\u00e3o posso deixar de registrar meu reconhecimento ao que pude ler do prof. F\u00e1bio Wanderley Reis, autor da interpreta\u00e7\u00e3o mais fecunda que conhe\u00e7o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre percep\u00e7\u00e3o popular e prefer\u00eancia eleitoral no Brasil. Prudente e oportuno acrescentar, por\u00e9m, que nem vejo as linhas que se seguem como uma aplica\u00e7\u00e3o da visada te\u00f3rica de Reis &#8211; n\u00e3o s\u00e3o; nem me acho entre aqueles que est\u00e3o de acordo com as mais recentes opini\u00f5es do professor, como, por exemplo, as expressadas em artigo publicado na v\u00e9spera desse primeiro turno na p\u00e1gina tr\u00eas da Folha de S. Paulo, onde Reis, em deriva\u00e7\u00e3o s\u00f3 aparentemente necess\u00e1ria da sua teoria, ao passo de negar a necessidade de os candidatos apresentarem programas de governo, parece se render \u00e0 exist\u00eancia implaus\u00edvel de um suposto <i>lulismo<\/i> como fen\u00f4meno duradouro com for\u00e7a explicativa para alguma coisa relevante no comportamento eleitoral do brasileiro. Mesmo que programas de governo sejam, em geral, pe\u00e7as de vitrine com pouca ou mesmo nenhuma correspond\u00eancia com o estoque, eles s\u00e3o sinalizadores \u00fateis, ainda que n\u00e3o se deva deixar de reconhecer a import\u00e2ncia do ajuizamento n\u00e3o letrado: por exemplo, a mim pouco importou se Marina, uma vez eleita, iria ou n\u00e3o levar adiante sua estapaf\u00fardia reforma pol\u00edtica de <a title=\"Uma REFORMA POL\u00cdTICA  r e a c i o n \u00e1 r i a\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=580\">coincid\u00eancia eleitoral com mandatos de cinco anos<\/a>; o que importou foi descobrir que ela n\u00e3o sabia do que estava falando, e num tema que era central para uma candidatura que alardeava uma &#8220;nova pol\u00edtica&#8221;. Naturalmente, essa foi uma verifica\u00e7\u00e3o que s\u00f3 foi poss\u00edvel para quem sabe ler, mas, afinal, programas n\u00e3o s\u00e3o escritos para quem n\u00e3o o sabe, n\u00e3o sendo de desprezar, por\u00e9m, nem os avan\u00e7os havidos na escolariza\u00e7\u00e3o do brasileiro m\u00e9dio nos \u00faltimos 40 anos, nem a intera\u00e7\u00e3o entre os que sabem e os que n\u00e3o sabem ler. Quanto ao <i>lulismo<\/i>, espero que as linhas que se seguem deixem mais claro o que eu j\u00e1 disse <a title=\"O FIM DO QUE NUNCA EXISTIU \u2013 o lulismo\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=559\">aqui<\/a>. Entremos na mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>A <a title=\"A POL\u00cdTICA ENTRE A MEM\u00d3RIA E O FLUXO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=750\">mem\u00f3ria <\/a>\u00e9 uma teia da qual o EU \u00e9 a aranha, e cuja plasticidade nem ao passado deixa em paz. \u00c9 dela mesma, de seus pr\u00f3prios rearranjos, que saem n\u00e3o s\u00f3 os grandes intervalos de continuidade, mas tamb\u00e9m os momentos de altera\u00e7\u00e3o profunda no comportamento eleitoral, sempre poss\u00edveis, mas raros, como a experi\u00eancia est\u00e1 sempre a nos mostrar. A oportunidade para grandes mudan\u00e7as nasce do sofrimento. Se ele \u00e9 vivido como <i>insuport\u00e1vel<\/i>, temos a revolu\u00e7\u00e3o, pois diante do insuport\u00e1vel n\u00e3o h\u00e1 escolhas entre caminhos, pois a via unilateral da a\u00e7\u00e3o direta contra o mal se imp\u00f5e em fluxo puro. Se <i>intoler\u00e1vel<\/i>, o sofrimento d\u00e1 lugar a alguma escolha, no \u00e2mbito da qual poder\u00e1 haver ou n\u00e3o uma transforma\u00e7\u00e3o, que depender\u00e1 fundamentalmente da exist\u00eancia de vetores organizados propondo a a\u00e7\u00e3o transformadora. A grande diferen\u00e7a entre o insuport\u00e1vel e o intoler\u00e1vel, portanto, \u00e9 que enquanto no primeiro a a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria se imp\u00f5e sem precisar de proponentes, j\u00e1 que dispensa mem\u00f3ria; no segundo, a transforma\u00e7\u00e3o requer a a\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria na forma de uma ou mais propostas que convidem a um caminho em fluxo novo, mas partindo do trecho j\u00e1 vencido na estrada que se quer deixar para tr\u00e1s. At\u00e9 onde posso enxergar, n\u00f3s estamos vivendo um per\u00edodo prop\u00edcio a um raro momento desse tipo, em que a efervesc\u00eancia eleitoral pode levar a um s\u00f3lido realinhamento em favor da mudan\u00e7a, mas ainda n\u00e3o se organizou proponente \u00e0 altura e a possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o vai sendo desperdi\u00e7ada, ora porque se est\u00e1 aqu\u00e9m dela, reagindo \u00e0 mudan\u00e7a; ora porque se est\u00e1 al\u00e9m dela, pregando uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 40 anos tivemos apenas dois outros momentos como este, em que houve um realinhamento eleitoral com potencial transformador: em 1974 e em 1989-1994. No primeiro, sofrendo o intoler\u00e1vel ajuste do primeiro choque do petr\u00f3leo, ocorrido em 1973, nosso povo deu tudo que p\u00f4de dentro dos limites estreitos do que lhe foi oferecido pelos pol\u00edticos e o que lhe vedava a ditadura, e surpreendeu ao conferir uma vit\u00f3ria eleitoral esmagadora \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o da \u00e9poca, dando ao MDB nada menos do que 16 das 22 cadeiras em disputa para o Senado, explicitando que o regime paisano-militar estava ferido de morte. Embora n\u00e3o pudesse alcan\u00e7ar uma transforma\u00e7\u00e3o, esse realinhamento eleitoral espont\u00e2neo levou, entre outros desdobramentos, \u00e0s v\u00edvidas elei\u00e7\u00f5es de 1978, onde FHC concorreu pela primeira vez ao Senado, e com o apoio de Lula, ent\u00e3o um jovem e promissor sindicalista do ABC; e \u00e0 conquista da Anistia, em agosto de 1979. Ainda no evoluir desse fecundo veio do movimento eleitoral de 1974, desencadearam-se for\u00e7as novas, que vieram \u00e0 tona medindo-se entre si e com as for\u00e7as do atraso, embalo no qual se deu a cria\u00e7\u00e3o de sindicatos, centrais sindicais e toda sorte de organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, com destaque para os novos partidos, dentre eles o PSDB e, principalmente, o PT, amalgama de carisma com estrutura burocr\u00e1tica nacional que j\u00e1 explorei <a title=\"PT: dilemas da burocratiza\u00e7\u00e3o precoce\" href=\"http:\/\/novosestudos.org.br\/v1\/files\/uploads\/contents\/69\/20080625_pt_dilemas.pdf\">aqui <\/a>h\u00e1 mais de vinte anos, cabendo ao leitor avaliar a acuidade com que ent\u00e3o apontei o esclerosamento precoce dessa formid\u00e1vel inven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Na mesma ordem de desdobramentos, houve a campanha pelas diretas-j\u00e1, em 1984, cuja derrota comprimiu a energia que vinha ganhando voltagem desde 1974, empurrando todo o conjunto para o estu\u00e1rio dessa ebuli\u00e7\u00e3o, que foi o processo constituinte, sa\u00eddo da elei\u00e7\u00e3o de 1986, na qual o PMDB, sucessor do MDB, beneficiado pelo plano cruzado, que reavivou a mem\u00f3ria de reconhecimento do partido como a ferramenta dos &#8220;interesses do povo&#8221;, obteve uma segunda vit\u00f3ria esmagadora, ainda no bojo do realinhamento eleitoral havido em 1974. Promulgada a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, filha tempor\u00e3 desse legado de 74, no ano seguinte houve a campanha presidencial de 1989. Em raz\u00e3o da ruinosa ambi\u00e7\u00e3o tacanha de Sarney, que obtivera um quinto ano de mandato, a elei\u00e7\u00e3o presidencial de 1989 correu solteira, sem conex\u00e3o alguma com elei\u00e7\u00f5es para qualquer outro cargo. Essa circunst\u00e2ncia levou o pleito a um certo desengate do legado de 74, uma vez que os candidatos a presidente n\u00e3o foram amarrados \u00e0s, ou n\u00e3o puderam contar com, estruturas de campanha que a disputa pelos cargos intermedi\u00e1rios p\u00f5e em campo, o que contribuiu muito para que os dois finalistas fossem Collor e Lula: o primeiro porque, tendo recebido apoio pr\u00e9vio de poderosos grupos de comunica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 era bastante conhecido do eleitorado e largou em vantagem, podendo se dar ao luxo de chegar por cima; o segundo porque era o \u00fanico a dispor de uma estrutura nacional, naquela altura ainda n\u00e3o dependente do interesseiro jogo eleitoral mi\u00fado para ser mobilizada a trabalhar, e de gra\u00e7a &#8212; um quadro que tive oportunidade de explorar aqui. Para o que nos interessa neste texto, um dos resultados mais importantes dessas circunst\u00e2ncias foi que Lula, tendo passado ao segundo turno com apenas pouco mais de 16% dos votos, teve franqueado a si um eleitorado de setenta milh\u00f5es de eleitores, responsabilidade que ele acabou por n\u00e3o suportar mas que, al\u00e9m de ter deixado uma mem\u00f3ria valiosa, indicou, e isso talvez seja o mais importante, que o legado de 1974 havia se esgotado e um novo realinhamento estava a se impor, havendo que disputar se de dire\u00e7\u00e3o conservadora ou transformadora, ou seja, se preso \u00e0 mem\u00f3ria contra o fluxo ou se voltado \u00e0 reconfigura\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria em favor do fluxo.<\/p>\n<p>Como se sabe, naquele segundo turno, os donos do poder, manejando o controle dos grot\u00f5es e apoiados no medo de camadas m\u00e9dias conservadoras, se sa\u00edram vencedores com Collor, um improviso t\u00e3o ruim que nem a eles serviu de modo duradouro, mas que, no v\u00e1cuo que a todos desafiava, se prestou a impingir uma derrota aos transformadores, naquela elei\u00e7\u00e3o representados por Lula, Brizola e, de um modo bem diferente, mas n\u00e3o menos ruptural, Covas. Voluntarioso no trato e voluntarista na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, Collor logo perdeu apoio popular com o malogro de mais um desastrado pacote anti-infla\u00e7\u00e3o, seguido da perda de sustenta\u00e7\u00e3o parlamentar, pois ao desgaste com setores do capital descontentes com suas pol\u00edticas vieram se somar evid\u00eancias de corrup\u00e7\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o encontravam muita gente disposta a esconder. Sobreveio o <i>impeachment<\/i> e inaugurou-se outro per\u00edodo de incertezas em que a infla\u00e7\u00e3o sem freio h\u00e1 quase duas d\u00e9cadas, que havia devorado meia d\u00fazia de pacotes econ\u00f4micos de estabiliza\u00e7\u00e3o, articulava em alto grau o sofrimento intoler\u00e1vel da vez, j\u00e1 nessa altura amea\u00e7ando a pr\u00f3pria ordem em que se davam os neg\u00f3cios dos de cima. Ou seja, a infla\u00e7\u00e3o havia adquirido um car\u00e1ter simb\u00f3lico e j\u00e1 representava muito mais do que uma corrida de pre\u00e7os &#8212; \u00e9 com esse tamanho que ela deve ser lida quando mencionada neste texto.<\/p>\n<p>Como camar\u00e3o que dorme a \u00e1gua leva, e nossa classe dominante nunca foi de dormir no ponto, foi em torno do combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o que se iniciou, em 1993, a prepara\u00e7\u00e3o de uma resposta conservadora ao vetor transformador que tomava impulso na cada dia mais competitiva candidatura presidencial de Lula, que como desdobramento da vota\u00e7\u00e3o obtida no segundo turno de 1989, chegou a ter mais de 40% nas pesquisas eleitorais no in\u00edcio de 1994. Essa dianteira era vivida como um desenlace quase inercial do per\u00edodo, pois o sofrimento popular era intoler\u00e1vel e o PT canalizava toda a nega\u00e7\u00e3o da ordem mals\u00e3 instalada, uma vez que, al\u00e9m de simbolizar a oportunidade perdida em 89, havia se recusado a participar das variantes de acomoda\u00e7\u00e3o oferecidas antes e depois daquele pleito &#8212; a infla\u00e7\u00e3o empurrava a um realinhamento e Lula aparecia como o protagonista natural desse processo, que convidava \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o precisamente porque permitia articular em alto grau a tens\u00e3o entre <i>mem\u00f3ria<\/i> e <i>fluxo<\/i>.<\/p>\n<p>Alarmados com cen\u00e1rio t\u00e3o desfavor\u00e1vel, os senhores do dinheiro foram buscar nas fronteiras do outro lado pistas para o caminho da salva\u00e7\u00e3o &#8212; chegara a hora de Fernando Henrique Cardoso, investidura cuja an\u00e1lise fiz a quente, em 1994, num artigo enviado \u00e0 Folha de S\u00e3o Paulo, que n\u00e3o o publicou, mas que agora pode ser lido <a title=\"CARISMA, MUDAN\u00c7A E CONSERVA\u00c7\u00c3O\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=835\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Naquela altura, vinte anos depois que o povo instilara na din\u00e2mica pol\u00edtica a seiva para a qual a ditadura paisano-militar n\u00e3o tinha ant\u00eddoto, o \u00eaxito econ\u00f4mico