Carlos Novaes, 14 de outubro de 2026
A campanha de Lula neste segundo turno está especialmente lamentável (ou seja, mais lamentável do que o foi no primeiro turno) — Lula corre até o risco de acontecer com ele o que aconteceu com Alckmin em 2006: receber no segundo turno menos votos do que obteve no primeiro.
As manifestações que estão ocorrendo por todo o pais só animam aos tolos, pois elas revelam o cerne do que o lulopetismo e os simpatizantes que ele arrasta nessas horas se tornaram: preguiçosos sem imaginação, acomodados a uma política conservadora e cegos para o que importa. Essa “militância” (1) preguiçosa, ficou em casa nos últimos 4 anos; (2) acomodada, ajeitou-se, mais uma vez, no suposto conforto de ter Lula-lá, bem longe, fingindo que muda o Brasil; (3) conservadora, conformou-se ao modo estatizado, viciado e corrupto de fazer política imposto por Lula e seu PT; e (4) cega ao que importa, aboletou-se na defesa do status quo, mais uma vez deixando para o inimigo o profícuo sentimento antissistema da maioria dos brasileiros — por isso, pouco ou mesmo nada fez na campanha eleitoral do primeiro turno, tendo ficado esperando que as coisas “dessem certo” de modo inercial. Abertas as urnas, recebe com surpresa desesperada um resultado que em nada surpreendeu quem se mantem minimamente alerta ao que se passa no país. Então, repete o que sempre fez e corre para a rua tentando colher tempestade depois de ter adubado a mesmice.
Só colhe tempestade quem semeia ventos. Infelizmente, porém, o trabalho miúdo, constante, com base no que de fato informa a luta contra a desigualdade tendo por meta um Estado de Direito Democrático, esse trabalho foi abandonado faz décadas. Essa corrida às ruas, exatamente por ser numerosa, é apenas a confirmação do que se critica, tendo por defeito adicional explicitar o turvamento narcisista que a tudo confunde: sentindo-se em tudo superiores ao adversário e ao eleitorado, essas pessoas entram em catarse política ao verem a si mesmas espelhadas nos seus iguais em meio à multidão que lhes confirma o fato (terrível) de que são muitos!! Sim, e é por serem muitos nessa condição que estão em vias de sofrer uma derrota para quem desprezam.
Como não poderia deixar de ser, essa “militância” vai às ruas em massa não para difundir e explicar um programa (que não construiu, e, se construído, teria de ser defendido em conversas “de casa-em-casa”), mas para impor um repertório que, se fosse óbvio como ela julga, já teria sido adotado pelo eleitorado. Um comportamento assim autoritário é especialmente contraproducente nessa apertada campanha de segundo turno, quando o que está em disputa são os votos de uma minoria. Tanto quanto os demais, essa minoria não precisa ser aturdida aos berros sobre os defeitos dos bolsonaros, nem sobre as supostas ou reais qualidades do Lula, isso tudo ela “já sabe” (o “já sabe” tem aqui um sentido muito claro: nada do que se diga agora vai entrar na cabeça dessas pessoas como repertório para votar, pois elas vêm sendo expostas a tudo isso há meses e até há anos e, por isso, já têm uma maneira consolidada de lidar, emocional e mentalmente, com essa miséria). E pior: a insistência em repetir esses “argumentos” reforça nas pessoas a repulsa a levá-los em conta porque elas recepcionam essas mensagens toscas como troca de chumbo entre “políticos”, ou seja, um engalfinhar-se que se dá entre aqueles que pouco ou mesmo nada se preocupam ou tem a ver com as suas vidas e, menos ainda, com seus sofrimentos: quanto mais os “políticos” brigam entre si, mais as pessoas se sentem deixadas de lado.
Apenas como ilustração, comparemos esse estado de coisas da nossa campanha eleitoral com a campanha eleitoral em curso nos EUA. É que eles terão em novembro próximo suas chamadas “eleições de meio-de-mandato”, que são as eleições para o Congresso (Câmara e Senado), que sempre ocorrem em meio ao mandato presidencial. O evento deste ano definirá a metade final da presidência Trump, pois os republicanos podem manter ou perder o controle que detém das duas casas congressuais – se os democratas conseguirem maioria em uma das casas já será ruim para Trump, mas se ambas passarem ao controle democrata, será péssimo para ele.
A campanha eleitoral, que lá não tem as autoritárias e contraproducentes restrições legais conhecidas aqui, vem se desenrolando desde o início do ano com registro contínuo da queda da popularidade de Trump, queda que tem sido acompanhada do crescimento da preferência eleitoral pelos democratas e, em alguns lugares, com expressivo crescimento da esquerda democrata, os autodenominados “socialistas democráticos”.
A queda da popularidade de Trump está marcada por três vetores, que cada eleitor deve articular em seus próprios termos e que podem ser apresentados cronologicamente assim: (1) os arquivos da investigação federal do chamado “caso do pedófilo Epstein”, que implicam Trump e, por isso, o levaram a descumprir promessa de campanha de que seriam publicados; (2) o rebote nos preços internos das tarifas impostas a mercadorias estrangeiras por Trump; (3) as consequências negativas na economia americana da guerra contra o Irã, guerra com a qual Trump descumpriu a promessa de campanha “chega de guerras”.
