A AUTOINTITULADA ESQUERDA ABRE CAMINHO PARA MORO

Carlos Novaes, 28 de novembro de 2021

Desde que Moro explicitou suas pretensões eleitorais, 11 de cada 10 analistas da mídia convencional, assim como políticos que se apresentam como adversários do ex-juiz, passaram a difundir a ideia de que ele, finalmente, teria assumido o que sempre foi, um político, e, assim, agora estaria no lugar certo. Ora, com essa recepção à candidatura de Moro esse pessoal está a dizer que os procedimentos facciosos dele como juiz serão perfeitamente aceitáveis quando se derem na arena política. Eles estão, sem perceber, reconhecendo que a política, para eles, é o lugar para a ação facciosa, que não tem de obedecer princípios e, pior, nem mesmo respeitar a norma legal (o alastramento da corrupção que o diga!).

Numa frase: tudo se passa como se o facciosismo de Moro, que atropelou a Justiça, fosse condenável apenas no papel de juiz, sendo perfeitamente aceitável na prática política — (sem esquecer que o cinismo do lulopetismo, e dos demais facciosos, classifica o notório facciosismo deste ou daquele magistrado do STF segundo as próprias conveniências, o que explica as oscilações da opinião deles sobre o que decide, por exemplo, um Gilmar Mendes…)

As raízes dessa recepção “legitimadora” do facciosismo por meio da sua banalização podem ser vistas à flor da terra por quem acompanha este blog, e todas elas levam ao mesmo tronco: o apego ao Estado de Direito Autoritário, cuja funcionamento básico se dá pela luta entre facções, como venho discutindo há tempos.

Combater a corrupção é central

O fato de Moro ter feito do combate à corrupção um meio faccioso de golpear adversários políticos não nos obriga a deixar de lutar contra a corrupção, nem, muito menos, normaliza a corrupção, como, na real, tem pretendido a nossa autointitulada esquerda, que se tornou facciosa quando, lá atrás, aderiu à política convencional sem nenhuma perspectiva de transformação. Já vimos como até uma figura como Haddad (com Boulos e Freixo a tiracolo) simplesmente abandonou a luta contra essa mazela, que é o combustível da reprodução diuturna do modus operandi do Estado de Direito Autoritário, cujas ocasionais maiorias governativas facciosas são conquistadas pelo dinheiro, como Bolsonaro, o mandante faccioso de turno, está, mais uma vez, a demonstrar.

Com base nos procedimentos execráveis de Moro no Paraná, virou moda vilipendiar a LavaJato em geral, como se os resultados obtidos no Rio contra a quadrilha chefiada por Sérgio Cabral pudessem ser tratados do mesmo modo como se condena o que foi feito arbitrariamente contra Lula. Não que alguém ouse defender Cabral. Não chegam a tanto, pelo menos publicamente. O que quero salientar é o silêncio sobre o acerto havido na ação do Judiciário contra um esquema de corrupção que está longe de ser uma exclusividade do Rio de Janeiro. Em suma, político nenhum fala em combater a corrupção porque todos eles estão em alguma medida envolvidos nela, o que, de saída, sempre os impediria (se o quisessem) de lutar contra a desigualdade na perspectiva de construir um Estado de Direito Democrático.

Como já vimos, o problema da corrupção está na raiz da nossa urgência por ordem, e — quando entendemos que ela, a corrupção, é uma prática voltada à reprodução do Estado que sustem o mal maior (a desigualdade) — não podemos deixar de ver os vínculos entre a corrupção e a nossa urgência social. Já exploramos aqui as relações entre essas duas urgências, apontando que o Brasil só iniciará a construção de um Estado de Direito Democrático quando se formar uma força política que articule a ambas, improdutivamente postas uma contra a outra, como ficou claro na polarização fajuta entre Bolsonaro e Haddad na eleição de 2018 (que fique claro: se a polarização entre os dois era fajuta, a diferença entre eles era notória, o que levou muitos de nós, apesar de tudo, a votar em Haddad).

Bolsonaro agrava nossas duas urgências enquanto blefa contra a democracia

Já vimos que Bolsonaro não é danoso pelo que diz contra a democracia, mas pelo que faz contra a maioria da sociedade, afinal, ao manejar o Estado de Direito Autoritário, ele não apenas não enfrentou nossas duas urgências, como as fez mais graves — alguns exemplos bastam: no âmbito da ordem, além de se render à corrupção do Centrão e torpedear o combate institucional ao coronavírus e conexos, Bolsonaro ainda tem dado força aos desmandos policiais e incentivado a desordem ambiental e social que provém do desmatamento e do garimpo. Na chamada questão social, além de uma política econômica socialmente ruinosa para os mais pobres e para as classes médias, além de reformas socialmente danosas e voltadas a proteger privilégios, Bolsonaro ainda desmontou o Bolsa Família, programa que embora não combatesse a desigualdade, contribuía para minorar os sofrimentos que ela traz para os segmentos mais pobres da população.

Não obstante, nossa autointitulada esquerda não se comove e insiste que o principal problema não é o que Bolsonaro faz, mas o que ele diz, daí a insistência dela em convocar (em vão) a sociedade para defender uma democracia que essa maioria sabe não estar ameaçada pela besta. Quer dizer, como não pode enfrentar a urgência por ordem (sendo ela mesma cúmplice da corrupção, não pode politizá-la), e como não pode enfrentar a urgência social (sendo ela mesma beneficiária da ocupação ocasional de postos de mando no Estado que mantém a desigualdade, não pode atacá-lo), nossa autointitulada esquerda deu-se ares de historicamente sábia e se agarrou preguiçosamente ao frentismo, fazendo dos blefes do besta um espantalho cômodo: para esse pessoal, antes de tudo deve estar a bandeira conservadora da defesa da “nossa democracia”, do nosso (suposto) Estado democrático de direito. O que nos leva de volta a Moro.

Moro vai politizar a corrupção e explorar o sentimento antissistema

Diante de adversários que insistem em fazer a campanha eleitoral sem levar em conta a realidade — e, por isso mesmo, empunhando a fraca bandeira da defesa da democracia, que tem como pretexto unicamente os desmoralizados blefes de Bolsonaro, aos quais a maioria nunca levou a sério –, Moro poderá explorar o sentimento antissistema tanto contra Bolsonaro como contra os outros adversários. Contra Bolsonaro porque ao se render ao Centrão o besta explicitou que não tem vínculos críveis com o pendor antissistema da maioria; contra os demais porque todos eles (pelo menos até aqui) são defensores da volta ao estado de coisas anterior a Bolsonaro.

Quer dizer, Moro vai abrir caminho pela mesma avenida em que Bolsonaro desfilou em 2018, não por outra via. Por isso mesmo, não faz sentido explorar as chances de êxito de Moro à luz da polarização fajuta entre Lula e Bolsonaro, afinal, a depender do andar da carruagem, a maioria da sociedade pode vir a entender que não há polarização alguma entre dois candidatos obedientes ao facciosismo do sistema. Nessa mesma ordem de ideias, não há que fazer comparações entre Moro e Ciro, afinal Ciro é figura conhecida do jogo entre facções e não tem como se fazer alternativa a Lula; ao passo que Moro pode explorar a ilusão de que não faz parte do sistema e tem tudo para se tornar alternativa a Bolsonaro. Dessa perspectiva, sou levado a me afastar da ideia de que Moro seria o bolsonarismo sem Bolsonaro: o ex-juiz poderá ser uma alternativa conservadora mais consistente precisamente porque exibiria contraste com uma das características que opõem o bolsonarismo raiz à maioria da sociedade brasileira: a defesa explícita de bandeiras antidemocráticas.

Um Moro “antissistema” e “democrata” pode vir a representar, aos olhos dos incautos, uma “renovação”, inclusive geracional, difícil de combater, ainda mais se insistirem no cantochão de que o ex-juiz é uma “ameaça à nossa democracia”… Eis onde nos poderá levar o conservadorismo e o oportunismo estatista da nossa autointitulada esquerda, que amesquinhou seus horizontes políticos, programáticos e teóricos aferrando-se à defesa do Estado de Direito Autoritário em crise de legitimação. Logo saberemos.

O “FORMALISMO” DE LULA

Carlos Novaes, 23 de novembro de 2021

Mutatis mutandis, Daniel Ortega venceu a eleição presidencial na Nicarágua como Putin venceu as suas na Rússia e como Bolsonaro venceu aqui em 2018: os respectivos candidatos de oposição foram impedidos de concorrer depois de levados arbitrariamente à prisão. Por isso, muitos observadores da cena política estranharam a declaração dada ontem por Lula ao jornal espanhol El País:

“Por que a Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder e Daniel Ortega não? Por que o Felipe González aqui pode ficar 14 anos no poder? Qual é a lógica?”

Ora, ninguém disse que Ortega não pode ficar no poder por 16 ou 14 anos. A objeção é que ele, ao contrário de Merkel e González, consiga ficar no poder porque encarcerou os adversários, impedindo-os de disputar a eleição.

Mas não há o que estranhar. Mais uma vez, Lula se agarrou a um formalismo para defender o indefensável. Ele age como se pudesse se proteger alegando desconhecer fatos amplamente divulgados sobre a ilegitimidade do processo eleitoral da Nicarágua, e deixa de lado justamente aquilo que torna inaceitável para um democrata a “vitória” de Ortega.

Esse tipo de cinismo não é novo no lulopetismo (e tampouco é exclusividade dele). Quem acompanhou as ações da LavaJato contra o próprio Lula e contra os tucanos de São Paulo e Minas pôde notar tanto o facciosismo que construiu a condenação de Lula, quanto aquele que permitiu aos tucanos se safarem das consequências dos malfeitos havidos em obras do Metrô e do Rodoanel, ou nas negociatas de Minas. Por um lado, montaram contra Lula processos judiciais fajutos, de modo a forçar a relação direta dele com a roubalheira havida na Petrobrás quando, de fato, era ele o presidente da República; por outro lado, as investigações sobre as roubalheiras no Metrô e no Rodoanel sequer chegaram a se desenvolver a ponto de permitirem denunciar judicialmente os governadores Geraldo Alckmin e José Serra. Os processos contra Aécio jazem sob lápide. O que há de comum nos dois casos e qual a relação disso com o cinismo de Lula diante do que se passa na Nicarágua?

O que há de comum é a incontornável conclusão de que Lula, Alckmin, Serra e Aécio protagonizaram governos e ações políticas com vastas e profundas ações de corrupção. Se contra nenhum dos quatro foi possível conduzir um processo judicial hígido, com direito à ampla defesa e sem facciosismo, a Justiça não pode, mesmo, puni-los pelos crimes havidos sob sua responsabilidade. Entretanto, qualquer pessoa que tenha conhecimento dos fatos, ainda mais quando diante da recuperação de vultosas quantias do dinheiro roubado (como no caso da Petrobrás), qualquer pessoa razoável, eu dizia, não poderá deixar de repudiar politicamente esses personagens e (se não seus partidos), pelo menos, seus assessores e correligionários mais diretos.

O cinismo está em fazer do caráter inconclusivo da dimensão judicial um meio de legitimar a covardia conveniente de não tirar consequências políticas dos crimes havidos. Lula e os seus usam as condenações injustas como atestados de inocência ampla, geral e irrestrita (inclusive para crimes conexos, pois estão, mais uma vez, prontos a se aliarem ao MDB e a forças do Centrão profundamente implicadas na Petrobrás e em outros casos de corrupção). Já os tucanos tocam suas vidas políticas com a normalidade cínica que a mídia convencional aceita daqueles a quem reconhece como aliados.

Talvez não haja exemplo mais redondo desse cinismo comum a lulopetistas e tucanos do que o modo pelo qual Fernando Haddad se conduz na cena política, como tempos atrás já apontei, na seção Fica o Registro deste post aqui. Naquela altura, em 2018, além do cinismo, descortinei, e critiquei, também o ensaio da jogada em que, agora, em 2021, o mesmo Haddad se empenha com a desenvoltura dos convictos: a união facciosa de Lula com o mais notório dentre os tucanos conservadores em atividade, Geraldo Alckmin. Recuperemos o que vimos lá atrás:

  • Fernando Haddad apontou em entrevista o caráter seletivo da indignação que certos setores da sociedade têm exibido contra a corrupção. Ele tem toda razão e entendo como fundamental apontar que essa hipocrisia é parte do que há de fraudulento no jogo de poder em curso. Entretanto, entendo como igualmente fundamental registrar que a escolha de Haddad não é melhor: ele não mostra nenhuma indignação com a corrupção… A outra face dessa fleuma conveniente é a esperteza contida nessa forma de tergiversar sobre o caso de Lula: “Eu tenho a convicção de quem leu o processo”… – como se convicções políticas se formassem da mesma maneira como se fazem as convicções jurídicas… Por isso mesmo, Haddad abre mão de toda luta política contra Alckmin nesse assunto, como se apontar a convergência entre Paulo Preto e os governos tucanos fosse algo a ser feito apenas no plano jurídico! Não à toa, Haddad declara preferir a palavra de Alckmin à palavra “de quem quer que seja que esteja aí, enrolado com a justiça”, como se enrolados com a justiça não estivessem todos, inclusive Lula. Haddad escolheu esconder-se da crise acocorado sob um telhado de vidro, mas de microfone na mão.
  • Na mesma entrevista, Haddad anacronicamente salientou convergências que vê entre PT e PSDB, como se fosse possível saltarmos os últimos trinta anos (no curso dos quais eles montaram uma polarização fajuta) e covardemente esquecermos que as convergências se deram sobretudo na acomodação à desigualdade, na revitalização dos dispositivos paisanos da ditadura (p-MDB e DEM) e na adesão à corrupção como método de reunir poder para fazer dinheiro. Perdidos no tempo, o PT e o PSDB que ele tem na cabeça são personagens de fábula.
  • É que, tal como naquele cinema pobrinho dos faroestes fajutos dos anos sessenta, onde as cenas perigosas recusadas pelos dois protagonistas “adversários” eram encenadas pelo mesmo dublê, nessa pantomima anacrônica para reavivar a união FHC+Lula Haddad tem a pretensão de ser “descoberto” como o dublê ideal, o que nos leva ao risco de assisti-lo a pregar a união nacional contra o “patrimonialismo moderno” vestindo um macacão emporcalhado de petróleo e montado num jegue – ficcionista nenhum anteciparia que a realidade pudesse descaracterizar D. Quixote e Hamlet a ponto de ser possível desfigurá-los numa fusão tão impertinente.

Se os três parágrafos imediatamente acima descreveram, a quente, o que se passava em março de 2018, agora, em novembro de 2021, estamos a assistir o frondejar daninho do que foi plantado então: a união facciosa (e para inglês ver) de duas forças que, há trinta anos, recusaram unir-se quando isso teria significado a construção de um vetor de luta contra o facciosismo!

Quer dizer, tanto na desejada vitória com Alckmin, quanto no comentário sobre a “vitória” de Ortega, Lula está a exercitar sua condição de líder faccioso empenhado em proteger o Estado de Direito Autoritário como modelo, de costas para tudo o que signifique a trabalheira de construir um Estado de Direito Democrático. Só os muito cínicos e/ou muito cegos podem se entusiasmar com mais essa postulação de Lula à presidência da República.

Fica o Registro:

– Na mesma entrevista ao El País, Lula saiu-se com essa:

“O eleitor brasileiro votou no Bolsonaro pelas mesmas razões que o americano votou no Trump. Foi um momento de desajuste emocional de uma parte da humanidade.”

O obscurantismo dessa observação não faz feio ao lado de uma outra, já explorada aqui, e permite ver por outro ângulo o facciosismo de Lula: ele trata como mero “desajuste emocional” a infelicidade dos descaminhos havidos na luta das mais diferentes sociedades contra o sistema que ele e outros representam, aqui e alhures, sistema esse que deu ocasião ao sucesso dos aventureiros mencionados. Como líder faccioso, Lula pretende que se tome como racionalidade inescapável a razão cínica que o orienta precisamente porque abdicou da luta contra a desigualdade na perspectiva de construir um Estado de Direito Democrático.

– Bolsonaro, embora tenha abandonado o golpismo, continua com seu “método” de blefador: insinua que pode não renovar a concessão da Globo, que vence em outubro de 2022, como se estivesse em condições de posar de machão e, pior, como se dependesse apenas dele a decisão.

– O UOL publicou artigo interessante sobre a condução daninha que Ortega dá ao processo institucional na Nicarágua, no qual o autor explora as ambivalências que caracterizam o exercício da vice-presidência e da “copresidência” pela mulher de Ortega. Ainda que se empenhe em mostrar as diferenças entre a condição de vice-presidente e a de copresidenta, o autor deixa escapar o principal quando se trata de caracterizar a natureza institucional deletéria da ação de Ortega. Nos meus termos, o facciosismo de Ortega pode ser facilmente resumido se recorrermos a ensinamento de Afonso Arinos: “o vice-presidente é vice da República, não do presidente”. Já a copresidente é “co” do presidente Ortega, não da República da Nicarágua.

O SENTIDO NACIONAL DA POLÍTICA MIÚDA

Carlos Novaes, 16 de novembro de 2021

No post imediatamente anterior, publicado aqui há cerca de um mês, antecipamos o que a mídia convencional traz, agora, como notícia da “nova” realidade de Bolsonaro: suas dificuldades para lidar com os interesses eleitoreiros das facções nas composições estaduais. Para quem analisa a situação no intuito de se orientar acerca do rumo político do país, esse jogo miúdo estadual, em si mesmo, interessa pouco, pois o resultado não varia: todos eles se arranjam, com os sacrifícios de praxe, e as versões locais do Estado de Direito Autoritário continuam.

O que ainda há de interessante nisso, porém, é o fato de que a movimentação de Bolsonaro no âmbito estadual se mostra atribulada não apenas em razão da imbecilidade dele, mas porque essa costura de interesses esbarra na preferência da sua base paisana por uma ruptura com o “sistema”. Bolsonaro está a fazer a política facciosa pró-sistema que a sua base mais fiel rejeita. Essa base insiste em Bolsonaro como alternativa antissistema. Por que, depois de tudo que houve, depois até mesmo da Carta do Temer, essa base paisana ainda acredita que Bolsonaro venha a se conduzir de um modo antissistema, encarando toda evidência contrária como tática? Porque nosso cérebro trabalha sobretudo com as narrativas em que ele próprio se empenhou e já enviou à memória. Para ele, é mais fácil elaborar uma narrativa justificadora do que uma narrativa contraposta, afinal, enquanto o primeiro tipo tem a marca do mero ajuste; o segundo impõe a trabalheira que toda construção nova requer.

Quando, em 2002, Lula lançou a Carta aos Brasileiros, a base lulopetista com preferência firme pelo socialismo viveu dilema cerebrino parecido. Naquela altura, não foi incomum encontrar petistas com a narrativa de que a Carta respectiva também era apenas um recuo tático, para vencer a eleição; depois de vencer, Lula haveria de fazer um governo no rumo do socialismo… [A criação do PSOL saiu da frustração dessa expectativa (para, no final, acabar repetindo a capitulação petista, mas sem carta – mas isso já é outra história)]. Voltemos.

A manobra que Lula consubstanciou na Carta deu certo não apenas porque era para valer, mas, sobretudo, porque foi realizada afinada com a democracia e num ambiente político de esperança: ficou incontornável dar uma chance a Lula e seu PT. A situação de Bolsonaro é oposta: ele já ocupa a presidência da República, e o faz de um modo tão incompetente e desumano, que, ao contrário de Lula em 2002, já não pode suscitar qualquer esperança. Bolsonaro é a certeza de que dias piores virão.

Lula, agora, ainda pode suscitar esperanças por três razões: primeiro, o desastre do governo Bolsonaro torna qualquer um motivo de esperança; segundo, os governos Lula foram indiscutivelmente melhores que o governo Bolsonaro; terceiro, Lula pode camuflar sua condição de agente faccioso na injustiça que sofreu na disputa contra outras facções. O Lula injustiçado no jogo bruto do sistema ajuda a esconder o fato de Lula ser figura central na operação do mesmo sistema, nesse caso, o Estado de Direito Autoritário.

É nessa camuflagem que Lula pode dialogar com o sentimento antissistema da maioria da sociedade brasileira, em seu natural pendor cerebrino pelas narrativas acomodatícias. Vem daí minha surpresa com as notícias sobre o interesse de Lula em ter Alckmin como vice em sua chapa. Afinal, se Alckmin viesse a enveredar por esse caminho suicida, estaria a formar com Lula uma chapa pró-sistema em estado puro. Alckmin na vice ajuda a quebrar o que há de falso encanto na candidatura de Lula. Fiquei surpreso porque, a ser verdade o desejo que se atribui a Lula, ele, ao contrário do que imaginei, não entendeu bem o lugar que ocupa na política brasileira atual. Seria um erro cuja irracionalidade compete com aquela que o levou a não disputar a eleição de 2014 no lugar de Dilma — em política, do irracionalismo saem conformações monstruosas…

E mais: esse balão de ensaio de Alckmin como vice de Lula pode ter ajudado Eduardo Leite nas prévias do PSDB. É que os tucanos paulistas que temem ter de enfrentar Alckmin na disputa pelo governo de SP podem ter sido levados ao cálculo de que prender Dória na disputa pela própria reeleição ajudaria a empurrar Alckmin para a chapa de Lula, uma vez que o único adversário temível para Alckmin na disputa pelo governo paulista é justamente Dória, que ainda manejaria a máquina estando no cargo. Se for assim, Lula terá contribuído para que um adversário perigoso se viabilize como candidato à presidência.

Seja como for, por que Alckmin abandonaria a grande chance de voltar a pilotar o segundo orçamento do país em troca da condição figurativa de vice do Lula? Ademais, essas especulações devem ter motivado ainda mais Alckmin para a disputa do governo de SP, mesmo se tiver de enfrentar Dória, e não o desconhecido Garcia; afinal, depois de tentar atraí-lo para a chapa de Lula, o PT terá alguma dificuldade para atacá-lo na disputa para governador — se servia para vice, por que não serve para governador?

Se Lula vem semeando dificuldades em terreno que parecia propício, Bolsonaro está a encontrar dificuldades no terreno lamacento em que sempre chafurdou: a emergência de Moro não como terceira via (como já apontei no último parágrafo desse post aqui), mas como candidato na própria via em que o besta se julga senhor. Moro pode se tornar uma alternativa bolsonarista a Bolsonaro, dando novo embalo ao reacionarismo antissistema, que quer substituir o Estado de Direito Autoritário por um Estado com menos de direito e mais autoritário, vamos ver.

SENTIMENTO ANTISSISTEMA E A ELEIÇÃO DE 2022

Carlos Novaes, 17 de outubro de 2021

Nessas últimas semanas fizemos uma pausa para assistir sumirem no horizonte a histeria golpista, a bobagem do “frentismo” e alguns dos equívocos conexos. Nada disso deixou rastro, e vem se generalizando na mídia o clima de campanha eleitoral. Nenhum dos assíduos alarmistas de até bem pouco tempo sentiu necessidade de rever o que veio dizendo ao longo desses longuíssimos quase dois anos de disparates. Esse olhar de paisagem é parte do conformismo que ajuda a consolidar a bitola do velho normal como parâmetro para o desenrolar da crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário. Mas essa normalidade é aparente, pois a ilegitimidade é real.

Enquanto a maioria da sociedade anima suas expectativas orientada segundo a preferência pela democracia associada ao pendor antissistema, os políticos de carreira, profissionais do sistema, persistem no jogo de facções orientados para a disputa eleitoral do ano que vem, ocasião em que redefinirão seus cacifes para repartir o privilégio do exercício faccioso dos poderes institucionais.

Quem percebe essa assimetria de fundo entre a maioria da sociedade e os políticos facciosos não pode deixar de considerar a situação política como precária, especialmente depois que Bolsonaro, emparedado pela ação de segmento desgarrado da sua própria base, foi obrigado a jogar fora, precocemente e à vista de todos, o recurso ao blefe do “golpe”, escancarando sem subterfúgios sua sabida rendição ao velho normal, o que desembocou na campanha pelo fantasioso objetivo da reeleição.

Note bem, leitor: em 2022 Bolsonaro já não poderá jogar como se fosse antissistema, como fez com êxito em 2018. Pelo contrário: para se credenciar à reeleição ele terá de partir da condição de ocupante do cargo de presidente da República. Quer dizer, sempre que se jactar de alguma “realização”, sempre que comparar seu governo com governos anteriores, Bolsonaro estará afirmando sua condição de figura do sistema, não a ele contraposta. Isso muda tudo na campanha dele.

Ao contrário do que fez em 2018, para 2022, como está enleado ao velho normal, Bolsonaro terá de buscar alianças com outras facções, entrando de cabeça no jogo viciado dos palanques eleitorais dos estados, nos quais já não haverão os candidatos “antissistema” que se multiplicaram como ratos na eleição passada, e ajudaram a criar a onda favorável. Náufrago do próprio desgoverno, Bolsonaro irá aparecer procurando amparo nas boias cada vez mais ariscas de figuras carimbadas, disputando acordos políticos que em 2018 hostilizou, retoricamente, com sucesso.

Essa coreografia esvazia parte do que em 2018 foi erroneamente chamado de antipetismo, como se o eleitor estivesse rejeitando o PT, e não o sistema, ou seja, o Estado de Direito Autoritário, do qual o PT era, então, a face mais visível. Quer dizer, mesmo o que houver de antipetismo dificilmente se orientará na direção de Bolsonaro, um presidente inepto e desuamano, rendido ao sistema, que em 2022 nada poderá oferecer de novo.

Só quem não enxerga (ou não acredita) na crise de legitimação que subjaz o ânimo antissistema da maioria do eleitorado acha que Bolsonaro é um candidato forte porque dispõe da caneta, da força do cargo, como se o fato mesmo de estar no cargo já não gerasse antipatias, especialmente no caso de um governo tão mal avaliado. Para esse pessoal, “Bolsonaro não deve ser subestimado como veio sendo e, em 2018, acabou por chegar onde está”. Ora, o erro em 2018 (meu e de muitos outros) não foi “subestimar” Bolsonaro, mas subestimar a força do ânimo antissistema da maioria do eleitorado — não se viu que qualquer um que se colocasse na posição antissistema teria levado aquela eleição. Bolsonaro não foi o primeiro, nem será o último imbecil a se dar bem não obstante sua imbecilidade, afinal, o que dá forma às situações histórias não são as escolhas individuais dos espertalhões, mas as complexas interações entre essas escolhas e as escolhas dos demais…

Naquela altura, Bolsonaro pôde realizar uma campanha de segundo turno não apenas sem precisar fazer qualquer movimento concessivo, mas repelindo alianças; recuar para posições centristas ter-lhe-ia tirado votos, como então analisei aqui. Em outras palavras, em 2018 a maioria do eleitorado queria radicalidade antissistema. Sem esbanjar lucidez, e com a ajuda da nossa autointitulada esquerda (esse marisco agarrado ao Estado de Direito Autoritário), a maioria viu em Bolsonaro essa radicalidade.

A solidez aparente da polarização entre Lula e Bolsonaro não é aparente apenas porque o besta arruinou-se. A solidez dessa polarização fajuta (e fajuta não porque eles sejam a mesma coisa – não são!! – mas porque ambos são modos de aparecer muito diferentes de um mesmo problema: a falta de alternativa para construir um Estado de Direito Democrático orientado pelo combate à desigualdade), a tal solidez, eu dizia, é aparente também porque a preferência por Lula tampouco é sólida, e só persiste porque a crise de legitimação não aflora às consciências como resultado do Estado de Direito Autoritário, que também é obra de Lula.

Na falta de uma alternativa, a radicalidade da crise fica dissimulada na retórica do processo eleitoral, e permanece sendo vivida como sofrimentos contemporâneos, mas não concatenados, ganhando formas isoladas nas queixas ante o arbítrio policial contra uns, a fome de outros, os desvalimento social ante privilégios burocráticos de alguns, o desemprego de muitos, a corrupção, a ruína do espaço público, o racismo, a frustração da ascenção social, a deterioração urbana, as assimetrias de gênero, a perda da capacidade de consumo, a violência cotidiana, as mazelas ambientais, etc.

Ante rol tão poderoso de sofrimentos, e uma vez compreendido que o pendor antissistema persiste, não poderá deixar de haver espaço para uma ou mais candidaturas contrapostas à dupla que mais facilmente pode ser apontada como “do sistema”: Lula-Bolsonaro. Dos nomes que já se atiraram à disputa, o menos viável me parece Ciro Gomes, sendo o mais viável Eduardo Leite. Ciro tem escassas possibilidades porque é homem do sistema que insiste (desde 2018) em fazer a briga facciosa tradicional, referido às facções, centrado nelas, buscando apoios e polarizações no âmbito desse jogo – tudo isso com modos de coronel intemperante, fazendo uso de palavrões, numa figuração que não sugere alternativa aos modos belicosos de Lula e Bolsonaro. Exemplo recente desse comportamento equivocado ele nos deu ao declarar que Lula teria conspirado em favor do golpe contra Dilma, afirmação estapafúrdia por si só (tanto que logo em seguida teve de desdizer) e que, ademais, o mostrou preocupado com tema ao qual o eleitorado devota interesse zero.

Lançado ao grande público em programa da Globo muito bem roteirizado e coreografado, Eduardo Leite vem mostrando que poderá se revelar o avatar ideal para a ilusão de que uma novidade poderá, “serenamente”, deixar tudo de ruim para trás… Embora não seja propriamente um jovem, Leite combina a condição de governador de Estado com o fato de ser o nome mais destacado de uma nova geração, o que na situação atual vem a calhar: além de aparentemente dialogar com o pendor antissistema (Leite não teria os vícios das gerações mais velhas), sua mocidade ajuda a embalar a ideia de que é possível recomeçar, especialmente nesse figurino calmo, a contrastar com a brutalidade de Bolsonaro e com a crispação ocasional de Lula. O fato de Leite ter se declarado gay também ajuda, pois essa característica pessoal vai ao encontro da grande diversidade da sociedade brasileira, que tem estado encoberta pelo barulhento reacionarismo de costumes que a fugaz aderência de Bolsonaro ao sentimento antissistema acabou por sugerir, equivocadamente, que fosse majoritário entre nós. Não é. Nosso conservadorismo de costumes não é reacionário, isto é, a maioria dos nossos conservadores não quer impor sua régua de costumes aos demais e até gostaria de poder mostrar isso na próxima eleição…

Como Lula tem a história que tem e sofreu perseguição e punição movidas a arbitrariedades e injustiças por parte de formações facciosas adversárias, ele vem se beneficiando de aspectos do sentimento antissistema, pelo menos até que surja uma alternativa… Vamos ver como as facções adversárias vão se virar para trabalharem o “frentismo” (vejam os caprichos da história…) não contra Bolsonaro, mas contra Lula, tirando proveito do sentimento antissistema, e empurrando com a barriga a crise de legitimação. Leite pode se ajustar a esse papel.

EX-ELEITORES DE BOLSONARO SÃO PARTE DA SOLUÇÃO

[Em 03/10] ATENÇÃO: está disponível aqui, e na aba LINKS, a mais nova versão, em .pdf, com alterações e acréscimos, do meu livro sobre obras-primas de Púchkin e Turguêniev.

EX-ELEITORES DE BOLSONARO SÃO PARTE DA SOLUÇÃO

Carlos Novaes, 26 de setembro de 2021

Para quem acompanha este blog, a entrevista que Bolsonaro concedeu à Veja e suas declarações públicas mais recentes nada trouxeram de novo: ele está tentando consolidar uma nova fase, centrada no objetivo de construir uma candidatura viável à reeleição (ainda que sem abandonar de todo o objetivo delirante de um dia ser um ditador, e o objetivo mais próximo, de salvar da cadeia a si e aos seus, como detalhei aqui). Para desapontamento da minoria paisana mais autoritária da sua base minoritária (minoria dentro da minoria), ele desistiu até da propaganda do “voto impresso”, e mais: para fazer esse novo recuo, o besta se apoiou no ministro Barroso, presidente do TSE, a quem acusava de ter influenciado indevidamente o Congresso…

Agora, Bolsonaro elogia Barroso pela iniciativa de ampliar a transparência do processo eleitoral, o que equivale a reconhecer a idoneidade da urna eletrônica. Somado ao telefonema para Moraes, esse elogio é o arremate da sujeição do besta ao velho normal. Se juntarmos essa sujeição à discussão que fizemos nos períodos pré e pós 7 de setembro, temos a extensão do equívoco dos que insistem em prever que Bolsonaro, “fera ferida”, “não vai parar” e logo voltará a atacar “nossas instituições democráticas” e a fazer “ameaças à democracia”. São essas fantasias que orientam o contínuo, e inútil, esforço pela construção da frente.

Felizmente, há pesquisas que nos ajudam a explorar esse cipoal aparente. Já vimos aqui alguns dos números da última pesquisa DataFolha. Neste domingo, a Folha de S.Paulo trouxe novos números.

O mais interessante nesses números é que eles permitem ilustrar de maneira nova a relação entre “preferência pela democracia”, “temor de golpe/ditadura”, “ameaças à democracia” , “confiança no que Bolsonaro diz” e “desempenho de Bolsonaro como presidente”. Embora a matéria sonegue o percentual dos que declaram ter votado em Bolsonaro no segundo turno de 2018, omitindo uma informação fundamental para a análise dos dados, ela nos mostra como essa parte do eleitorado se posiciona nas questões acima e permite comparar suas respostas com as do eleitorado em geral.

Na tabela a seguir, dispus os dados para comparação e fiz comentários aos blocos de temas. Julgue por si mesmo, leitor (para ampliar, clique na tabela e, então, clique novamente sobre a imagem dela):

Fonte: Instituto DataFolha, via matéria na Folha de S. Paulo.

Diante do contraste interessante e perfeitamente compreensível entre, de um lado, a avaliação majoritária dos eleitores de Bolsonaro de que não há chance de ele dar um golpe (68%) e, por outro lado, o desapontamento da base paisana autoritária dele com os recuos do chefe depois do dia 7, a jornalista que apresentou os números do DataFolha na matéria avaliou que

De forma contraditória, os que votaram em Bolsonaro dizem, em sua maioria, não haver chance de que ele dê um golpe de Estado —mas, ao mesmo, tempo, a base bolsonarista ficou desapontada quando ele recuou por meio de uma carta feita com a ajuda do ex-presidente Michel Temer (MDB).

Embora compreensível, esse juízo equivocado é muito ilustrativo do equívoco mais geral sobre o que se passa, afinal, não há contradição alguma: a base paisana autoritária de Bolsonaro não representa a maioria que deu a vitória a Bolsonaro no segundo turno de 2018. Pelo contrário: a maioria daquela maioria prefere a democracia e jamais endossou os delírios autoritários do besta (sabem-no um blefador), delírios estes apoiados apenas por quem incorporou o delírio ao pé da letra. A maioria dos ex-eleitores de Bolsonaro está como a maioria dos demais: espera, sem muita clareza, uma alternativa democrática antissistema, sempre que por “sistema” entendermos o Estado de Direito Autoritário, que está em crise de legitimação.

BOLSONARO DEVE SER DERROTADO; NÃO DERRUBADO, MAS… — 2 DE 2

Carlos Novaes, 19 de setembro de 2021

Depois da análise do que se passaria no dia 7, e do que se passou ali e nos dias imediatamente subsequentes, vimos no artigo anterior que Bolsonaro não é uma ameaça pelo que diz contra a democracia, mas, sim, pelo que seu autoritarismo faz amparado no “de direito” do Estado de Direito Autoritário. Esse conjunto de análises está amparado no que venho dizendo pelo menos desde antes das eleições de 2018, período no qual tenho tentado fundamentar uma leitura da realidade política brasileira totalmente diferente, e até oposta, em conteúdo e forma, do que tem sido o padrão das análises com assento na mídia convencional.

Hoje, o caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo traz um artigo de André Singer, professor de Ciência Política na USP. O artigo é, em forma e conteúdo, um retrato de corpo inteiro do ponto de vista que tenho combatido. A crítica abaixo, por sua vez, contraria o usual em forma e conteúdo: na forma, trata-se de não aceitar a interdição ao debate que impera no meio acadêmico brasileiro, onde todos citam todos e ninguém critica ninguém. No conteúdo, trata-se de uma vez mais mostrar a inconsistência do onipresente “frentismo“.

Não seria descabido se o leitor fosse ao texto de Singer antes de prosseguir na leitura desta crítica.

A forma sugere que o conteúdo foi provado

Na forma, o artigo de Singer reproduz o padrão médio do que tem sido publicado pelos intelectualistas na mídia: mistura o jeitão informado do intelectual com a ligeireza jornalística, trazendo citações precariamente harmonizadas entre si e com a realidade que se propõe a analisar. Talvez a melhor prova dessa afoiteza seja a pergunta que Singer fez, e não respondeu, a respeito do uso que deu a um texto de Leon Trotsky.

Depois de conceder que a situação brasileira é muito diferente daquela que o revolucionário russo tinha em mente quando produziu sua análise, Singer pergunta: “Por que, então, lembrar texto nonagenário, escrito em um dos piores invernos europeus?” Desafio qualquer um a encontrar resposta a essa pergunta no texto de Singer. Pelo contrário, ele vai fugir da resposta insistindo na forma: fazer citações de autores que pensaram situações alheias e alhures, como se as correspondências entre as realidades estivessem dadas, fossem óbvias (depois de, claro, ter colocado a vacina de que as aproximações devem ser feitas “cum grano salis”…). E insiste na forma, como se ela pudesse legitimar o conteúdo que ainda precisaria ser demonstrado.

Venho dizendo que Bolsonaro é um imbecil que chegou à presidência da República com delírios de ditador e se encontra em profunda desorientação porque esbarrou na sólida preferência da maioria de nós pela democracia, e na cerrada barreira das facções que manejam o Estado de Direito Autoritário. Para Singer, porém, Bolsonaro parece perfeitamente orientado. Para nosso autor, a semelhança das situações de Brasil (2021) e Alemanha (193?) pode ser vista na “técnica utilizada por Bolsonaro para iludir os demais atores em cena”. Singer invoca Stefan Zweig, ali onde o escritor diz do “método hitleriano”:

“Uma dose de cada vez, e depois de cada dose uma pequena pausa. Sempre só um comprimido e depois esperar um pouco para verificar se não era forte demais, se a consciência do mundo tolerava essa dose.

Ora, já vimos, antes do dia 7, que Bolsonaro não está progredindo por doses, está recuando por coices, precisamente porque a realidade brasileira repele vivamente o que ele pretende (tudo oposto ao que o “método hitleriano” encontrou na sociedade alemã, afundada na crise depois da Primeira Guerra). Mas Singer não desanima, e mantém a forma.

Depois de fazer uma menção ligeira a Hannah Arendt, ao que parece para dar um ingênuo pito de advertência à burguesia brasileira (essa sempre tão sonhada aliada), Singer busca amparo na ideia do “autoritarismo furtivo”, de Adam Przeworski, descrito como “um processo ‘devagar e sempre’, em que a erosão, conduzida por governantes eleitos, ocorre bastante por dentro das leis e é cheia de vaivéns” — bem… gostaria muito que alguém me mostrasse o que há de “furtivo” e de “devagar e sempre” na ação de Bolsonaro. Como vimos no artigo anterior, a ação danosa dele é escancarada e não se faz contra as franquias democráticas, contra as quais ele tem se limitado a vociferar em recuo, ao contrário do que sugere Singer, quando fala do uso “furtivo” de “brechas disponíveis para restringir a liberdade de expressão” (é justo o contrário: Bolsonaro quer a mais ampla “liberdade de expressão” porque abriga nela as suas provocações).

Aliás, Singer invoca um filósofo para dar nome novo ao comportamento básico do bolsonarista militante: um provocador. Agora, o velho comportamento que conhecemos como provocação se chama trollagem, como se o fato de a provocação ser feita na internet autorizasse sua elevação a conceito — na citação abaixo, quem substituir troll por provocador e trollagem por provocação verá que a palavra nova não nos colocou um passo adiante do que já sabíamos. Diz Singer:

“O filósofo Rodrigo Nunes explicou […] como a alternative right, à qual Trump e Bolsonaro se aliaram, ‘descobriu as vantagens de assumir a posição de uma das figuras centrais da cultura contemporânea: o troll’. Para redigir este artigo, aprendi que ‘to troll’, na internet, é algo como jogar uma isca para pegar trouxas.

A chave para compreender a trollagem é que ela busca “introduzir ideias ‘polêmicas’ e ‘controversas’ no debate público de maneira irônica, humorística ou com certo distanciamento crítico, mantendo sempre a dúvida sobre o quanto ali é brincadeira ou para valer”, diz Nunes.

Para ilustrar os perigos da confusão entre “brincadeira” e “para valer” — aliás, uma ambiguidade típica das provocações, — Singer traz a invasão do Capitólio, nos EUA, por uma turba de arruaceiros seguidores de Trump:

Brincadeira ou tentativa golpista de verdade? Uma mistura fatal, pois, ocupado durante quatro horas, o Congresso dos Estados Unidos da América teve que ser defendido a tiros, custando cinco vidas.”

Antes de mais nada, note, leitor, como Singer faz duas trollagens nas linhas acima: numa, fica parecendo que as cinco vítimas foram decorrência de tiros disparados em defesa do Capitólio, quando a verdade é que uma única invasora foi vítima de tiro, sendo também ela a única que morreu no que ele diz, em outra trollagem, “defesa” do Capitólio (como se a instituição tivesse, mesmo, estado em risco). Quer dizer, não foi “de brincadeira”, nem “para valer”, pois embora os arruaceiros não estivessem brincando (e isso sempre esteve claro), tampouco a invasão foi “para valer” porque eles jamais tiveram qualquer chance contra a lei, e não há “confusão” alguma quanto a isso, tanto que pude antecipar aqui o cerne daqueles fatos.

Mutatis mutandis, aquele punhado da base paisana de Bolsonaro que queria invadir o STF no dia 7 também não estava brincado, mas tampouco houve qualquer chance de eles conseguirem fazê-lo. Aqueles pobres diabos não entenderam que o chefe, um provocador de garimpo, estava a blefar. Ademais, as provocações de Bolsonaro não estão a fortalecê-lo, mas a desgasta-lo. Ele não ganhou gente nova e teve aumentada a sua rejeição. A maioria já está farta deste imbecil também porque já entendeu que se trata de um imbecil!

Mas Singer insiste em nos prevenir contra a ameaça que Bolsonaro representaria para a democracia, e até recorre a um paralelo estapafúrdio com Mussolini, como se a marcha ascensional do bufão italiano rumo ao cargo de primeiro-ministro pudesse ser comparada à trajetória de tropeços e recuos do Malasartes brasileiro, já desgastado pela incompetência e desumanidade com que está a se conduzir na presidência da República.

Certo de que estamos à beira do abismo, tal como na Alemanha examinada por Trotsky, Singer apela para que façamos dos bolsonaristas uma “franja lunática e isolada” (como se já não o fossem!!), tarefa redundante para a qual repete ideia que Marcos Nobre apresentou tempos atrás, aparentemente também inspirada nas reflexões do pensador e revolucionário russo; só que Singer não quer defender unidade no segundo turno, como fez Nobre, ele quer unidade pelo impeachment de Bolsonaro e, coração generoso, se dispõe a buscar “pontos unificadores” entre “esquerda, centro e direita”… — pobre Trotsky, a quem só restaria dizer “vai indo que eu não vou”. Ademais, com a campanha eleitoral na rua, essa unidade não passa de fantasia.

Se Bolsonaro vier a sofrer impeachment, o que sequer está no horizonte, será porque a população foi levada a um sofrimento diante do qual qualquer “unidade” frentista conversada entre facções será irrelevante, afinal, embora não o “saiba” conscientemente, a maioria da sociedade percebe que está a viver as consequências do que nos governos tucanos e lulopetistas foi a adubação incessante (com o estrume da corrupção) de “pontos unificadores” entre “esquerda, centro e direita” — o que é uma outra forma de ver como Singer é mais um dos que estão agarrados às instituições do Estado de Direito Autoritário em crise de legitimação.

BOLSONARO DEVE SER DERROTADO; NÃO DERRUBADO, MAS… — 1 DE 2

Carlos Novaes, 17 de setembro de 2021, 15:43h

Com acréscimo na seção Fica o Registro, em 18/09, às 12:30h e ++ acréscimos às 15:45h e às 17:39h

Embora rejeite Bolsonaro e reprove o governo dele, a maioria da sociedade brasileira não se mobiliza para derrubá-lo, como chegou a fazer contra Collor e, depois, com outra configuração, por outras vias e segundo outras motivações, com o golpe contra Dilma. É que a maioria de nós se encontra num impasse: de um lado, rejeitamos Bolsonaro, mas já não temos as ilusões que tínhamos no Legislativo (representação) e no Judiciário (judicação) para corrigir o que identificamos como nefasto no Executivo (gestão) — ou seja, já não confiamos nas instituições, desconfiança que caracteriza a crise de legitimação do Estado de Direito AutoritárioEDA. Afinal, quem já não se encheu do jogo faccioso dos Gilmares? Quem ainda leva a sério uma CPI manejada pelo jogo faccioso dos Renans? Dois exemplos recentíssimos: o assunto do foro de Flávio Bolsonaro saiu da pauta do STF; a CPI, depois de aprovar a convocação de ex-esposa de Bolsonaro, desistiu do interrogatório de alto potencial explosivo.

Ao entendermos que pedir às facções que derrubem Bolsonaro não é uma solução, somos levados ao outro lado do impasse: se impõe a intuição incômoda de que o desafio é muito maior: temos de construir métodos, ferramentas e programa para fazermos da derrota de Bolsonaro o início da ação política que nos permita transpor o Estado de Direito Autoritário, dando solução à crise de legitimação. Evidentemente, esse estado de coisas ainda não está claro para as consciências, mas esse é o plano profundo em que as escolhas são feitas e em que nadam os oportunistas.

Em suma: derrubar Bolsonaro fortaleceria as facções (que agiriam respaldadas na nossa pressão), e “legitimaria” este Estado (pois respaldaria instituições cujas práticas nos infelicitam); já derrotar Bolsonaro requer se empenhar e programar o início da luta efetiva por um Estado de Direito Democrático. Daí o falso paradoxo que desorienta a autointitulada esquerda e os progressistas, tão cegos em seu empenho para voltar ao velho normal: a maioria rejeita Bolsonaro, mas não vai às ruas implorar que eles o derrubem.

A inércia dessa maioria que rejeita Bolsonaro e, ao mesmo tempo, não confia nas facções que dão corpo à prática nefasta das instituições, resulta também da desorientação em que estas facções, intelectuais, jornalistas e intelectualistas (intelectual com cacoete de jornalista) a mantém quando insistem no alarido midiático de que Bolsonaro é uma ameaça às franquias democráticas, a um suposto Estado democrático de direito. Permitam-me explicar essa ideia paulatinamente, à luz dos fatos havidos desde o 7 de setembro.

A própria base de Bolsonaro o levou à capitulação

Se não houvesse ocorrido o desgarramento da sua base paisana (a “sociedade civil” dele), não teria havido capitulação e provavelmente Bolsonaro poderia fazer da Carta e do telefonema a Moraes mais um lance de mera pantomima entre fanfarronice verbal e rabo-entre-as-pernas. Ao passar das palavras à ação golpista, porém, a base paisana mostrou a Bolsonaro que ele já não controlava os desdobramentos dos próprios blefes nem em suas fileiras , com severas consequências na economia, que ele usara como pretexto para a aposta desumana no trato da pandemia. Afinal, a paralização de estradas pela ação golpista de seguidores que ele próprio incitara a participar de mais um blefe, se tornara, a paralização, um problema econômico que ele não poderia sequer tentar transferir para outros agentes, como vem insistindo em fazer com os danos econômicos provocados pela pandemia.

Embora a mente confusa de Bolsonaro não tenha deixado de usinar os três objetivos que esmiuçamos aqui (ser ditador; vencer a reeleição e/ou salvar da cadeia a si e aos seus), a capitulação e seus desdobramentos escancararam o pragmatismo a que ele foi arrastado em razão dos problemas com a justiça (inquéritos contra si e os seus e a CPI — ao contrário da maioria de nós, Bolsonaro, agente faccioso, teme os estragos relativos dessas movimentações adversárias). Quer dizer: a preferência da maioria da sociedade pela democracia e a ação institucional das facções adversárias obrigaram Bolsonaro a modelar seus sonhos numa banda mais estreita: ficou ainda mais marginal o objetivo delirante de se tornar um ditador, e ganhou força a fantasia de se tornar um candidato eleitoralmente viável (ou seja, em condições de vencer).

Tenhamos como marco da capitulação de Bolsonaro o dia 9 de setembro, que foi analisada detalhadamente aqui desde a sua preparação, passando pelo dia 7, até os desdobramentos mais sensíveis na própria base do besta. Vista nos termos em que a vimos, essa capitulação exigiria de analistas e políticos uma reorientação na forma de ajuizar os problemas e na ação política para enfrentá-los. Infelizmente, não é isso o que ocorre; pelo contrário, o que marcou o transcurso desta semana que nos separa da capitulação do besta foi a insistência no discurso (e na prática dele decorrente) de que Bolsonaro é uma ameaça à democracia, a um suposto Estado democrático de direito.

Danos de Bolsonaro não são à democracia

A maioria da sociedade rejeita Bolsonaro pelo conjunto da obra, nela incluída a sua sequência de blefes danosos. Mas ela, a maioria, não o leva a sério pelo que diz em ameaça às franquias democráticas — ela já o entendeu como um blefador e que na prática daninha dele na presidência há de tudo, menos ações efetivas para suprimir na marra franquias democráticas. Por exemplo:

– Bolsonaro tentou, pela via legal, tornar inconfiável a franquia democrática ancorada na urna eletrônica; não conseguiu, blefou e teve de engolir a decisão da Câmara contrária ao voto impresso;

– Bolsonaro ataca a franquia democrática da imprensa livre, maneja a distribuição, que lhe é “de direito”, das verbas de comunicação segundo suas preferências, mas não fez nenhuma ação concreta para fechar ou, muito menos, empastelar órgãos de imprensa;

– Bolsonaro faz uso torpe, até obsceno, do direito à livre expressão e manifestação nas redes sociais, mas não tomou medidas para suprimir as vozes contrárias (até pelo contrário, investe no caos da desregulação);

– Bolsonaro promoveu manifestações contra as instituições na linha do golpe de Estado, mas se limitou a blefes, não passou à prática e, como vimos, teve de implorar recuo à base paisana que partiu para a ação depois de incitada por ele.

A rejeição de Bolsonaro está ancorada, portanto, não numa suposta ameaça que esse fanfarrão represente à democracia, mas no uso real que ele vem fazendo das prerrogativas da presidência da República legadas pelo Estado de Direito Autoritário-EDA, construído nos últimos trinta anos. Vejamos alguns exemplos de danosas ações ilegítimas, mas “de direito”.

O problema é o EDA em crise de legitimação

– O EDA permitiu a Bolsonaro se eximir de combater a pior pandemia em décadas. Ele pôde não apenas assistir, sem nada fazer, a morte de centenas de milhares de brasileiros, como ainda sabotou esforços de outros. No entanto, a CPI encarregada de investigar os crimes relacionados a essas escolhas está a descobrir que o EDA não propicia instrumentos/instituições que amparem punições adequadas (isso se as facções o quisessem…);

– O EDA deu oportunidade a que Ricardo Salles desmontasse, dentro do “de direito”, IBAMA e Chico Mendes, passasse a boiada, com incontáveis crimes ambientais diretos, envolvendo madeireiras, mineradoras, atravessadores, grileiros, barcos pesqueiros, incendiários e toda sorte de bandidos da selva;

– O EDA protege em seu marco legal as ações nefandas de Sergio Camargo à frente da Fundação Palmares, não havendo leis ou instituições que possam barrar ações tão claramente agressivas ao bem comum, no que talvez seja a prova mais cabal do racismo estrutural entranhado na própria forma do “de direito” no Brasil;

– O EDA permitiu que a FUNAI, instituição “de direito” destinada a proteger e promover a melhoria da vida dos povos ameríndios, fosse transformada numa agência dos interesses de ruralistas, o grupo mais claramente voltado contra essas populações vulneráveis;

– O EDA deu ocasião, no âmbito do “de direito”, à mais importante operação judicial contra a corrupção, a Lava Jato, no curso da qual foi possível que as facções distribuíssem arbitrariedades a tal ponto que, hoje, é tão impossível defendê-la quanto parabenizar aqueles que se ocuparam de contê-la, pois o resultado final é a impunidade da maioria dos envolvidos graúdos, numa autêntica apoteose facciosa;

– O EDA possui uma Constituição tão precariamente regulamentada que, mais de trinta anos depois de sua promulgação, Bolsonaro ainda pode pretender retirar da população ameríndia o direito à demarcação das suas terras, aspecto “de direito” que há muito deveria estar estabelecido;

– O EDA é tão frouxo na proteção de direitos humanos e individuais básicos que ações policiais arbitrárias, com emboscadas, espancamentos, assassinatos, violações de domicílio e toda sorte de autoritarismos estão plenamente abrigadas no âmbito do “de direito”, a tal ponto rotinizadas como prática institucional que Bolsonaro tem espaço de sobra para se congratular com elas e buscar entre seus praticantes a sua base miliciana, complemento indispensável da sua base paisana, tudo em arremedo aos dispositivos paisano e militar da ditadura;

– O EDA é tão propício à proteção de privilégios, que mais de trinta anos depois do fim da ditadura paisano-militar, tudo continua ilegítimo no que é “de direito” para os hierarcas da burocracia: além de privilégios previdenciários, temos juízes com remunerações finais estratosféricas e militares acumulando salários em estatais que são um escárnio à pobreza vivida pelo nosso povo, ao qual se atiram migalhas como se fossem medidas contra a desigualdade.

Nenhuma dessas macabras ações ilegítimas tem a ver com as franquias democráticas. Nenhuma delas ameaça o (suposto) Estado democrático de direito, até porque jamais deixaram de ser compatíveis com essa versão dele!

Portanto, Bolsonaro não é uma ameaça pelo que diz contra a democracia; ele é maléfico pelo que faz contra a maioria da sociedade e contra os segmentos mais vulneráveis dela. Bolsonaro pôde fazer tudo isso sem alterar as franquias democráticas, sem ser barrado pelo “de direito” de um suposto Estado democrático de direito. Mas nossa autointitulada esquerda e nossos progressistas não podem enxergar isso porque estão agarrados feito mariscos a este Estado, que também é obra deles. No tempo em que os progressistas (PSDB) e a autointitulada esquerda (PT) detiveram o privilégio de comandar o exercício faccioso dos poderes institucionais, acomodaram-se ao jogo das facções e não se empenharam em nenhuma reforma estrutural “de direito” que impedisse esse uso ilegítimo das instituições, que já então acontecia, só que em menor intensidade (em algumas áreas) e com menos descaramento.

Aliás, foi precisamente a acomodação deles ao status quo faccioso que nos levou à crise de legitimação e, dela, ao sentimento antissistema na maioria da sociedade e, deste, à vitória de Bolsonaro em 2018, como já expliquei aqui e em muitos outros posts deste blog. Por outro lado, a insistência no “frentismo” pela democracia decorre também das dificuldades desse pessoal para enfrentar um programa alternativo detalhado, que exigiria, no limite, que cada um dissesse, afinal, qual é a democracia que almeja. Para esse pessoal, tudo se passa como se a democracia já não precisasse ser discutida, como se ela já tivesse sido “consolidada” e, ao mesmo tempo, falam de instituições “colapsadas”, de “crise institucional”, de “instituições que funcionam”, de “instituições que resistem”, instituições “conspurcadas“, com toda sorte de inconsistências evidentes. No final, quando Bolsonaro tiver ficado para trás, muitos irão bater no peito e dizer: “nossa sólida democracia venceu!”, quando a vitória terá sido da maioria da sociedade que prefere a democracia, e do Estado de Direito Autoritário, que usa essa energia para derrubar ou derrotar quem o ameaça.

Por tudo isso, não é de surpreender que no curso desta semana que nos separa do dia da capitulação de Bolsonaro, intelectuais, jornalistas e os cada vez mais numerosos intelectualistas tenham insistido em dizer que Bolsonaro logo irá voltar a mobilizar o golpismo contra o suposto Estado democrático de direito. Na mesma toada, políticos adversários do besta vêm insistido em convocar atos esvaziados em “defesa da democracia”. Não entenderam (ou fingem não entender) o que se passou: com seu blefe maior, Bolsonaro abriu no dia 7 a campanha eleitoral de 2022. Essa passagem para uma outra etapa do jogo quase deu errado porque a base paisana radicalizada tentou, mesmo, invadir o STF e barrou estradas, o que levou as facções adversárias a reagirem com dureza e, pior, impôs a iminência de um revés econômico que soterraria de vez as chances eleitorais do besta, justamente o que ele pretende recuperar nessa nova fase. Foi a resposta necessária a esse cenário adverso que levou Bolsonaro à capitulação.

É hora de fazer a amarração recuperando o que foi dito no início deste artigo.

Campanha para derrotar Bolsonaro, não para derrubá-lo

Como as facções querem tirar proveito do isolamento de Bolsonaro, e como a maioria da sociedade não se mobilizou, não há interesse real em derrubá-lo. Embora rejeite Bolsonaro, a maioria da sociedade não confia nas instituições comandadas pelas facções e, por isso, ela se recusa a empenhar a energia antissistema para que as facções derrubem Bolsonaro. Como detalhadamente explicado aqui, a população só irá às ruas para derrubar Bolsonaro diante de uma catástrofe cujos danos suplantem sua aversão ao sistema. A deterioração da economia, com pandemia, poderia levar a isso, mas ainda não aconteceu.

De modo que à manifestação eleitoral do dia 7 irão se seguir outras manifestações igualmente eleitorais. Assim como Bolsonaro mobilizou a parte mais ativa da sua base para ir às ruas, os adversários dele também terão de levar aos seus comícios os segmentos mais ativos das suas respectivas bases. Mas, assim como já não daria certo Bolsonaro voltar a convocar os seus com base em blefes antissistema (ele só voltará a isso se houver movimentação pelo impeachment; ou no caso de revés eleitoral inapelável, no ano que vem); também não dará certo se a oposição fizer a convocação para as suas manifestações com base no blefe da derrubada de Bolsonaro.

Mas foi o que fizerem, no dia 12, o MBL e o VPR, que convocaram ato pela derrubada de Bolsonaro… (não é de surpreender que tenha dado pouca gente…). Naturalmente, como o MBL e o VPR não dispõem de candidato próprio à presidência, apareceram por lá os candidatos que, na mão inversa, não dispõem de base eleitoral: Ciro, Doria e outros menos cotados. Todos fizeram o discurso inócuo pela derrubada de Bolsonaro, mas estavam em plena campanha eleitoral — (a seguirmos assim, haverá inúmeras oportunidades para que as facções judiciais do EDA façam uso faccioso dos “rígidos” dispositivos legais que permitem punir “campanha eleitoral antecipada” — só rindo).

Lula parece ser o único que entendeu o que se passa

Lula, o mais notório chefe de facção, não entrou nem no “frentismo”, nem no oba-oba pelo impeachment. Mais uma vez, ele tira consequências precisas do que recomenda a sua sagacidade. Primeiro, como ele está empenhado em costurar (nos bastidores) apoios eleitorais de outras facções (inclusive das que derrubaram Dilma, parte das quais está, por enquanto, sugando Bolsonaro), não faria sentido ele passar a defender a derrubada do besta — além do que, essa ação o mostraria para o público apostando nas facções. Segundo, como a permanência de Bolsonaro não o atrapalha eleitoralmente, pelo contrário (pois, como é óbvio, o melhor para Lula é enfrentar um candidato cuja rejeição impeça de fazer maioria no segundo turno), o melhor será derrotar o besta. Terceiro, como não escapa a ninguém minimamente informado que o impeachment de Bolsonaro é improvável, não haveria porque Lula se empenhar num movimento em que seria derrotado pelo adversário que pretende enfrentar na eleição. Mas isso ainda não é tudo, nem o mais importante.

