LULA COMEÇA A ENTENDER

Carlos Novaes, 11 de janeiro de 2023

Enquanto a imprensa trazia notícias de que nossa autointitulada esquerda e muitos progressistas recusavam decretar uma GLO para conter os golpistas, sob o argumento de que seria perigoso dar protagonismo aos militares, este blog defendeu, desde as primeiras horas da arruaça, o emprego do Exército contra os arruaceiros.

Como aqui sempre se teve claro que os militares jamais entrariam numa aventura golpista — percepção que ficou ainda mais clara depois de eles terem sido desmoralizados e desgastados com o oportunismo que conduziu seus líderes a contemporizarem com Bolsonaro –, não há razão alguma para temer insurgência deles em favor dos golpistas.

Como expliquei na Conclusão de post anterior, os militares precisam ser definitivamente arrancados da zona de conforto, na qual manipulam em proveito próprio (para aumentar seu poder de barganha na luta de facções dentro do Estado de Direito Autoritário-EDA) um fingido apoio aos golpistas e, ao mesmo tempo, se mantém ao abrigo da Constituição, pois só podem agir comandados pelo presidente da República ou por decisão judicial. Moraes começou a lhes tirar dessa mamata. Lula precisa terminar o serviço convocando os militares para dar sua contribuição à contenção da baderna. Eles nada podem fazer senão obedecer.

Mas não é fácil para Lula, reconheçamos. Esse impertinente temor venerando aos militares ganhou hoje defensores clássicos: ex-ministros da era petista, todos tarimbados na afeição pelas soluções acomodatícias mesmo quando essas soluções se mostram, como agora, evidentemente contraproducentes. O destaque fica para Orlando Silva, ex-ministro oriundo da mais clássica escola de acomodações burocraticamente proveitosas, o PCdoB, que se declarou enfaticamente contra a demissão do bolsonarista Múcio, solução que, na opinião dele, “seria um desastre” — quem sai aos seus não degenera: no limitado juízo de Orlando, “um ministro não vai enquadrar as tropas no grito”. Ora, quem já enquadrou as tropas foi a preferência da maioria da sociedade brasileira pela democracia, que prevê na Constituição o enquadramento dos militares.

O interventor nomeado por Lula para dirigir a segurança do DF parece ter entendido a situação e já admite convocar o Exército para ajudar na contenção à baderna na Esplanada. Embora tímido e tardio, é um passo na direção certa.

Fica o Registro:

Bolsonaro publicou, e apagou em seguida, um post com um procurador questionando a eleição de Lula. O imbecil continua com a mesma tática covarde: emite sinais de comunhão com os golpistas, mas logo trata de apagar pistas dessa comunhão. Encenação criminosa, mas tosca e já desmoralizada. Quanto ao procurador, ouvido pela imprensa, saiu-se com essa:

“o eleitor não vê a apuração dos votos, não vê nem o seu voto”. “Como você pode ter a certeza de que uma imagem que um software mostra numa tela pra você é igual ao que saiu da sua consciência, um software que não foi criado por você. O Estado é laico, ninguém é obrigado a confiar em servidor público”.

É difícil acreditar que um sujeito assim limitado tenha sido aprovado em concurso público e nomeado procurador. Afinal, no voto em papel os problemas são análogos, só que piorados pelo número de mãos (funcionários públicos) a manipular as cédulas e os mapas eleitorais igualmente manuais que a contagem delas gera. Depois de jogado na urna, o voto em papel sai das vistas do eleitor. Na hora da contagem das cédulas, o eleitor tampouco pode ter garantia de que o que ele assinalou vai ser escrito manualmente no mapa. A grande vantagem da urna eletrônica é a eliminação dessa manipulação e a auditagem pública e total do sistema. Para quem tem interesse, há uma série de dois artigos em que tudo isso foi explicado em detalhes.

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