DEBATE ENTRE CANDIDATOS À PRESIDÊNCIA DO BRASIL??!!

Carlos Novaes, 18/10/2026

com acréscimos em 19/10, às 14:30h

O que dizer?

19/10 – 14:30h

Passadas algumas horas da sessão de tortura que foi o debate presidencial de ontem, ao fim do qual só consegui me perguntar O que dizer?, tentemos fazer uma crítica propositiva. Para isso, vou explorar o que considero a maior oportunidade desperdiçada por Lula: a disputa em torno do SUS.

Lula abriu o debate sobre o SUS com uma pergunta estapafúrdia, a saber: “Flávio, por que você não gosta do SUS?” A pergunta é estapafúrdia porque, genérica ao extremo, (a) nada diz do SUS, (b) nada diz da relação de Lula com o SUS e (c) em nada questiona o adversário a respeito do SUS. Mais adiante, Lula volta a insistir na COVID e nos 700 mil mortos. Infelizmente, isso já não tem nenhuma relevância para o debate atual. É perda de tempo e até contraproducente trazer novamente essa forma de tratar o problema. Um candidato tem de dizer às pessoas o que elas não sabem, não insistir em repetir o que elas já sabem.

Para fazer um debate profícuo sobre o SUS é necessário:

1 – mencionar rapidamente o tamanho, que faz o ineditismo mundial do modelo, e, em seguida, admitir que o SUS tem limitações. Ao enaltecer e reconhecer problemas, Lula apareceria equilibrado, sendo realista e honesto e, com isso, prenderia a atenção do eleitor satisfeito ou insatisfeito com o SUS;

2 – atrelar o SUS, com suas qualidades e limitações, à condição do Brasil de país em desenvolvimento. Lula deveria dizer que o investimento no SUS é limitado pelas condições econômicas do Brasil, que ainda não é um país rico, mas, ao mesmo tempo, deveria declarar que tem se empenhado para aumentar a eficiência no uso dos recursos de que o SUS já dispõe. Ao fazer isso, ele mais uma vez ofereceria um atenuante para as ,limitações, mas, ao mesmo tempo, reconheceria que dá para melhorar. Lula apresentaria, então, duas ideias sobre como melhorar o gasto no SUS. Por exemplo: (1) criar uma fiscalização comparativa, comparando gastos em unidades de municípios de mesmo tamanho, de modo a levar os municípios a aprenderem uns com a experiência dos outros e (2) aumentar o uso de tecnologia, diminuindo a burocracia e interligando prontuários.

Esses dois itens iniciais já organizariam a cabeça do telespectador do debate, fisgando-o cognitivamente, pois são ideias simples e claras.

3 – reconhecer que o SUS tem hoje um déficit em cirurgia e atendimento especializado, bem como na realização de exames, seja porque demora a fazer o que já pode fazer, seja porque ainda não tem condições de realizar certos exames e intervenções. Ao reconhecer isso, Lula apresentaria duas ideias fundamentais sobre como manter a melhoria contínua do SUS: (1) contratar profissionais e (2) equipar com aparelhagem moderna as unidades regionais de referência, declarando que não seria possível dotar todos os municípios com esses aparelhos caros, mas que, por isso mesmo, vai melhorar o serviço de transporte para atendimento fora de domicílio. Nesse ponto, Lula poderia encaixar a crítica à proposta demagógica e irrealista do Flávio, que está prometendo “padrão Einstein” no SUS.

4 – dizer que o que vai permitir mesmo um salto de qualidade no SUS será o desenvolvimento do Brasil. Um Brasil mais próspero poderá investir mais na saúde. Para prosperar, o país tem de, em primeiro lugar, gerar emprego e tratar bem quem trabalha, pois é o trabalho reconhecido que traz prosperidade. O fim da escala 6×1 faz as duas coisas: aumenta a contratação e gera bem-estar — essas duas coisas não bastam, mas ajudam no aumento da produtividade.

Para deixar claro que essa abordagem teria sido possível, veja abaixo uma simulação de como imagino que poderia ter sido feito no debate:

Lula pergunta: Vamos falar sobre o SUS. O SUS tem limitações, mas todos nós temos orgulho dele, pois é o maior programa de saúde pública de livre acesso entre os países mais populosos do mundo. O SUS é uma conquista do povo brasileiro, que tem problemas, mas ampara e cuida do parto até a velhice, além de enfrentar eventos extremos, como provou, contra a vontade nociva de muita gente, no combate à COVID. Quais são os maiores problemas do SUS e como você vai enfrentá-los? [45s]

Flávio Responde: a bobajada do padrão Einstein.

Lula replica: essa sua demagogia mostra que você nada entende de saúde e ainda acha que o povo é trouxa. O “padrão Einstein” é o padrão de um único hospital, no país inteiro, que é financiado pelos muito ricos que lá podem ser atendidos. O Einstein atende pessoas que não são ricas, é verdade, mas são muito poucos os que dão essa sorte na vida. O povão mesmo, os milhões de brasileiros da classe média até os mais pobres, depende mesmo é do SUS, que precisa melhorar. O Brasil ainda não é um país rico, é um país em desenvolvimento, com mais de 200 milhões de habitantes, e não tem recursos para dotar o SUS de “padrão Einstein” — isso é promessa vazia sua. Mas eu vou continuar a melhorar e a ampliar o SUS. Para melhorar o SUS que já existe, eu vou, primeiro, criar uma fiscalização comparativa, comparando gastos em unidades de municípios de mesmo tamanho, de modo a levar os municípios a aprenderem uns com os outros e, segundo, vou aumentar o uso de tecnologia, diminuindo a burocracia e interligando prontuários. Para ampliar o SUS (sim, porque uma coisa é melhorar, outra é ampliar). Para ampliar o SUS e diminuir as filas de consultas, cirurgias e exames, vou contratar mais profissionais de saúde e vou equipar com aparelhos de exames mais modernos as unidades de referência. É que esses aparelhos são muito caros e são de manutenção muito especializada, não há dinheiro para instalar em todos os municípios. Mas para atender a todos, vou ampliar e melhorar o serviço de transporte para atendimento fora do domicílio, um serviço que já existe no SUS, que tem melhorado, mas que pode ficar muito mais eficiente e confortável do que é. Além disso, vou instalar mais centros cirúrgicos e mais salas de hemodiálise e nebulização, sempre aumentando o número de municípios que passarão a contar com esses serviços. [2’30”]

Evidentemente, os itens citados podem ser outros, mas é perfeitamente possível ao presidente da República manter um padrão assim num debate presidencial, respeitando a inteligência do telespectador e deixando a baixaria ao adversário desqualificado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *