Carlos Novaes, 12 de abril de 2026
Ao contrário do que se passou em 2014, em 2026 a realidade política impõe como racional que Lula não seja candidato à presidência da República. Recapitulemos para explorar alguns porquês.
Em 2013/2014, Lula se enredou em um dilema desnecessário sobre ser ou não ser candidato à presidência da República e acabou abrindo caminho a monstruosidades políticas: dilema porque ele ficou indeciso diante da teimosia de Dilma em se lançar à reeleição; desnecessário porque naquela altura a realidade política mostrava que a única decisão racional era que o candidato fosse Lula, não Dilma (como explorei a quente e de perspectivas diferentes aqui e aqui); e abriu caminho a monstruosidades políticas porque ao permitir a insistência de Dilma em um contexto especialmente desfavorável, ele dobrou a aposta no arranjo artificial que montara ao indica-la em 2010, dando potência ao que já havia de irracional na realidade política.
Em 2026, Lula aparece mais uma vez enredado em um dilema desnecessário sobre ser ou não ser candidato à presidência da República e poderá, mais uma vez, abrir caminho a monstruosidades políticas: dilema porque ele hesita entre concorrer à reeleição ou abrir caminho para uma outra alternativa; desnecessário porque ele teima em não aceitar a realidade de que seu tempo passou; e poderá abrir caminho a monstruosidades porque isso é o que acontece quando personagens políticos centrais teimam em contrariar o que manda a racionalidade política.
O tempo de Lula passou porque ele envelheceu mal: primeiro, porque já quase ninguém enxerga em Lula mais do que uma pálida sombra da confiança que ele (fundada ou infundadamente) outrora inspirou. Segundo, porque ele se impôs como rolha contra o surgimento de qualquer alternativa no campo da autointitulada esquerda brasileira. Terceiro, porque Lula se descaracterizou como liderança ao se aboletar em uma estrutura que também envelheceu mal, pois cerca de 55% do atual eleitorado brasileiro têm até 45 anos de idade, ou seja, são pessoas que nasceram depois do surgimento de Lula como liderança e não partilharam da fabulosa energia social que levou à fundação do PT. Esse pessoal só começou a votar depois que o PT já se tornara uma burocracia, e o viu, ano a ano, a desperdiçar as energias transformadoras que o haviam impulsionado na primeira década de vida — foi muito rápida a troca da militância espontânea pela militância remunerada (e remunerada com dinheiro estatal). Vem daí o “envelhecimento” do PT agarrado ao “sistema”: repeliu a rebeldia comprando obediência.
Deveria ser evidente que, em razão da acerba e espraiada polarização existente, o desafio está em explorar o eleitorado que ainda pode oscilar e, para isso, o candidato não pode ser Lula, pois um personagem assim carimbado não estimula oscilações, pelo contrário. Ademais, o eleitorado que pode oscilar é mais numeroso no maior colégio eleitoral estadual do país, São Paulo, justamente o estado onde Lula, mesmo podendo armar um jogo interessante, montou um carrossel monótono em torno do anacronismo da sua própria reeleição, acomodando Alckmin, Haddad e Tebet na composição mais improdutiva.
Haddad como candidato a governador faz da disputa estadual outro carimbo, o que facilita muito a reeleição de Tarcísio, que o derrotou na última disputa. Para tirar proveito do eleitorado infenso à polarização, o melhor nome de que se dispõe contra Tarcísio é o da Senadora Simone Tebet. A condição de mulher combativa e independente combinada ao perfil de personagem político oriundo do municipalismo interiorano (atrativo que sempre faltou ao PT em SP) conferem a Tebet um apelo eleitoral que em si mesmo embaralha a polarização. Além disso, a candidatura dela ao governo pode acender o rastilho imprevisível do engajamento não feminista do mulherio, que está a sufocar em uma revolta ainda contida. Tudo isso faz de Tebet um oponente especialmente difícil para Tarcísio. Com Haddad disputando a presidência da República, a dobradinha para o Senado em SP seria formada por Alckmin e Marina, conjunto que teria boas chances de obter uma vitória dupla.