Quarto, Lula não defende a derrubada de Bolsonaro porque já entendeu o sentido profundo da outra metade do dilema em que se encontra a maioria da sociedade que rejeita Bolsonaro e não confia nas facções: em sua vocação natural para a inércia, a maioria tende para uma saída cômoda, não para a trabalheira de uma alternativa ao EDA. Ora, o que pode haver de mais cômodo (no sentido prático e no sentido moral) do que uma volta de Lula, o injustiçado (e o foi!), como se a injustiça que ele deveras sofreu na luta de facções fizesse dele não o faccioso que se deu mal e, depois, deu a volta por cima, mas um presumido líder antissistema que, ainda por cima, sabe lidar com o sistema?

Como não poderia deixar de ser, ao se conduzir dessa maneira, Lula, que é infernal!, terá o cuidado de se apresentar como um defensor da democracia (sugerindo-a ameaçada pela reeleição de Bolsonaro, ao qual derrotar caberia a ele …), e não como uma alternativa, que Lula não pode ser, ao Estado de Direito Autoritário que ajudou a construir e, depois, a arruinar, com suas práticas facciosas… Entretanto, como já entendeu que a maioria não embarcou no “frentismo”, Lula critica o frentismo por sua indefinição programática, com o que faz outra laçada eleitoreira, dessa vez com as expectativas programáticas da maioria insatisfeita… E la nave vá…

Fica o Registro:

Em 18/9

[12:30h] – Resultado da pesquisa DataFolha mais recente, publicado depois das linhas acima, traz números que ajudam a entender que a maioria da sociedade tem bem clara a diferença entre os blefes de Bolsonaro e a ação efetiva, que poderia levá-lo a ser derrubado: Bolsonaro blefou no dia 7 que não mais cumpriria decisões judiciais de Alexandre de Moraes. Se, de fato, ele passasse do blefe à ação, 76% entendem que ele deveria sofrer impeachment.

57% dizem nunca confiar no que Bolsonaro diz (percentual que, por certo, inclui os que o sabem um blefador), sendo nada menos do que 85% (57+28) o percentual dos entrevistados a declarar alguma desconfiança sobre o que Bolsonaro diz (outra vez: aqui há muita gente que não confia porque o sabe um blefador).

[15:45h] – Novos resultados da pesquisa DataFolha mostram que 70% preferem a democracia a qualquer outra forma de governo. Mais interessante, porém, são os dados sobre o golpismo de Bolsonaro e as chances de o Brasil voltar a viver sob ditadura.

Mesmo sob o alarido da mídia e bombardeados pela pregação unânime de intelectuais e intelectualistas: 45% veem nenhuma chance de o golpista passar do blefe à ação; 30% dizem haver muita chance de Bolsonaro dar um golpe; e outros 20% dizem ver um pouco de chance. A matéria da Folha soma os 20% aos 30% e encontra 50% de alguma chance de golpe… Deixo ao leitor julgar o quanto essa soma é adequada, considerando que dar golpe não significa o sucesso do golpe.

Quando se trata das chances de o Brasil voltar a viver sob ditadura, os números são: 45% descartam a possibilidade de uma ditadura, 31% dizem haver um pouco de chance de uma ditadura, e 20% muita chance. Esses números permitem calibrar melhor as respostas sobre a chance de Bolsonaro dar um golpe: é que como as intensidades não batem, é de supor que mesmo os que acham que há alguma chance de Bolsonaro dar um golpe entendem que não tem como a ação ser bem sucedida.

Finalmente, é notável como, na opinião da maioria dos entrevistados, todos os três poderes ameaçam a democracia: Legislativo (69%); Executivo (71%) e Judiciário (63%). Esses números ilustram a aversão às práticas institucionais facciosas, bem como ajudam a quantificar a crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário-EDA.

[17:39h] – Em artigo de Antonio Prata, na Folha de S. Paulo de hoje, lê-se que:

“Não à toa, semana passada, a esquerda decidiu não ir às tristes manifestações do MBL e do Vem Pra Rua. Eu fui. Numa ditadura bolsonarista, minha vida corre risco, sob um governo do Temer & MBL & Vem Pra Rua, não. Mas pro pessoal do movimento negro, pros pobres, indígenas e todas as minorias Brasil adentro, tanto sob Bolsonaro quanto sob qualquer um daqueles delinquentes que riem de forma obscena no jantar, o pau de arara & a bala “perdida” & a vala comum são a regra. Há 521 anos.”

Nessas poucas linhas vê-se alguns dos equívocos que venho procurando desfazer sobre o que se passa na política brasileira:

(i) Prata não entendeu que já estamos em campanha eleitoral, assim, estranha que a “esquerda” não tenha ido ao comício eleitoral da “direita”…;

(ii) Prata acredita, mesmo, que há o risco de uma ditadura bolsonarista, e teme pela própria vida no caso do fim das franquias democráticas, mas…

(iii) Prata não pode deixar de reconhecer que um Estado ditatorial, sem franquias democráticas, fará pouca diferença para a maioria vulnerável que já vive o cotidiano sob um Estado de direito com franquias democráticas… Para que todos possam levar a vida que Prata leva sob franquias democráticas, teríamos de passar do Estado de Direito Autoritário para o Estado de Direito Democrático. Mas Prata, como todos os progressistas e a autointitulada esquerda, se preocupa é com a preservação do primeiro, embora cheio de compaixão e consciência hipócritas ante o sofrimento de quem é vítima cotidiana do exercício faccioso dos poderes institucionais. Nessas pouca linhas, Prata resumiu o cômodo programa conservador do “frentismo”.

ENSINAMENTOS DO RACHA NA BASE BOLSONARISTA -2 DE 2

Carlos Novaes, 13 de setembro de 2021

Indicamos no artigo anterior como a segmentação dos apoiadores de Bolsonaro em agentes estatais (polícias, congressistas, militares) e agentes da sociedade civil permite observar na minoritária base bolsonarista o dilema do Brasil: de um lado, as minorias beneficiárias do Estado de Direito Autoritário; de outro, a insatisfação da maioria da sociedade com esse Estado. Esmiuçemos isso.

No caso dos bolsonaristas, as facções estatais pretendem, mesmo, é melhorar a situação privilegiada em que já vivem neste Estado, e, por isso, não irão se arriscar em aventuras golpistas; já a “sociedade civil” bolsonarista, que sofre como todos os demais as mazelas deste Estado, está movida pelo sentimento antissistema, e quer, mesmo, deixar este Estado para trás. O mesmo dilema brasileiro aparece na maioria que se opõe a Bolsonaro: há, de um lado, as facções estatais de oposição, empenhadas em preservar o Estado de Direito Autoritário, no âmbito do qual elas disputam entre si o privilégio para o exercício faccioso dos poderes institucionais; e, de outro lado, há a maioria insatisfeita da sociedade brasileira, cuja preferência pela democracia foi fraudada pelo Estado de Direito Autoritário.

Dizendo o mesmo de um outro modo: essa insatisfação generalizada contra o Estado de Direito Autoritário levou-o a uma crise de legitimação. A falta de lucidez da maioria da sociedade insatisfeita levou-a a se dividir na hora de buscar uma alternativa para essa crise, que ela vive sem ajuizar: uma parte, minoritária, quer a solução tosca e inviável de voltar ao Estado ditatorial; enquanto a parte majoritária prefere a democracia, mas não tem clareza de como avançar para um Estado de Direito Democrático. Contra ambas atuam todas as facções estatais, que querem, cada uma a seu modo, preservar o Estado de Direito Autoritário.

Como essa luta pela preservação se dá em meio a uma crise de legitimação, essas facções também se dividem: a minoria bolsonarista facciosa, que se nutre do sentimento antissistema para buscar melhorar posições dentro deste Estado (nas polícias e no Congresso, por exemplo), não pode deixar de tencionar incessantemente o sistema; já as facções não-bolsonaristas não só estão impedidas de reconhecer a crise de legitimação (afinal, este Estado é obra delas), como precisam fazer a maioria da sociedade acreditar que a preservação dele é do interesse dela — daí precisarem acreditar (ou fingir acreditar) que a ameaça golpista de Bolsonaro é real, o que leva ao engano/embuste da “defesa da democracia”, da preservação de um suposto Estado democrático de direito. Desse embuste/engano saiu o equívoco do “frentismo” e a confusão sobre as nossas instituições, que ora estão em pleno funcionamento, ora estão colapsadas e ora estão como que adormecidas. Quem bobear enlouquece lendo esse pessoal.

É nessa ordem de razões que Lula, em todo o seu contraste com Bolsonaro, é parte importante do problema, não da solução. Toda a movimentação do Lula tem se dado nos bastidores: ele acumula forças na arregimentação das facções estatais para só depois enfrentar a sociedade insatisfeita e sedenta por uma alternativa ao Estado de Direito Autoritário do qual Lula é, hoje, o mais notório defensor!

Lula realiza esse tour paparicado pelas facções (inclusive com vênias suas àquelas do golpe contra Dilma) porque elas o sabem detentor de 40% de preferência eleitoral, com potencial de 55% no segundo turno, situação que mostra fundamentalmente duas coisas: (i) que a maioria da sociedade continua desorientada em meio à barafunda das suas próprias insatisfações, e (ii) que os espertalhões da política profissional continuam a usar a franquia eleitoral-democrática, o voto das pessoas, para medirem-se entre si e definir quem vai comandar o exercício faccioso dos poderes institucionais a cada vez (um exemplo entre muitos: a distribuição facciosa do poder para auferir privilégios do exercício do mando na Petrobrás deu no que deu!). O máximo que Lula propõe é voltarmos a 2010, o que não seria desejável nem se fosse possível (por mais “saudável” que fosse a “nossa democracia” naquela época…).

Tudo isso quer dizer que nossos problemas estão fundamentalmente no Estado, não na sociedade. O problema está nas nossas instituições, não no nosso povo que, por mais desorientado que esteja, vem há décadas perseverando na luta pela democracia. Sendo de observar que essa desorientação se deve largamente ao tamanho da traição sofrida daqueles em quem depositou a sua confiança (leva tempo para achar um rumo novo). A perseverança pela democracia vem sendo solapada pela política profissional facciosa, que sequestrou a Política, tornou-a sua refém e se empenha para desautorizar a ação política independente, que rejeita a restauração e quer ir adiante.

ENSINAMENTOS DO RACHA NA BASE BOLSONARISTA -1 DE 2

Carlos Novaes, 12 de setembro de 2021

A minoria que forma a expressiva base propriamente popular de Bolsonaro, os tais 20%, é constituída por segmentos da sociedade civil (base paisana dele) e por segmentos oriundos diretamente do aparelho estatal (notadamente, agentes e ex-agentes das instituições policias, mas não só). Já se tornou trivial observar que a solda entre esses segmentos resulta do conservadorismo reacionário que professam, no qual tem lugar central a religiosidade evangélica. Ainda que sem contestar essa visão geral, parece útil explorar poros nesse organismo de aparência tão inteiriça, e o 7 de setembro nos fornece material útil.

Venho tentando mostrar que o delírio de Bolsonaro por tornar-se ditador, que orienta sua motivação golpista, não tem lastro e acaba sempre por assumir a forma de blefe. Faz tempo que Bolsonaro se acostumou a passar da fanfarronice verbal para o rabo-entre-as-pernas, e, nesse aspecto, não houve novidade: depois da fanfarronice dos discursos do dia 7, tivemos o rabo-entre-as-pernas na carta e no telefonema a Moraes no dia 9. A novidade foi outra, no dia 8.

Depois de antecipar que Bolsonaro faria da manifestação do dia 7 mais um blefe, mostrei como ele próprio antecipou para os seus seguidores que se tratava de um blefe. Entretanto, nem tudo correu como esperado por Bolsonaro (e por mim): embora, como esperado, a PMilícia não tenha posto a cara, parte da base não entendeu (ou não quis aceitar) que se tratava de um blefe, saiu do roteiro e partiu para o bloqueio de estradas. Eis a novidade: essa movimentação obrigou Bolsonaro a um gesto inédito: ao vexame de solicitar diretamente aos seus, já no dia 8, que recuassem na direção do velho normal.

Veja bem leitor: se parte da base não tivesse partido para a ação golpista, se Bolsonaro não tivesse sido obrigado a dar esse vexame, a carta e o telefonema do dia 9 seriam parte da paisagem, pois tanto a base como o chefe teriam se comportado como sempre. A novidade foi a revolta da base. O fato de Bolsonaro ter tentado consertar o estrago com a narrativa de que se trata de uma tática, que obedeceria ao mesmo objetivo estratégico ditatorial, não atenua o revés, mesmo que toda a sua base tivesse se agarrado religiosamente a essa narrativa confortadora (coisa que, sabemos, não ocorreu: houve defecções e nenhum ganho).

Mas isso não é tudo, nem o mais instrutivo a ser extraído dessa novidade do desgarramento de parte da base bolsonarista radicalizada. Observe-se que quem saiu do roteiro não foram os segmentos oriundos do Estado de Direito Autoritário, os quais já fazem parte do jogo das facções e a ele obedecem (esse pessoal da área policial ficou quietinho, e recebeu elogios…); quem não seguiu o roteiro foram segmentos bolsonaristas da sociedade civil, que estão motivados pelo sentimento antissistema. Esse contraste ajuda a ver que o jogo de Bolsonaro é um jogo faccioso (dentro do sistema), não um jogo antissistema. O besta está perfeitamente afinado com seu braço policial/estatal, mas encontra problemas de sintonia com os segmentos civis que o apoiam.

Note bem, leitor: não estou tentando descrever o que se passa dentro da cabeça de Bolsonaro, não estou discutindo as intenções dele, o que ele conscientemente conspira; pelo contrário: estou tentando agarrar a dinâmica da ação dele pelo que ela é, na prática, como resultado da trajetória dele como ator desde sempre integrado ao sistema, isto é, ao Estado de Direito Autoritário, cuja solidez interesseira (oriunda de uma bem manejada e instrutiva luta contra a ditadura) se contrapõe aos delírios ditatoriais do mesmo Bolsonaro, que transitou dos porões da ditadura para o charco congressual, onde ele sempre combinou fanfarronice verbal e rabo-entre-as-pernas. As peças estão em seus lugares, o jogo é o mesmo, só que realizado sob as condições adversas de uma crise de legitimação.

Olhada dessa perspectiva, a fissura na base de Bolsonaro permite ver ainda que enquanto o chefe e as facções estatais que o apoiam estão sendo levados, pelo embate com as facções adversárias, a ver na crise de legitimação (que não entendem, mas vivem como confusão auspiciosa) uma oportunidade para melhorar sua condição dentro do Estado de Direito Autoritário; o segmento bolsonarista da sociedade civil tem a inclinação contrária, e quer tirar todas as consequências da crise de legitimação (que não entende, e só enxerga com base na ideia de derrubar o “sistema”), tentando resolvê-la com um Estado ditatorial, o que esbarra na preferência pela democracia da maioria da sociedade brasileira.

De modo que não há motivo para surpresa quando o desfecho da complexa sequência de eventos dos últimos dias ganha a aparência de um “acordão”.

Não é exatamente que houve um acordão, pois “acordão” sugere um certo modelo de conspiração totalizante, na qual todos os agentes teriam tido voz acerca do que fazer no caso. Não é assim que funciona, até porque a composição das facções não é fixa, pois elas se fazem e refazem no curso do jogo, o que, entre outras coisas, dá margem de manobra para os membros mais poderosos — muitos dos quais sequer participaram dessa rodada, embora estejam plenamente afinados com ela, como Lula (que fala com Temer por música…). Como quer que seja, há grande afinação em torno do objetivo principal das facções: preservar o Estado de Direito Autoritário. Bolsonaro, cujos objetivos, como vimos no artigo anterior, o fazem oscilar alucinadamente, vem tendo diminuído o seu raio de manobra e sendo levado a obedecer a lógica geral do “sistema”, para desagrado da “sociedade civil” dele.

Fica o Registro:

Na Folha de S. Paulo de hoje há um artigo representativo dos caminhos tortuosos a que os últimos acontecimentos levaram os defensores do nosso suposto Estado democrático direito:

“Nos dias 8 e 9, a discussão sobre impeachment avançou aceleradamente, […]. Eram elas, as instituições funcionando, […]

Mas, olhem só que lástima…, um

“acordão impediu que instituições funcionassem“.

Como assim? Quer dizer: quando os agentes institucionais de um suposto Estado democrático de direito atuam de acordo com o que sonha o observador, as instituições estão funcionando; quando eles atuam em outra direção, já não são as instituições… ??! A que contorcionismos constrangedores são levados os que não reconhecem a dinâmica facciosa e a crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário!

O arremate dessa “análise” das instituições (que ora estão “em colapso”, ora estão “funcionando” e ora estão “imobilizadas”) só poderia ser um choramingo em tom nostálgico:

se o acordão contra o impeachment prosperar, não teremos de volta nossa democracia saudável de alguns anos atrás“.

Como já não dá para dizer “consolidada”, virou “saudável”… Ainda assim, gostaria muito que alguém me dissesse o que de tão saudável foi tirado da nossa democracia e que estaria a nos fazer tanta falta.

BOLSONARO COMO BODE EXPIATÓRIO

Carlos Novaes, 10 de setembro de 2021, às 18:59h

Depois do Day after e de suas primeiras consequências, na vertigem do dia 09, chegamos ao dia 10 de setembro. Bolsonaro continua a ser a questão por uma razão simples: este imbecil é o presidente da República. Quer dizer, não é que Bolsonaro seja tão genial que nos mantenha fixados nele, seguindo a pauta ditada por ele. Não. Tudo decorre de um erro monumental cometido pela maioria da sociedade brasileira, que o elegeu. Gênio ou imbecil, ele não poderia senão ocupar o centro das atenções.

Como é o presidente da República, e como o protagonismo derivado do exercício do cargo o coloca no centro das atenções, somos levados a vê-lo como forte. Como ele atua sobretudo provocando danos e sofrimentos, não podemos deixar de vê-lo pelo que é, um mal. Mas disso não decorre que ele esteja a se fortalecer como um genial agente do mal. Por mais poder que ele detenha por força do cargo, ele não está mais forte agora do que estava no dia 7 de setembro. Pelo contrário, ele está mais fraco. Esse é o ponto. Como antecipado aqui: Bolsonaro saiu do fiasco do 7 de setembro ainda mais longe dos seus objetivos.

Na verdade, se o objetivo dele for tornar-se um ditador, ele nunca teve chance. Se o objetivo dele for a reeleição, ele se fez derrotar no curso do último ano e meio de incompetência, desumanidade e blefes. Se o objetivo dele for livrar da cadeia a si e aos seus, ele ainda tem chances, que derivam da capacidade de ele explorar a suposta ameaça que representa à democracia — e explorar nas duas vias: (i) junto àqueles que o apoiam, que julgam estar num projeto ditatorial, mas estão servindo de massa de manobra na luta do besta contra (ii) as facções adversárias que fazem dele o principal problema a enfrentar e têm o poder de colocá-lo na cadeia. Em suma: ele usa o gado para negociar com as facções adversárias um modo de escapulir.

Não é o caso de tentar entrar na cabeça de Bolsonaro (que fedor!) para saber a qual desses três objetivos ele está, a cada vez, conscientemente perseguindo. Qualquer pessoa sensata pode considerar que o besta navega em delírio (e ao sabor dos fatos) entre esses três portos, tentando não afundar num impeachment e buscando garantir proteção mínima no final. Quando muito delirante, ele acha que tornar-se ditador está visível da proa do veleiro. Quando em seu estado normal, obtuso, ele não enxerga os danos e sofrimentos que provocou, e fantasia embarcar na chalana de uma candidatura eleitoral viável. Quando obrigado ao pragmatismo pelo jogo das facções, ele maneja o bote salva-vidas para escapulir das consequências das malas-artes da família. Vem dessa navegação alucinada a impressão de que é louco ou gênio. Nem uma coisa, nem outra. Bolsonaro é limítrofe e, por isso, é inútil, por exemplo, tentar saber se ele pensa o próprio recuo como uma tática: seja como for, o recuo se impôs e o tornou ainda mais fraco.

A crença de que Bolsonaro é um gênio do mal depende de uma outra: da crença de que ele representa uma grande ameaça à democracia, ou a um suposto Estado democrático de direito. Esmiuçemos isso.

O primeiro passo é compreender que nessa crença, as duas suposições giram em falso: nem Bolsonaro é uma ameaça real às franquias democráticas, nem há um Estado democrático de direito a que ele pudesse ameaçar.

Bolsonaro não é uma ameaça real às franquias democráticas não porque não tenha uma ditadura como objetivo, mas porque esse objetivo é completamente inviável. Desde as lutas contra a ditadura paisano-militar de 1964, a maioria da sociedade brasileira persevera na preferência pela democracia, preferência que, no curso de trinta anos, se fortaleceu enquanto (a um só tempo) decorrência e alimento da sua diversidade e complexidade. Embora a democracia não tenha transitado completamente para o aparato estatal, transição truncada que assumiu a forma desse Estado de Direito Autoritário, a maioria da sociedade sabe bem a diferença entre uma democracia almejada, a deformação sob a qual vive, e o que seria uma outra ditadura.

Quando a polícia invade o Jacarezinho, a população sabe que os moradores não estão sendo vítimas da democracia, embora também saiba que a polícia age amparada num Estado de direito. Quando as facções políticas fazem o exercício faccioso dos poderes institucionais, roubando, criando privilégios, protegendo os muito ricos, perseguindo ou discriminando, a população sabe que eles agem se valendo do Estado de direito cujo autoritarismo manejam em proveito próprio, e mais: sabe que eles invocam a democracia que dizem defender justamente para encobrir o uso malsão que fazem do direito. Quer dizer, nessas práticas nefastas há direito, e há autoritarismo; situação típica da deformação sob a qual vivemos no Brasil: o Estado de Direito Autoritário. É por isso que não faz sentido falar em “nossas instituições democráticas”. As nossas instituições são “de direito”, não “democráticas”. Elas funcionam arbitrariamente, distribuindo ou sonegando direitos conforme se é pobre ou rico, forte ou fraco, autoridade ou homem comum.

Bolsonaro venceu a eleição porque parecia antissistema, ou seja, contra esse estado de coisas. Mas ao pretender derrotar o Estado de Direito Autoritário (o “sistema”) propondo uma ditadura, Bolsonaro ficou derrotado de saída: esbarrou na preferência pela democracia da maioria da sociedade e, ao mesmo tempo, deu de cara com a força do Estado de direito construído e manejado pelas facções estatais. O Estado de Direito Autoritário é forte para conter Bolsonaro e fraco para satisfazer a preferência da maioria da sociedade precisamente porque é “de Direito” (tem os instrumentos para conter Bolsonaro e prevê as franquias democráticas para seu próprio funcionamento malsão) e “Autoritário” (suas práticas agridem a maioria da sociedade e também podem ser usadas contra Bolsonaro).

Bolsonaro nunca teve chance precisamente porque delirou transpor o Estado atual com mais autoritarismo, quando a maioria da sociedade quer se livrar do autoritarismo, completando a transição da democracia. Como dito mais de uma vez neste blog, o Estado de Direito Autoritário está em crise de legitimação não por ser de Direito, mas por ser Autoritário; logo, não há um Estado democrático de direito a defender. O que precisamos defender e ampliar sãos as franquias democráticas que nos permitem seguir na luta por um Estado de Direito Democrático. Nossos inimigos principais são as facções dos políticos profissionais e hierarcas do Estado, não este imbecil do Bolsonaro, por mais danoso que ele seja (e é!!).

O que tem dado tração a essa contraposição fajuta entre Bolsonaro e um suposto Estado democrático de direito é o fato de que esse parafuso sem rosca vem sendo “apertado” pelas duas extremidades ao mesmo tempo, uma girando na direção contrária à da outra. Nenhum dos dois lados quer quebrar o parafuso, mas ambos se valem do aumento da tração para alcançar seus objetivos sem que o país saia do lugar. Discutimos mais acima os objetivos de Bolsonaro. O objetivo das facções, aquele que une a todas elas, já foi explorado em vários posts deste blog: restaurar o velho normal, fazendo da derrota de Bolsonaro uma alavanca para relançar o Estado de Direito Autoritário, empurrando com a barriga a crise de legitimação como se ela fosse uma crise entre poderes, uma crise institucional — ou seja, as facções têm Bolsonaro como o bode a ser retirado da sala, mas para isso o fantasiam de fera ferida.

Ora, “fera ferida” é exatamente o que Bolsonaro não é. A fera ferida é perigosa precisamente porque além de preservar todas as suas forças e capacidades, ainda tem o incremento da adrenalina fornecida pelo ferimento que não a debilitou, mas irritou. Acreditar que Bolsonaro ficou mais perigoso decorre da crença contrafactual de que ele vem se fortalecendo como ameaça real ao Estado de Direito Autoritário…

“GOLPISMO” EM VERTIGEM

Carlos Novaes, 09 de setembro de 2021 — 21:25h

Bolsonaro enviou ao povo brasileiro uma mensagem que não faz jus sequer ao baixo nível dos blefes que marcaram a conduta dele na presidência. Nenhum presidente jamais se dirigiu ao país de maneira tão vergonhosa, tão pusilânime. Bolsonaro tem uma vida pública tão indigna que sairá da presidência sem ter reunido condições de ser lembrado pela história.

Não poderia haver contraste maior entre o teor do documento e a hora vivida pelo país. Não é de surpreender que a carta indigente tenha saído de um esboço feito por Temer, um mestre da embromação facciosa que ocupa lugar central na trajetória do p-MDB, dispositivo paisano da ditadura paisano-militar que deu lugar ao Estado de Direito Autoritário que nos infelicita.

Esse desmoronamento de Bolsonaro solapa os projetos de longo prazo do neofascismo no Brasil, mas pode servir de estrume para que as facções contornem a crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário, a começar pelo oba-oba em torno da “vitória da democracia”, como se ao nos livrarmos de Bolsonaro não devêssemos, ao mesmo tempo, nos dar conta de que quem sai fortalecido é o jogo das facções estatais a serviço dos interesses dos muito ricos. Lula vai surfar nisso para, mais uma vez, consolidar uma aliança com as facções mais conservadoras, cujas práticas, que não lhe são estranhas, normaliza a cada rodada de conversas — tudo pelo bem do povo, claro.

Hoje mais cedo ainda havia “análises” conclamando urgência na defesa da nossa democracia, que estaria ameaçada pela besta. Nunca esteve. Bolsonaro esmaga os pobres, os vulneráveis, radicalizando o que o velho normal sempre fez ao manejar um suposto Estado democrático de direito. Houve até quem nos informasse a “novidade” de que Bolsonaro só não deu o golpe porque não contou com apoio das FFAA – não diga!!! Essa é a chave da cegueira: jamais entenderam a distância entre delírio e possibilidade real. Jamais entenderam que as FFAA não operam no vazio, que elas estão imersas em uma sociedade cuja maioria rechaça mais uma ditadura, por menos lúcida que essa maioria possa estar em relação ao que é necessário para alcançar um Estado de Direito Democrático.

Na verdade, boa parte dessa cegueira intelectual deriva da fragilidade que eles próprios sentem no Estado de Direito Autoritário a que estão aderidos; afinal, a crise de legitimação é real e pode ser sentida na aversão que a maioria da sociedade brasileira devota à política dos profissionais, ao “sistema”. Eles denominam “defesa da democracia” a mistura conservadora de medo, incerteza e cobiça a que estão entregues.

A contra face da cegueira dos “analistas” é a surpresa dos bolsonaristas, não menos cegos sobre o que se passava. Mesmo depois de Bolsonaro ter assumido de véspera que faria mais um blefe, eles precisaram ser esbofeteados pela rendição total do “líder” para acordar. A desorientação é geral, e não vejo como o Brasil possa fazer de tudo isso um aprendizado profícuo.

Fica o Registro:

Evidentemente, é estapafúrdia qualquer comparação entre as declarações de recuo de Bolsonaro e aquelas em que o Talibã promete moderação, mesmo como mera metáfora. Bolsonaro está batido em seus próprios termos, não tem meios para reagir em direção diferente e já está aplainando terreno para uma saída negociada para depois que deixar a presidência (pensa em si e nos filhos – a conversa com Moraes já é parte disso). O Talibã venceu em seus próprios termos, e dispõe de todos os meios. Esse tipo de associação é próprio de quem insiste em considerar Bolsonaro uma ameaça ao velho normal — afinal, entender o contrário vai exigir rever muita coisa… Quem tem de se constituir em vetor contra o velho normal é a maioria da sociedade brasileira.

BOLSONARO IMITA TRUMP ATÉ NA COVARDIA

Carlos Novaes, 09 de setembro de 2021

O 7 de setembro vai se revelando a invasão tupiniquim do Capitólio.

O golpismo do besta se desfez por si mesmo no momento em que ele passou da fanfarronice verbal para o rabo-entre-as-pernas em relação aos seus próprios seguidores, pantomima que se deu quando ele pediu o recuo do bloqueio às estradas feito por transportadores, essa versão claramente empresarial do golpismo. Em seguida, levou o rabo-entre-as-pernas para o cenário internacional, e passou a bajular a China na abertura da cúpula dos BRICs, ocorrida esta manhã (sim, leitor, depois do dia 08, veio o dia 09…).

Agora, esse jegue coxo, que já havia parado de escoicear, sequer poderá voltar a mostrar os dentes sem ser acompanhado por uma aura de ridículo. Não se pode dizer que as manifestações do dia 7 de setembro foram o canto de cisne de Bolsonaro porque os cisnes não cantam quando morrem.

Daqui prá frente, vamos assistir ao festival de “valentia” e “sensatez” dos facciosos de todos os matizes “oposicionistas”, com o correspondente crescimento das manifestações de rua contrárias ao imbecil, pois, como diz o velho ditado, “cão danado, todos a ele!”. E nessa marcha, a maioria da sociedade brasileira caminha para ser feita de trouxa pelos políticos profissionais outra vez.

De par com esse embuste, a mídia convencional vai ficar coalhada de artigos “analisando” a “nova” situação, onde a nota predominante será o olhar de paisagem para as besteiras ditas ao longo de todos esses meses, no curso dos quais 11 de cada 10 representantes dessa miséria analítica abordava o apocalipse à sua própria maneira, ora querendo uma frente contra este imbecil, ora festejando as “nossas instituições” (isto é, o Estado de Direito Autoritário), ora atribuindo ao besta os cálculos mais sofisticados, ora inventando correlações históricas risíveis em sua vacuidade e ausência de poder explicativo, ora enaltecendo, quando não bajulando, figuras facciosas execráveis até quando fazem a coisa certa.

OUTRA COISA:

Aos interessados no realismo literário na Rússia do século XIX, informo que em julho próximo passado concluí a versão final do meu livro sobre as relações que julgo ter descoberto entre obras dos escritores russos Ivan Turguêniev e Aleksandr Púchkin. A mera leitura dos índices do meu trabalho mostra que o estudo do material literário me levou a interpretar de maneira nova passagens decisivas de Eugênio Oneguin e de Notas de um caçador.

Eis o link para a versão integral do livro, em formato .pdf:

LITERATURA CONTRA IMOBILISMO NA RÚSSIA DO SÉCULO XIX

Realismo literário como crítica em obras-primas de Aleksandr Púchkin e Ivan Turguêniev

O FEITIÇO ENGOLIU O FEITICEIRO

“HIC RHODUS, HIC SALTA!”*

Carlos Novaes, 08 de setembro de 2021 – 23:59h

Diferentemente da PMilícia, que, tal como previsto, não deu a cara na efeméride do blefe golpista, transportadores bolsonaristas estão a se mostrar mais aguerridos e não entenderam o recado do chefe nos dois discursos de ontem. Parte deles levou a sério os blefes do besta e tenta parar as estradas do país nesta quarta-feira.

Em razão da desorientação em que se encontra, e diante da situação adversa que venho tentando analisar neste blog, uma vez desafiado pela estupidez dessa base fiel e radicalizada Bolsonaro não pode fazer outra coisa senão explicitar que SIM, esteve todo o tempo blefando. A desmoralização não poderia ser maior: o dia 8 chegou com tudo, e pôs Bolsonaro de cócoras! Eis a transcrição do áudio gravado por ele aos caminhoneiros:

Fala para os caminhoneiros aí que [eles] são nossos aliados, mas esses bloqueios aí atrapalham a nossa economia. Isso provoca desabastecimento, inflação, prejudica todo mundo, em especial os mais pobres. Então, dá um toque nos caras aí, se for possível, para liberar, tá ok? Para a gente seguir a normalidade.

Deixa com a gente em Brasília aqui agora. Não é fácil negociar, conversar por aqui com outras autoridades, não é fácil. Mas a gente vai fazer a nossa parte aqui, vamos fazer a nossa parte aqui, tá ok?

Sempre foi blefe. Sempre foi campanha eleitoreira. De tal forma que ele agora tem de mendigar recuo dos que engambelou com seu estelionato ideológico, enquanto os abandona no meio da estrada. E o recuo é para deixá-lo atuar como chefe de facção no jogo das facções em Brasília, rendição que quem lê este blog constatou há muito tempo. Bolsonaro não procura pretextos para um golpe, ainda que delire por ele — ele está numa ratoeira armada por ele mesmo. Não tem como dar certo, pelo menos desde a resposta burra que deu à Covid-19.

Veja bem, leitor: o que sobra, agora, dos milhares de textos e análises publicados na mídia convencional sobre fantasiosos planos desse suposto gênio do mal para criar o caos e ter um pretexto para o golpe??!! Esse pessoal nunca entendeu o que se passa no país. Para entender, é necessário reconhecer a crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário e, então, perseguir a desorientação geral que ela gera, pois essa crise permanece oculta às consciências, embora exerça toda a sua força sobre corações e mentes.

* – de Esopo, em O Fanfarrão; via Marx, em O 18 Brumário.

FIASCO!

Carlos Novaes, 7 de setembro de 2021, às 12:10h

Com ++++ acréscimos às 13:28h, às 17:40h, às 18:00h e às 19:29h

Sem ser espetacular, o público que foi à manifestação governista em Brasília garantiria êxito a qualquer comício político, não tivessem seus organizadores garganteado que o comparecimento seria algo inédito — tivemos menos do mesmo. Dessa perspectiva, foi um fiasco, o que deve ter contribuído para o tom desanimado em que Bolsonaro fez seu discurso previsível, repetindo o que já vinha dizendo. Como não poderia deixar de ser, mais uma vez ele adiou qualquer desfecho mais assertivo, cumprindo o roteiro do seu reiterado estelionato ideológico.

Quem acompanha este blog não ficou surpreso, mas esse truque de circo, pelo qual se gera a expectativa máxima e se entrega a emoção mínima, já torrou a paciência de quem entende minimamente o que se passa: esse sujeito está perdido e não tem para onde ir. O problema é que ele é o presidente da República.

Vamos aguardar pelo que ocorrerá em SP, embora não haja motivo para imaginar que se dará ali coisa diferente do que se passou na capital.

[13:28h] — Bolsonaro pediu aos manifestantes do DF que o assistam no evento de SP, às 16 horas. Observe leitor como esse convite/adiamento é revelador de como o besta se deu conta do fiasco que protagonizava: o convite embute mais uma promessa fraudulenta, como se em SP ele vá realizar a pirueta prometida, mas nunca mostrada. Em mais esse adiamento, o besta passou recibo de que percebeu o quanto deixara a desejar ao público presente. Bolsonaro encontrou no palanque o vazio do que ele mesmo representa. O espantalho vai voar para SP, onde repetirá o seu discurso, talvez com alguma retórica golpista mais “enfática”, dando material para as facções adversárias apresentarem as suas não menos manjadas coreografias. Vamos ver.

[17:40h] — A manifestação de SP esteve longe de cumprir as expectativas, ainda que tenha sido maior do que a do DF. Mais uma vez, a despeito de toda a dinheirama gasta no recrutamento, o besta sentiu a catinga do insucesso. O que mudou entre o discurso de Bolsonaro no DF e o de SP foi que ele, ao invés de falar em “uma pessoa”, deu nome ao boi e se declarou em desobediência em relação às determinações judiciais que Alexandre de Moraes, ministro do STF, venha a exarar.

É que Bolsonaro entendeu que armou uma ratoeira para si mesmo, fato antigo, que veio se impondo aos poucos, cuja evidência capital foi o fiasco dessa manhã no DF. Ali ficou claro para boa parte da massa de manobra que ela está fazendo papel de otário coletivo. Bolsonaro sentiu o peso do anticlímax (desmoralização que tínhamos antecipado) e, como remendo, fez uma promessa para o discurso da tarde, o que o levou a esse passo covarde, tentando reduzir a crise à figura de Moraes. É mais um blefe, tão consistente quanto o prometido bloqueio das estradas brasileiras por caminhoneiros aliados…

Teremos de esperar para ver o que ele fará quando as decisões de Moraes o atingirem pessoalmente. Quanto às decisões que atingem outras pessoas, como as prisões recentemente decretadas pelo ministro, Bolsonaro teria de invadir pessoalmente as cadeias ou, no caso de futuras prisões (há mandados por cumprir), tentar impedir pessoalmente a ação policial respectiva… mais cedo ou mais tarde, o besta vai acabar preso.

[18:00h] — Evidentemente, não passa de rematada bobagem atribuir ao STF (e, muito menos, a Moraes) o fato de ainda não estarmos sob ditadura. Se só tivéssemos o STF é que já estaríamos sob ditadura. O que impede Bolsonaro de avançar em seu delírio ditatorial é a preferência pela democracia da maioria da sociedade brasileira, preferência que se traduz — de maneira torta, é verdade — nesse Estado de Direito Autoritário manejado por facções beneficiárias (aí incluída a alta oficialidade das FFAA), às quais tampouco interessa uma ditadura, especialmente de alguém tão imbecil e impopular como Bolsonaro. O besta está cercado, com pouco apoio. No primeiro passo real que der na direção de uma ditadura, será preso. Poderá haver arruaças, mas elas serão contidas e se dissiparão. A maioria da sociedade brasileira está a pagar um preço altíssimo pela sua falta de lucidez, advinda fundamentalmente da junção de ignorância com crendices.

[19:29h] – A essência deste dia 7 é: mais uma vez em sua vida de celerado, depois de lançar-se à sorte no garimpo, Bolsonaro se vê ainda mais longe dos seus objetivos: fez um papelão e ainda frustrou boa parte daqueles que saíram de casa para apoiá-lo naquele que seria o dia decisivo… A essa altura, o besta deve estar se dando conta de que no período em que integrou o baixo clero congressual era feliz e não sabia: podia dizer as bobagens que quisesse, a ninguém ocorria de lhe cobrar resultados, mansidão na qual ele enriquecia a si e à família na roubança miúda das rachadinhas… E o vento levou…

ESTELIONATO IDEOLÓGICO COMO “MÉTODO”

Carlos Novaes, 02 de setembro de 2021

Tempos atrás, por ocasião do caso Silveira, apontei aqui que

“Bolsonaro está, desesperadamente, girando o hagadezinho para encontrar um meio “cortês” de fazer campanha eleitoral fingindo ser antissistema, mas perfeitamente integrado ao jogo de facções. O ensaio “descortês” feito há poucos meses, que analisei aqui aqui, não deu certo, e a teatralização didática daquele fracasso está sendo justamente esse caso Silveira.”

Bolsonaro é tão tosco, manjado e previsível que, quando ele fala, a realidade torna-se didática! Permitam-me ser minucioso; prometo que vai compensar.

É que o besta fez hoje uma indagação e uma promessa que parecem triviais, mas que, uma vez entendidas, concentram aspectos centrais da situação política:

(i) A indagação: “Alguém já me viu brigando com algum Poder, alguma instituição?”

(ii) A promessa: “Ninguém precisa temer o 7 de setembro”.

Com a indagação cínica (i), ele, com o rabo entre as pernas, busca normalizar seus blefes como coisa de campanha, deixando claro que não quer confusão para além da fanfarronice verbal, que alimenta as mídias, alarma os tolos e é útil aos espertos de um e de outro lado.

Com a promessa (ii), o besta demarca para os seus seguidores que não quer confusão na abertura de sua campanha eleitoral. Ou seja, o verniz cínico faz da promessa um recado.

A reunião dos dois lances deixa claro que Bolsonaro julga ter encontrado a fórmula que procurava: um meio “cortês” de fazer campanha eleitoral fingindo ser antissistema.

Observe bem a diferença, leitor, pois é nela que está evidente que não há, mesmo, o que temer desse jegue manco: embora tanto nas manifestações do ano passado como na de agora o blefe tenha papel central, a diferença entre aquele ensaio “descortês” e o 7 de setembro “cortês” está em que, agora, o próprio blefador desmentiu o blefe antes do fim da jogada. Por que?

Primeiro, porque sabedor de que não tem condições de dar um golpe, ele tem de jogar todas as suas fichas na via eleitoral (insistir em arruaças assusta seus próprios seguidores, gerando medo de ir à manifestação);

Segundo, porque ele está cada vez mais isolado, com o cerco das facções contrárias no exercício faccioso dos poderes institucionais se fechando consideravelmente em torno dele e dos seus;

Terceiro, porque ele precisa aproveitar a abertura da campanha eleitoral, o 7 de setembro, para consolidar entre os seus eleitores mais motivados a maneira “cortês” de fingir ser antissistema. Ou seja, ele precisa que os tolos engulam, sem se dar conta, o estelionato ideológico de que têm sido vítimas, afinal, eles têm sido insistentemente chamados para uma ruptura e tudo sempre acaba em acomodação com o Centrão… (que, por sua vez, já vai dando sinais de dificuldades para se acomodar…)

Quer dizer, é melhor essa minoria desorientada já ir se acostumando, pois vai ter que seguir essa cartilha sabendo que a única maneira (improvável) de passar de minoria à maioria eleitoral é haver algum desastre incontornável (e improvável) do outro lado. Ou seja, por meio de blefes o eleitorado de Bolsonaro foi levado a viver permanentemente sob o estado febril do garimpo: tudo o que há para eles é lama, mas em algum lugar deve haver uma gema em que pôr as mãos. Isso explica porque, contra toda evidência real, os bolsonaristas garganteiam certeza na vitória já no primeiro turno.

O problema é que o dia da eleição está longe e há um mundo de Brasil ruim daqui até lá. Não tem como dar certo.

FICA O REGISTRO:

Por falar em “estelionato”, a Folha de S. Paulo noticiou agora à noite atitude da FEBRABAN que não pode deixar de ser interpretada como um rompimento com o estelionato de representação praticado por Paulo Skaf, presidente da Fiesp em fim de mandato. Resumindo: a FEBRABAN mantém seu manifesto contra o golpismo e diz ao BB e à Caixa que façam como quiserem. Ficou tudo ainda pior para Bolsonaro, ainda que nunca seja demais assinalar que esse empresariado não merece confiança quando se pretende um Estado de Direito Democrático para o Brasil.

Outra coisa:

Aos interessados no realismo literário na Rússia do século XIX, informo que no curso deste mês de julho concluí a versão final do meu livro sobre as relações que julgo ter descoberto entre obras dos escritores russos Ivan Turguêniev e Aleksandr Púchkin. A mera leitura dos índices do meu trabalho mostra que o estudo do material literário me levou a interpretar de maneira nova passagens decisivas de Eugênio Oneguin e de Notas de um caçador.

Eis o link para a versão integral do livro, em formato .pdf:

LITERATURA CONTRA IMOBILISMO NA RÚSSIA DO SÉCULO XIX

Realismo literário como crítica em obras-primas de Aleksandr Púchkin e Ivan Turguêniev

ACABOU!

Carlos Novaes, 30 de agosto de 2021

Com +++ acréscimos na seção Fica o Registro, em 31/08 (13:08h e 18:32h) e em 01/9, às 20:40h

Para quem ainda teimava em achar que havia algum caminho para o governo de Bolsonaro, as movimentações havidas ontem e hoje entre os donos do dinheiro deixam claro que acabou. Os manifestos da Fiesp/Febraban e do Agronegócio indicam até uma competição pelo desembarque: a primeira articulação titubeou e deu tempo ao “concorrente” de se arrumar em campo e assumir essa duvidosa vanguarda no abandono do navio. Interessante observar que ao negociar para adiar o manifesto negociado pelo presidente da Fiesp, Lira mostrou que o Centrão já perdeu o timing da conjuntura: os maiorais do empresariado já entenderam que não adianta dar espaço para Bolsonaro manobrar — o que há é um movimento a exigir a rendição definitiva dele.

Não é que não vai haver golpe. Disso já sabíamos desde o ano passado, apesar de todo o alarido da mídia convencional e de seus colunistas, a prever o golpe a cada linha. Os recuos incessantes do besta vêm ofertando evidências sucessivas contra os que ainda temiam que ele saísse das quatro linhas. Exatamente ao contrário do que previam os alarmistas, ao invés de avançar, o golpismo vem sendo atropelado no curso da semana, e quem precisa de trégua é Bolsonaro (nem os PMilícias vão botar a cara).

O que já não vai haver é governo de Bolsonaro. Os donos do dinheiro entenderam que os blefes golpistas atrapalham os negócios. Bolsonaro virou um jegue coxo (com todo respeito pelos jegues).

O 7 de setembro da besta está desmoralizado de saída, por mais gente que venha a se aglomerar. Ademais, tudo indica que haverá contingente equivalente (ou maior) a se manifestar contra Bolsonaro no mesmo dia 7, especialmente em SP. Como quer que venha a se dar empiricamente, esta comemoração da independência será o evento de abertura da campanha eleitoral de 2022 porque chancelará a condição irremediavelmente minoritária do besta: ao soldar sua relação com o Centrão e, ao mesmo tempo, responder aos devaneios golpistas da sua base, Bolsonaro se afastou duplamente do que é necessário para fazer maioria eleitoral no Brasil: ser antissistema e pela democracia. Ou seja, o que é bom para o Centrão e para o bolsonarismo não é bom para o Brasil e a moda da próxima estação será afastar-se de ambos. Nessa frente não vão faltar oportunistas!

Fica o Registro:

[31/08 – 13:08h] – Em discurso proferido esta manhã em Uberlância (MG), Bolsonaro não fez ataques a instituições ou autoridades, mas manteve o registro cínico que marca suas intervenções ao insistir em insinuações sobre as manifestações em seu favor em 7 de setembro, dizendo: “As oportunidades aparecem. Nunca outra oportunidade para o povo brasileiro foi tão importante ou será importante quanto esse nosso próximo 7 de Setembro”. O contraste entre o silêncio contra as facções adversárias (rabo entre as pernas) e o enunciado malicioso sobre o dia 7 (fanfarronice verbal) pode ser interpretado de muitas maneiras — não vai faltar quem veja nisso a genialidade que muitos atribuem a este imbecil. Mas essa variação é irrelevante, pois o fundamento básico desse contraste é fácil de localizar: Bolsonaro sempre se conduziu na vida com a psicologia febril do garimpeiro, de apostar na boa sorte de uma oportunidade decisiva, na qual o resultado almejado sorri para quem persiste. As amarras institucionais que o Estado de Direito Autoritário contrapõe ao seu sonho ditatorial são encaradas por ele como o barro tenaz a ser vencido para chegar à pedra preciosa. Em face das evidências de que ainda dessa vez o barro venceu, o besta vem cedendo, mas não pode desvencilhar-se de todo do desejo e, assim, volta a explicitar a fantasia de quem, apesar de tudo, sonha com o milagre de que a pedra rebrilhe. E o Brasil a dançar nessa loucura…

Observe, leitor, como o contraste que venho explorando entre fanfarronice verbal e rabo entre as pernas escancara a dubiedade insanável da situação de Bolsonaro: o rabo entre as pernas corresponde, em última instância, à obediência ao Centrão, ao establishment; a fanfarronice verbal diz respeito exclusivamente à sua autoritária minoria bestificada. Dessa perspectiva, Bolsonaro, ao devanear com a solda entre facciosismo e ditadura, se faz um aleijão a encarnar em si mesmo o fato de que nem as facções, nem mais autoritarismo são alternativa para a crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário. A única saída para o Brasil é cerrar esforços contra a desigualdade na perspectiva de um Estado de Direito Democrático.

[18:32h] – Há aqui, na Folha de S.Paulo, uma análise da movimentação do empresariado que traz conhecimento empírico utilíssimo, mas deixa passar o principal. O artigo mostra os bastidores da articulação entre os empresários, o que é relevante conhecer, embora não decisivo. Entretanto, o sentido do artigo é mostrar que a força da política profissional (governo+Lira — ou seja, a força das facções estatais de situação) desarranjou o ímpeto inicial do movimento, que já era tíbio. Ora, o empresariado nunca foi de dar demonstrações antigovernamentais coesas, e, muito menos, firmes. Lembremo-nos de que no golpe contra Dilma o chamado Mercado foi o último a aderir (eles não queriam o impeachment, não por apego à democracia, mas porque entendiam, com razão, que o golpe atrapalharia os negócios). No movimento atual, o que importa salientar não é a tibieza, mas o ineditismo de uma insatisfação que, de tão generalizada, ganhou a forma rara de um manifesto. Por mais que a força das facções contrárias os faça recuar na cena aberta, o recado foi dado, a batata está assando, e não há nada que Bolsonaro possa fazer para enfiar a fumaça de volta na chaminé.

[01/9, às 20:40h] — Vimos aqui, em maio de 2020, que os blefes de Bolsonaro o levaram a uma situação insustentável precisamente porque não havia um calendário eleitoral para o qual dirigir as emoções suscitadas naquela altura. Agora, embora a eleição de 2022 ainda esteja longe, a dinâmica da conjuntura levou a essa antecipação inédita, sendo que nessa dinâmica frenética a candidatura de Lula joga um papel central, pois, em razão dos fatos havidos em 2018, o ex-metalúrgico faz contraponto total e perfeito ao desastre governamental protagonizado pelo ex-tenente. Como Lula não pode escapar do papel de nome do sistema (afinal, ele é a figura mais vistosa do jogo das facções — vem daí já terem começado a dizer que ele “pacificará o país”…), e Bolsonaro mantém suas fantasias ditatoriais, o besta acaba empurrado a alimentar o delírio em torno da farsa de que ele é o nome antissistema (com Centrão a tiracolo…). Vem daí ele ter declarado hoje que “com flores não se ganha guerra não, pessoal. Quando se fala em armamento, quem quer a paz, se prepare para a guerra” — é mero jogo para inflar a plateia do dia 7 com gente oriunda da minoria já convertida. O problema é que depois do dia 7, vem o dia 8, que será seguido pelos dias terríveis que a situação da economia está a prenunciar.

DESMORALIZAÇÃO COM DATA MARCADA: 8 DE SETEMBRO

Carlos Novaes, 23 de agosto de 2021

Com acréscimos na seção Fica o Registro, em 25/08, às 13:05h

Recupere na memória, leitor, toda a trajetória das iniciativas de força de Bolsonaro desde que ele planejou instalar bombas quando era tenente, passando pelo “acabou, porra!” de 2020, até o “sem voto impresso não vai ter eleição”, e me diga: em qual dessas situações Bolsonaro se aproximou do seu objetivo? De qual dessas tentativas de autoafirmação ele saiu mais forte do que entrou? Pois é, de  n e n h u m a! A história desse voluntarioso é uma trajetória de fracassos com o enriquecimento que premia os espertos – é também por isso que ele reúne em apoio a si esse vasto contingente de recalcados, mesmo quando endinheirados. O fato de ele ter vencido a eleição presidencial é prova da desorientação brasileira diante de seus desafios, não de supostas qualidades deste imbecil.

Ao se deixar arrastar para mobilização decisiva (mais uma…) da sua minoria , Bolsonaro é o gato que colocou o guizo no próprio pescoço e, de antemão, deu forma de blefe a mais essa tentativa de golpe. Veja bem, leitor: por mais arruaças que venham a fazer no dia 7, o dia seguinte será o do prosseguimento da vida como tem sido. Bolsonaro não reúne nenhuma condição para dar um golpe e derrubar o Estado de Direito Autoritário:

– seria um golpe a favor de quem já ocupa o poder com perda crescente de apoio por sua desastrosa (des)governança. Testado e reprovado, Bolsonaro já nada pode prometer. Quer dizer: está evidente que um Bolsonaro sem encantos quer poderes ilimitados para provocar ainda mais danos;

– seria um golpe contra a preferência da maioria da sociedade brasileira pela democracia;

– seria um golpe contra os interesses das facções que, de costas para a maioria da sociedade, ocupam e atuam com desenvoltura no Estado de Direito Autoritário;

– seria um golpe condenado ao isolamento internacional;

– seria um golpe que atrapalharia a fruição do que as forças de estado armadas já desfrutam. No caso das FFAA, há rotinas e privilégios aos quais um golpe por Bolsonaro não beneficiaria; no caso das PMs, além das rotinas e privilégios de que desfrutam os oficiais (especialmente quando dão baixa…), há a crescente expansão para atividades administrativas (por exemplo: seus soldados são, hoje, os atendentes de telefonia com o treinamento e os custos salariais mais caros do mundo! – obra do Estado de Direito Autoritário que Bolsonaro quer derrubar com um golpe);

Todo o frenesi da movimentação política convencional se orienta não pelo dia 7 de setembro de 2021, mas pelo dia 02 de outubro de 2022. O calendário eleitoral é o horizonte de qualquer político profissional com um entendimento mínimo do que se passa:

– Foi um presente para Dória que um comandante regional da PM de SP tenha feito a tolice de convocar adesão à manifestação de Bolsonaro, pois isso permitiu ao bolsonarista arrependido, que deve sua vitória em 2018 a Bolsonaro, posar de democrata decidido em cima dessa minoria obtusa que não consegue medir o quanto é fraca (o cagaço real em que muitos governadores vivem vem da precariedade que sentem existir em sua própria condição de mando, afinal, eles estão a ocupar um Estado em crise de legitimação);

– Quando Flávio Dino aproveita o isolamento de Bolsonaro para elogiar Mourão, além de exibir cegueira político-ideológica, faz aceno aos milicos e ainda atua de forma oportunista para ajudar Lula a se reaproximar deles e de pelo menos parte do eleitorado afeiçoado a eles;

– Quando diz que o ato do dia 7 será “fogo-de-palha”, Mourão não fala sozinho, e está a investir no isolamento e na desmoralização de Bolsonaro (já há dissonâncias até na facção militar palaciana);

– Quando os governadores pedem reunião de paz com Bolsonaro, estão a jogar o jogo das facções para fazer do isolamento e do inevitável malogro de Bolsoanro uma via de restauração do Estado de Direito Autoritário, cuja crise de legitimação não entendem, mas dela sentem efeitos nos humores da população. Como Bolsonaro é a resultante final da crise de legitimação, eles precisam dele como besta expiatória [nunca é demais explicar: não há conspiração; deveria ser evidente meu entendimento de que os governadores agem assim como digo, mas não pensam assim – o que os conduz é a meta de manter o velho normal em funcionamento, pois foi nesse ambiente que eles construíram suas vidas políticas, com ilusões, espertezas e boas intenções… e é contra essa arrumação que a besta golpista arremete; nem passa pela cabeça desses governadores estarem a se empenhar pela manutenção de um Estado de Direito Autoritário, até porque, assim como muitos, eles estão convencidos de que vivem num Estado democrático de direito];

Enfim, o país está nessa balbúrdia ansiosa porque a crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário vive precipitação permanente, na qual tudo que parecia sólido se desmancha no ar: o espectro do golpe não interrompe a sua ronda porque o sistema político profissional não tem condições de oferecer uma alternativa real ao país, tendo por real uma alternativa que faça do combate à desigualdade o eixo articulador do objetivo de alcançar um Estado de Direito Democrático para o Brasil.

Embora Bolsonaro não tenha a mínima chance de se tornar um ditador, as fantasias dele permitem toda sorte de mistificação democrática — mas quando vier o pós-Bolsonaro é que teremos toda a extensão da tragédia, seja pelo legado macabro do besta, seja pela intensificação da guerra das facções na disputa pelo comando — e quando falo em intensificação, tenho em mente a rotina de ilegalidades facciosas a que o país tem sido submetido nessa luta contra a besta, pois uma das evidências de que não vivemos sob um Estado de Direito Democrático é o fato de que nós não poderíamos derrotar Bolsonaro seguindo a letra pétrea da lei (daí que tenhamos de, contraditoriamente, apoiar ações facciosas de um Moraes, de um Gilmar, de um Renan ou de um Alcolumbre quando eles atuam contra a besta — para, mais adiante, recebermos de volta todos os danos desses apoios…). A vida é dura, como há tempos tentei explicar aqui.

Fica o Registro:

25/08 — Hoje mais cedo, presente na solenidade do dia do soldado, Bolsonaro não fez uso da palavra. Como não ver nesse silêncio um recuo típico de quando o besta entra na fase do rabo entre as pernas, depois da fanfarronice da vez? Ele já está a esfriar os ânimos para o 7 de setembro — o silêncio de Bolsonaro num evento que serviria na medida para que ele insuflasse a sua minoria explicita na prática o que foi dito acima analiticamente: a tentativa de golpe tomou a forma de blefe por antecipação!

Ah! o aspirante a ditador também desistiu de pedir o impeachment de Barroso. Precisa analisar?

DESORIENTAÇÃO E ALARIDO ENGANADOR

Carlos Novaes, 22 de agosto de 2021

O que vou dizer a seguir poderá ser melhor compreendido por quem tiver em mente tudo o que foi dito em pelo menos dois antigos artigos deste blog. É que há pouco mais de quatro anos (Jun. 2017), escrevi aqui que a banalização do recurso ao impeachment estava associada à crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário:

o impeachment já não tem o poder prestidigitador que vinha tendo, pois a ilegitimidade do próprio Congresso veio a furo.  A melhor maneira de perceber que um truque de mágica ficou manjado é vê-lo a ser encenado por qualquer um – pois é o que estamos a ver: há gente propondo impeachment por todo lado; ele, o impeachment, virou a varinha de condão da luta de facções em que está abismado nosso Estado de Direito Autoritário

Na mesma conjuntura em que as linhas citadas acima foram escritas, também tentei mostrar aqui a diferença entre “crise institucional” e “crise de legitimação”, explicando que as facções são transversais às instituições do Estado de Direito Autoritário, indicando o facciosismo no meio militar e apontando que, naquela altura da crise (set. 2017), estávamos abrindo espaço para

uma solução ao mesmo tempo conservadora, constitucional, eleitoral e militar. A versão abominável seria a eleição de Bolsonaro, que banalizaria o emprego das prerrogativas do art. 142 da Constituição, tornando rotina a presença militar nas ruas; a versão horripilante seria a eleição de qualquer dos nomes do chamado “centro”, com o qual se alinhem as bancadas evangélica, da bala e do boi. Nossa passividade levou o Brasil a uma atipicamente prolongada crise de legitimação, uma vez que a falta de legitimidade do Estado não encontra outra ebulição senão a das suas próprias facções internas, as quais, dada sua natureza apartada da vida real, não podem gerar alternativa. Se não nos mexermos, se nos limitarmos a rogar respeito a uma Constituição que já foi rasgada, acabaremos por encontrar uma nova estabilidade, em termos muito mais desfavoráveis à imensa maioria de nós e, ainda pior, com o voto da maioria de nós.

O jogo pós 2017 foi jogado do modo como sabemos e nossa situação só não é pior porque, para nossa sorte, Bolsonaro revelou-se ainda mais imbecil do que parecia: como expliquei aqui, aqui e aqui, ele desperdiçou a oportunidade que o coronavírus lhe deu de figurar como salvador da pátria enquanto nos imporia restrições militares constitucionais na forma de GLOs voltadas ao combate da pandemia. Se Bolsonaro tivesse logrado colocar os milicos na rua sob seu comando, seria muito mais difícil fazê-los voltar para os quartéis do que será agora, quando eles tiverem de deixar os cargos que passaram a ocupar disfarçados de paisanos nesse desgoverno. Quer dizer: com GLOs generalizadas (e legais!!), Bolsonaro teria pavimentado com material sólido o caminho para uma tentativa de golpe.

Mas a preferência da imensa maioria da sociedade pela democracia, em contraste com a ruidosa minoria saudosa da ditadura paisano-militar, arrastou o imbecil a uma série de escolhas incongruentes: fazer o jogo do Centrão em busca da “governabilidade” e, na direção oposta, insistir em tentativas de golpe condenadas ao fracasso, tudo isso combinado com o abandono da população à própria sorte, seja na pandemia, seja na ausência de alguma governança. Felizmente, essa danosa barafunda impediu que em torno de Bolsonaro se fundissem, por exemplo, as bancadas BBB (Bíblia, Bala e Boi), como eu temia que ocorresse se o eleito em 2018 fosse um candidato do chamado “centro”, ou seja, algum profissional do velho normal. É que ao insistir em ser adversário do Estado de Direito Autoritário, Bolsonaro se coloca como não confiável para o jogo institucional faccioso em que estão arrumados os negócios de boa parte dos membros dessas bancadas, por mais conservadoras e reacionárias que elas sejam (e são!). Assim, esse pessoal fascistóide fica com ele, mas não vai com ele: ficam para receber o butim, mas o abandonarão assim que ele tentar colocar na panela a galinha dos ovos de ouro, como ficou claríssimo na derrota do voto impresso.

Como já disse aqui, não é que Bolsonaro tentar um golpe – ele tem feito seguidas tentativas de golpe, novela que ainda exibe traços de tragédia porque a desorientação é a principal característica da conjuntura. Não fosse a sagacidade dos profissionais e o alarido da multidão de inocentes úteis que enche páginas e telas da mídia, já deveria estar claro que as tentativas de golpe (que o são!) sempre assumem a forma de blefe porque o golpe é inviável, e inviável principalmente em razão da enorme assimetria de forças: a imensa maioria da população é contra uma solução autoritária para a crise de legitimação, estando incluída nessa maioria esmagadora até parte dos defensores de Bolsonaro. Daí que a encenação seja sempre a mesma: tensão verbal máxima na tentativa, seguida de rabo entre as pernas ao ganhar a forma de blefe. E tem mais: se a assimetria entre as forças que se enfrentam vier a sofrer alteração, será pelo aumento do percentual das pessoas alinhadas contra as pretensões ditatoriais do besta, não a favor. A maioria de nós está farta do Estado de Direito Autoritário, mas quer vê-lo pelas costas não pela supressão do “de Direito”, mas pela eliminação do “Autoritário”, que garante privilégios, impõe arbítrios e promove assimetrias injustas. Infelizmente, esse estado de coisas ainda não ganhou clareza cognitiva e não tem como ganhar a forma de um vetor pela transformação.

Deixando de lado a desorientação dos numerosos inocentes úteis, que vivem a combater os próprios  medos fazendo alarido mais ou menos intelectual contra o golpe, prestemos atenção nos espertos: eles estão se aproveitando da imbecilidade de Bolsonaro para tentar unir ao lado deles a maioria da opinião pública, que vem sendo conduzida a achar que era feliz e não sabia, como se fosse possível esquecer as derrotas e sofrimentos de onde esses espertos tiraram poder, dinheiro, prestígio e privilégios no curso dos últimos trinta anos. Vem daí o alarido em torno de um suposto Estado democrático de direito ameaçado. Vem daí o “frentismo” contra Bolsonaro e, ao mesmo tempo (até porque não se trata de uma conspiração), as tentativas de acerto com o besta, em nome da harmonia entre os poderes… Vem daí o revigoramento de Lula.

Quem é do ramo sabe que o recurso ao impeachment está esgotado; já Bolsonaro, que não é do ramo (e contra quem há pilhas de pedidos de impeachment), se presta ao papelão de fazer pedido de impeachment desprovido de qualquer base legal. Se estivéssemos sob um Estado de Direito Democrático, esse disparate de Bolsonaro seria recebido às gargalhadas. Mas como vivemos sob um Estado de Direito Autoritário em crise de legitimação, o gesto desesperado do inimigo patético se torna tábua de salvação para os espertos: chamam todos a cerrarem fileiras em torno de um STF e de um Congresso que têm sido unha e carne com as injustiças, arbitrariedade e privilégios que infelicitam a maioria da sociedade brasileira insatisfeita. É nessa onda que Lula vem surfando como se ainda fosse alternativa e tipos como Alexandre Moraes vão ganhando impulso para nos impor toda a sua agenda reacionária depois que puderem deixar de se ocupar desse tigre de papel que é Bolsonaro (ainda que o papel, por estar em chamas, esteja a provocar muitos incêndios danosos).

NÃO VAI TER GOLPE

Carlos Novaes, 15 de agosto de 2021

À luz da conjuntura, a prisão de Roberto Jefferson foi positiva e um lance de mestre de Alexandre Moraes: primeiro, porque o mensaleiro arrependido já havia passado de todos os limites em sua defesa da ditadura para proteger a liberdade… Prendê-lo, assim como no caso do Silveira, deu mais um sinal de que o caminho que eles gostariam de trilhar está bloqueado; segundo, porque em seu fervor pelo chefe, Jefferson fez de si mesmo o 05 de Bolsonaro — não é como prender a Sara Winter; ao atingi-lo, Moraes expõe toda a bazófia blefadora do besta, pois o obriga a ficar parado sob pressão dos seus seguidores frustrados. O problema deles é encarar a distância entre sonho e realidade.

Vem daí, dessa frustração, o sentimento de urgência que tomou conta do bolsonarismo. E os “frentistas” e defensores de um suposto Estado democrático de direito entram na pilha, até porque o alarido rende atenção pré-eleitoral. Cria-se a ideia de que a situação tornou-se especialmente tensa. Estaríamos na iminência (mais uma!) de um golpe, como pareceu a muitos lá em abril/maio de 2020. Mais uma vez, não é nada disso. Tal como antes, Bolsonaro não sabe o que fazer diante das adversidades e a cada passo afunda um pouco mais no atoleiro em que marcha.

É assim que, quando a gente pensa que a besta esgotou o repertório da própria desmoralização, ela ataca de guarânia paraguaia. Claro, depois do fiasco do desfile da sucata, o jeito de mobilizar o gado é chamar alguém para tocar o berrante. Sobrou para o decrépito Sergio Reis, sem forças para sequer erguer o berrante, que dirá tocá-lo. Vai acabar com o chifre enfiado na testa, feito aquele intrépido invasor do Capitólio — que capítulo triste dessa farsesca tragédia brasileira.

VOTO IMPRESSO E CRISE DE LEGITIMAÇÃO — 2 DE 2

Em 10/08/2021, às 19:00 — O TIRO SAIU PELA CULATRA — No desfile militar com as três forças militares do país, Bolsonaro consumou o blefe clássico, aquele que desmoraliza o blefador e também o jogo. De tanto blefar, teve de mostrar o jogo real, e expôs os militares ao ridículo: em sua obediência ao entulho autoritário, as FFAA acabaram por terem de aparecer de público como sucata. Aos que ainda temiam um golpe militar de Bolsonaro: agora já não pode haver dúvida de que o dispositivo militar do besta é tão real quanto o era o dispositivo militar do Jango, em 1964… Felizmente, dessa vez o ridículo está do outro lado.

VOTO IMPRESSO E CRISE DE LEGITIMAÇÃO — 2 DE 2

Carlos Novaes, 07 de agosto de 2021

Se, como vimos no artigo anterior, a maioria da sociedade brasileira lutou por democracia, prefere a democracia, vota democraticamente e ainda assim se vê contrariada pela prática do Estado de Direito Autoritário, fica evidente que a contrariedade é com o Estado, não com a democracia.

Separar a noção de “Estado de direito”, das noções de “autoritarismo” e de “democracia” é fundamental para entendermos o que se passa. Ao arremedar o que seria o Estado de Direito Democrático almejado pela maioria da sociedade brasileira, as forças políticas que hegemonizaram a construção do Estado de Direito Autoritário foram levadas a construir laços com as aspirações dessa maioria, pois, se não o fizessem, o Estado de Direito Autoritário seria inviável de saída. O desafio foi engendrar laços que pudessem ser postos a serviço dos seus próprios interesses facciosos. Como se trata de uma dinâmica social, não de uma conspiração, as acomodações necessárias levaram tempo (já lá se vão mais de 30 anos!!) para irem logrando seus êxitos e, então, uma a uma (Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma) foram encontrando seus próprios limites, até o conjunto entrar em desarranjo, como estamos a ver na forma dessa crise de legitimação.

Quer dizer: o jogo entre as facções estatais que se constituíram (e estão em movimento) nesse processo de transição democrática truncada (sem ruptura com o Estado ditatorial anterior) não pôde e não pode afrontar de maneira visível o desejo fundamental da maioria: a consolidação de uma democracia. Por isso, as facções foram levadas a fazer da engenharia eleitoral (via “Estado de direito”) o ponto de encontro (no “de direito”) entre aquele desejo da maioria (“democracia”) e a sua própria dinâmica facciosa (o “autoritarismo”, que trai aquele desejo): a realização de eleições honestas tem permitido contemplar o desejo da maioria e, ao mesmo tempo, oferece um solo firme (a regra) para que as facções afiram seu próprio tamanho na hora de fraudar tudo o mais que se segue à eleição — eis uma forma elaboradíssima de cinismo político-social.

A urna eletrônica é confiável porque ela é o mecanismo tecnológico da franquia democrática que traduz todo o arranjo legal entre a aspiração democrática da maioria da sociedade e os interesses facciosos daqueles que que se dedicam ao exercício faccioso dos poderes institucionais no Estado de Direito Autoritário. A urna eletrônica tem de ser confiável porque essa confiabilidade favorece a cegueira dos eleitores para as fraudes que se dão antes das eleições (nas promessas das campanhas eleitorais) e, sobretudo, é essa confiabilidade da urna que amarra o eleitor à dinâmica institucional das fraudes que se dão depois da proclamação dos resultados eleitorais, pelos quais a urna afere e atesta as forças disponíveis para o jogo das facções.

A veracidade da urna eletrônica está a serviço da ilegitimidade da prática política real. Evidentemente, a solução do paradoxo não está em tornar a urna eletrônica inconfiável, como querem os que propõem o voto impresso.

Conhecer essa ordem de razões é fundamental para entender o alcance do que se passa quando o presidente da Câmara e maioral do Centrão, Arthur Lira, se apresenta seguro ao enviar ao plenário a PEC do voto impresso, derrotada na comissão especial que a analisou, dizendo:

“vamos levar sim a questão do voto impresso para o plenário, onde todos os parlamentares eleitos legitimamente pela urna eletrônica vão decidir. E eu friso: foram eleitos todos pela urna eletrônica”.

Lira sabe do que, e de onde, fala. Sob o argumento de que pretende “pacificar” a questão, ele tomou uma iniciativa que só os ingênuos ou ideologicamente cegos podem interpretar como favorável a Bolsonaro; pelo contrário, assim como no caso do otário Daniel Silveira, Lira está a criar condições para tornar ainda mais difícil a vida do presidente a quem tem na mão. É que depois de recuar dos arroubos ditatoriais se rendendo ao Centrão, rendição essa que foi acompanhada da entrega do butim na forma de verbas e cargos (extraídos sobretudo da facção militar), Bolsonaro – que não entende o jogo das facções mesmo estando no núcleo duro dele – não obteve a paz que ingenuamente imaginara que alcançaria. Ele simplesmente não se dá conta de que governar um Estado de Direito Autoritário requer que o presidente se torne ele próprio um agente faccioso para arbitrar a guerra incessante entre as facções, sendo vedado a ele se colocar contra esse Estado, como faz ao insistir no voto impresso.

A estupidez e o pendor ditatorial que constituem a natureza bruta de Bolsonaro o tornaram incapaz de exercer a presidência da República no Estado de Direito Autoritário: a estupidez o leva a desprezar a complexidade do jogo das facções, em tudo enxergando conspirações contra si e os seus; o pendor ditatorial, além de aparta-lo do desejo por democracia da maioria da sociedade, ainda o empurra a querer resolver na marra a guerra das facções – em ambos os casos, ele se põe como adversário ditatorial do Estado de Direito Autoritário, o que realimenta a auto ilusão de enxergar a si mesmo como um vetor antissistema, justamente o sistema do qual proveio e ao qual, pela outra ponta, voltou a integrar quando se rendeu ao Centrão retirando cargos dados à facção militar com a qual delirava poder dar um golpe, golpe este com o qual, não obstante a falta de lastro, ele ainda blefa nesse vaivém de barata tonta entre suas duas origens, a militar (do Estado ditatorial), e a paisano-congressual (desde o seu primeiro mandato no Congresso do Estado de Direito Autoritário). Não tem escapatória, e tampouco tem como dar certo.

FICA O REGISTRO:

Aos interessados no realismo literário na Rússia do século XIX, informo que no curso deste mês de julho concluí a versão final do meu livro sobre as relações que julgo ter descoberto entre obras dos escritores russos Ivan Turguêniev e Aleksandr Púchkin. A mera leitura dos índices do meu trabalho mostra que o estudo do material literário me levou a interpretar de maneira nova passagens decisivas de Eugênio Oneguin e de Notas de um caçador.

Eis o link para a versão integral do livro, em formato .pdf:

LITERATURA CONTRA IMOBILISMO NA RÚSSIA DO SÉCULO XIX

Realismo literário como crítica em obras-primas de Aleksandr Púchkin e Ivan Turguêniev

VOTO IMPRESSO E CRISE DE LEGITIMAÇÃO — 1 DE 2

Carlos Novaes, 05 de agosto de 2021

A percepção da maioria da sociedade de que o Estado de Direito Autoritário não apenas não favorece como solapa as condições para a consolidação de uma democracia no Brasil é o vetor central da crise de legitimação do Estado brasileiro, que atua segundo práticas escancaradamente ilegítimas nos três poderes da República. Quer dizer, quando se refere ao Estado, a maioria de nós, que preferimos a democracia, já está além da desconfiança contra ele e, por isso, estamos prontos para receber com simpatia qualquer crítica à atuação arbitrária, corrupta, enganosa e privilegiadora dele.

Já vimos a origem da prolongada crise de legitimação que se confunde com esses sentimentos, já discutimos seu desenvolvimento, já mostramos que não se trata de uma crise institucional e, chegando aos detalhes, explicamos que a vitória de Bolsonaro em 2018 se deu porque ele logrou a maioria ao fazer parecer que seu alegado (e falso) compromisso “antissistema” era uma resposta real à crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário.

O desespero que conduz Bolsonaro pela trajetória que o leva a um beco-sem-saída se deve ao fato de que o logro chegou ao fim: não apenas a maioria da sociedade, mas até a maioria dos eleitores que votaram em Bolsonaro no segundo turno em 2018 já entendeu que esse imbecil não tem a menor condição de oferecer uma alternativa à crise de legitimação do Estado; pelo contrário: seja por suas delirantes motivações ditatoriais, seja em sua autocontraditória (pelo que diz), mas coerente (pelo que sempre fez) rendição ao Centrão (um dos vetores facciosos que embarreiram a consolidação de uma democracia entre nós), seja, ainda, por sua incompetência desumana (escancarada diante da Covid-19), Bolsonaro está na contramão do que quer que a maioria de nós possa almejar como saída para o país. É nessa espiral para o fundo do poço que entra a bandeira do chamado “voto impresso”.

O voto impresso é uma tentativa do besta de juntar os trapos e dar aos seus últimos seguidores uma bandeira para empunhar: combina crítica (falsa) ao Estado, aprimoramento (inexistente) de nossa engenharia eleitoral, defesa (fajuta) da democracia e empoderamento (vicário) do eleitor individual. Detalhemos.

Ao fazer a crítica de como o Estado organiza a eleição, Bolsonaro tenta vibrar a corda “antissistema” que a crise de legitimação mantém esticada. Ocorre que todas as alegações de fraude eleitoral trazidas por ele contra a urna eletrônica são falsas. São uma mistura de histórias velhas com conjeturas idiotas, para as quais não há uma única evidência nem amparo na razão. Ao revidar pedindo prova de que a urna eletrônica não é fraudável o besta nos dá, isso sim, mais uma prova da própria imbecilidade, afinal, qualquer pessoa capaz de pensar com o mínimo de lógica sabe que todo sistema complexo é comprovadamente hígido até que se prove sua falha, sendo impossível fazer prova outra da infalibilidade dele!

Pretender que o voto impresso seja um aperfeiçoamento da engenharia eleitoral eletrônica esbarra em evidências contrárias: a impressão do voto traria custos financeiros e materiais adicionais, além de aumentar consideravelmente o tempo de votação, o que exigiria, no mínimo, dobrar o número de urnas (seções eleitorais). Além disso, o voto impresso seria retrocesso inconveniente porque introduziria, ele mesmo, um elemento de fraude, pois traria de volta a conferência manual do voto, evento que sempre esteve no centro das fraudes eleitorais do tempo do voto em papel, cujas impropriedades veremos a seguir.

Ao invés de defender a democracia, o movimento pelo voto impresso é um ataque às bases dela, e por meio de um argumento fajuto. A delegação de poder está na base da democracia: o eleitor delega ao Estado o poder de organizar o processo eleitoral e, no curso dessa delegação de longo prazo ele, o eleitor, delega a outrem (ao candidato eleito), pelo voto, a delegação conjuntural da sua própria parcela de poder. Quer dizer, o poder do eleitor é por assim dizer delegado duas vezes: primeiro, de forma mais estável, a quem organiza o pleito, segundo, de forma mais dinâmica, a quem se submete ao pleito. O movimento pelo voto impresso parte da suposição fajuta de que é possível ao eleitor não fazer a primeira delegação, justamente aquela da qual deriva a segunda. Por essa ideia fajuta, é como se o eleitor pudesse ser o fiscal e o garante do seu próprio voto individual. Além de contrariar os fundamentos da democracia, essa ideia também é fajuta à luz de um reles raciocínio prático: ao conferir e fiscalizar seu voto impresso caindo na urna o eleitor nada faz de diferente do que fazia o eleitor do passado, quando escrevia, olhava e enfiava na urna o seu voto em papel. Esses gestos nada garantem sobre os passos futuros daquele pedaço de papel: reunido a outros, ele será anonimamente despejado numa mesa e contado por mãos humanas. Ou seja, escrito em papel, impresso, ou eletrônico, o voto sempre foi e sempre será conferido, fiscalizado e contado pelos agentes previstos pelo Estado, nunca pelo indivíduo – e isso está na base da democracia.

Reside justamente nessa volta da manipulação do voto em um pedaço de papel o desmentido de que o voto impresso aumentaria o poder do eleitor sobre o seu voto individual. Essa fantasia requer acreditar que tudo se resume no fato de o eleitor enxergar seu voto impresso caindo na urna plástica. Por fiel que tenha sido a impressão, e por mais que o eleitor esteja seguro de que viu seu voto impresso cair na urna, ele não terá o menor controle sobre as etapas subsequentes, as quais, como vimos no parágrafo acima, dependerão de operações manuais de terceiros, tal como era na época do voto em papel. É a essa manipulação material, não eletrônica, que os defensores do voto impresso chamam indevidamente de auditagem pública!

O movimento pelo voto impresso destina-se a tornar ainda mais frágil o exercício das franquias democráticas. Ao contrário do que dizem seus defensores, o que se pretende é questionar o “de direito” e incrementar o que há de “autoritário” no Estado de Direito Autoritário.

Como já esmiuçado em vários posts deste blog, é exatamente por ser “de direito” que nosso Estado de Direito Autoritário dialoga com aspectos fundamentais do Estado de Direito Democrático a que ele arremeda desde a transição democrática truncada. Ali onde esse arremedo impõe a consulta à vontade popular na hora de decidir o quinhão de poder de cada facção na luta pelo privilégio de comandar o exercício faccioso dos poderes institucionais, o Estado de Direito Autoritário se viu constrangido a banir a fraude da engenharia eleitoral, tudo o mais podendo ser fraudado depois. É essa contradição que está na base da frustração em que vive a maioria da sociedade brasileira: lutou pela democracia, prefere a democracia, vota democraticamente e foi condenada a viver sob um Estado de Direito Autoritário – eis outra maneira de mostrar a crise de legitimação.

Vejamos mais de perto essas complexidades, no próximo artigo.

ENCENAÇÃO NA LUTA DAS FACÇÕES

Carlos Novaes, 28 de julho de 2021

Em Fica o Registro, link para meu livro sobre obras de Aleksandr Púchkin e Ivan Turguêniev

O modo saliente com que a facção militar vem se conduzindo no governo intensifica duplamente a crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário: primeiro, porque permite ver também as instituições militares segundo suas práticas ilegítimas (o que a análise convencional chama de “perda de prestígio”); segundo, porque é uma saliência que traz à lembrança, na forma de blefe, o autoritarismo real que os milicos promoveram e que a maioria da sociedade repudia pelo menos desde a chamada transição democrática. Ou seja, a facção militar está na contramão do que interessa à maioria e, como já vimos, nem no meio militar ela teria condições, se realmente o quisesse, de impor uma saída golpista para a crise.

Entretanto, desde o início do ano passado a mídia convencional insiste em insuflar o medo ao golpe. Fazendo o inverso disso, desde sempre este blog veio explicando o quão infundado é esse medo, que está a serviço da restauração. Só muito recentemente, depois da total desmoralização de Bolsonaro e seus blefes, a mídia tem combinado a propagação desse medo com o deboche. Entretanto, mesmo quem debocha sucumbe à confusão divulgando a ideia tola de que as movimentações mais salientes da facção militar (à qual chamam de “ala militar” ou de “partido militar”) são o sinal de um golpismo latente a ameaçar um suposto Estado democrático de direito. Não é nada disso, leitor.

Peguemos o exemplo mais recente, essa história em torno do general Braga Neto, ministro da defesa. Tudo se passa como se o tosco Braga Neto estivesse realmente empenhado em obter o voto impresso e, assim, resolveu enviar recados golpistas, primeiro ao Congresso, depois ao STF, sobre cancelar as eleições em caso de não adoção da mudança pretendida por Bolsonaro. Essa leitura permite ao comentador convencional abordar a situação como mais uma “crise institucional” a ferir a nossa democracia… E chovem manchetes e comentários indignados!

Na verdade, o que quer que tenha sido dito e venha sendo feito por Braga Neto deve ser avaliado tendo em mente que o general é chefe de facção, assim como Ciro Nogueira ou Lula – é um jogo dentro do Estado, pelo qual os atores buscam reunir poder para fazer dinheiro. Vendo que sua facção está a perder poder (portanto, um sinal de fraqueza, não de força), Braga Neto grita o que o chefe quer ouvir para mostrar serviço, tal como o Centrão faz pela outra ponta. Estão todos a tentar arrancar tudo o que podem enquanto há tempo. Quer dizer, Braga Neto se dirigiu a Bolsonaro, não ao Congresso, nem ao STF. O “recado” dele deve ser recebido pelo leitor bem informado como um lance intra muros, a soar como um blefe dentro do blefe. O que disse o ministro da defesa não encontra eco substancial na alta oficialidade das FFAA que, entretanto, não pode desmenti-lo precisamente porque entende como mais vantajoso obedecer a Constituição a que o golpismo estaria a ameaçar!

Quem não faz uma análise detida da situação estrutural do Estado de Direito Autoritário em crise de legitimação fica assim, dançando ao ritmo do que há de supérfluo na conjuntura, e só põe a mão no fruto quando ele já está podre. Por exemplo: só agora descobriram a rivalidade entre os milicos do palácio e os paisanos do Centrão, as duas facções que dão expressão original (militar e congressual) ao autoritarismo de Bolsonaro… Quem lê este blog sabe, pelo menos desde junho de 2020, que Bolsonaro teria de fazer

“uma reconfiguração da presença militar, levando os milicos a entregarem postos de mando recém conquistados. Essas conquistas haviam sido obtidas no embalo de um projeto ditatorial sem lastro e, portanto, eram uma exceção que erodiu à medida que Bolsonaro veio sendo empurrado de volta ao velho normal.”

Em suma, quanto mais a facção militar grita as suas perdas, mais longe estamos de um golpe e mais fundo nos abismamos na crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário…

Enquanto isso, os braços congressuais das facções fingem disputas que encobrem a disputa que deveras fazem: fingem que travam uma batalha sem trégua por objetivos gerais contrastantes; enquanto disputam para valer os meios de ditar os termos da trégua em que deveras se entendem para distribuírem entre si o que arrancam do lombo da maioria da sociedade. Exemplo disso é o fundo eleitoral: todas as facções querem dinheiro público legal para repartir entre si (o PT sempre foi o maior entusiasta desse fundo, assim como do outro, o fundo partidário), mas sabendo da oposição da maioria da sociedade, embrulham a coisa de modo a obter o dinheiro se comprometendo o mínimo possível, encenação pela qual empurram o ônus uma para a outra, o que reitera a ilusão de polarização ali onde todos estão de acordo. Em seguida, se unem na propagação de que ser contra esses fundos é ser contra a política, como se a política se resumisse à prática e à existência dos políticos profissionais, ávidos por fundos.

Nessa disputa facciosa pelo modo de configurar a forma do poder entra, por exemplo, o telequete “presidencialismo versus parlamentarismo”… A coisa toda pode ser resumida assim: as facções que dispõem de estrutura burocrática firme e liderança arbitral preferem o presidencialismo (PT, PDT etc), já as facções que dependem de ampla e permanente concertação interna de interesses (cuja origem são os partidos da ditadura, p-MDB e ARENA, formados na prática miúda, pois não podiam disputar a presidência da República), se dizem parlamentaristas. A versão mais recente dessa patranha é o semipresidencialismo (ou semiparlamentarismo), que consiste em manter a figura do presidente, mas retirando poderes da presidência da República em favor do Congresso, deste Congresso

Enfim, pró ou contra Bolsonaro, as facções continuam a se entender para preservar o Estado de Direito Autoritário e nada do que aconteceu no último mês trouxe novidade.

FICA O REGISTRO:

Aos interessados no realismo literário na Rússia do século XIX, informo que no curso deste mês de julho concluí a versão final do meu livro sobre as relações que julgo ter descoberto entre obras dos escritores russos Ivan Turguêniev e Aleksandr Púchkin. A mera leitura dos índices do meu trabalho mostra que o estudo do material literário me levou a interpretar de maneira nova passagens decisivas de Eugênio Oneguin e de Notas de um caçador.

Eis o link para a versão integral do livro, em formato .pdf:

LITERATURA CONTRA IMOBILISMO NA RÚSSIA DO SÉCULO XIX

Realismo literário como crítica em obras-primas de Aleksandr Púchkin e Ivan Turguêniev

O CARÁTER CONSERVADOR DO FRENTISMO

Carlos Novaes, 23 de junho de 2021

Com acréscimos às 19:00h, em Fica o Registro

A luta dos democratas no Brasil requer duas atitudes simultâneas: uma de conservação, que consiste na garantia de permanência para as franquias democráticas já vigentes; e uma outra, de inovação, que consiste na luta pela consolidação da democracia em um Estado de Direito Democrático. Pela conservação, se conservam os aspectos positivos da transição democrática truncada, que nos trouxe do Estado da ditadura paisano-militar ao Estado de Direito Autoritário que nos infelicita. Pela inovação, se completará a transição da democracia desde a sociedade (onde ela vem viva lá das lutas contra a ditadura) para o Estado, que ao longo desses mais de 30 anos resistiu o quanto pôde a se transformar. Em outras palavras, o Brasil não dará um passo adiante enquanto a maioria conservadora que já garante as franquias democráticas não desabrochar em uma maioria inovadora, lucidamente empenhada na luta pela construção de um Estado de Direito Democrático, cujo pilar central é o enfrentamento da desigualdade.

Para que esse desabrochar aconteça, o Brasil precisa de uma vanguarda intelectual e política em tudo oposta ao que propõe o “frentismo” contra Bolsonaro. Esses políticos e intelectuais, muitos dos quais compõem a nossa autointitulada esquerda, supõem (ou alegam) que o besta ameaça as instituições colapsadas de um fantasioso Estado democrático de direito. Ora, nem a maioria da sociedade brasileira, cerca de 80%, precisa de uma Frente para defender a manutenção do que ela já garante e que, por isso mesmo, Bolsonaro não tem condições de esmagar: as franquias democráticas; nem essas franquias democráticas podem ser tidas como consolidadas numa forma estatal democrática. O Brasil dos frentistas requer fazer vista grossa (quando convém) para as evidências diárias do seletivo autoritarismo pelo qual, há mais de 30 anos, o Estado de Direito Autoritário faz o exercício faccioso dos poderes institucionais contra a maioria da sociedade brasileira.

Na prática, como está limitado à defesa das franquias democráticas, confundindo-as com um Estado democrático de direito inexistente, o “frentismo” se deixou aprisionar num beco-sem-saída conservador, amputando a luta democrática de seu ímpeto inovador. É por isso que os frentistas propõem conservadoramente a volta ao Brasil pré-Bolsonaro, e se aferram à defesa deste Estado de direito, cujas práticas Bolsonaro tem feito ainda mais autoritárias, embora exerça o cargo no âmbito do “de direito”. Também não é outra a explicação para os frentistas não enxergarem a crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário, afinal, uma crise de legitimação não é senão o sentimento da maioria de que são ilegítimas as práticas do Estado sob o qual vive.

Mesmo o melhor “frentismo” está cego para (e nem saberia o que fazer, se o enxergasse) o que há de auspicioso no sentimento antissistema da maioria da sociedade brasileira. Deriva dessa cegueira a confusão que fazem entre Política (com P maiúsculo) e a prática dos profissionais da política, como se recusá-los fosse uma recusa à política enquanto tal, que diz respeito a todos nós.

E os frentistas já vêm cegos desde antes de ser tornarem frentistas: foi essa cegueira que permitiu a Bolsonaro se tornar o único beneficiário da justa fúria antissistema que orientou a maioria do eleitorado em 2018. Quer dizer, a cegueira dos futuros frentistas favoreceu a vitória de Bolsonaro e é um obstáculo à construção do movimento que, para além de derrotar o besta, enfrentaria programaticamente a besta ditatorial viva em facções militares, milicianas e paisanas.

Fica o Registro:

Descendo da análise de caráter geral para o solo da prática política propriamente eleitoral, o notório revigoramento eleitoral de Lula já deixou claro que compor uma frente anti-Bolsonaro implica aderir, de antemão, a Lula, o que, de cara, afasta muita gente. Mas, (e até por isso), a força do controvertido Lula vai suscitar uma arregimentação contrária, ou seja, uma frente anti-Lula, frente esta que, diante de uma possível implosão de Bolsonaro, poderá ser liderada por um terceiro. Ainda não temos elementos para saber se esses desdobramentos levarão ou não à realização de um segundo turno na disputa presidencial.

De todo modo, a teoria do “frentismo” caminha para garantir a si mesma a mais ingrata vitória, pois como quer que a realidade venha a se apresentar, um segundo turno em 2022 se anuncia, de antemão, o estuário conservador ou de uma gloriosa frente, ou de duas: a frente anti-Bolsonaro e a frente anti-Lula. Como defensor do Estado de Direito Autoritário, o frentismo é inderrotável.

[19:00h]

– A saída de Salles do ministério é mais uma baixa no núcleo duro de Bolsonaro e faz estrago ainda maior do que a queda de Araújo. O fato de ser mais um a cair sendo elogiado pelo chefe deixa ainda mais claro o contínuo enfraquecimento do besta, que não consegue manter no governo auxiliares de sua preferência pessoal. O leitor pôde e pode acompanhar neste blog essa trajetória descendente: vitorioso na eleição, Bolsonaro passou a atolado, e então a, blefador, rendido, desorientado, acuado, de joelhos e exasperado.

– A confirmação pelo STF da suspeição de Moro no julgamento de Lula é mais uma má notícia para Bolsonaro, e dupla: fortalece Lula e, por isso mesmo, dá espaço para Moro, que poderia se tornar não uma terceira via, mas o próprio representante da via que Bolsonaro tem desgastado com sua incompetência e truculência. Moro é o único que pode se tornar uma alternativa para boa parte do eleitorado mais afeiçoado a Bolsonaro, no caso de ele se desgastar a ponto de sugerir derrocada — afinal, esse pessoal que dá apoio aparentemente incondicional a Bolsonaro é neófito em luta política real, e tenderá a se encolher, não a se radicalizar, se a conjuntura se revelar irremediavelmente adversa ao “líder”. Esse cenário tenderá a ficar nítido nas ruas, à medida que as manifestações contra Bolsonaro crescerem (como tudo indica que vai acontecer). A movimentação bolsonarista de rua se expandiu no vácuo gerado pelo coronavírus. Com a oposição na rua, o desânimo deles tenderá a aparecer.

COMENTÁRIO À POLÍTICA CONVENCIONAL

Carlos Novaes, 19 de junho de 2021

Ciro Gomes precisa dar um rumo digno para sua história política, e ele não o fará se insistir em ser um candidato inviável à presidência da República, especialmente se essa insistência se der em busca do apoio eleitoral de facções à direita do espectro político convencional, movimento fadado ao insucesso e que deixará o PDT em situação fragilíssima. A direita convencional jamais confiará a Ciro (e, menos ainda, ao PDT) a condução dos seus interesses — o que é outra maneira de enxergar a inviabilidade de uma indesejável “terceira via” das facções.

Se quiser evitar o fiasco que se anuncia para sua candidatura à presidência, Ciro precisará dar dois cavalos de pau para realizar um lance de mestre: primeiro, parar de insultar e caluniar gente decente que pensa diferente dele; segundo, parar de empregar o linguajar da direita, a violência dos autoritários e a intemperança dos irritadiços ao fazer o necessário e oportuno combate político ao Lula; terceiro, reunir os dois cavalos-de-pau anteriores para dar potência a um lance de mestre: ser candidato a governador de São Paulo fazendo oposição ao PT e se apresentando como alternativa tanto ao bolsonarismo arrependido do PSDB, quanto ao frentismo de Boulos, representante mais notório da autointitulada esquerda aderida ao Lula.

Ao realizar esse movimento, Ciro livraria o PDT de um naufrágio certo, abriria uma alternativa para si, e colocaria vários candidatos do partido em boas condições nas disputas regionais pelo Brasil afora, especialmente nas eleições para a Câmara e para Governador, cujos candidatos, entre outras vantagens, se livrariam do desgaste de ter de “cristianizar” a inviável candidatura presidencial de um correligionário.

E SE BOLSONARO FOR O FAUSTÃO DA POLÍTICA?

Carlos Novaes, 17 de junho de 2021

Longe de mim pretender injustiçar o Faustão comparando-o a Bolsonaro como pessoa ou personagem público. Mas pode haver uma simetria formal, que independe de uma comparação de conteúdo.

Faz mais de vinte anos estudo e pesquiso televisão, testando material audiovisual do telejornalismo à telenovela, passando por programas de auditório, minisséries e talk shows. Lá nos idos de 2003-2005, em um dos mais longos e detalhados estudos que fiz, amplamente amparado em pesquisas em tempo real com telespectadores, examinei a performance de apresentadores como Silvio Santos, Ratinho, Gugu e Fausto Silva. Uma das surpresas (pelo menos para mim) desse esforço foi a descoberta de que Fausto Silva era o menos apreciado pelos telespectadores, não obstante comandasse o programa de maior audiência. Em 2016, ao discutir aqui simetrias entre o “domingão da política” e o “domingão da TV”, tive oportunidade de mencionar, de passagem, o que aprendera sobre Fausto Silva mais de uma década antes, e escrevi:

“A se debater em meio às rotinas propriamente políticas do legado paisano da ditadura, a sociedade brasileira tem nos domingos televisivos rotineiros a reiteração por assim dizer cultural desse legado, não apenas na versão mais retrógrada de um Silvio Santos perturbado, com tiques de déspota senil e aparentemente inofensivo, a simular harmonia familiar enquanto arruína o negócio dela; mas também, e sobretudo, com Fausto Silva, em seu Domingão do Faustão, um programa a que as pessoas assistem não obstante estarem sempre prontas a declarar desapreço pelo apresentador. Qualquer um que venha pesquisando TV profissionalmente sabe que Fausto é visto pelo público como alguém que “não deixa os outros falarem”, sendo frequentemente classificado como “autoritário”, “grosseiro” ou “rude” pelo telespectador que, ainda assim, continua a assisti-lo: abandonado a rotinas, esse telespectador imagina encontrar no palco do “Domingão” a “vida real” do elenco ficcional da Globo; mais ou menos como o eleitor que depois de ter votado para o legislativo segundo rotinas sonhou encontrar na sessão dominical do impeachment um representante à altura dos desafios da hora presente.”

De modo que foi nada surpreendente para mim a reação do público ao trabalho do substituto de Faustão no último Domingão — na verdade, Fausto era um personagem cuja substituição o público desejava sem exatamente sabê-lo. O modo ameno, quase carinhoso de Leifert ajudou a compor o quadro.

Ao contrário do que muitos pensam, entendo que para além de tudo que já há de explícito contra Bolsonaro, o modo crispado e exasperado de ele exercer o cargo já deu, havendo contra ele um desejo profundo de substituição, em parte considerável do público não exatamente pelo conteúdo, mas pela forma: as pessoas estão fartas dos irritadiços e querem alguém mais ameno na presidência da República (virão daí dificuldades adicionais para Ciro Gomes).

O EQUÍVOCO DO FRENTISMO CONTRA BOLSONARO

Carlos Novaes, 12 de junho de 2021

Há anos o esforço maior deste blog é discutir a crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário, mostrando como essa crise se torna dia-a-dia mais aguda com a intensificação da luta entre as facções estatais em busca de poder para fazer dinheiro através do exercício faccioso dos poderes institucionais. Essas facções fazem seu jogo de costas para a imensa maioria da sociedade brasileira e vem daí a sensação correta de que Estado e sociedade estão separados no Brasil. A crise é de legitimação porque a imensa maioria da sociedade já não reconhece como legítimo o Estado de Direito Autoritário, que mata e pune fazendo uso ilegítimo da força; rouba fazendo uso ilegítimo do poder de contratar; cria privilégios para alguns enquanto desampara a maioria fazendo uso ilegítimo do poder de distribuir verbas; promove a injustiça fazendo uso de um sistema tributário ilegítimo, que obedece à máxima de que “os ricos não podem perder”, enquanto esmaga as camadas médias e esfola o povo pobre; condena o país ao atraso fazendo uso ilegítimo do poder estatal para, ora manter, ora reforçar o que há de pior na estrutura econômico-social do país: a desigualdade.

A imensa maioria da sociedade já enxergou tudo isso e muito mais, mas o faz de maneira desigual, segundo preferências em conflito, pois nossos cérebros não poderiam mesmo concatenar de uma hora para outra, de modo coletivo, as razões e os afetos suscitados por esse conjunto de desafios, que nos são apresentados em meio a sofrimentos que não param de crescer numa luta pela vida cada vez mais dura. Sem saber como, temos de enfrentar de uma só vez duas urgências: uma urgência social e uma urgência por ordem. Como já discuti aqui, a dificuldade de concatenação mencionada arrastou a maioria da sociedade brasileira a se dividir opondo essas duas urgências, ao invés de procurar uma saída que encare o fato de que as duas urgências são mutuamente dependentes. Vem daí, em última instância, a mais nova polarização fajuta, Lula x Bolsonaro. Nem Lula é resposta para a urgência social; nem Bolsonaro é alternativa à urgência por ordem, como detalhei quando discuti Haddad x Bolsonaro em 2018. A maioria da sociedade brasileira marcha no pátio do seu labirinto.

Para piorar a situação, como Bolsonaro orienta seu governo criminoso segundo o desejo delirante de se tornar um ditador, criando com isso toda sorte de tensão institucional, a maioria da intelectualidade brasileira e a nossa autointitulada esquerda encontraram uma oportunidade para, ao defenderem as franquias democráticas agredidas pelo desejo ditatorial de Bolsonaro, acabarem por entrar no beco sem saída de defender este Estado de Direito Autoritário como se ele fosse um Estado democrático de direito. Com isso, ficam todos na contramão do virtuoso vetor saído dos sentimentos conflitantes da maioria da sociedade brasileira: a crise de legitimação do Estado que a massacra. Em suma, esses bem pensantes ficam a defender um Estado que a maioria de nós já não quer!

Esse é o equívoco básico da “Frente” contra Bolsonaro, não sendo surpresa alguma que esse “frentismo” rapidamente tenha vindo a dar saltos para o nada. Primeiro pularam fora os oportunistas, que logo puseram na rua suas candidaturas. Mais adiante, a volta de Lula ao cenário eleitoreiro com aura de injustiçado (que o foi!) soterrou de vez o “frentismo”, visto que a força de Lula escancarou uma das fraquezas mais evidentes da ideia de Frente: na verdade, falava-se em frente porque não havia ninguém em condições de liderar o campo antiBolsonaro… Com o revigoramento de Lula… Finalmente, temos agora uma nova versão do “frentismo”, cujo principal teórico é o professor de filosofia da UNICAMP e presidente do CEBRAP, Marcos Nobre, que acaba de descobrir o papel do segundo turno numa eleição presidencial em dois turnos: promover a reunião de quem pensa de modo semelhante contra o candidato a quem rejeita…

Em entrevista recente, Nobre pretende dar fundamento à sua descoberta com três ideias básicas: (i) nossas instituições estão em colapso; (ii) se perder a eleição, Bolsonaro tentará dar um golpe; (iii) Bolsonaro é um candidato fortíssimo.

(i) Bem, Nobre está a chamar de “colapso das instituições” a crise de legitimação do Estado, só que ele vê essa crise pelo lado do Estado, não pelo lado da maioria da sociedade. Note bem leitor, Nobre fala de “colapso” como se esse tal colapso nada dissesse acerca da qualidade da prática propriamente institucional dessas instituições estatais. Por isso, ele defende o Estado. Ora, essas instituições estão voltadas para dentro de si mesmas porque são, faz tempo, teatro de uma luta entre facções estatais pelo exercício faccioso dos poderes institucionais. Esse encapsulamento nas instituições só cresce, como estamos a ver todos os dias e é por isso que a maioria da sociedade já não as legitima. Peguemos casos recentes: como não ver facciosismo quando Pazuello não é punido; ou quando a Polícia Civil do Rio mata a esmo no Jacarezinho; ou quando a Caixa lança um programa de crédito voltado à PM com 100% de financiamento da casa própria; ou quando Fux direciona a dedo a distribuição de processos no STF; ou quando o deputado Silveira é preso ao arrepio da lei; ou diante de um orçamento paralelo que permite a certos deputados comprarem tratores por cinco vezes o preço; ou quando mineradoras e madeireiras encontram aliados nos órgãos ambientais; ou quando a FUNAI se volta contra os índios?!

(ii) Não é que Bolsonaro pode tentar um golpe. Não. Ele vem tentando faz tempo. Afinal, o que têm sido as manifestações antiinstitucionais dos últimos anos senão tentativas de golpe, ainda que na forma de blefes?! Só que, como detalhei aqui e aqui, a besta tem se deparado com a rejeição da maioria da sociedade brasileira a mais autoritarismo (afinal, essa maioria entende ilegítimo nosso Estado de Direito Autoritário não por ele ser de Direito, mas por ele ser Autoritário…) e na falta de apoio das FFAA (que estão à vontade com o autoritarismo já em vigor). Se perder a eleição, como é mais provável, Bolsonaro ainda terá contra suas pretensões golpistas a materialidade dessa derrota, quer dizer, a maioria do eleitorado terá lhe dado as costas. Logo, o desejo delirante de Bolsonaro de se tornar ditador não deve servir para desenhar nenhuma tática e, muito menos, para orientar qualquer estratégia na luta por um Estado de Direito Democrático para o Brasil. O que Nobre propõe é o que também o Centrão e os militares querem: a restauração do estado de coisas anterior a Bolsonaro, justamente o que nos levou a Bolsonaro…

(iii) Não temos como antecipar a força eleitoral de Bolsonaro em 2022. Contra ele há tudo o que sabemos; a favor dele pode haver uma melhora sensível na economia e o arrefecimento da pandemia. Quanto essas “melhoras”, se ocorrerem, compensarão os sofrimentos e contrariedades havidos? Não sabemos. A julgar pelos dados hoje disponíveis, as escolhas de Bolsonaro o fixaram na contramão das preferências da imensa maioria da sociedade brasileira, o que torna muito difícil uma vitória eleitoral numa eleição disputada em dois turnos, por mais competitivo que ele venha a ainda se mostrar. Agora, se não houver “melhoras”, não há porquê descartar uma vitória de Lula já no primeiro turno.

Enfim, não precisamos de Frente alguma para enfrentar Bolsonaro, ainda menos se o programa da Frente for restaurar a situação anterior a Bolsonaro (como se isso fosse possível…). Precisamos reunir forças para construir um projeto que nos permita combater a desigualdade na direção de um Estado de Direito Democrático articulando as nossas duas urgências, a urgência social e a urgência por ordem. Se não houver essa reunião de forças até a eleição de 2022, voltaremos a nos dividir tão improdutivamente quanto em 2018 e, nessa situação rebaixada, cada um escolherá o que parecer menos pior, o que nos levará a fazer maioria contra Bolsonaro, se ele estiver no segundo turno.

Fica o Registro:

– Faz algum tempo, discuti em mais de um post neste blog indícios de que a luta entre facções estatais havia chegado ao Exército. Tempos depois, ponderei que a defesa do impeachment de Bolsonaro era contraproducente quando se almeja construir no Brasil um Estado de Direito Democrático, pois o vice-presidente da República é o general Mourão, que se chegar ao poder dará ainda mais coesão ao facciosismo militar. Mais recentemente, apontei a dinâmica facciosa dos militares em torno de Bolsonaro e discuti porque eles não entrariam na aventura de um golpe para dar ainda mais poder ao besta: além de já estarem sendo atendidos pela situação atual, se participassem de um golpe a favor de um mandatário impopular eles não poderiam deixar de se transformar em força auxiliar da PMilícia. Por último, ao analisar a caso da indisciplina de Pazuello, observei que a decisão de não puni-lo abriu o Exército para a lógica da PMilícia, que reside na quebra permanente da hierarquia militar em favor da disposição para o uso danoso da força. Ainda que essa decisão do alto comando militar tenha sido um recuo tático para melhor enfrentar o golpismo de Bolsonaro, e não uma capitulação diante do aspirante a ditador, o fato é que essas intenções dos agentes valem pouco diante da dinâmica criada pela força dos fatos: pode haver incremento à insubordinação e à quebra da hierarquia.

– Para acompanhar essa dinâmica propriamente militar vejo como fonte interessante o coronel da reserva Marcelo Pimentel Jorge de Souza. Em entrevista recente, ele fala do que intitula um Partido Militar, chefiado por generais da reserva e da ativa e voltado a ocupar e permanecer no poder sem um golpe como o de 1964. Olhada com atenção, a reflexão do ex-coronel mostra em detalhes o funcionamento faccioso desse braço político dos militares, sendo útil substituir a metáfora “partido militar” pela designação mais apropriada de facção, providência que joga luz na crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário que nos foi legado pela transição democrática truncada.

– O voto impresso vem sendo combatido de maneira improdutiva porque o argumento básico é condená-lo como um “retrocesso” quando comparado ao avanço tecnológico alcançado com o voto virtual. Esse fetiche tecnológico bloqueia discutir o principal. O problema com o voto impresso é político, seja num sentido analítico, seja num sentido prático. De uma perspectiva analítica, ao imprimir o voto para a verificação pelo eleitor se dará a ele um poder contraproducente (e que ele jamais teve!): o poder para conferir o seu voto individual. No sistema antigo, uma vez aberta a urna, eleitor nenhum poderia identificar nela o seu voto. Às mesas de apuração cabia conferir as cédulas e apurar os votos. O fundamento de um sistema eleitoral, seja o voto em papel ou eletrônico, é realizar a conferência depois que o eleitor, ao delegar a parcela de poder que o seu voto representa, delegou também a competência para que se faça a conferência da preferência embutida nessa delegação. No caso do sistema adotado no Brasil, a conferência eletrônica pode ser verificada e acompanhada por vários agentes independentes e concorrentes, não havendo ganho nenhum em transferi-la para o eleitor individual. Do ponto de vista prático, se está a abrir a possibilidade de que eleitores interessados em impugnar os votos de determinadas urnas, ou motivados a tumultuar a hora da eleição, apontem defeito inexistente, pois sendo o voto secreto, não será possível tirar de pronto a prova.

EXÉRCITO TRANSPÕE AS “QUATRO LINHAS” E ABRE CAMINHO PARA A LÓGICA DE MILÍCIA

Carlos Novaes, 03 de junho de 2021

O que sempre soubemos: Bolsonaro nunca aceitou a disciplina do Exército e tampouco perdoou os dissabores vividos na força, que o puniu por atos de indisciplina. A novidade: ao decidir não punir a participação do general Pazuello, da ativa, em ato político de apoio a Bolsonaro, o comandante do Exército se rende à indisciplina do ex-tenente que almeja montar um exército seu para tornar-se ditador.

Não punir Pazuello é abandonar o regulamento do Exército, favorecendo a indisciplina coletiva e seu desdobramento mais direto: a quebra da hierarquia. Quebrar a hierarquia militar da PM tem sido a atitude básica dos agrupamentos milicianos, nos quais manda quem for mais resoluto na hora de provocar danos, independentemente de patente.

A maioria da sociedade brasileira já não pode enxergar o Exército sequer como uma instituição do Estado de Direito Autoritário, pois o que acaba de acontecer é um passo além das “quatro linhas” até do autoritarismo do Estado de direito brasileiro. Ao optar por uma decisão tão contrária à preferência de muitos dos seus pares, encolhendo-se para preservar rotina de benesses, o comandante do Exército põe a crise de legitimação do Estado em um patamar que encoraja os delírios ditatoriais de Bolsonaro.

TERCEIRA VIA, DUAS ROLHAS E MAIS UM IMPEACHMENT

Carlos Novaes, 26 de maio de 2021

O golpe contra a inepta Dilma deixou claro que “condições políticas” para o impeachment de um presidente da República podiam ser fabricadas a gosto pelos políticos profissionais com assento no Congresso, como explorei em série e artigos da época. Outrossim, a dinâmica política explicitada naquele golpe teve como resultado o escancaramento da luta de facções e a desmoralização do Congresso enquanto agente depositário das esperanças por dias melhores para a maioria da sociedade brasileira. Tendo ficado claro que o dispositivo do impeachment não garantia nada mais do que a repetição do circuito malsão, pois o problema está sobretudo no Congresso, os políticos profissionais passaram a ser confusamente execrados por grande parte da sociedade, em mais um sintoma da crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário que levou à vitória de Bolsonaro.

Embora os motivos miúdos, propriamente empíricos, sejam diferentes nos dois casos, o fato é que não há impeachment contra Bolsonaro pela mesma razão que não houve impeachment contra Temer: o Congresso não tem legitimidade política para propor o impedimento político do presidente da República. Por mais que a imprensa convencional alardeie a CPI e promova Renan (logo quem!!), já não há trouxas suficientes para legitimar essa “solução” política para os nossos problemas. Para quem não é tonto, os políticos profissionais se tornaram farinha do mesmo saco e essa é uma briga entre eles para benefício deles (ainda que a lâmpada de Diógenes possa mostrar exceções).

Bem sei que a “governabilidade” dos mandatos de Temer e Bolsonaro foi comprada ao Congresso (há sábios calculando a eficiência dessa compra), mas entendo essa capacidade de compra como resultado da própria crise de legitimação que, entre outras coisas, impede o impeachment. Quer dizer: o Congresso discute preço e aceita pagamento para dar governabilidade a um presidente claramente impopular porque não havendo grandes manifestações de rua pelo impeachment de um presidente impopular (pois a maioria da sociedade já não acredita neste mecanismo como solução política), para a maioria dos congressistas o impeachment continua a ser menos rentável do que o toma-lá-dá-cá.

Em suma: só haverá impeachment quando a política dos profissionais for deixada de lado e contingentes esmagadores forem às ruas entendendo que um presidente deva ser afastado do cargo por um crime não apenas claro e repugnante, mas pelo qual a pessoa se sinta realmente atingida. Numa situação assim, a maioria da sociedade usará o Congresso como mero dispositivo para livrá-la de um criminoso intolerável, engolindo a repulsa que tem pelos profissionais. Uma vez engolida, a repulsa teria de ser expelida, o que abriria novas possibilidades de luta. Infelizmente, até agora nem o coronavírus levou a maioria da sociedade a esse ânimo novo.

O revigoramento eleitoral de Lula é, entre outras coisas, sintoma desse impasse: com o impeachment desacreditado como solução política, e sem ativa e generalizada indignação anticrime contra o besta, a vontade de mudança dos descontentes com Bolsonaro se volta para o calendário eleitoral, o que dá novo empurrão à antecipação da campanha de 2022 que Bolsonaro já havia suscitado quando, aos blefes, passou a acompanhar (com idas e vindas) as manifestações das suas hordas autoritárias. Daí a precoce e precária polarização entre Lula e Bolsonaro, com o segundo turno parecendo se desenhar ainda antes do primeiro o turno, um estado de coisas que sacramenta a CPI como mero adereço cenográfico para o teatro eleitoral de 2022, conjunto que dá fluxo à inércia do jogo de facções que tenta contornar a crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário, pois ninguém pode ignorar que a maioria do Congresso não vê senão como variantes do mesmo jogo ter Lula ou Bolsonaro como presidente.

Dessa perspectiva, podemos ver o alcance danoso dessa polarização:

–  Lula e Bolsonaro funcionam como rolhas a impedir o surgimento do novo em seus respectivos campos, o que faz deles expressão acabada da falta de alternativas que caracteriza a prolongada crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário;

– são quase nulas as chances de que a sociedade se mova na magnitude necessária a empurrar para fora do cargo, antes da eleição de 2022, o repulsivo criminoso Bolsonaro (o que não seria de todo perdido se o intervalo fosse preenchido com a construção de uma alternativa centrada no combate à desigualdade e orientada para um Estado de Direito Democrático);

– Lula ganha ímpeto para uma eleição da qual, se vencer, sairá para entregar menos do mesmo, o que é outra evidência da sua inserção no jogo das facções em meio a uma crise de legitimação do Estado que ele, a autointitulada esquerda, os centros e as direitas defendem como um Estado democrático de direito.

Ter em mente o que acaba de ser dito ajuda a entender tanto a sensação crescente da inviabilidade de uma “terceira via” (entendida no sentido convencional ou no sentido transformador), quanto a impressão de que Lula pode ganhar no primeiro turno.

A terceira via convencional parece inviável precisamente porque qualquer dos candidatos de costume (Ciro, Marina, Dória, Jereissati) ou aventados como novidadeiros (Huck, Amoedo, Mandetta, Boulos, Moro) desde sempre se apresenta como integrado ao que precisa ser deixado para trás: o marco institucional construído nos últimos trinta anos que, não obstante autoritário, é defendido por todos eles como um Estado democrático de direito (daí a adesão ao “frentismo” por parte de todos eles). Esse é o fundamento último para o fato de todos esses personagens surgirem tão parecidos em sua inviabilidade e, por isso mesmo, gastam a maior parte do tempo buscando improvisar alianças entre si, como se a crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário não estivesse a exigir uma alternativa real. Note leitor como cada um desses candidatos, seja do grupo costumeiro, seja do grupo novidadeiro, pode ser imaginado fazendo aliança eleitoral com praticamente quaisquer dos outros, aí incluído o Lula, o qual, também por isso, pode simular que significa uma alternativa, e não a rolha que impede o surgimento de uma alternativa real. Como Bolsonaro é a encarnação macabra (e inefetiva) do espectro permanente da ameaça ditatorial, todos esses candidatos se dizem contra ele usando a defesa da democracia como biombo para esconderem a precariedade do que propõem.

A terceira via transformadora depende de um projeto consistente que reúna as nossas duas urgências: a urgência social e a urgência por ordem, como expliquei detalhadamente aqui, aqui, aqui e aqui. Ora, na polarização eleitoreira Lula x Bolsonaro, o primeiro funciona como rolha a impedir o surgimento do novo no campo da urgência social e o segundo é a rolha a entulhar o campo da urgência por ordem. O primeiro trata a urgência social com políticas compensatórias; o segundo trata a urgência por ordem com porrada. Todos os outros candidatos estão desequipados para liderar uma alternativa transformadora porque sequer reconhecem o básico: precisamos reunir as duas urgências para que a maioria da sociedade brasileira pare de sofrer desnecessariamente sob o atraso imposto por esse Estado de Direito Autoritário em crise de legitimação. Enquanto a necessidade desse projeto não ficar clara, vamos ficar a oscilar entre as emoções de momento. A emoção da vez é o injustiçado Lula.

PSEUDO-DESFECHO MELANCÓLICO, E DANINHO, DE UMA FARSA TRÁGICA

Carlos Novaes, 23 de maio de 2021

Com acréscimo em Fica o Registro, em 25/05 – 20:25

Lá atrás, na luta contra a ditadura paisano-militar em prol de um Estado de Direito Democrático, Lula apoiou FHC para o senado (1978). Mais adiante, eles estiveram meio juntos, meio separados na Constituinte (1988) e na eleição presidencial solteira, vencida por Collor num segundo turno em que FHC apoiou Lula (1989). No impeachment de Collor (1992), FHC e Lula estiveram outra vez juntos, mas contando com o apoio de parte do que restara do dispositivo paisano da ditadura também contrariado por Collor (p-MDB, ex-arenistas e seus satélites do Centrão). Os eventos em torno da eleição e deposição de Collor (incluindo o nefasto papel da Globo) deixaram claro o caráter truncado da transição democrática: o entulho autoritário ainda jogava um papel central na vida política do país, sendo indispensável derrota-lo para construir um Estado de Direito Democrático.

O início dessa construção requeria uma aliança entre PSDB e PT, as duas forças nascidas da luta pela democracia. Por isso mesmo, em 1993, estava no ar a possibilidade de uma aliança entre PSDB e PT para, na eleição de 1994, derrotar o que restara da ditadura. Ministro da Fazenda de Itamar Franco, FHC construiu naqueles dias o Plano Real, Lula ficou contra, e consolidou-se entre eles uma polarização nefasta e fajuta: nefasta porque para derrotarem um ao outro precisaram nutrir o entulho autoritário; fajuta porque eles polarizaram para (i) fazerem as mesmas coisas e (ii) entregarem ao país o mesmo resultado: aliados ao entulho autoritário, (i) fizeram políticas compensatórias para os pobres obedecendo ao dogma de que os ricos não podem perder, e (ii) nos entregaram o Estado de Direito Autoritário, cuja crise de legitimação nos trouxe a Bolsonaro, que não é senão o representante do entulho autoritário nutrido pelas escolhas de Lula e FHC, ainda que eles não o soubessem e, muito menos, o pretendessem, é claro.

De modo que é simplismo imaginar que Bolsonaro seja filho do golpe do impeachment contra Dilma, iniciado pelo PSDB, ou da corrupção do PT, mais visível na roubalheira havida na Petrobrás. Na verdade, tanto o golpe contra Dilma como a corrupção do PT já foram elementos da deterioração do papel de protagonistas que ambos vinham desempenhando na polarização fajuta: pelo lado do PSDB, Aécio questionou a legitimidade da vitória de Dilma apenas para “encher o saco”, mas não viu que a sua metade do entulho autoritário já sentia-se forte o suficiente para apoderar-se da molecagem e dar o golpe; pelo lado do PT, Lula legou a Dilma a corrupção (mensalão, petrolão, etc) com que contentara a sua metade do entulho autoritário, sem perceber que uma hora eles se julgariam fortes o bastante para dispensá-lo e, até, colocá-lo na cadeia. Ou seja, o que PSDB e PT apontam reciprocamente como causa para o surgimento de Bolsonaro são recibos de suas respectivas cegueiras para o que de pior fizeram: mantiveram as forças da ditadura paisano-militar em banho-maria enquanto fingiam combater o que sustenta toda essa (des)ordem autoritária, que rouba e mata: a desigualdade.