e pol\u00edtico do Real viria a arrastar o eleitorado a mais uma mudan\u00e7a radical de prefer\u00eancias que, ao desfavorecer Lula, tomou a dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o e ainda orientado pela mudan\u00e7a deu a FHC uma vit\u00f3ria em primeiro turno contra os transformadores, que n\u00e3o t\u00ednhamos sabido avaliar a extens\u00e3o e a profundidade do impacto ben\u00e9fico do controvertido plano de estabiliza\u00e7\u00e3o, especialmente sobre os estratos mais sofridos da popula\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio de n\u00f3s, que julg\u00e1vamos ter a f\u00f3rmula da sa\u00edda, nossos advers\u00e1rios tiveram a humildade de aprender com seus pr\u00f3prios erros, e ao inv\u00e9s de recorrer a mais um pacote para contornar a ira popular, elaboraram um plano que embrulhou nosso povo num engajamento limitado, \u00e9 certo, mas muito superior \u00e0 ades\u00e3o ao papel de &#8220;fiscal do Sarney&#8221; (iniciativa rid\u00edcula, mas que permitiu enxergar o quanto havia na popula\u00e7\u00e3o de disposi\u00e7\u00e3o represada ao engajamento no trato da coisa p\u00fablica em momentos de crise); e muito superior, eu dizia, pelo engajamento cognitivo que requereu de cada um para que fizesse a correspond\u00eancia entre os pre\u00e7os dos produtos e as tabelas de refer\u00eancia-URV, que emanavam diariamente do governo, numa rica significa\u00e7\u00e3o da intera\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica entre o estado e o povo, intera\u00e7\u00e3o essa que se dava, sem que fosse preciso hostilizar ningu\u00e9m, de maneira direta e sem o automatismo da vida cotidiana fundada no h\u00e1bito, pois vinha articulada \u00e0 contagem detida de nada menos que o dinheiro, a sempre escassa mercadoria universal. \u00c0quela altura, estava acima das nossas for\u00e7as desmanchar o arranjo.<\/p>\n<p>Ao conseguir inverter a dire\u00e7\u00e3o do realinhamento em curso, os tucanos derrotaram Lula j\u00e1 no primeiro turno, \u00eaxito que se repetiu tamb\u00e9m em 1998, mesmo sob condi\u00e7\u00f5es bem mais adversas, pois havia um cen\u00e1rio eleitoral menos amig\u00e1vel, para dizer o m\u00ednimo. Enfim, o eleitorado fizera um novo realinhamento de largo curso e dirigido sua prefer\u00eancia para a for\u00e7a pol\u00edtica que o aliviara de uma carga intoler\u00e1vel. Ciente do que estava em jogo, ainda que n\u00e3o com toda a clareza que o tempo sempre proporciona, o soci\u00f3logo na presid\u00eancia instaurou um per\u00edodo de pactua\u00e7\u00e3o em que, <i>sem deixar de favorecer aos de cima<\/i>, instou o Estado sob seu comando a olhar pelos mais pobres, colocando uma ou outra estaca adicional ao plano Real, na forma de programas sociais compensat\u00f3rios, ainda que sem enfrentar a desigualdade. Enfim, passados 20 anos hav\u00edamos mais uma vez dado in\u00edcio a um realinhamento eleitoral, cujos protagonistas n\u00e3o por acaso eram a ala menos conservadora do partido que se beneficiara do realinhamento anterior: o PSDB, como se sabe, saiu do (P)MDB, partido que s\u00f3 mais adiante iria se ajustar ao curso do novo realinhamento ocorrido pela a\u00e7\u00e3o dos seus dissidentes. A essa altura da narrativa \u00e9 indispens\u00e1vel registrar que se o plano cruzado tivesse dado certo e logrado debelar a infla\u00e7\u00e3o, a acachapante vit\u00f3ria do PMDB nas elei\u00e7\u00f5es de 1986 teria re-alavancado o realinhamento eleitoral de 1974 e muito provavelmente Sarney teria tentado j\u00e1 ent\u00e3o incluir na Constitui\u00e7\u00e3o o dispositivo da reelei\u00e7\u00e3o para presidente. O fato de o candidato do PMDB \u00e0 presid\u00eancia em 1989, o not\u00e1vel e emblem\u00e1tico Ulisses Guimar\u00e3es, ter obtido menos de 5% dos votos foi mais uma indica\u00e7\u00e3o de que o malogro do cruzado selara o fim do realinhamento de 1974.