{"id":890,"date":"2014-10-08T19:04:49","date_gmt":"2014-10-08T22:04:49","guid":{"rendered":"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=890"},"modified":"2016-01-22T14:28:50","modified_gmt":"2016-01-22T17:28:50","slug":"impasse-fumegante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=890","title":{"rendered":"IMPASSE FUMEGANTE"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\" align=\"center\"><span style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">Carlos Novaes, 8 de outubro de 2014<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como eu ia dizendo no \u00faltimo cap\u00edtulo exibido <a title=\"QUANDO A MEM\u00d3RIA MAIS ENTRAVA DO QUE INFORMA O FLUXO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=837\">aqui<\/a>, estamos em tempos prop\u00edcios \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o, mas carecemos de um vetor pol\u00edtico que a traduza. Rememorando tamb\u00e9m as cenas do pen\u00faltimo cap\u00edtulo, cuja \u00edntegra pode ser encontrada <a title=\"A POL\u00cdTICA ENTRE A MEM\u00d3RIA E O FLUXO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=750\">aqui<\/a>, o argumento do que vai sendo narrado nestes textos pode ser resumido assim: a desigualdade brasileira, sempre ela, \u00e0 partir de 1994 deu lugar a um populismo sem uma for\u00e7a propriamente populista, pois a desigualdade \u00e9 tamanha que a pr\u00f3pria classe dominante \u00e9 agente do populismo. Os nossos capitalistas, nos quais n\u00e3o se pode encontrar uma fibra de apego a ideias (falha de car\u00e1ter que nos livra de alguns problemas, mas nos imp\u00f5e outros, talvez ainda piores), como eu dizia, os capitalistas locais n\u00e3o se importam que o Estado ajude um pouco (um pouco) aos muito pobres porque, afinal, fica muito barato e, julgam eles, n\u00e3o h\u00e1 amea\u00e7a \u00e0 ordem ou, na pior das hip\u00f3teses, a pouca amea\u00e7a que h\u00e1 pode ser resolvida pelo <a title=\"PODER MILITAR, PODER DE POL\u00cdCIA E LEGITIMIDADE PARA O USO DA FOR\u00c7A\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=70\">dispositivo paisano-militar<\/a> cuidadosamente preservado da ditadura, a PM. Essa \u00e9 a l\u00f3gica do pacto realizado pelo Real, ao qual sucumbiram todas as for\u00e7as pol\u00edticas com possibilidades de protagonizar maiorias eleitorais.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que como n\u00e3o existe almo\u00e7o de gra\u00e7a, a conta n\u00e3o fecha, ou melhor, s\u00f3 fecha se, num pequeno arranjo de contabilidade criativa, n\u00e3o entrarem nela duas despesas: a que resulta da degrada\u00e7\u00e3o ambiental e as mazelas que se alastram pelas vias e enxovias das nossas aglomera\u00e7\u00f5es urbanas &#8212; enfim, floresta e cidade irmanadas no ar mef\u00edtico que respiramos (o que a gente n\u00e3o der conta de respirar haveremos de legar \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras). Como n\u00e3o poderia deixar de ser, a essa <i>desordem<\/i> ordenadora na <i>gest\u00e3o<\/i> da dimens\u00e3o material do problema corresponde uma <i>crise<\/i> na <i>representa\u00e7\u00e3o <\/i>dos interesses e esperan\u00e7as da sociedade que mais e mais afunda no sofrimento resultante, crise esta que retroalimenta a desordem aquela, numa geringon\u00e7a pol\u00edtica que articula um circuito excretor-fonador pelo qual o <i>dizer<\/i> nefasto aduba o <i>fazer<\/i> mal\u00e9fico, e vice-versa (sobretudo), cambalhota por assim dizer lingu\u00edstica pela qual nossos maiores edificam pela primeira vez na hist\u00f3ria deste planeta uma gram\u00e1tica dedicada n\u00e3o \u00e0 dimens\u00e3o culta da l\u00edngua casta, mas \u00e0 sua avacalha\u00e7\u00e3o, se \u00e9 que estou me fazendo entender.<\/p>\n<p>Essa gram\u00e1tica avacalhada n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o outra maneira de escrever o descolamento entre o mundo da vida, onde estamos todos n\u00f3s, e o mundo dos p<a title=\"S\u00d3 4 J\u00c1 \u2013 representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 profiss\u00e3o\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=115\">rofissionais da <i>representa\u00e7\u00e3o<\/i><\/a> e da <i>gest\u00e3o<\/i>, que vivem num outro micro-clima. Esses profissionais sequestraram a pol\u00edtica, tiraram-na da nossa vida e do controle da nossa vista, e n\u00e3o obstante j\u00e1 tenhamos pago e repago, diariamente, o valor do resgate &#8212; cujo c\u00e1lculo \u00e9 similar ao da d\u00edvida p\u00fablica: cada parcela paga \u00e9 vari\u00e1vel de c\u00e1lculo para estipular a pr\u00f3xima parcela, nunca se prestando a reduzir o principal &#8212; n\u00e3o obstante todo os pagamentos feitos, dizia eu, eles continuam a seviciar a v\u00edtima e a propor reformas que lhe aumentem as amarras, como o fim da reelei\u00e7\u00e3o para o executivo, voto <a title=\"DEZ PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE O VOTO DISTRITAL PROPOSTO PARA O BRASIL\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=51\">distrital <\/a>ou em <a title=\"PESQUISA DA OAB D\u00c1 CARNE A LOBO EM PELE DE CORDEIRO\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=49\">lista<\/a>, mandatos de <a title=\"Uma REFORMA POL\u00cdTICA  r e a c i o n \u00e1 r i a\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=580\">cinco anos com coincid\u00eancia eleitoral<\/a>, financiamento <a title=\"REFORMA CONTRA MUDAN\u00c7A\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=46\">p\u00fablico<\/a> de campanhas e outras malandragens. S\u00f3 n\u00e3o se fala em acabar com a reelei\u00e7\u00e3o para o legislativo, a m\u00e3e e o pai de todos os sequestradores.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que os resultados do primeiro turno v\u00e3o sendo conhecidos, descobrimos que as coisas v\u00e3o de mal a pior, pois a <i>representa\u00e7\u00e3o<\/i> congressual ficou mais conservadora do que j\u00e1 vinha sendo. O absurdo desse resultado me parece \u00f3bvio, afinal, a sociedade brasileira n\u00e3o ficou mais conservadora nos \u00faltimos quatro anos. Muito pelo contr\u00e1rio, ela se mobilizou mais, protestou mais e se mostrou menos intolerante com as chamadas minorias, como d\u00e1 evid\u00eancia um crescente relaxamento na rigidez dos costumes, tamb\u00e9m resultado de uma situa\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica com presen\u00e7a acentuada de jovens. Aten\u00e7\u00e3o: n\u00e3o estou aqui apenas deplorando o avan\u00e7o do conservadorismo no Congresso; n\u00e3o &#8212; eu estou sobretudo chamando a sua aten\u00e7\u00e3o para a acentua\u00e7\u00e3o da crise de representa\u00e7\u00e3o, pois a uma sociedade que se abre se tem como resposta um sistema pol\u00edtico que se fecha. Em outras palavras, h\u00e1 algo errado com nosso sistema de representa\u00e7\u00e3o, que baseado numa nociva\u00a0<i>mem\u00f3ria<\/i>\u00a0de rotinas impede o <i>fluxo<\/i> do novo para o topo do sistema pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Essa <i>mem\u00f3ria<\/i>\u00a0de rotinas fica bastante clara tanto no crescimento das bancadas de evang\u00e9licos e de policiais militares, quanto no aumento da representa\u00e7\u00e3o din\u00e1stica, que vai se firmando entre n\u00f3s \u00e0 medida que filhos e familiares de pol\u00edticos tem nessa rela\u00e7\u00e3o de parentela um ponto de largada vantajoso na corrida por um lugar ao sol, ou melhor, \u00e0 sombra. O que todos os membros desses agrupamentos tem em comum \u00e9 o fato de partirem de formas <em>pr\u00e9-pol\u00edticas<\/em> de associa\u00e7\u00e3o para alavancarem sua condi\u00e7\u00e3o de <em>representantes pol\u00edticos<\/em>, o que \u00e9 um modo perverso de refletir a fal\u00eancia dos partidos pol\u00edticos: ser evang\u00e9lico, pol\u00edcia ou parente tornou-se uma forma de instrumentalizar esses coletivos para furar, tamb\u00e9m, quando n\u00e3o principalmente,\u00a0<a title=\"PT PAGA O PRE\u00c7O PELA SUA ACOMODA\u00c7\u00c3O CONSERVADORA\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=478\">em