Por isso mesmo, nem PSDB, nem PT reconhecem seja que sofremos sob um Estado de Direito Autoritário, seja, muito menos, que esse Estado está em crise de legitimação. Reconhecer o caráter autoritário do Estado que eles construíram acabaria com a fantasia de que vivemos sob um Estado democrático de direito; reconhecer a crise de legitimação desse Estado denunciaria a própria ilegitimidade da ação política deles, o que desnudaria como ridículas as suas atuais pretensões de protagonismo conjunto. O encontro recente de FHC e Lula visando 2022 deveria ter ocorrido em 1993, e trinta anos de más escolhas não podem ser simplesmente abolidos pelo encontro amistoso de dois velhotes.

Como não poderia deixar de ser, esse encontro vem suscitando as mais vivas comemorações por parte daqueles que estão agarrados a este Estado de Direito Autoritário, especialmente nos “frentistas” da nossa autointitulada esquerda, ansiosos por mais uma falsa solução para os nossos problemas, querendo nos fazer acreditar que o Brasil precisa de uma restauração, não de uma transformação. Para essa mágica, precisam tomar os blefes de Bolsonaro contra as franquias democráticas como uma ameaça real, como se o besta pudesse, mesmo, suprimir o que de democracia há em nosso Estado de Direito Autoritário. Já vimos em muitos posts deste blog as explicações para a crescente desmoralização de Bolsonaro, já integrado ao velho normal, embora como uma versão especialmente danosa dele – mas danosa não contra as franquias democráticas, e sim contra o que sempre foi negligenciado por PSDB e PT: o exercício faccioso dos poderes institucionais contra os pobres e pretos, contra os índios, contra o meio-ambiente, tudo sob a solda da corrupção e em favor de reunir poder para fazer dinheiro, sem tocar, é claro, nos interesses dos donos do dinheiro.

Só a reunião de cegueira, covardia e oportunismo permite a alguém embarcar num arranjo desses!

25/05

Fica o Registro:

– O enredo da punição ao general Pazuelo está ligado à troca recente dos comandos militares e do Ministério da Defesa, episódio em que Bolsonaro, ao exercer sua prerrogativa constitucional de presidente da República e comandante das FFAA, acabou por, entre outras coisas, deixar ainda mais descontente a alta oficialidade. Não é de esperar que essa oficialidade deixe passar uma oportunidade para, “dentro das quatro linhas”, “descontentar” Bolsonaro. De modo que Pazuelo está prestes a se tornar o Silveira de farda.

A MESMICE DAS FACÇÕES

Carlos Novaes, 15 de maio de 2021

Passaram-se trinta dias desde que publiquei o texto anterior, no qual, entre outras coisas, apresentei a ideia de que Lula e Bolsonaro disputam no mesmo campo, quando se leva em conta o amplo eleitorado que não faz parte da base dura de um e de outro. Por isso, o mais provável é que, em 2022, o adversário de Lula no segundo turno (se houver) não venha a ser Bolsonaro. Como a maioria da sociedade brasileira ainda não construiu uma alternativa, Lula vem crescendo impulsionado pela ideia de que foi injustiçado, o que é verdade, mas não toda a verdade (afinal, tão evidente quanto o fato de que ele foi condenado por Moro sem provas é o fato de que a roubalheira comprovadamente havida na Petrobrás não poderia ter existido sem que Lula soubesse, até porque o exercício faccioso dos poderes institucionais na petroleira era, como sempre, contrapartida de acertos políticos entre as facções envolvidas).

Ao decidir, acertadamente, que Moro julgou de maneira suspeita o que sequer poderia ter julgado, o STF abriu o caminho para Lula ser recebido por parte do eleitorado como um injustiçado pelo “sistema”, como se ele não fosse peça chave do jogo faccioso do Estado de Direito Autoritário. Tal como entreouvi outro dia de um arrependido eleitor de Bolsonaro: “deixaram o homem na cadeia por 580 dias para depois ‘descobrirem’ que o juiz não era aquele!” – o “deixaram” supõe um “eles”, ou seja, os maiorais do “sistema”, etc. Quer dizer: Lula vai voltar a se beneficiar de uma aura de antiestablishment porque a maioria das pessoas simplesmente não enxerga que a injustiça sofrida por ele foi um revés saído do jogo entre facções que caracteriza o Estado de Direito Autoritário, jogo no qual Lula e seu PT disputam com outras facções a condição de polo dinâmico do exercício faccioso dos poderes institucionais, cabendo ao eleitorado figurar como fichas a compor os cacifes dos jogadores que dependem do voto popular.

Toda a movimentação de Lula se dá nessa ambiguidade: se dirige aos de baixo como um deles (fazendo-se de neles interessado “contra ‘eles’”) e, ao mesmo tempo, articula com os de cima para recompor acertos políticos antigos, próprios do velho normal, propondo-se mais uma vez como fiador da cláusula pétrea de que os ricos não podem perder, ainda que algo deva ser destinado ao consumo dos pobres. Que uma engenhoca dessas ainda funcione em plena crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário diz muito da indigência política em que sobrevive em desorientação a maioria da sociedade brasileira, não obstante parte dela, sem poder se gabar de lucidez, já venha fazendo suas escolhas intuitivamente orientada pela experiência dessa perda crescente de legitimidade.

Já vimos: Bolsonaro venceu em 2018 por ter sido o único candidato que se apresentou como antissistema, como se a alternativa à crise de legitimação do autoritarismo fosse mais autoritarismo. O desastre criminoso do seu governo, combinado com a ausência de uma alternativa fundada no combate à desigualdade e orientada para a construção de um Estado de Direito Democrático, vem dando fôlego ao que já deveria ter sido deixado para trás, como dão exemplo esse revigoramento eleitoral de Lula e as esperanças depositadas em figuras como Gilmar Mendes e Renan Calheiros, peças manjadas do jogo faccioso de que essa CPI da Covid é cenografia velha.

Fica o Registro:

– Uma das prerrogativas do Estado de direito é o uso legítimo da força. O uso da força feito pelo Estado serve como parâmetro da sua legitimidade. A prolongada crise de legitimação em que vive o Estado brasileiro submetido pelas facções em sua luta por poder para fazer dinheiro exibiu-se em todo o seu vigor nefasto no bairro carioca do Jacarezinho: pelo menos 28 pessoas foram mortas em razão do rotineiro uso ilegítimo da força pelo Estado de Direito Autoritário. O facciosismo da polícia exibiu ali todo o seu vigor, inclusive contrapondo-se escancaradamente ao que enxerga como facciosismo do Judiciário.

– Trata-se de um desserviço à luta contra a desigualdade e por um Estado de Direito Democrático insistir em dizer às populações de comunidades pobres como a do Jacarezinho que vige no Brasil um Estado democrático de direito, como se essa matança policial, reiterada como rotina há décadas, fosse um desvio de conduta passível de punição. Como é que vítimas bisnetas dessa violência poderiam acreditar em algo tão implausível? Não obstante, todo o recente e reacionário “frentismo” empenhou-se na defesa dessa quimera, como se o besta tivesse inaugurado a atuação ilegítima do Estado brasileiro. O mal que Bolsonaro fez, faz e fará nasceu das possibilidades abertas pelo Estado de Direito Autoritário.

– Quer dizer, assim como as polícias e milícias podem facciosamente matar jovens negros nas periferias, assim como Moro e Dellagnol puderam fazer da LavaJato de Curitiba um instrumento para as suas preferências políticas, numa sequência de facciosismos cuja correção só pôde ser realizada com decisões facciosas por parte do STF, Bolsonaro, não menos facciosamente, pode continuar presidente a despeito de todos os crimes que já cometeu, até porque sua manutenção na presidência é útil a facções empenhadas em revigorar o velho normal.

– Bolsonaro insiste no voto impresso como condição para aceitar a derrota em 2022: “ganhe quem ganhar”. Mais uma vez, pretende barganhar com um blefe, como se trouxesse risco à ordem institucional ele não reconhecer a derrota em 2022. Bolsonaro dá sinal de dupla fraqueza: primeiro, indica a percepção da derrota antecipando a negativa ao voto impresso como pretexto; segundo, apresenta como ameaça precisamente o que não terá força para fazer, afinal, a esmagadora maioria do eleitorado ter-lhe-á negado o voto.

– Bolsonaro continuar e Lula voltar são eventos do mesmo processo político faccioso. O facciosismo que mantém Bolsonaro é o facciosismo que resgata Lula – exemplo instrutivo disso é, circunstancialmente, o fato de Arthur Lira, bastião de Bolsonaro no cenáculo político-institucional, estar à vontade com a volta de Lula. Para quem está implantado nesse Estado de Direito Autoritário, as inconveniências de ter de lidar com Lula ou Bolsonaro são relativas – inaceitável para eles é uma transformação que deixe tudo isso para trás e nos coloque no caminho da construção de um Estado de Direito Democrático.

BOLSONARO, DE JOELHOS, RECUA A CADA COICE. LULA FAZ MALABARES E O BRASIL SEGUIRÁ EMPACADO

Carlos Novaes, 15 de abril de 2021

O besta já não sabe nem o que dizer, muito menos o que fazer para dar a impressão, ainda que remota, de que está no comando do que quer que seja. Ele apenas ocupa a presidência da República, servindo de biombo para as ações nefastas de figuras ínfimas como Paulo Guedes, Sergio Camargo, Ricardo Sales, Damares e os Pazuellos.

A mídia convencional tem trazido esforços de análise sobre as manifestações mais recentes de Bolsonaro, mas já não há o que analisar. Estamos expostos a uma mistura de pânico, psicopatia onipotente e ausência de sincronia cognitiva, conjunto pelo qual o besta se dirige à opinião pública por meio de blefes, eles mesmos truncados, sem nexo, cuja ausência de sentido é preenchida arbitrariamente pelos néscios que o apoiam. Falam uma língua que nem para eles mesmos deixa memória do que foi dito — são jatos de dejetos cognitivos assemelhados ao falar humano, pelos quais simulam comunicação entre si o mero insulto aos demais, sem chegar a compor uma narrativa. A cada blefe, um recuo, numa espiral de desgaste crescente.

Faço prova do que acabo de dizer com um exemplo simples: até há poucos dias, o besta vinha falando em “meu exército”. Ora, o pronome “meu” era um blefe, pelo qual o blefador mor da República pretendia sugerir estar em condições de fazer uso pessoal da força militar. Como era um blefe, revelava pânico (afinal, sabia não contar com o tal apoio), psicopatia onipotente (“tendo o ‘meu’ exército posso fazer o que bem entender”) e ausência de sincronia cognitiva (“vou esconder o pânico com fanfarronices”). Esse uso do “meu” gerou críticas de todo lado, especialmente da alta-oficialidade, mais azeda desde a troca na Defesa e seus desdobramentos.

Se o besta fosse capaz de pensar, restaria óbvio que, se tinha de recuar do uso do “meu”, melhor seria não mencionar o assunto, para não passar recibo. Mas não. Hoje, em cerimônia militar com oficiais de alta patente, o besta resolveu falar de corda em casa de enforcado (no caso, ele próprio!) trocando o pronome: disse “seu exército” por cinco vezes. A troca exibe, de cara, falta de sincronia cognitiva, pois o besta não se deu conta de que o melhor teria sido simplesmente não falar em exército “meu”, “seu”, “nosso” ou “deles”. Mas, como não pensa, é empurrado pelo pânico de se ver recuando e, assim, insiste em se autoafirmar empregando a fórmula, mas trocando-lhe o pronome, o que escancara sua condição de blefador no uso do pronome anterior, ciranda que realimenta a espiral de desgaste crescente.

Agora, imaginem o que serão amanhã os efeitos dos reveses de hoje: o pleno do STF manteve nulas as condenações de Lula e o Senado definiu uma composição adversa ao besta para a CPI do coronavírus…

Vejam bem: a ameaça de Lula não está na hipotética disputa de um segundo turno. Não. Na marcha em que vai a realidade política, Lula acabará por tirar Bolsonaro do segundo turno em 2022. A ameaça da CPI não é ao mandato presidencial de Bolsonaro. Não. Na marcha em que vai a realidade política, a CPI acabará por preparar a prisão de Bolsonaro em 2023. E os dois conjuntos de fatos estão relacionados pela natureza facciosa do jogo político no âmbito do Estado de Direito Autoritário. Permitam-me explicar.

Tirando os apoiadores mais fiéis, tanto Lula como Bolsonaro disputam o mesmo eleitorado com dificuldades consideráveis e pantomimas assemelhadas: ainda que diferentes, ambos têm consideráveis passivos desfavoráveis (corrupção e incompetência criminosa) e ambos se apresentam como quem enfrenta o establishment… Se, em 2018, quando o besta aparecia como novidade, teria sido plausível um segundo turno entre eles; em 2022, um segundo turno parece pequeno demais para os dois. Pelo andar da carruagem, o segundo turno de 2022 terá alguém contra Lula, e esse alguém não será Bolsonaro, ainda que ele venha a disputar a eleição no cargo, como parece mais provável.

Já vimos que o jogo das facções não poderia, mesmo, manter Lula preso sem avançar com os processos contra Aécio, Serra, Alckmin e Temer. Como o sistema não suportaria esse stress, Lula foi solto e, em troca, fez-se silêncio sobre os processos contra os outros — os lulopetistas não fazem luta política com o tema da corrupção. Ora, agora, nessa nova rodada de lances desse jogo faccioso, mas segundo a mesma ordem de ideias, parece claro que não dá para o STF manter Lula elegível e uma CPI impedir Bolsonaro de concorrer… e vice-versa.

RENDIDO, O FRACOTE ESPERNEIA

Carlos Novaes, 30 de março de 2021, às 02:08h

Com acréscimos no segundo parágrafo às 10:40h

Não se deixe levar pelo alarido da mídia convencional, leitor. As últimas horas sugeriram uma hecatombe, mas, como não poderia deixar de ser, a montanha pariu um rato. Veja só o contraste entre sonho e realidade: o sonho do besta sempre foi obter apoio das FFAA para poder impor a todos, inclusive ao Centrão, seu obscurantista programa máximo; a realidade é que ele, sem apoio das FFAA para aventuras ditatoriais, teve de se render ao Centrão e, agora, escancarar essa rendição com a demissão, a pedido do mesmo Centrão, do porta-voz mais obscurantista do seu programa máximo.

Note bem, das seis mudanças ministeriais, em apenas três pastas houve demissão de ministro: um caiu porque sua cabeça fora pedida pelo Centrão; outro porque explicitava a recusa das FFAA em dar lastro a que a besta pudesse peitar o Centrão. A primeira demissão foi uma deposição de armas; a segunda foi uma vingançazinha contra quem lhe negou a força das armas. Já a queda do chefe da AGU foi uma punição por desobediência que também denota fraqueza, não força: o ministro se recusara a assinar uma solicitação do besta pela qual ele pretendia justamente mostrar força: arrancar do STF uma condenação às ações de governadores contra a Covid.

Um gesto complementa o outro e todos apontam na mesma direção: Bolsonaro está sem saída, pois sua rendição ao Centrão já fora resultado da falta de apoio das FFAA para quiméricas ambições ditatoriais, como discuti aqui. Observe-se que os escolhidos para as vagas abertas com as demissões e remanejamentos obedeceram à mesma lógica de fracote acuado: colocou um nome do Centrão no coração do governo, trouxe um nome próximo à bancada da bala para o ministério e nomeou chanceler um membro paisano do círculo pessoal.

Olhada com cuidado, isto é, como um ato hostil ao alto comando das forças armadas, a mudança na Defesa se mostra quadruplamente positiva: primeiro, ela deixa claro, mais uma vez, que Bolsonaro não tem apoio das FFAA para aventurar-se pela via do golpe; segundo, há menos um militar de alta patente no ministério; terceiro, engolir a mudança hostil reitera que as FFAA devem obediência constitucional ao presidente, gostem dele ou não; quarto, a contrariedade da alta oficialidade com Bolsonaro só aumentou.

Evidentemente, o resultado de tudo isso é que Bolsonaro só poderia estar a alimentar fantasias golpistas com base na PMilícia, uma alternativa cujo irrealismo já vimos e só aumentou. Na verdade, o besta está ainda mais dependente do Centrão e do jogo propriamente eleitoral. O resto é blefe, histeria desinformada ou má fé.

PARA NÃO DIZER QUE NÃO HÁ BOAS NOTÍCIAS

Carlos Novaes, 14 de março de 2021

Com acréscimo de parágrafos antes do final, em 16/03, às 20:00h

O chiste de que o Brasil é, mesmo, o país do futuro, já que o futuro do mundo vai se parecendo cada vez mais com a indigência brasileira, esconde um viés pseudo-crítico, conformista e despontecializador. A ideia de que o mundo vai virando Brasil, no sentido de que todo o planeta vai ficando mais desigual e cada vez mais vive da precarização do trabalho, e deixa viger a unilateralidade na aplicação da lei, é interessante especialmente se valorizarmos o papel da sociabilidade brasileira nesse novo modo de arranjar o mundo. Valorizar o Brasil não de uma perspectiva nacionalista, por certo, mas, ao contrário, o Brasil como exercício de exploração de muitos por poucos, numa sequência de arranjos históricos que sempre apontou o futuro do mundo precisamente porque sempre foi o teatro em que o capitalismo experimentou suas determinações em estado mais puro e em suas grandes linhas tendenciais. E o Brasil foi esse teatro porque seus potentados, possuidores e proprietários combinaram a predatória, populosa, cruenta, longeva e recente escravidão com uma viva conexão ao circuito mundial de mercadorias, dotando o país de uma experiência radical de convivência de estabilidade tradicional com mobilidade moderna, e sem arremate propriamente nacional.

Predatória porque o escravo era predado na África, o que resultava numa desterritorialização cuja implicação mais notável para o que se discute aqui era a destruição no universo simbólico da pessoa escravizada, pois além de não poder contar com o ambiente natural onde crescera, o escravo perdia todos os laços familiares, deixava para trás todas as suas posses, mesmo a vestimenta, era apartado dos seus hábitos alimentares, tinha destruídos seus ritos sociais e proibidos seus rituais religiosos, e, para cúmulo, via sem utilidade sua própria língua, misturado que era com outras etnias africanas (até rivais) e obrigado que era a obedecer ordens em língua que não era a sua e à qual não conhecia.

Detalhe: por essa razão foi impossível escravizar a população indígena local em larga escala e com proveito no engate ao circuito mundial das mercadorias, afinal, a população ameríndia conhecia como ninguém o território e contrapôs ao invasor o seu universo simbólico. Em linha com isso, oportuno observar que a escravidão russa teve nesse aspecto uma diferença fundamental com o Brasil, o que determinou muitas outras diferenças, a começar pelo nacionalismo, fraquíssimo aqui, fortíssimo lá: é que na Rússia o escravo era o próprio nacional, falante da mesma língua, crente das mesmas crenças e, sobretudo, portador comum de todas as outras memórias, desde tempos imemoriais. Voltemos.

Populosa porque entraram no Brasil cerca de 5 milhões de escravos vindos de África, contingente que gerou descendência numerosa, que faz com que mais da metade da população brasileira atual seja, em alguma medida, composta por descendentes de descendentes de africanos.

Cruenta porque no Brasil foi tremendo o massacre do escravo pelo castigo e pelos maus tratos, quando não pelo assassinato sem óbice legal e totalmente legitimado pelo costume, tudo isso em razão, inclusive, das dificuldades para manter a ordem desigual sobre uma grande população escrava.

Longeva porque a escravidão no Brasil durou 350 anos, e, mesmo assim (ou, até por isso), a abolição tardia se deu de um modo que preservou praticamente todas as prerrogativas desiguais que condenaram a população escrava liberta aos sofrimentos que insistem em não se separar da miséria.

Recente porque tendo vindo até às portas do século XX, a escravidão no Brasil estendeu longas e profundas raízes, que nutrem toxicamente o “desenvolvimento nacional” até hoje.

Como a estabilidade tradicional sempre foi obtida com acerba repressão sobre os de baixo, opressão cuja contrapartida é a mobilidade moderna para os de cima, o Brasil jamais conseguiu a solda nacionalista, que sempre requer a adesão insciente dos de baixo a um projeto que não é seu, mas ao qual adere como se o fosse. No Brasil, não: com profunda sabedoria (oriunda também da destruição simbólica mencionada acima), os de baixo sempre desdenharam dos vultos nacionais, deixados ao cocô dos pombos de praça, e jamais se alienaram aos projetos nacionais edificantes.

Infelizmente, de tempos recentes para cá, propagados por veículos de comunicação de massa, feitos esportivos vem contribuindo para delinear entre nós um nacionalismo tardio, fraco, meio boçal, ao qual, em sua antiga falta de fibra estratégica e em seu manjado oportunismo eleitoreiro, a nossa autointitulada esquerda vem aderindo, sem se dar conta de que assim vai legitimando o uso boçal que os conservadores instilam na tendência. O Brasil vem chegando ao nacionalismo justo na hora em que a miséria do mundo dá razão ao que por aqui sempre houve de resistência natural ao embuste do projeto nacional.

Dessa perspectiva, estamos mais uma vez na contramão, e duplamente: deploramos que o mundo venha se assemelhando ao Brasil e damos como resposta insciente um nacionalismo anacrônico ou um racialismo perigoso, mistureba que resulta numa autoafirmação despeitada e regressiva, calcada em motivações conservadoras contraproducentes.

O racialismo é uma fuga regressiva pseudo internacionalista que contorna o problema mais difícil: dizer do que é ser brasileiro. As saídas branquelas são nacionalistas exatamente por isso: se refugiam no anacronismo de um nacional não apenas tardio, mas impertinente em face da memória brasileira, pois a grande vantagem da nossa sociedade foi ter se mostrado infensa aos nacionalismos justamente porque a escravidão a vacinou contra orgulhos pátrios.

Melhor seria valorizar o Brasil como exemplo negativo, quando visto em suas assimetrias, e como exemplo positivo, quando visto desde a resistência não nacionalista do seu povo aos sofrimentos impostos por essas assimetrias, saídas da desigualdade. De modo que o desafio é orientar o Brasil num sentido emancipatório que prescinda de raça e de nacionalismo, o que seria uma orientação realmente pós-moderna.

Se os países do mundo vão ficando cada vez mais parecidos entre si, e se esse mundo mudado vem assumindo contornos de Brasil, é sinal de que o capitalismo, enquanto fenômeno planetário, está a se aproximar daquele que sempre foi o seu padrão não explícito, jamais reconhecido, mas que sempre vigeu: o Brasil. Se há um povo treinado para resistir ao futuro do capitalismo, esse é o povo brasileiro. Brasileiros de todos os países, uni-vos!

LULA PROPÕE O VELHO NORMAL COMO AJUSTE

Carlos Novaes, 11 de março de 2021

Seja no governo mais reacionário, seja no extremo oposto dele, num governo saído de uma revolução, a política é, sempre, escolher o que e quanto do velho vai permanecer. A política é um jogo que faz regras para o próprio jogo precisamente porque nela se negocia, diuturnamente, o intervalo entre a conservação e a mudança partindo do velho, do que já existe. Quando, no romance O Gatopardo, de Lampedusa, o jovem Tancredi levou seu tio, o velho príncipe de Salinas, a enxergar que a revolução garibaldina conduziria a Itália a uma mudança necessária para que tudo ficasse como estava, ele fazia, cinicamente, o vaticínio da tragédia embutida no que havia de farsa naquela situação política. Quando, ao narrar suas memórias da revolução de 1848, o liberal Alexis de Tocqueville, para dar realce à desordem que vira nas ruas da Paris revoltada, registrou que a mera presença dos prédios já dava um conforto de ordem, ele, sem o saber, disse uma verdade a que o marxista Lênin iria sucumbir setenta anos depois, quando organizou a polícia secreta da Rússia soviética com base nas instalações, nos métodos e nos agentes do recém derrubado regime tzarista.

O Brasil está sob um governo extremamente reacionário, cuja origem é um rearranjo mal enjambrado de forças sombrias que voltaram ao poder porque aqueles a quem foi dada a tarefa de construir o novo regime definiram segundo seus interesses mais rebaixados o que e quanto do velho deveria permanecer. Nem o PSDB, nem o PT, fizeram caso de que os passos de quem recua diante da tarefa mais longínqua esmagam as condições para realizar a tarefa mais próxima. Ambos recuaram da trabalheira de combater a desigualdade, condição básica para a construção de um Estado de Direito Democrático, nutriram forças que deveriam ter derrotado e, apoiados nelas, construíram esse Estado de Direito Autoritário e o conduziram até que ele entrou nessa crise de legitimação, pela qual Bolsonaro deixou a condição de espectro tenaz e se tornou aberração real. Saído do laboratório em que PT e PSDB se revezaram na chefia, este governo se mostra autoritário no limiar de suprimir todo o direito, situação que torna muito mais difícil a realização das políticas compensatórias mais básicas, que dirá combater a desigualdade.

A crise de legitimação em que se encontra esse Estado de Direito Autoritário requer, para ser superada na direção de um Estado de Direito Democrático, que o Brasil se livre de Bolsonaro deixando para trás PT e PSDB. O país jamais se abrirá às possibilidades de consolidação de uma democracia se insistir em escolher sua liderança política entre essas três forças: a do militarismo e as dos dois partidos que nutriram o entulho da ditadura até serem engolidos por ele. Cada um a seu modo, eles já nos deram fartura de provas de que estão comprometidos com a manutenção do que impede o combate à desigualdade e à corrupção na direção de um Estado de Direito Democrático.

Ontem o país assistiu a mais um discurso em que Lula reiterou aos ricos que ele não significa uma ameaça às estruturas que lhes permitem ganhar e estocar riqueza de um um modo que faz do Brasil o país mais desigual do mundo. Falando lá de dentro do velho acerto entre capital e trabalho, retomando desde sua matriz sindical mais rebaixada ideário tosco de mais de 50 anos, Lula falou em fortalecer o capitalismo pela ampliação do consumo de todo mundo para que todo mundo ganhe (mais uma vez, diga-se passagem, como se os recursos do planeta fossem infinitos); celebrou o Petróleo como fonte de energia (mais uma vez negligenciando o ocaso desse mineral) e, claro, convidou o Brasil a voltar a 2010, ano do apogeu do velho normal — esse mesmo velho normal ao qual Bolsonaro se ajustou nessa versão pós-catástrofe, ou seja, depois que o baixo-clero congressual assumiu as rédeas, permitindo que o chefe de turno do Centrão se tornasse o cocheiro do mula sem cabeça que ocupa a presidência da República.

Hoje as mídias convencional e alternativa estão inundadas de análises sobre o discurso “de estadista”, pelo qual Lula mostraria toda a sua maturidade e capacidade de promover o entendimento nacional. Ora, com Bolsonaro na presidência até Odorico Paraguaçu pode ser visto como estadista. Mas se o leitor não se deixar levar pela bobagem de que Bolsonaro é uma ameaça ditatorial real (a despeito de ele próprio, delirantemente, almejar a condição de ditador), fica fácil enxergar o cerne da embromação que há nessa polarização Lula x Bolsonaro: eles são expressão do velho normal, eles são formas de apresentação do governo possível no âmbito do Estado de Direito Autoritário, eles são versões políticas da interdição básica, que impede o enfrentamento da desigualdade: os ricos não podem perder.

Tendo aderido a esse arranjo saído da ditadura paisano-militar, Lula e seu PT manejaram a política brasileira de um modo que não poderia senão gerar, de um lado, a fragilidade de quem queria ir adiante e, de outro, o fortalecimento dos recalcados que sonhavam em voltar aos dias de mando pleno. Bolsonaro, que é a volta macabra desse recalque, só foi possível porque o lulopetismo, em sua mistura de incompetência com corrupção, se pôs na condição de alvo-frágil para um anticomunismo boçal, como se Lula ou o PT tivessem alguma coisa que ver com o comunismo, como se Lula ainda pudesse ser visto como um radical de esquerda. E quem maneja esse espantalho é o próprio lulopetismo, que o emprega para fazer a embromação máxima: soldar sua base de esquerda com uma política de obediência ao Mercado.

Quem tiver paciência, acompanhe a encenação de ontem para esse número: um Lula conciliador, sem mágoas, pronto para mais um acerto, nada disse contra a corrupção (nossa urgência por ordem), nem falou do enfrentamento da desigualdade (nossa urgência social), salvo para diluir a desigualdade como um problema do planeta, como se aqui ela não fosse radical e definitivamente diferente. Enfim, Lula, literalmente, a cada minuto do seu discurso, ofereceu como perspectiva de futuro uma volta ao passado. Lula insiste em ver a si mesmo como o máximo a que o Brasil pode aspirar em política, o que faz dele a encarnação da ideia furada de restauração do velho normal. Se o Brasil embarcar na farsa da polarização Lula x Bolsonaro, ajustando-se a uma ou outra versão do velho normal, colherá os resultados na forma de mais tragédia, com ou sem coronavírus.

Fica o Registro:

Está particularmente engraçado assistir ao Jornal Nacional. Posta entre dois fogos de uma polarização fajuta que ela própria ajudou a armar com suas vilanias, a Globo se dá conta do risco real de passar à irrelevância no que se refere à política brasileira, com todas as consequências comerciais disso.

A JOGADA FACCIOSA DE FACHIN

Carlos Novaes, 09 de março de 2021

Com acréscimo às 18:15h, em Fica o Registro

ATENÇÃO: O que penso de Lula como político e as relações disso com a LavaJato podem ser conhecidas pelo leitor que escrever “Lula” na janela de pesquisas deste blog: primeiro virão todos os artigos em que “Lula” aparece já no título, depois, virão artigos em que embora “Lula” não esteja no título, ele é mencionado no corpo do texto. Com isso, economizo explicações desnecessárias à contextualização do que digo a seguir.