<\/p>\n<p>Depois de marchas e contramarchas, a for\u00e7a transformadora burocratizada e oligarquizada digeriu as derrotas sofridas na forma de um aprendizado que, infelizmente, incluiu elementos de capitula\u00e7\u00e3o, sobrevindo recuos diante de compromissos centrais \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o. O <i>lulopetismo<\/i> entendeu corretamente que estava al\u00e9m das suas for\u00e7as mover a seu favor a chave dos trilhos do realinhamento eleitoral operado pelo Real. Por\u00e9m, ao inv\u00e9s de buscar entender o fen\u00f4meno para melhor se dirigir aos de baixo e com eles articular um vetor de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o que implicaria adiar <i>sine die<\/i> um desfecho eleitoral favor\u00e1vel, mas, em troca, manteria em perspectiva a op\u00e7\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o, ao inv\u00e9s de perseverar, eu dizia, o <i>lulopetismo<\/i> decidiu por <i>realinhar a si mesmo<\/i> na dire\u00e7\u00e3o de concess\u00f5es aos de cima, <i>ajustando-se de maneira quase cl\u00e1ssica ao adverso realinhamento eleitoral havido<\/i>. O resultado publicit\u00e1rio foi a <i>Carta aos brasileiros<\/i> e a escolha de Jos\u00e9 Alencar para vice de Lula, num arranjo conservador que abriu alas \u00e0 vit\u00f3ria de Lula em 2002.<\/p>\n<p>Recapitulando, sem poder escapar da agenda governista que havia sido imposta pelo Real oito anos antes, nas elei\u00e7\u00f5es de 2002 o <i>lulopetismo<\/i> se rendeu ao pacto conservador incrementalista em curso desde 1994, apenas se apresentando como quem poderia faz\u00ea-lo melhor. Romper o continu\u00edsmo governista foi poss\u00edvel porque uma crise internacional, combinada a dificuldades fiscais engendradas pela pr\u00f3pria din\u00e2mica do Real, havia complicado o equil\u00edbrio fr\u00e1gil do arranjo de FHC, o pai do Real, programa que promovera um realinhamento eleitoral nas camadas m\u00e9dias de tal ordem que o Lula que em 1989 j\u00e1 havia conquistado pouco menos de 50% dos votos para presidente contra Collor, e no in\u00edcio do ano eleitoral de 1994 chegara a ter 43% das prefer\u00eancias, depois de se contrapor ao Real viu seu eleitorado, realinhado na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, abandon\u00e1-lo. Em suma, em 2002 o realinhamento eleitoral de 1994 trocou de governo, mas sem mudar de sentido e tampouco de dire\u00e7\u00e3o, impondo uma l\u00f3gica que balizou todo o per\u00edodo Lula, seja nas medidas ortodoxas de conten\u00e7\u00e3o de gastos do primeiro mandato, na manuten\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas sociais compensat\u00f3rias sem desafiar a desigualdade, na manuten\u00e7\u00e3o do regime de metas de infla\u00e7\u00e3o; ou ainda no continu\u00edsmo de que s\u00e3o exemplo a troca de d\u00edvida externa por d\u00edvida interna, a flexibiliza\u00e7\u00e3o do monop\u00f3lio da Petrobr\u00e1s sobre o petr\u00f3leo, a capitaliza\u00e7\u00e3o do BNDES em favor de grandes grupos econ\u00f4micos, o lugar central que o PMDB adquire aos poucos na sustenta\u00e7\u00e3o do governo, a manuten\u00e7\u00e3o de uma parti\u00e7\u00e3o federativa das receitas tribut\u00e1rias que nada tem de federativa, etc; enumera\u00e7\u00e3o de escolhas que n\u00e3o quer dizer que o autor considere todas erradas.<\/p>\n<p>Uma vez na presid\u00eancia, o <i>lulopetismo<\/i> se mostrou um confi\u00e1vel e competente gestor do pacto conservador, cujo protagonismo arrebatara aos tucanos e, beneficiado por uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica internacional favor\u00e1vel, p\u00f4de obedecer ao realinhamento do Real aprofundando o pacto nas duas dire\u00e7\u00f5es de seu vetor principal: pr\u00e1 cima, os ricos nunca ganharam tanto dinheiro; pr\u00e1 baixo, aos pobres nunca haviam sido destinados tantos benef\u00edcios, n\u00e3o sendo necess\u00e1rio dizer qual dos dois p\u00f3los se dava melhor. Espremida entre os dois, a classe m\u00e9dia assistiu \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o da vida urbana em que penosamente sobrevive na forma de mais viol\u00eancia, transporte ca\u00f3tico, falta de saneamento, etc, pois, afinal, algu\u00e9m tinha de pagar a conta de um combate \u00e0 pobreza que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o mexe no dinheiro j\u00e1 acumulado pelos de cima, como, pior, tampouco altera a ordem econ\u00f4mica no sentido de liberar as energias retidas nos mecanismos que engendram e protegem um modelo de acumula\u00e7\u00e3o perversa. Assim, em raz\u00e3o do ajuste do <i>lulopetismo<\/i> aos trilhos do realinhamento proposto e obtido pelo Real, na reelei\u00e7\u00e3o de 2006 Lula trocou de eleitorado ou, por outra, o eleitorado trocou de candidato, mas n\u00e3o de prefer\u00eancia, isto \u00e9, o ex-metal\u00fargico ganhou os mais pobres e perdeu parte das camadas m\u00e9dias, invers\u00e3o que alguns analistas tomaram por um novo realinhamento eleitoral, quando quem se ajustou foi o <i>lulopetismo<\/i>, n\u00e3o o eleitor.