RETALHOS DE UMA COLCHA POR FAZER

Carlos Novaes, 12 de novembro de 2022

Com acréscimos em 13/11

— Ao contrário do que predicara a teoria do frentismo, os militares chegam ao fim do governo Bolsonaro humilhados e desmoralizados. Humilhados porque ao se meterem em área que não lhes dizia respeito, a área eleitoral, exclusiva das “forças desarmadas”, foram vistos numa pantomima na qual mendigaram atenção e acabaram entregando um relatório irrelevante, que foi simplesmente ignorado. Desmoralizados porque ao flertarem facciosamente com os blefes golpistas do chefe, acabaram a tal ponto na contramão das preferências e expectativas da maioria da sociedade, e em tal desacordo com as facções estatais vitoriosas (aí incluídas facções paisanas que sustentaram Bolsonaro), que não puderam escapar de serem embrulhados pelas faixas e bandeiras da ruidosa minoria autoritária que insiste não só em questionar, melancolicamente, o resultado da eleição, mas em, obtusamente, exibir sua fraqueza contraposta à marcha geral das coisas.

— Esse isolamento do facciosismo militar não deve ser visto como uma “vitória da democracia” porque ele não indica que estamos a caminhar no rumo de um Estado de Direito Democrático; antes pelo contrário, trata-se de mais uma “vitória” do Estado de Direito AutoritárioEDA, como, infelizmente, já vai ficando claro na movimentação de certas organizações propriamente civis, como é o caso da demanda por um “revogaço” de Lula contra mais de 200 medidas que Bolsonaro emitiu para ajustar o EDA aos interesses nocivos que promoveu. Trata-se de demanda delegativa e acrítica. Delegativa porque se exime de qualquer esforço, limitando-se ao que Lula pode fazer, como se bastasse a ação dele para que as coisas se acertem. Acrítica porque ao não se darem ao trabalho de compreender como foi possível que Bolsonaro tenha ido tão longe no manejo dos poderes do EDA, julgam ser o bastante devolver o EDA à conformação anterior ao mandato do besta, sem questionar essa forma estatal no que tem de tão propício ao aprofundamento do que há de autoritário nela.

— Naturalmente, não vai faltar quem veja “astúcia estratégica” no silêncio e apatia a que Bolsonaro foi levado pelo aturdimento em que se encontra depois da derrota. Embora ninguém possa negar que algum cálculo este imbecil está a fazer (afinal, há contas a ajustar e projetos de eleições a disputar em 2024 e 2026), já está mais do que na hora de pararmos de superestima-lo, por mais robusto que tenha sido seu desempenho eleitoral, fruto não da sua suposta sagacidade, mas da desorientação do país. O besta continua o que sempre foi: uma marionete dos humores da massa autoritária que o tem como mito. Essa minoria e o que ele partilha com ela o mantiveram incapaz de governar no rumo do seu fantasioso projeto autoritário e serão insuficientes para sustentá-lo nesse futuro em que estará desprovido dos poderes do EDA, afinal, o que terá ele a oferecer para segurar os eleitores não autoritários que votaram nele?

— A essa altura, já deveria estar claro que não faz sentido entender como bolsonarista a maioria dos 49% que votaram nele — se o fosse, as arruaças contra o resultado da eleição não seriam assim ridículas, mesmo contando com o corpo mole e até o velado incentivo oportunista de facções policiais e militares. A grande maioria desse eleitorado está em disputa, tarefa que será facilitada pelo fato de que o besta já não ocupará a presidência da República. Seria oportuno desenvolver um projeto de combate à desigualdade que reunisse a preferência pela democracia ao sentimento antissistema.

13/11

— Precisamente porque a maioria dos eleitores de Bolsonaro não apoia essas manifestações de cunho golpista é que não se pode dizer que os militares estão mais fortes, hoje, do que estavam antes de todo esse processo que culminou com a derrota eleitoral de Bolsonaro. O desgaste deles foi tão grande que estão precisando pegar carona no inconformismo dessa minoria bolsonarista antidemocrática. Eles só estariam mais fortes se pudessem usar essa minoria como ponto de partida para um golpe. Mas, dado tudo que já vimos do cenário nacional e internacional, eles não contam sequer com unidade entre si para um desfecho desses.

— Ao contrário do que pretendem alguns analistas, o vaivém do relatório e das notas dos militares em torno da urna eletrônica não pode ser lido senão como evidência de enfraquecimento. Como se deixaram enredar pela desorientação dos blefes golpistas do chefe, nem podem contestar a idoneidade das urnas, nem podem simplesmente se alinhar à maioria da sociedade, que acredita nelas. Com isso, imaginam obter alguma contenção de dano voltando a reivindicar um suposto “poder moderador”, o qual foi desmentido precisamente nesse episódio das urnas eletrônicas: o país não precisou da “moderação” deles para tocar em frente com êxito o processo eleitoral.

— Toda essa exposição recente dos militares se deu em prejuízo das pretensões tutelares que eles mantêm sobre o funcionamento do EDA. Ao participarem tão intimamente desse governo desastroso, e ao flertarem inocuamente com preferências autoritárias que se movimentaram aos blefes, os militares explicitaram a sua condição de agente faccioso estatal, engalfinhados na luta por poder para fazer dinheiro como qualquer das outras facções do sistema. De modo que não há porque supor que eles reúnam agora mais condições de pressão sobre o governo Lula do que dispunham antes. As pressões sobre Lula virão das facções do EDA em seu conjunto, a começar pela amplitude frentista dos apetites aliados que ele terá de contentar, bem como da situação socioeconômica em que o país se encontra.

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