causa pr\u00f3pria<\/a>, o bloqueio \u00e0 ascens\u00e3o social imposto pela <em>desigualdade<\/em>, o que \u00e9 sempre menos dif\u00edcil do que enfrent\u00e1-la como problema coletivo. Digo que essa \u00e9 uma variante pr\u00e9-pol\u00edtica porque a sele\u00e7\u00e3o que se faz dentro desses agrupamentos por assim dizer corporativos n\u00e3o se d\u00e1 segundo pr\u00e1ticas da esfera p\u00fablica. Eles est\u00e3o contrabandeando para dentro da din\u00e2mica da representa\u00e7\u00e3o <i>mem\u00f3rias<\/i> r\u00edgidas, fundadas em afinidades pr\u00e9-pol\u00edticas (e, at\u00e9, anti-pol\u00edticas) segundo preceitos b\u00edblicos, c\u00f3digos de conduta hier\u00e1rquica e interesses familiares restritos, mem\u00f3rias que n\u00e3o est\u00e3o abertas ao interc\u00e2mbio que seria de esperar de uma a\u00e7\u00e3o propriamente de representa\u00e7\u00e3o, destinada a atender aos <i>fluxos<\/i> emanados da sociedade. Da\u00ed o enorme contraste entre a sociedade que se mobilizou em 2013 e a representa\u00e7\u00e3o que sai das urnas em 2014. \u00c9 um contraste fabricado pela jun\u00e7\u00e3o perversa, e a cada dia mais perigosa, do preceito da reelei\u00e7\u00e3o infinita para o legislativo, que permite a cria\u00e7\u00e3o de rotinas (<i>mem\u00f3ria<\/i>) facilitadoras da <a title=\"PARTIDOS E PROFISSIONAIS DA REPRESENTA\u00c7\u00c3O\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=159\">reitera\u00e7\u00e3o de interesses j\u00e1 contemplados<\/a>, com a a\u00e7\u00e3o de grupos de interesse que entenderam o <em>dispositivo <strong>inercial<\/strong> embutido nessas rotinas<\/em> e a elas acoplam as suas pr\u00f3prias mem\u00f3rias reificadas (a &#8220;verdade&#8221; b\u00edblica, a ordem militar, o bra$\u00e3o familiar), em tudo avessas ao <i>fluxo<\/i> que caracteriza a sociedade, fluxo este que n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o a troca intensa de mem\u00f3rias n\u00e3o reificadas, ora mais, ora menos abertas \u00e0 mudan\u00e7a, mas sempre em movimento.<\/p>\n<p>A esses grupos enrijecidos por defini\u00e7\u00e3o, junta-se a n\u00e3o menos gran\u00edtica bancada ruralista, a mais antiga delas, que aprendeu l\u00e1 atr\u00e1s o caminho das pedras, aprendizado que j\u00e1 foi chamado de <i>pemedebismo<\/i>, como se o que pudesse explic\u00e1-la fosse a din\u00e2mica parlamentar e, ainda por cima, t\u00e3o recente. Mas essa <a title=\"DESIGUALDADE, MUDANCISMO E VOTO \u2014 2 de 4\" href=\"http:\/\/novaes-c-politico.com.br\/?p=1340\">discuss\u00e3o do <i>pemedebismo<\/i><\/a> fica para outro dia, pois a queixa ante o tamanho dos meus textos \u00e9 <i>quase<\/i> generalizada. Cumpre acrescentar apenas que as possibilidades de a\u00e7\u00e3o concatenada entre essas bancadas de mem\u00f3rias r\u00edgidas s\u00e3o t\u00e3o grandes quanto diminuem as chances de se obter \u00eaxito intra muros contra elas. A mais tem\u00edvel delas \u00e9 a bancada da pol\u00edcia, porque ela est\u00e1 plantada em todo o territ\u00f3rio nacional, a cada dia ganha mais articula\u00e7\u00e3o (inclusive nas Assembl\u00e9ias estaduais e C\u00e2maras municipais), tem capilaridade urbana mi\u00fada, est\u00e1 fundada na hierarquia e, o mais alarmante, re\u00fane grupos internos com uma predile\u00e7\u00e3o pelo uso t\u00e3o indevido quanto &#8220;legitimado&#8221; da for\u00e7a.<\/p>\n<p>Vivemos uma situa\u00e7\u00e3o em que n\u00e3o h\u00e1 vetor transformador e nem tudo s\u00e3o cinzas. H\u00e1 fuma\u00e7a t\u00eanue ao longe. Como ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sentir-lhe o cheiro, deixo ao leitor escolher se o material est\u00e1 em chamas ou em mera decomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Novaes, 8 de outubro de 2014 &nbsp; Como eu ia dizendo no \u00faltimo cap\u00edtulo exibido aqui, estamos em tempos prop\u00edcios \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o, mas carecemos de um vetor pol\u00edtico que a traduza. 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