Quando se compreende a natureza facciosa do Estado de Direito Autoritário não é difícil seguir o jogo das facções e dos facciosos. Na decisão de ontem, Fachin está, mais uma vez, empregando poder jurídico para fazer política facciosa contra Lula, não em favor dele. Pensar o contrário é ingenuidade. Detalhemos isso.

Fachin sempre jogou afinado com a LavaJato. Desde as revelações da Intercept, porém, temos material para, pelo menos, supor que essa afinação não estava limitada à luta contra a corrupção. O material da Intercept mostra uma concatenação entre Moro e Dellagnol contra Lula tão pesada, que dificilmente teria escapado a Fachin. De fato, a decisão de ontem deixa definitivamente claro que Fachin sempre partilhou com Moro e Dellagnol a meta de prejudicar Lula, não de julgar Lula.

É que além de tornar nulas as decisões da LavaJato do Paraná, Fachin também pretendeu tornar desnecessário o julgamento da suspeição de Moro naqueles processos, que está para acontecer no STF e, tudo indica, decidirá por maioria contra Moro. Se a suspeição de Moro não vier a ser julgada, como quer Fachin, todo o conteúdo dos processos fica preservado como bom e pode ser retomado pela nova instância decisória, à qual bastaria proferir uma nova sentença sobre os mesmos materiais…

Vejam bem as sutilezas facciosas do lance desesperado: ao perceber que Moro seria dito suspeito pelo Supremo, e que, com isso, todos os processos em que ele atuou contra Lula seriam anulados, Fachin deu um passo atrás anulando as sentenças de Moro, para dar dois adiante: (i) proteger Moro de um julgamento de suspeição e, ao mesmo tempo, (ii) preservar tudo que Moro e Dellagnol fizeram contra Lula para, agora, obter uma “nova” condenação de Lula, supostamente isenta da parcialidade que evidenciou o facciosismo de Moro. As chances de dar certo são pequenas, mas é o que ele está a tentar.

É um lance faccioso de desespero dos antipetistas, pois perceberam que está em marcha um outro entendimento faccioso, majoritário, contrário às preferências de Fachin: sepultar a LavaJato sem valorizar o que de bom houve nela, devolver os direitos políticos a Lula e voltar à ciranda eleitoral de antes do impeachment de Dilma, o que enterraria de vez as delirantes aspirações ditatoriais desse imbecil que ocupa a presidência da República — essa é a Frente, leitor! Uma Frente cujo programa comum não é a democracia, mas a manutenção do Estado de Direito Autoritário, com a preservação de todos os dispositivos que favorecem a corrupção e a manutenção desse sistema político.

Não foi à toa que o presidente da Câmara, que chegou ao cargo com apoio total e decisivo de Bolsonaro, e que acaba de liderar a manutenção da prisão do deputado otário, declarou ontem, de pronto, que “Lula pode até receber absolvição, Moro jamais”. Para o sistema, Lula e Bolsonaro estão no mesmo campo, e a maioria prefere Lula. O jogo é claro, leitor, e pretendem que você seja o otário da vez!

Fica o Registro:

Por falar em otário, é provável que, com esse lance tão à frente, o Centrão entenda já não ser necessário cassar Silveira. Até pelo contrário: talvez julguem interessante deixa-lo como porta-voz inofensivo, mas útil, do que estão a derrotar: uma quimérica saída ditatorial para a crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário.

18:15

Ao pedir vista (sine die) do processo que julga a suspeição de Moro, Nunes Marques ganha, e dá a quem interessa, o tempo necessário para que se observe o tramite dos processos de Lula enviados à justiça do DF pela LavaJato do Paraná. Se Nunes Marques, ligado ao Centrão, mas indicado ao STF por Bolsonaro, votar pela suspeição de Moro, estará ajudando a manter Lula no calendário eleitoral; se votar em favor de Moro, ajudará que se cumpra o objetivo de Fachin: as provas dos processos contra Lula serã mantidas e não haverá necessidade de começar tudo de novo.

Esclareço que não suponho que Fachin, ao querer prejudicar Lula, esteja pretendendo ajudar Bolsonaro. Não. O jogo de Fachin é defender as decisões da LavaJato, mesmo ali onde elas são juridicamente indefensáveis.

A ideia de que Bolsonaro prefere ter Lula como adversário em 2022 é tolice. Se Lula vier, mesmo, a ser candidato, ele o será na onda que favorece o injustiçado com aura de renascido. Mesmo um estúpido como Bolsonaro sabe as dificuldades que uma situação assim cria.

Embora, tecnicamente, Lula ainda possa vir a ser condenado antes de 2022, é praticamente impossível que isso aconteça, pois está criada uma situação praticamente irreversível. Mas vamos acompanhar a justiça do DF, sobre a qual paira o silêncio atual dos militares.

Uma candidatura Lula se mostrará mais e mais irreversível quando passarmos a ver, mais lá adiante, o Centrão se articulando com Lula para 2022; isso depois que tiverem arrancado tudo de Bolsonaro, claro. Nessa altura, o besta já terá sofrido todo o desgaste do seu governo desastroso. Se for assim, restará aos tucanos uma anacrônica vigarice dupla: o antipetismo e a luta contra a corrupção (no que poderão ser ajudados por decisões de soltura que anulem outras condenações e prisões da Lava Jato, aumentando a indignação de parte da opinião pública).

Todos esses realinhamentos se darão, claro, no âmbito da “Frente em defesa do Estado de Direito Autoritário”, realizando os sonhos recém remendados dos teóricos do frentismo (que acabam de descobrir para que serve o segundo turno…): todos juntos contra a fantasiosa ameaça de uma ditadura, ainda que disputando o primeiro turno da eleição presidencial como adversários. Uma Frente dessas é, realmente, inderrotável. Que circo!

A DESORIENTAÇÃO SE APROFUNDA

Carlos Novaes, 05 de março de 2021

Como sabido, cerca de 80% da sociedade brasileira prefere a democracia à ditadura. A maioria dos que votaram em Bolsonaro deu-lhe o voto apesar de ele defender barbaridades ditatoriais, e não porquê ele as defendia. Como nosso cérebro é um poderoso criador de narrativas, essas pessoas improvisaram a ideia de que o discurso autoritário de Bolsonaro era “da-boca-prá-fora”. Quer dizer, a motivação antissistema desses eleitores era tão forte que eles preferiram engolir Bolsonaro a ter de votar em uma candidatura saída do “sistema”. Além disso, não se pode descartar que nesse “da boca-prá-fora” houvesse o seguinte subtexto: “até porque, se não for assim, a gente impede”. Como quer que tenha sido, para a maioria dos que votaram em Bolsonaro não havia uma adesão a qualquer projeto ditatorial, pelo contrário.

Se o que acaba de ser dito é verdade, Bolsonaro vem acumulando desgastes, afinal:

  1. Ao tentar confundir o apoio da maioria da sociedade para enfrentar o “sistema” com apoio a uma saída ditatorial, ele tem feito encenações pró ditadura (já discutidas aqui e aqui) que agridem a preferência democrática da maioria. Mais abaixo veremos que essas encenações apresentam duas fases diferentes: antes e depois da rendição ao Centrão.
  2. Ao constatar a inviabilidade de governar com êxito com base em blefes ditatoriais, Bolsonaro deu meia volta e voltou a marchar na direção claramente contrária à motivação antissistema da maioria que o elegeu: se rendeu ao Centrão.

Quer dizer, essa reunião de encenação pró-ditadura com rendição ao Centrão é tradução errada da motivação antissistema da maioria da sociedade e, portanto, danosa junto à opinião pública, pois a maioria da sociedade não quer nem uma coisa, nem outra. Ainda assim, poder-se-ia enxergar alguma astúcia nela se o Centrão pudesse funcionar como apoio paisano sólido para uma saída ditatorial almejada, somando-se a apoios militares segundo a seguinte equação: Centrão+FFAA+PMilícia=golpe a favor de Bolsonaro. Seria uma aventura contra a preferência da maioria da sociedade, mas poderia ser tentada.

Entretanto, o Centrão, cuja unidade é precária e precisa ser azeitada com acesso ao poder para fazer dinheiro, não tem interesse em uma saída ditatorial. Qualquer um que olhe a história dos políticos do Centrão constata que essa geleia é o fundo do tacho do dispositivo paisano legado por 1964 ao Estado de Direito Autoritário que nos infelicita há trinta anos. Eles têm ou receberam a memória de como era a vida como congressista sob ditadura e a comparam com a vida que têm levado nesses trinta anos: com a presidência da República sob Estado de direito, sujeita ao manejo da lei e a ter de agradar a maioria da sociedade, há mais espaço para negócios do que sob Estado ditatorial. E não é só isso. As franquias democráticas que esse Estado de Direito Autoritário preserva permitem o jogo faccioso na disputa para cargos de governador e prefeito. Por que iriam trocar tudo isso pelas incertezas de fazer do besta a besta?

A alta oficialidade das FFAA não tem coesão para quebrar essa ordem institucional que a beneficia. Pelo contrário, quem está na ativa prefere a vida como ela é a uma aventura com final incerto e, provavelmente, adverso [devemos lembrar que nossos oficiais não têm experiência de combate – menciono esse ponto não para lembrar a ideia de “combate”, mas para chamar a atenção para a ideia de “incerteza” que todo combate traz (de novo: nossos oficiais estão apegados ao rotineiro, não têm a experiência do incerto)]. Quer dizer, eles só entrariam numa aventura ditatorial de Bolsonaro se fossem empurrados por um vigoroso movimento de insubordinação. Um movimento desses requereria que se desse pelo menos uma de duas coisas entre os soldados: a emergência de uma sólida determinação ideológica, ou o cálculo para proteger ou alcançar benefícios palpáveis. Bolsonaro não tem meios de suscitar nos soldados nem uma coisa, nem outra: vem se desmoralizando no plano ideológico e não maneja recursos que possa distribuir aos soldados para além das benesses com que vem agradando a oficialidade mais aderida.

O pendor ditatorial da PMilícia é intrínseco. Como dispositivo militar que nos foi legado pela ditadura, a PMilícia sempre será um problema para quem almeja um Estado de Direito Democrático no Brasil, mesmo que nas fileiras da PM existam muitos democratas — o problema da PM está na forma militar rebaixada, condição de origem que gera uma liga profundamente antissocial e antidemocrática: ressentimento + truculência. Embora essa mistura venha servindo à dominação do povo pobre, ela só poderia tentar espraiar suas práticas para toda a pirâmide social se houvesse uma desagregação institucional que engolisse as FFAA. Bolsonaro, que foi expelido do Exército por ter se mostrado um soldado com motivações e práticas de miliciano, enxerga a si mesmo como beneficiário de uma situação assim, mas ela não está à vista.

Além de tudo que se viu acima como obstáculo a uma saída ditatorial para o Estado de Direito Autoritário a favor de Bolsonaro, há a circunstância de que, num golpe a favor, Bolsonaro teria contra si os desgastes propriamente governamentais do governo que ele próprio protagoniza. Não há campanha publicitária capaz de colocar Bolsonaro em condições de ser visto pela maioria da sociedade como o líder capaz de oferecer solução aos problemas do país. Pelo contrário, ele vem sendo crescentemente visto como alguém incapaz para o cargo. Depois de dois anos na presidência, Bolsonaro já não pode ser depositário das esperanças da maioria, fator indispensável para um golpe de Estado que se apresente como uma reconciliação entre Estado e sociedade. De novo: teria de ser um golpe abertamente sangrento, para o qual não há coesão militar.

Foi em resposta a esse conjunto de adversidades que Bolsonaro passou à segunda fase de sua encenação ditatorial, num malabarismo que só o enfraquece aos olhos dos que ainda têm alguma preferência por ele: acuado pelo STF e rendido ao Centrão, ele deixou de lado o combate às facções estatais e concentrou seu suposto compromisso antissistema contra o que chama de “imprensa mentirosa”, que insinua pretender proibir. Já nessa seleção Bolsonaro mostrou seu pendor estatista: deixou de lado a dimensão propriamente estatal do “sistema”, e passou a concentrar seu combate na dimensão de mercado do que ele chama de “sistema”: a imprensa. É evidente que o tempo vai corroer os pés de barro dessa tática imbecil, pois, quando mais não for, a maioria dos que votaram nele é pró-mercado.

Pois bem, em total convergência com a dinâmica propriamente estrutural-estatal acima descrita, que vem de longe, há contra a besta a dinâmica conjuntural que nos devasta, atingindo sociedade e mercado: está à solta um vírus mortífero com o qual Bolsonaro não apenas não sabe lidar, o que seria contornável, mas ao qual ele estupidamente escolheu como pivô para sua aposta final, estupidez da qual ele começa a se dar conta quando volta a blefar, dessa vez dizendo que tem um plano para enfrentar o vírus, mas quer mais poder para implementá-lo.

Para entender essa jogada de Bolsonaro é útil ter em mente sua natureza temerária, própria de quem se atira a realizar sonhos espetaculares com base apenas na vontade individual. Bolsonaro sempre foi um voluntarioso: muito afeito a correr riscos, mas com pouca capacidade de se antecipar a resultados adversos, coisa típica dos aventureiros de garimpo, que sonham com a pedra que lhes resolverá a vida. Bolsonaro se conduz na política sob uma “febre do outro” que não arrefece e perturba os cálculos que deveras faz.

Ao blefar que tem um plano e se agarrar às quimeras de um spray milagroso, o garimpeiro estúpido tenta, mais uma vez, criar a atmosfera de expectativas própria de uma campanha: põe a si mesmo como marco entre um hoje impropício e um amanhã promissor, sempre na base do tudo ou nada, como no garimpo, ou no jogo de azar. É uma tentativa triplamente imbecil, que só poderá fracassar: primeiro, porque faz segredo do suposto plano, como se ele fosse uma pedra preciosa, quando a emergência de uma resposta ao vírus requer divulgação; segundo, porque imagina poder apagar a memória viva do seu péssimo desempenho como governante com uma promessa assim vazia de dias melhores, tentando reinaugurar o próprio governo; terceiro, porque para ter elaborado um plano assim decisivo ele teria de ter passado a levar o vírus a sério, o que tornaria evidente o erro de tê-lo menosprezado até aqui, além de requerer desse tapado um comportamento diametralmente oposto ao que continua a ter. Enfim, nosso “gênio do mal” está cada vez mais perdido.

Seria de comemorar, não fosse pelo mal que tudo isso tem causado; não fosse pela falta de alternativa em que o país se encontra — afinal, o fato de Bolsonaro não poder se beneficiar da ruína que está a gerar não tem como resultado uma saída benfazeja para a crise de legitimação do Estado de Direito Autoritário.

ALARIDO ARMAMENTISTA E ALARMISMO ESCAPISTA

Carlos Novaes, 22 de fevereiro de 2021

Com acréscimo em Fica o Registro, em 23/2, às 09:25h

Nos últimos dias, Bolsonaro editou mais quatro decretos favorecendo a aquisição de armas e munições e declarou que “o povo está vibrando” com essas iniciativas. Dando curso a histerias recentes, Raul Jungmann, ministro de Temer que ficou calado quando o general Villas-Boas ameaçou o STF para que Lula não fosse solto, enviou ao mesmo STF uma carta sobre os riscos de guerra civil que ele supõe o Brasil está a viver com as iniciativas daninhas de Bolsonaro favorecendo o comércio de armamentos. Bolsonaro e Jungmann estão errados no que alegam ou supõem:

  1. Facilitar o acesso a armas para quem as deseja não irá favorecer a segurança do brasileiro, pelo contrário. A população do Brasil não está habituada ao manejo de armas de fogo, pois seu uso sempre foi muito controlado aqui. Tudo ao contrário dos EUA, onde o manejo e, até, o porte legal de armas de fogo são parte da vida cotidiana desde a fundação do país. Quer dizer: o americano médio tem uma memória sólida de como possuir uma arma, há uma pedagogia familiar, enraizada nos costumes, regulando a prática. Foram necessários mais de dois séculos para que a chamada sociedade norte-americana fizesse o aprendizado necessário a poder permitir que se possa chegar a ir às ruas com armamento pesado sem que haja tragédias cotidianas. Ainda assim, as perdas têm sido frequentes e têm aumentado. Tanto é que estão em curso iniciativas para restringir o acesso a armas nos EUA — mesmo lá, há a percepção de que os danos da liberdade para se armar são maiores do que os ganhos. Facilitar o acesso a armas no Brasil nos levaria ao pior: mais armas nas mãos de gente inexperiente.
  2. Como mostra a pesquisa CNT/MDA divulgada hoje, ao contrário do delírio do besta, o povo não está vibrando: “entre os entrevistados, 68,2% disseram ser contrários a alterações na legislação facilitando o acesso a munições no Brasil. Ainda, 74,2% não têm interesse em ter armas e somente 19,7% gostaria do acesso. Somente 1,6% tem pedido de posse em análise.”
  3. Para que uma guerra civil fosse plausível, seria necessária uma tentativa de golpe — ameaça que não está no horizonte para qualquer pessoa que venha acompanhando a evolução da conjuntura política do Brasil descontando os alaridos de campanha, nos quais o besta insiste mesmo depois de ter se rendido ao Centrão. No caso de Bolsonaro, teria de ser um golpe para ficar no poder como ditador, ou seja, um golpe a favor de quem já está no poder, de quem já está sendo avaliado pela sociedade. Esse tipo de golpe é muito mais difícil do que o golpe contra quem está no poder, como foi o caso aqui, em 1964, o caso do Chile de Allende, em 1973, e o caso da Argentina, em 1976. Além do apoio dos EUA, esses três golpes foram precedidos de campanhas de desgaste dos presidentes depostos, contra os quais se colocaram todos os descontentes por essa ou aquela razão, a quem se venderam soluções mágicas para os problemas, entre outras barbaridades. Tudo ao contrário do que seria um golpe a favor de Bolsonaro: sem apoio dos EUA e, na política interna, ele não apenas exibiu, como fortaleceu suas conexões com a velha política; ele já vendeu, e não entregou, soluções mágicas; e ele já se demonstrou incapaz para o cargo. Além disso, há a majoritária preferência da sociedade brasileira pela democracia, como já discuti aqui. Sem golpe não há guerra civil. Ademais, uma guerra civil, especialmente num país continental como o nosso, com mais de 200 milhões de habitantes, não se faz com revolveres, pistolas ou espingardas compradas no varejo. Ela iria requerer fuzis, metralhadoras, bazucas, lança-foguetes e todo tipo de armamento pesado. Por isso mesmo, apenas uma desagregação institucional total (com FFAA amotinadas, escolhendo lado, aceitando o comando de milicianos) nos levaria a esse estado de beligerância. Ora, a julgar pela coesão das facções estatais em torno do Estado de Direito Autoritário, não há, mesmo, motivo para que se tema uma ditadura. Nosso desafio é construir uma alternativa que nos leve para bem longe de PT, PSDB, Bolsonaro, Centrão e adjacências.

Fica o Registro:

Sobre Petrobrás, diesel e caminhoneiros, reitero o que foi dito aqui e AQUI.

O BESTA ATURDIDO

Carlos Novaes, 20 de fevereiro de 2021

A leitura dos textos indicados nos hiperlinks ajuda a contextualizar o que vou dizer.

Reproduzo do UOL, com o mesmo português trôpego, declaração de Bolsonaro em formatura de militares:

“Se tudo tivesse que depender de mim, não seria esse o regime que nós estaríamos vivendo. E apesar de tudo, eu represento a democracia no Brasil. Nunca a imprensa teve um tratamento tão leal e cortês como o meu”

Falou a esfinge… e a mídia está repleta de interpretações. O resumo é: Bolsonaro começa a enxergar o preço do ajuste ao velho normal e está esperneando e choramingando em público. O esperneio foi a troca na Petrobrás: para encobrir sua fraqueza ali onde ainda pode, ele toma decisões desastrosas para si próprio. Detalhemos o choramingo.

Ao ratificar a oportuna prisão facciosa do Silveira, e nos termos em que o fez, a Câmara comandada pelo Centrão deixou duas coisas claras: primeiro, que Silveira perderá o mandato; segundo, e mais importante, que se estreitaram consideravelmente as margens de manobra para a verborragia contra o Estado de Direito. A importância disso é grande porque ao silenciarem-se vozes bestiais até agora livres, fica muito mais difícil para o besta fazer o jogo cínico ambíguo de “defender” as franquias democráticas existentes atentando contra o Estado de Direito que as agasalha. A voz dele vai ficar mais solitária e, portanto, vai destoar da marcha geral das coisas, uma marcha que caminha ao ritmo de restaurar inclusive as encenações do velho normal.

Um ajuste tão apertado torna mais difícil a campanha eleitoral tensionada que Bolsonaro ambiciona. Deixem-me ser bem claro: a encenação do velho normal na defesa de um suposto Estado democrático de direito torna mais difícil a encenação de Bolsonaro em favor de uma vicária ruptura antissistema. Tudo é falso, leitor, seja a defesa da democracia, seja a ameaça de golpe!

Essa perda de espaço é que explica o choramingo do besta reproduzido acima. Note-se que ele foi cínico acerca das franquias democráticas e, ao mesmo tempo, buscou se distanciar de Silveira dizendo-se “cortês”. Bolsonaro está, desesperadamente, girando o hagadezinho para encontrar um meio “cortês” de fazer campanha eleitoral fingindo ser antissistema, mas perfeitamente integrado ao jogo de facções. O ensaio “descortês” feito há poucos meses, que analisei aqui e aqui, não deu certo, e a teatralização didática daquele fracasso está sendo justamente esse caso Silveira.

Bem-vindos ao picadeiro do velho normal, agora tendo ao fundo os escombros da Lava Jato, nos quais as facções estatais deixaram indiscerníveis o que presta e o que não presta desse teatro de operações.

DANIEL SILVEIRA INVADIU O CAPITÓLIO

Carlos Novaes, 18 de fevereiro de 2021

Com acréscimos em Fica o Registro, às 22:30h do dia 18 e às 12:00h do dia 19

Considerar que a facciosa prisão do deputado Daniel Silveira poderia abrir uma crise é pura tolice. Uma tolice do mesmo tamanho daquela que supunha que Trump poderia fazer algo mais do que deixar a Casa Branca, ou ainda daquela que, há alguns meses, temia um golpe de Bolsonaro (bobagem que alimentou o frentismo natimorto, que, agora, foi sepultado pela candidatura de Haddad – coisa sobre a qual, de tão óbvia, não me animei a voltar a escrever).

Silveira é um deputado tão desqualificado quanto Bolsonaro o foi, só que ainda mais organicamente comprometido com o fascismo organizado nas milícias do Rio. Daí sua visão ser ainda mais curta do que a do chefe que presume ter e imagina poder agradar com macaquices politicamente anacrônicas. No vídeo que resultou na sua prisão, ele não diz nada que não poderia ter sido dito por Bolsonaro antes do acordo com o Centrão. Mas, como o Centrão é, hoje, o polo dinâmico do funcionamento político do jogo das facções estatais, e como Bolsonaro se rendeu ao Centrão, Silveira (felizmente) cometeu um erro que se não lhe custar o mandato, vai, certamente, mostrar a ele que a queda de braço em que se empenha já está perdida faz tempo, mais precisamente, desde que Bolsonaro teve de desdizer, na prática, que preconizava um movimento político antissistema.

Para quem acompanha este blog resta evidente que o Centrão não apenas não pode aliviar Silveira, como, pelo contrário, tem todo interesse em puni-lo!! O Centrão quer fazer negócios com a presidência do âmbito do Estado de Direito Autoritário. O Centrão não apenas não quer uma ditadura, como tem como certo que um Estado ditatorial só atrapalharia os negócios. Esse é o grande aprendizado que eles fizeram nesses trinta anos de Estado de Direito Autoritário. O vídeo de Silveira resultou na medida para dar ao Centrão uma oportunidade de mostrar-se o fiador do jogo faccioso do sistema, e o deputado otário vai servir de exemplo.

De modo que a facciosa prisão do deputado Daniel Silveira é um lance muito esclarecedor sobre a situação atual do jogo faccioso no âmbito do Estado de Direito Autoritário. Agora, finalmente, ficará claro para todos que o neofascismo golpista já perdeu a parada, e a motivação antissistema que nele se orientava vai refluir sem parar, por mais barulhentos que permaneçam seus últimos moicanos e por arruaças que eles ainda possam fazer.

Enquanto isso, nossa autointitulada esquerda alimenta teorias da conspiração e vê apocalipse por todo lado, tudo para não encarar que, assim como Bolsonaro, ela está plenamente integrada a essa encenação autoritária a que chama de Estado democrático de direito.

Fica o Registro:

Vejam a reveladora declaração dada pelo presidente da Câmara sobre a prisão de Silveira, conforme publicada às 20:07h pelo UOL:

“Não há qualquer reprimenda ao que aconteceu e, amanhã, como já foi anunciado, a partir das 17 horas [a Câmara] se pronunciará soberanamente no seu plenário a respeito do caso, que é absolutamente fora da curva” […] Quero afirmar a vocês, porque é muito importante essa mensagem, a democracia do Brasil está firma e forte. E o ambiente é um ambiente de paz e de busca de consenso, é isso que vamos buscar fazer a todo instante. É essa busca de boa convivência entre os poderes, para fortalecer o estado democrático de direito, que é o que importa nesse momento”.

Ou seja, Lira falou como o condutor supremo do jogo de facções e amanhã não haverá espanto se a oposição elogiá-lo pela condução que dará ao caso.

Afinadíssimo, Bolsonaro não falou do caso Silveira em sua live de hoje, conforme também informou o UOL às 20:23h. Silveira virou a nova Sara Winter.

19/02:

Bolsonaro se irritou e mandou a PF investigar seguidor que, segundo ele, teria feito “deboche” com o trabalho da PF e da Marinha em recente apreensão de drogas. Qual é o critério do besta para que se possa exercer o direito de opinião? Ofensas contra instituições e apologia à violência contra elas são direito de opinião, debochar delas, não?!

SINAIS DE EROSÃO NO APOIO AO BESTA?

Carlos Novaes, 05 de novembro de 2020

Com acréscimo em 06/11, às 10:00h, em Fica o Registro

Resultados de pesquisa DataFolha publicados há pouco mostram a liquefação eleitoral de Russomano, o que replica desempenhos anteriores dele em disputas eleitorais pela capital de São Paulo. Embora o personagem seja o mesmo e a situação esteja a se repetir, há significado novo nesse insucesso: é que havia a expectativa de que o fator Bolsonaro atuasse nesta eleição de modo a alterar o desfecho das malsucedidas candidaturas anteriores de Russomano. No entanto, não obstante o apoio explícito do besta, a história se repete, ainda mais farsesca.

Olhada de modo apressado, a situação indicaria que as coisas se passam assim porque Russomano é tão frágil que nem mesmo o apoio do bem-avaliado Bolsonaro consegue levar o eleitor a fixar no paladino dos consumidores incautos sua preferência eleitoral. Mas talvez não seja bem isso.

Como já expliquei aqui, a formação da preferência eleitoral tem, para mim, duas fases: uma, à qual chamo de motivação emocional, e outra, que digo motivação racional para o voto. Russomano é o típico campeão do emocional, quando o eleitor responde solitariamente às pesquisas; e, depois, torna-se o não menos típico perdedor no ajuizamento racional, quando o eleitor passa a formar coletivamente a sua preferência, respondendo às pesquisas já não segundo o que lhe dá na telha, mas segundo a sua inserção propriamente social na esfera pública política.

O fato de nessa passagem da motivação emocional para a racional o eleitor, a despeito do apoio do besta, ter mais uma vez deixado Russomano de lado, pode estar a indicar que estamos diante de um início de erosão oculta no apoio ao próprio Bolsonaro, percepção que se reforça quando observamos que outros candidatos apoiados pelo besta também estão indo mal, ao contrário do que o prestígio de Bolsonaro sugeria. O fenômeno pode ter um sentido mais geral.

Minha hipótese é a de que para persistir no apoio ao besta contra evidências tão notórias da inadequação dele para o cargo presidencial, e num ambiente altamente polarizado, o eleitor foi levado a um engajamento emocional que torna difícil para ele reconhecer, nas pesquisas, que já não aprova Bolsonaro tanto assim. Nosso cérebro tende a conservar narrativas, especialmente quando elas foram construídas para reforçar/recalcar estados emocionais profundos. Dessa perspectiva, parte do eleitorado que ainda diz nas pesquisas apoiar Bolsonaro já está a se distanciar dele, e dá mostras disso ao transferir para os candidatos apoiados por ele a aversão ao besta que deveras já está a desenvolver.

Fica o Registro:

  • E a mídia continua a tratar o comportamento antirrepublicano de Trump como suposta ameaça real às instituições dos EUA — bom para vender jornal e gerar cliques e likes, mas péssimo para levar as pessoas a avaliarem com proveito a situação. Trump já começou a ser derrotado em suas descabidas solicitações ao Judiciário e logo se verá diante da inapelável realidade da derrota. Quando a hora chegar, ele deixará a Casa Branca e se tornará passado (ainda que aquilo a que deu voz vá persistir, é claro).
  • Supor que, uma vez derrotado, Trump possa reunir forças que lhe permitam não entregar o poder é pura tolice; não sendo tolice menor a ideia de que ele possa, uma vez fora da presidência, se tornar uma espécie de líder de contingentes insurgidos contra as instituições dos EUA.
  • Dentro de pouco tempo, estaremos diante de um cenário ainda mais patético do que aquele visto aqui há poucos meses, quando se propagaram riscos imaginários às franquias democráticas no Brasil: os analistas do caos vão continuar a escrever nos jornais como se não tivessem escrito as bobagens alarmistas que inquietaram seus leitores e espectadores, contribuindo reiteradamente para a desorientação deles.
  • 06/11 – 10:00h — E a desinformação continua: o comportamento execrável de Trump é repetidamente classificado na mídia convencional como antidemocrático. Não é isso. Trump se conduz de modo antirrepublicano. Ele atenta contra os ritos da República, não contra direitos democráticos como a livre opinião, manifestação, liberdade de imprensa etc. Trump não ataca as franquias democráticas, ele faz uso antirrepublicano delas.