<\/p>\n<p>Nos par\u00e1grafos numerados a seguir julgo esclarecer que os dois governos de Lula se deram sob obedi\u00eancia ao realinhamento eleitoral havido em 1994 e que, portanto, <i>n\u00e3o houve nenhum realinhamento eleitoral sob Lula<\/i>, o que torna implaus\u00edvel, ademais, o surgimento do presumido <i>lulismo<\/i> que corresponderia a esse novo realinhamento que n\u00e3o existiu:<\/p>\n<p>1. &#8211; o eleitorado <b>mais pobre<\/b> continua onde sempre esteve, ou seja, ap\u00f3ia o governo que lhe favorece. Antes preferira FHC e Serra (pois em 2002, apesar de perder a elei\u00e7\u00e3o, Serra venceu Lula entre os mais pobres, que estavam alinhados com o Real e o governo FHC). Depois, em 2006, os mais pobres continuaram governistas e, por isso, migraram para Lula e o reconduziram, pois ele vinha sendo o presidente que os beneficiava nos <a title=\"PT PAGA O PRE\u00c7O PELA SUA ACOMODA\u00c7\u00c3O CONSERVADORA\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=478\">exatos termos<\/a> do pacto estabelecido em 1994. Ademais,<\/p>\n<p>2. &#8211; os <b>setores m\u00e9dios<\/b> tampouco apresentaram qualquer realinhamento significativo na era Lula: <b>a parcela deles \u00e0 esquerda<\/b>, minorit\u00e1ria, que antes da capitula\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica apoiava o <i>lulopetismo<\/i>, n\u00e3o concordou com a ades\u00e3o ao pacto conservador e ficou onde sempre estivera, afastando-se de Lula ou emprestando-lhe apoio contrariado (da\u00ed a for\u00e7a inicial de Marina, que ela pr\u00f3pria n\u00e3o entendeu); <b>outra parcela<\/b>, mais pragm\u00e1tica, que Lula havia arrebatado aos tucanos em 2002 com o ajuste conservador dele pr\u00f3prio, foi perdida em 2006 porque Lula, assim como FHC, n\u00e3o havia contemplado as suas expectativas materiais, ou seja, mais uma vez, esse pessoal ficou com a agenda que sempre tivera: havia deixado os tucanos porque eles n\u00e3o corresponderam, e adotado o Lula em 2002 &#8212; em 2006, mais uma vez decepcionados, deixaram Lula, mas conservaram sua pr\u00f3pria agenda; <b>uma terceira parcela<\/b> dos setores m\u00e9dios, que j\u00e1 se alinhava com os tucanos, mas n\u00e3o apoiava as pol\u00edticas de FHC em favor dos pobres (apenas as engolia), n\u00e3o viu raz\u00e3o para apoiar Lula, cuja agenda contra a pobreza era mais vis\u00edvel, e tamb\u00e9m ficou onde sempre estivera, at\u00e9 por achar que o que vai para os pobres deixa de vir para melhorar a situa\u00e7\u00e3o urbana, que egoisticamente lhe interessa. Como n\u00e3o poderia deixar de ser, estes setores est\u00e3o cegos para a necessidade de ir buscar os recursos mais encima, na bolsa dos rentistas, a\u00e7\u00e3o redistributiva que o tal pacto conservador veda e, por isso, d\u00e1 \u00e0 classe m\u00e9dia em geral, progressista ou n\u00e3o, a impress\u00e3o, de certo modo real, de que o socorro aos pobres se faz \u00e0s suas custas, sem preju\u00edzo de que h\u00e1 aspectos ideol\u00f3gicos repelentes orientando o que h\u00e1 aqui de raiva aos pobres.<\/p>\n<p>Em suma, tanto quanto os pobres, os setores m\u00e9dios n\u00e3o apresentaram realinhamento eleitoral algum depois de 1994, ainda que quase todos tenham, em algum momento, trocado de candidato. Foi o <i>lulopetismo<\/i> que se realinhou e, em torno disso, todo o sistema girou. Logo, a longevidade do sucesso eleitoral dessa obedi\u00eancia neo-conservadora do <i>lulopetismo<\/i> aos termos da l\u00f3gica incrementalista imposta em 1994 estar\u00e1 amea\u00e7ada <b>se<\/b>:<\/p>\n<p>1. mais uma vez um cen\u00e1rio econ\u00f4mico internacional desfavor\u00e1vel trouxer problemas ao pacto conservador. Os sinais de deteriora\u00e7\u00e3o s\u00e3o claros e decorrem tamb\u00e9m dai as dificuldades de Dilma de reter apoios &#8212; Marina cresceu por essa via, mas seu inconsistente