Alguém poderia pensar que o crescimento democrata se dá porque eles têm sabido explorar a situação de Trump fazendo a chamada “nacionalização” da eleição. Nada mais distante da realidade da campanha eleitoral no país norte-americano.
Ao contrário da burrice da autointitulada esquerda brasileira, cada candidato a governador, senador e deputado nos EUA deixa ao eleitor estabelecer relações com Trump e, sem alimentar essa besteira de “polarização”, se concentra nos problemas do eleitor da circunscrição respectiva. O resultado é uma campanha repleta de propostas concretas, com detalhamentos engenhosos e menções à situação nacional apenas e tão-somente quando elas contribuem para a compreensão da situação local (tendo por “local”, em cada caso, o distrito eleitoral ou o estado federado respectivo).
Esse comportamento vale como uma enfática declaração de confiança no eleitor, sendo o contrário de chama-lo de , ou mesmo apenas trata-lo como , “desinformado”, “ignorante”, “alienado” etc – uma demonstração de confiança que não deixa de, por si só, impactar favoravelmente. Ademais, ao invés de insistir em repetir as mazelas dos adversários, como se o eleitor já não soubesse de tudo e precisasse ouvi-las mais uma vez, os candidatos democratas deixam ao eleitor estabelecer o contraste em outros termos: ele é levado a recuperar o que sabe sobre “os políticos” já no registro de comparar as propostas que lhe são feitas. A vantagem é tripla: o eleitor pensa por si mesmo; pensa recuperando por conta própria e em seus próprios termos o que pensa “dos políticos”; e pensa comparando “os políticos” não nos termos das brigas “lá deles”, mas segundo o que lhe interessa.
Com essa política centrada no eleitor e não no que interessa diretamente aos políticos, os democratas estão em vias de vencer em locais em que não vencem há mais de 30 anos e, até, há mais de 80 anos, como são os casos das disputas para o Senado no Texas, no Kansas e em Ohio. Um exemplo recente e muito ilustrativo é o da disputa para governador da Flórida, estado residência de Trump. O candidato democrata aparece ali na frente nas pesquisas; já o candidato republicano, até bem pouco tempo tido por imbatível (assim como no caso do Senado no Texas, no Kansas e em Ohio), não apenas deixou de falar em Trump (a quem deve sua carreira política e a quem chamava de “papai”), como ainda retirou o nome do presidente de todos os materiais de campanha, pois entendeu que a proximidade se tornou eleitoralmente tóxica.
Em entrevista recente a telejornal de grande audiência, o candidato democrata na Flórida foi perguntado sobre essa manobra do oponente republicano e sua resposta expressa de forma contundente a firmeza política da orientação da campanha do Partido Democrata: ao invés de ir na onda e insistir em estabelecer relações entre o candidato republicano e Trump, ou em enfatizar a relação entre os problemas vividos pelo eleitor da Flórida e a presidência Trump, o democrata se limitou a dizer que (A) a atitude do oponente republicano de se afastar eleitoreiramente de Trump falava da qualidade dele como político; (B) que Trump não era tema da eleição na Flórida; e, assim, (C) passou a dizer detalhadamente de como resolver os problemas que afligem os moradores do Estado.
Aliada a essa linha política propriamente estratégica, os democratas, especialmente os situados à esquerda no partido, desenvolveram uma tática que mantém com grande afinco: estão sempre sorrindo – mesmo. O largo sorriso combina com quem propõe dias melhores, é uma forma de antecipação do que virá – vale como uma promessa que se autorealiza porque o candidato se apresenta como quem anuncia novidade boa. Sorrir não tem lugar na cara de quem está se ocupando de falar mal de outrem, ou de imprecar contra a situação geral adversa ou descrevendo os males que o eleitor está farto de conhecer – tudo o que um candidato precisa fazer é levar o eleitor a imaginar a ligação entre a proposta feita, a dificuldade em que vive e o que ele aspira, enquanto também ouve do candidato algo interessante que ainda não saiba. Ocupar-se do adversário, e aos berros, é o oposto de tudo isso.
Quem viu a campanha de Haddad contra Tarcísio na disputa recente para governador do Estado de São Paulo não ficou nada surpreso com a esmagadora derrota sofrida por ele já no primeiro turno: Haddad passou a campanha inteira de cara amarrada, mordeu todas as iscas espertas lançadas pelo adversário em torno da “nacionalização” da campanha e se comportou não como candidato a governador, mas como arauto do Lula no pleito local – vendo isso, o eleitor teve claro que o candidato não estava preocupado com ele, mas sim com o padrinho, e deu-lhe as costas. Diante do resultado, Lula foi cego a ponto de declarar: “quem perdeu foi São Paulo”.
Estamos repetindo tudo neste segundo turno.