projeto reacion\u00e1rio logo afastou os mais informados;<\/p>\n<p>2. os setores populares pretenderem ir adiante do que o pacto conservador permite. Da\u00ed a acomoda\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica do PT, que n\u00e3o mobiliza os pobres a quem ajuda &#8212; as pesquisas mostraram que at\u00e9 mesmo no Nordeste houve um ensaio de redirecionamento de apoio eleitoral nesta elei\u00e7\u00e3o de 2014, como se viu no desempenho inicial de Marina l\u00e1. Ou seja, mesmo ali n\u00e3o h\u00e1 <i>lulismo<\/i>, h\u00e1 governismo n\u00e3o inteiramente satisfeito;<\/p>\n<p>3. parte dos setores m\u00e9dios n\u00e3o reacion\u00e1rios passe a reivindicar com mais for\u00e7a o fim da corrup\u00e7\u00e3o e a imposi\u00e7\u00e3o de alguma perda aos muito ricos, em benef\u00edcio da melhoria da vida urbana degradada. Evidentemente, por variadas que tenham sido suas motiva\u00e7\u00f5es, foi justamente isso que se deu nas manifesta\u00e7\u00f5es de junho de 2013: um claro sinal do esgotamento do pacto incrementalista e do realinhamento eleitoral que o acompanha, exatamente ali onde est\u00e1 seu tend\u00e3o de Aquiles, as contradi\u00e7\u00f5es do Brasil urbanizado refletidas desde a desigualdade. Foi aqui que Marina encontrou o combust\u00edvel de arranque de sua subida vertiginosa inicial, que deu chabu pelo reacionarismo de suas propostas principais, em tudo contr\u00e1rias a qualquer que tenha sido o esp\u00edrito das ruas em 2013;<\/p>\n<p>4. surgir uma alternativa transformadora vi\u00e1vel, entendendo por vi\u00e1vel uma proposta que, orientada pela sustentabilidade, privilegie os pobres, se centre em demandas urbanas, se contraponha \u00e0 bandalheira pol\u00edtica de forma cr\u00edvel e, <i>muito<\/i> importante, n\u00e3o busque enfrentar a todos os setores do capital (essa a limita\u00e7\u00e3o b\u00e1sica do PSOL e de toda a autointitulada esquerda) &#8211; um bom advers\u00e1rio seriam os rentistas, e\/ou os ruralistas (Marina poderia ter sido essa alternativa, mas tomou o bonde errado e foi cair justamente no colo dos banqueiros e ruralistas, os Bornhausens da vida. J\u00e1 Eduardo Jorge preferiu o lugar da consci\u00eancia cr\u00edtica que a todo tempo anuncia sua pr\u00f3pria inviabilidade).<\/p>\n<p>Como os muito pobres est\u00e3o, e estar\u00e3o, onde sempre estiveram (apoiam o governo que entendam que lhes favorece, e o abandonam se passam a entender que ele os prejudica, movimento este sempre mais dif\u00edcil de fazerem porque o pouco que recebem sempre lhes parece uma d\u00e1diva), como os mais pobres s\u00e3o assim conservadores, o <i>lulopetismo<\/i> os mant\u00e9m sob r\u00e9dea curta e se apresenta como o m\u00e1ximo a que eles poderiam aspirar, explorando a coleira da gratid\u00e3o. S\u00e3o esses pobres cheios de gratid\u00e3o que podem ser ditos lulistas<i> <\/i>no sentido convencional, mas, para serem banalmente lulistas (ou seja, gostarem de Lula), eles n\u00e3o precisaram se realinhar eleitoralmente, Lula \u00e9 que se realinhou para, como governante do pacto conservador gradualista, chegar at\u00e9 eles desde cima, na figura do benfeitor. Que tudo isso ganhou pot\u00eancia em raz\u00e3o da origem popular do ex-metal\u00fargico talentoso n\u00e3o resta d\u00favida, at\u00e9 porque os temores anteriores estavam, tamb\u00e9m, ligados a uma insufici\u00eancia de auto-estima dos mais pobres, quadro que j\u00e1 estava em mudan\u00e7a, do qual Lula se beneficiou, mas tamb\u00e9m ajudou a aprofundar com seu not\u00e1vel desempenho &#8212; reconfigura\u00e7\u00f5es que, ali\u00e1s, mostram algo da limita\u00e7\u00e3o das an\u00e1lises baseadas na no\u00e7\u00e3o de &#8220;reconhecimento&#8221;, pois o que h\u00e1 \u00e9 um crescente refor\u00e7o da experi\u00eancia do espelhamento entre iguais, n\u00e3o do reconhecimento vertical entre diferentes.<\/p>\n<p>Mas nenhum desses aspectos de ordem simb\u00f3lica justifica a confus\u00e3o conceitual reinante. Afinal, se um realinhamento eleitoral digno desse nome, como os que tivemos em 1974 e em 1989-1994, se d\u00e1 em torno de uma <i>agenda<\/i>, \u00e9 de supor que os eleitores &#8220;realinhados&#8221; abandonem um governante que n\u00e3o corresponda a ela e se fixem numa oposi\u00e7\u00e3o em que identifiquem a defesa dessa mesma agenda a que se apegaram. Se \u00e9 assim, mesmo que tivesse havido um realinhamento eleitoral em 2006, n\u00e3o faria sentido cham\u00e1-lo de <i>lulismo<\/i>, pois mais adiante poder\u00edamos ter a circunst\u00e2ncia bizarra de ver o <i>lulismo<\/i> abandonando Lula (se ele viesse, por qualquer motivo, a &#8220;trair&#8221; a tal agenda fundante) e passando a apoiar um PSDB, um PSOL ou qualquer outro em que viesse a identificar um defensor da referida <i>agenda<\/i>. Ali\u00e1s, seria nesses termos equivocados que, talvez, tiv\u00e9ssemos de descrever este segundo turno, pois parte do lulismo\/governismo descontente pode passar a apoiar A\u00e9cio, troca de prefer\u00eancia por candidato que em nada contrariaria o realinhamento de 1994, como suponho j\u00e1 ter deixado claro. A confus\u00e3o decorre, naturalmente, de que n\u00e3o se quer reconhecer as semelhan\u00e7as siamesas entre o <i>lulopetismo<\/i> e os tucanos, e, por isso mesmo, da fixa\u00e7\u00e3o de alguns na ideia de que Lula \u00e9 um marco, em rever\u00eancia ao qual ter\u00edamos uma t\u00e3o anacr\u00f4nica quanto implaus\u00edvel inclina\u00e7\u00e3o cesarista dos pobres (em paralelo com o Napole\u00e3o III do sacrossanto 18 Brum\u00e1rio, esquecendo-se, entre outros detalhes, de que estamos no Brasil urbano do s\u00e9culo XXI, integrado pela TV e onde n\u00e3o houve revolu\u00e7\u00e3o), inconsist\u00eancia te\u00f3rica que vem combinada com a certeza \u00edntima de que o compromisso do ex-metal\u00fargico com os muito pobres seria alguma coisa como &#8220;inabal\u00e1vel&#8221;, j\u00e1 agora esquecendo-se o car\u00e1ter prop\u00edcio da conjuntura internacional que todo mundo que tem ju\u00edzo reconhece ter sido central para o &#8220;fen\u00f4meno&#8221;, e com o qual nem sempre se poder\u00e1 contar.<\/p>\n<p>Assim, faz 20 anos que os tucanos promoveram sem o saber um realinhamento eleitoral cujo protagonismo eles perderam por incompet\u00eancia, mas n\u00e3o s\u00f3, deixando que o rec\u00e9m-convertido <i>lulopetismo<\/i> passasse a hegemonizar o processo, agora em vias de esgotamento. O Real foi o marco do realinhamento eleitoral em vigor que orienta o pacto conservador gradualista ao qual um <i>lulopetismo<\/i> apressado de chegar ao poder escolheu se submeter, e cuja mem\u00f3ria, inexplicavelmente abandonada pelos tucanos, A\u00e9cio vem buscando recuperar, ao que parece com n\u00e3o poucas chances de \u00eaxito (vamos ver como se comportam neste segundo turno os PMDBsss que saem das urnas do primeiro turno, os quais, vitoriosos ou n\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o dependem de ningu\u00e9m).<\/p>\n<p>Se Dilma ganhar em 2014, como vai ficando pouco prov\u00e1vel, ser\u00e1 menos por seus m\u00e9ritos e mais porque, ou A\u00e9cio n\u00e3o conseguiu enfeitar o programa comum com algum apelo democratista do tipo &#8220;vamos fazer juntos, tal como fizemos o Real&#8221;, ou ter\u00e1 sido pela raz\u00e3o que j\u00e1 conhecemos: o fato de que n\u00e3o apareceu nenhuma alternativa eleitoral com um projeto cr\u00edvel para superar os impasses do pacto conservador vigente, projeto novo que n\u00e3o poder\u00e1 sugerir qualquer amea\u00e7a \u00e0s conquistas alcan\u00e7adas. Naturalmente, uma alternativa com essa ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode se apresentar nem como confi\u00e1vel ao setor financeiro (esse personagem Lula j\u00e1 encarnou), nem segundo um modelo revolucionarista, sob pena de ficar relegada ao papel de propagandista de um programa que n\u00e3o pode deixar de ser encarado como invi\u00e1vel. Essa alternativa haver\u00e1 de surgir do cora\u00e7\u00e3o das lutas urbanas ecologicamente orientadas contra a desigualdade e para a liberdade. Por enquanto, vamos permanecer nessa ingl\u00f3ria porfia de conv\u00e9s, numa caravela que s\u00f3 n\u00e3o ganha alto mar porque tem o oceano por lastro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Novaes, 06 de outubro de 2014 &nbsp; Neste segundo turno teremos de vencer mais um trecho da mesma trilha que vimos abrindo e, por isso, n\u00e3o se trata de uma nova elei\u00e7\u00e3o. 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